quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

TRIBUTO A NIEMEYER

Sempre aprendi que adjetivos são desnecessários e que por isso devem ser evitados. E são desnecessários, exatamente, por não serem substantivos. No entanto, o que se vê com relação a Niemeyer, parece que eles faltam no mundo inteiro, para bem qualificá-lo.
A autobiografia de Niemeyer. Memórias.

Creio que um dos primeiros momentos de real grandeza profissional em Niemeyer ocorreu com as obras da Pampulha, em Belo Horizonte. Também foi ali que se deu o encontro e a parceria com Juscelino Kubitschek, que mais tarde o levaria para a construção de Brasília. Da construção da Pampulha me lembro de duas coisas muito interessantes, contadas na biografia de JK - JK o artista do impossível, de Cláudio Bojunga.

A Pampulha é todo um bairro novo, construído em Belo Horizonte, quando dela J. K. era prefeito, nos anos quarenta. As obras do arquiteto nesse complexo são quatro: o Iate Clube, o Cassino, a Casa de Baile e a Capela de São Francisco. As duas coisas que eu gostaria de destacar, a partir da lembrança de Bojunga é, em primeiro lugar, a sua obsessão com a alegria e a diversão. Disso nasceu a Casa de Baile, um local para o lazer dos trabalhadores. A segunda questão é relativa a belíssima capela de São Francisco, a conhecida igreja da Pampulha. Ela ficou anos esperando por uma missa, uma vez que o bispo se recusava a rezar missa, numa obra concebida por um comunista. Coisas do tempo.

Em Brasília Niemeyer possivelmente tenha tido as suas maiores alegrias e glórias e, contraditoriamente, também os seus maiores contratempos e dissabores. Uma crítica constante que lhe é feita diz respeito ao monumento em homenagem a JK., em seu memorial. Muitos vêem nele a foice e o martelo, símbolos de trabalho de uma época e símbolo maior do comunismo. Mas os problemas maiores ocorreriam com a construção do aeroporto. Já estávamos em períodos de intransigência. Vivíamos a ditadura militar. Foi acusado até de ter plagiado a obra de um de seus inspiradores, Le Corbusier. "Lugar de arquiteto comunista é em Moscou", lhe diziam os militares.

Os atritos com a ditadura o afastaram da Universidade de Brasília, junto com outros duzentos professores, e também de Brasília. Paris ficou muito honrada em receber tão ilustre exilado. Já a cidade do México recebeu o seu original projeto de aeroporto. O maior inimigo da truculenta ditadura militar, sem dúvida, foi sempre a ousadia da inteligência.

Não vou aqui me deter na vasta biografia do arquiteto. Para isso existe o seu livro de memórias - Curvas do Tempo (Ed. Revan. R$ 52,00).

Tive o prazer de assistir a uma palestra de Niemeyer na Universidade Positivo. Ele falava com a habilidade de suas mãos, isso é, ele não falava sem desenhar. lembro bem do engenheiro que o acompanhava. Ele desenha, dizia ele, e nós temos que nos virar. Que desafio não deveria ser trabalhar com ele. Lembro também de sua figura humana maravilhosa, que transpirava bondade.

Parece que as curvas o perturbavam. As curvas lhe inspiravam a beleza. As curvas das montanhas e as curvas dos belos corpos das meninas de Copacabana o levaram para o desenho de sua arquitetura e para a consagração mundial. Espalhou belas curvas que deixaram marcas no mundo inteiro. E nos deixa também as curvas de suas memórias, para nos fazer bem.

Termino citando duas obras suas aqui em Curitiba. Uma - o popular Museu do Olho - que representa toda a beleza de sua obra e, a outra - o Monumento ao Sem Terra - morto pela repressão policial, na BR 277 entre Curitiba e Campo Largo e que representa toda a beleza do seu pensamento e de suas atitudes em relação à vida e à sociedade. Um monumento que perpetua o seu pensamento e as suas atitudes de vida, sempre vinculadas com a justiça e com a dignidade do ser humano, na luta pela afirmação de seus direitos.

Niemeyer quase interrompeu as intermitências da morte, para mais tempo permanecer conosco, para nos agraciar com a beleza de sua obra e com a magnitude de sua vida e ação. Obra, vida e ação sempre substantivas.

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