segunda-feira, 6 de maio de 2013

Os Subterrâneos da Liberdade. Jorge Amado. - Uma Introdução.

Nesta semana eu tive uma bela aventura literária, histórica e também, porque não, ideológica. Li, assim de vez, a trilogia de Jorge Amado, Os Subterrâneos da Liberdade: 1. Os ásperos tempos; 2 Agonia da noite e 3. A luz no túnel. O livro foi escrito no exílio, entre os anos de 1952/3, no castelo de Dóbris, da União dos escritores Tchecos, nos arredores de Praga. A sua publicação, no Brasil, ocorreu em 1954, pela Livraria Martins Editora. Em 1952, Jorge Amado também recebera o Prêmio Internacional Stálin pela Paz. Em Dobris, Jorge gozava de boas companhias, pois, ali se exilavam comunistas de renome, do mundo inteiro.
A Trilogia, "Subterrâneos da Liberdade": 1. Ásperos tempos; 2. Agonia da noite ; 3. A luz no túnel.

Escrever Os Subterrâneos da Liberdade foi uma missão que Jorge recebeu do seu partido, o partido comunista do Brasil, o PCB, ou simplesmente, o Partido entre os militantes ou Partidão, como ficou genericamente conhecido. Jorge era um dos militantes mais fervorosos, tendo sido, inclusive, deputado constituinte em 1946. Com a perda dos mandatos e a cassação do partido, ele entra na ilegalidade e Jorge vai para o exílio, primeiro em Paris e depois em Dobris, Praga, onde escreverá o livro. 
O primeiro livro da trilogia. Os ásperos tempos.

Quem quiser saber um pouco sobre o Jorge Amado militante, pode ler Jorge Amado, um baiano romântico e sensual, livro de depoimentos sobre Jorge, dados pela esposa Zélia Gattai, pelo filho João Jorge e pela filha Paloma. João Jorge dá as referências mais específicas à militância e, de como o seu credo comunista, ortodoxo no começo e, como devoto posteriormente, era transmitido para os filhos. Zélia Gattai, em outro livro Jardim de Inverno, conta sobre a tarefa da escrita do livro e também da visita de um dirigente comunista brasileiro, tentando impor censura ao livro. O dirigente é Diógenes Arruda, importante personagem do livro, Vítor, que reconstroi o Partido, depois que a polícia do Estado Novo anuncia a sua destruição. A este dirigente Jorge dedica o livro. As suas sugestões de cortes, de censura partidária, não foram acatadas por Jorge.

Bem, falei de uma aventura literária e histórica. Creio que da ideológica eu já falei: a missão dada a Jorge pelo Partido. Para não haver dúvidas, vamos a parte final do terceiro livro. Ali está a grande tese do livro. Depois que a polícia do Estado Novo anuncia o fim do comunismo no Brasil, um velho militante encontra em pichações e volantes distribuídos nas ruas, - com vivas a Prestes e abaixo Vargas, - chega em casa e, anuncia para a esposa doente, que o comunismo não estava morto e, ela então abriu os olhos e exultou: "Eu quero ficar boa... Agora, que eles voltaram, vale a pena viver. Noutras casas, inúmeras pobres casas onde faltava o necessário para o jantar, a mesma luz de esperança, renascia no relato emocionado de um operário que contava sobre as inscrições e as bandeirolas ou que lia as ardentes palavras do volante. Novamente o Partido estava com eles, era como uma luz num túnel". O título do terceiro volume é exatamente a luz no túnel.
O segundo livro da trilogia. A agonia da noite.

Quanto a parte histórica e política ela é delimitada aos antecedentes da proclamação do Estado Novo, no Brasil, em 1937 e termina no dia 7 de novembro de 1940, quando Prestes é levado a julgamento e, quando lhe é dada a palavra ele fala simplesmente o seguinte: "Eu quero aproveitar a ocasião que me oferecem de falar ao povo brasileiro para render homenagem hoje a uma das maiores datas de toda a história, ao vigésimo terceiro aniversário da grande Revolução Russa que libertou o povo da tirania..." E, um juiz, quase histérico lhe corta a palavra.

