quinta-feira, 16 de maio de 2013

Capitães da areia. - Jorge Amado.

A cada livro de Jorge Amado que leio, mais me impressiono com ele. Seus livros são um relato dramático dos problemas sociais que este país viveu e que continua vivendo. E Jorge Amado, como fervoroso militante comunista, toma posição. O seu olhar sempre está voltado para os mais fracos e desvalidos. Seus livros são ao mesmo tempo denúncia e anúncio. Denúncia da realidade social indescritível e anúncio de novos tempos, tempos construídos a partir de uma fé inabalável, pela tomada de consciência, pela organização coletiva e por lutas que revolucionem as estruturas da sociedade, que de injustas, passem a ser, apenas e simplesmente justas, humanas. Capitães da areia deve ser o mais dramático dos relatos sociais de Jorge. Pode até não figurar entre os seus grandes livros, mas o tema abordado é o mais atual possível. Trata das crianças abandonadas que teimam em sobreviver.
Os meninos abandonados de Salvador e a sua dramática história. Os Capitães da areia, de 1937. Por que será que este livro é tão atual?

Teimar em sobreviver. Este é o único drama destas crianças. Se a vida já é difícil para crianças que vivem a normalidade da vida de criança, com as suas dependências de cuidados materiais e afetivos atendidos em um lar, imaginem as condições em que tudo isso é negado. Sobreviver exige astúcia destes meninos. Para atender a mais primária das necessidades humanas, que é a de comer, eles precisam encontrar formas para tornar isto possível. A forma se dará pela convivência e pelo estabelecimento de regras de convivência, numa ética própria, fora das convenções da ordem estabelecida. Zélia Gattai dá uma pequena nota ao final do livro, falando da convivência de Jorge estes capitães da areia: "A temática das crianças que vivem nas ruas continua bastante atual. Para escrever Capitães da areia, Jorge Amado foi dormir no trapiche com os meninos. Isso ajuda a explicar a riqueza dos detalhes, o olhar de dentro e a empatia que estão presentes na história".

A história dos capitães começa com notas de jornal sobre crianças ladronas e cartas de leitores sobre a nota do jornal. As cartas são do chefe da polícia, do juiz de menores, que se culpam mutuamente por não poderem dar solução ao problema, por uma mãe de um menor e pelo padre José Pedro, que acusam o reformatório (olhem o nome) e o seu diretor. O diretor responde com um auto-elogio ao seu trabalho e com acusações contra o padre. O padre é uma das figuras mais humanas do livro.
Capa da primeira edição de "Capitães da areia", editado pela José Olympio Editora, com ilustrações de Poty.

Os capitães da areia vivem num trapiche abandonado nas proximidades do cais. A história destes capitães se repete em cada uma das crianças que se juntaram em torno deste trapiche abandonado. Não tem pai, não tem mãe, não tem afeto, não tem carinho, não vislumbram um futuro e vivem escorraçados pelas ruas de Salvador, pelas pessoas da "ordem".  Pedro Bala é o seu líder. Outros personagens, são João Grande, Sem-Pernas, Gato, o Professor, Volta-Seca, entre outros. Tem entre oito e dezesseis anos e sobrevivem de pequenos furtos, cometidos nas casas  ou contra pessoas desatentas nas ruas. Possuem um mundo com leis próprias. Os sentimentos coletivos prevalecem na sua organização. Furtos entre companheiros não são tolerados e os "lucros" obtidos são repartidos, assim como também as diferentes tarefas. Uma única menina fará parte, a menina Dora. O ódio também é comum a todos e se volta contra todos aqueles que provocam a sua situação.
Ordem policial de apreensão do livro. Tempos do Estado Novo. Em vez de resolver o problema, queimaram o livro.