Se o tempo histórico delimitado é curto, rico ele é, em acontecimentos. No cenário internacional a grande marca é a ascensão dos totalitarismos. Hitler está em franca ascensão. Recebe entusiasmados vivas da burguesia paulistana, enquanto que, os comunistas vêem na única URSS a única força que é capaz de detê-lo. Os comunistas nem mesmo se abalam com a entrega dos sudetos tchecos para Hitler, com a concordância dos soviéticos, pelo Tratado de Munique. Coisas de estratégia! Mas o cenário internacional é este. A guerra civil espanhola é o laboratório de guerra de Hitler, mas lá estão também as heroicas brigadas internacionais de solidariedade com os republicanos, formadas por comunistas do mundo inteiro e, entre eles o grande visionário, o tenente Apolinário, Apolônio de Carvalho.
O terceiro livro da trilogia. A luz no túnel.

No tempo histórico e político nacional, descortina-se o golpe do Estado Novo e a tentativa de golpe dos integralistas, entusiasmados com os sucessos de Salazar, Franco, Mussolini e Hitler. Dois cenários se revezam ao longo da narrativa. É uma luta do bem contra o mal. De um lado está a velha aristocracia paulista, a emergente burguesia industrial, os representantes do sistema financeiro, os gatunos oportunistas do novo governo, um grande dono de jornal,  intelectuais cooptados e o latifúndio. Estes estão a tramar, em meio a bebedeiras, leviandades e traições e, acima de tudo, de vibrações sem par, com as ações da polícia do estado Novo contra os trabalhadores, organizados pelo Partido.

No outro cenário se mistura a tristeza causada pelo sofrimento da opressão e da fome com a alegria e a esperança de que tudo melhorará, que os sofrimentos humanos causados pela opressão burguesa terão um fim, assim como já o tiveram na gloriosa União Soviética. O Partido será a grande luz a guiá-los. Em meio aos sofrimentos também acontecem emocionantes histórias de amor, cheias de ascetismos e renúncias, numa sublimação transcendental, em função da grande causa que os move.
Jardim de Inverno. Livro de Zélia Gattai, em que ela conta as memórias do exílio, entre elas, as passadas no castelo de Dobris, onde Jorge Amado escreveu "Os subterrâneos da Liberdade".

O livro também é extraordinário para a compreensão e interpretação dos fatos históricos. Aí estão retratados personagens importantes, como Caio Prado Júnior (Cícero d'Almeida), Gilberto Freyre (Hermes Resende) e Oscar Niemeyer (o arquiteto Carlos). O poeta e editor católico Augusto Frederico Schmidt, com o nome de Schopel, simplesmente é apresentado como, " 120 quilos de puro asco".

Os pontos altos na trama narrativa são os ligados a greve no porto de Santos, apresentado como o porto vermelho de Santos, onde se dá a primeira greve contra Estado Novo, quando os portuários se recusam a embarcar café, doado por Vargas, para as falanges espanholas de Franco e a luta contra a associação da burguesia brasileira e do sistema financeiro com o nascente imperialismo americano, a substituir o inglês, com a exploração do manganês no vale do Rio Salgado, em Mato Grosso. Apesar do deslocamento geográfico, é óbvio que Jorge trata do minério de Minas gerais, do vale do rio Doce.

A recepção ao livro, evidentemente, foi muito prejudicada por vários fatores de  fundamental importância, como o abalo causado pelas denúncias de Khrushchov, no XXº Congresso do PCU, em 1956, e a quebra da unidade no seu comando, especialmente após o golpe militar de 1964, quando o partido simplesmente se esfrangalha em facções sem fim. Aliás, ao longo de toda a trilogia, em nenhum momento, Jorge poupa os trotskistas, sempre apresentados como traidores do Partido. O maior ódio recai sobre um personagem chamado Saquila.  O Partido Comunista do Brasil, o PCB, que fora fundado em 1926, teve o seu fim decretado, nos anos 90, quando seus sobreviventes se reuniram em torno da sigla do PPS. e do seu líder Roberto Freire.

2 comentários:

  1. Oi Pedro. O Saquila é o Vladimir Sachetta.

    O PCB continuou existindo.

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  2. Perfeito, pessoal da Revista. O PCB continuou existindo, porém, com pequena representatividade. Triste mesmo é o PPS ter virado partido auxiliar do PSDB e Roberto Freire ter virado ministro de um governo golpista.

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