Algumas pessoas formam o entorno de sua convivência. Querido-de-Deus é dono de um saveiro, capoeirista e amigo. Padre José Pedro se faz amigo para aproximá-las de Deus. Assume posições que não condizem com as da Igreja, tão zelosa no cumprimento da ordem. Don'Aninha é uma mãe de santo a quem constantemente recorrem. São as poucas pessoas de quem recebem um pouco daquilo que a sociedade lhes nega e por não as terem, são por ela condenados. O padre José Pedro merece algumas palavras especiais. Ele é um prenúncio da teologia da libertação. O seu trabalho recebe a repreensão de seus superiores hierárquicos que o punem, lembrando-lhe a sua pouca inteligência para entender os mistérios e os desígnios divinos e não lhe dando uma paróquia para cuidar. Desvia dinheiro doado por beatas, para a compra de velas, para comprar comida e remédio para as crianças. Consegue um grande feito. Um menino, o Pirulito, reza e quer ser padre.

Mas a força do livro reside em dois personagens centrais, em torno dos quais se constrói uma história de amor.  Pedro Bala e Dora. Pedro Bala ouve contar a história de seu pai. Ele foi morto no cais, numa greve, lutando por direitos. Esta história o acompanha e o move. Dora tem sua mãe vitimada pelo alastrim, uma bexiga branda. Quem era acometido pela doença era levado para o lazareto, lugar de morte certa. Dora fica  sozinha no mundo, com o irmãozinho, Zé Fuinha. É acolhida pelos capitães. Primeiro querem dividi-la em seus prazeres, depois tomam as suas dores. Ela permanece no grupo. Passa a ser um deles. Num assalto são presos Pedro Bala e Dora. Pedro Bala é mandado para o reformatório. Este será descrito em 20 páginas de terror. Os capitães o libertam. Dora é conduzida ao orfanato. Lá lhe fazem o que os capitães não lhe fizeram. Também é resgatada pelos meninos do grupo, mas arde e se consome em febre. Antes de morrer entrega o corpo a Pedro Bala, numa simbologia de casamento.

Dora é o toque de carinho que o grupo recebe. Ela é a irmã, ela é a mãe, ela é a esposa. Ela é o que mais lhes faltava, um pouco de cuidado e de carinho. Ela afaga, ela limpa ferimentos, ela faz curativos, ela costura roupas. Ela é irmã, ela é mãe, ela é esposa. Após a sua morte, o Querido-de-Deus a leva para o mar, junto de Iemanjá e se transformará numa estrela.
Os livros de Jorge Amado são queimados. Motivo. São considerados propagandistas do credo vermelho.

Os principais personagens vão seguindo o seu destino. O professor será pintor, no Rio de Janeiro. Gato leva Dalva para Ilhéus. Lá aplicarão golpes nos coronéis. Volta Seca integrará o grupo de Lampião e Pirulito fica padre. Sem-Pernas morre numa fuga, mas livrando os companheiros da prisão. Boa-Vida vira artista popular. E Pedro Bala? 

A última ação praticada pelos capitães é uma intervenção deles numa greve dos bondes em Salvador. São convocados para impedir que contratados de última hora substituam os trabalhadores em greve. Sua ação seria a de impedir os fura-greves de substituírem os grevistas. Pedra Bala comandará a ação. A partir dessa ação Pedro Bala, relembrando a história da morte de seu pai, encontrará o seu destino. Organizará trabalhadores, greves e lutas, acreditando que nem o ódio, nem a bondade mas somente a luta poderá mudar os destinos e abolir as injustiças no mundo.

Tem mais uma coisa, uma das coisas mais lindas do mundo. O livro é dedicado a Anísio Teixeira, amigo das crianças.






3 comentários:

  1. Um dos melhores livros que já li, em verdade, também gosto de Farda, fardão, camisola de dormir, outra grande obra de Jorge Amado. Profº Pedro Eloi amei seu blog, inteligente, sagaz, antenado, vou estar por aqui sempre. Obrigada por partilhar a luz.
    Abraço.

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  2. Sucapoeta e Júlie, muito obrigado pelos comentários elogiosos. Se Capitães da areia não é uma obra tão elaborada do Jorge, ela cresce pela sua temática. Como tudo isso é atual. Meus agradecimentos.

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