terça-feira, 7 de maio de 2013

Os Subterrâneos da Liberdade 1. - Os ásperos tempos.

Em 1954 é publicada no Brasil a trilogia de Jorge Amado, Os Subterrâneos da Liberdade. Os livros tem os seguintes sub-títulos: 1. Os ásperos tempos; 2. Agonia da noite e 3. A luz no túnel. No os ásperos tempos é retratado o período da decretação do Estado Novo, no Agonia da noite, os horrores deste período, enquanto que a luz no túnel, aponta para o farol soviético. A trilogia é literatura engajada, obedecendo ao estabelecido pelos soviéticos (Jdanov), de engrandecer o pensamento comunista como uma contraposição à podridão do pensamento burguês. Jorge cumpriu muito bem esta missão. Ele escreveu a trilogia no seu exílio, no castelo de Dobris nos arredores de Praga. Deve tê-la começado em 1952, após ter recebido o prêmio Stálin. Devia estar vivenciando o auge do seu ardor comunista.
O primeiro volume da trilogia "Os subterrâneos da liberdade" - "Os ásperos tempos". Um retrato do Estado Novo.

O período retratado é um dos períodos mais escabrosos da história mundial, que no Brasil é representado pelo Estado Novo e pelo namoro que este sistema mantem com as forças nazistas, fascistas, franquistas e salazaristas, dentro da conjuntura internacional. Mostra bem a indefinição de Vargas, dividido entre as forças ditatoriais europeias e o imperialismo americano. No primeiro livro são apresentados os preparativos para o golpe e a concretização do mesmo. O Estado Novo, dentro da perspectiva do real, é apresentado em sua forma mais cruel. Um massacre contra a heroica classe trabalhadora.

A nova conjuntura, porém, atrapalhou a recepção da obra. Já em fevereiro de 1956 o mundo fica estarrecido pelas revelações bombásticas do XXº Congresso do Partido Comunista Soviético. Kruschev escancara os crimes cometidos por Stalin e a ética comunista perde muito do seu encanto. Um enorme abalo na inabalável fé dos militantes comunistas. Os comunistas brasileiros, por sua vez, se perdem cada vez  mais em suas complicadas análises de conjuntura e em consequência, no estabelecimento de suas estratégias de ação política. As diretrizes para estas análises tem a sua origem nos ditames da Terceira Internacional. Divergências internas se tornam cada vez mais escancaradas e insuperáveis. O próprio Jorge, na volta ao Brasil, abandona a militância comunista, mas jamais a sua fé.
Jorge Amado recebendo o Prêmio Stálin da Paz, em reconhecimento de sua literatura.

A maioria dos personagens que comparecem nos livros da trilogia, são personagens reais da política brasileira. Os demais são de fácil identificação. Daniel Aarão Reis, ao final do terceiro volume, nos ajuda a conhecer e reconhecer os personagens e a contextualizar a obra, num belo posfácio. Os principais personagens são reais: Getúlio Vargas, Armando Sales de Oliveira, Plínio Salgado e Luís Carlos Prestes. Daniel Reis nos auxilia na identificação de Shopel, como sendo o poeta católico e editor Augusto Frederico Schmidt, do proprietário de jornal  A Notícia, Antônio Alves Neto, como sendo Júlio de Mesquita Filho, o proprietário do Estadão e em Saquila, o importante líder trotskista, Hermínio Sachetta. Enquanto isso o simpático tenente Apolinário é Apolônio de Carvalho, que está rumando para a Espanha para combater as falanges franquistas e Vítor é o dirigente do partido Diógenes Arruda, a quem o livro é dedicado. Ele aparecerá mais ao final.

Os primeiros capítulos de Os ásperos tempos são ocupados com as preocupações da elite paulistana, tramando contra Vargas, em torno da candidatura de Armando Sales de Oliveira e que, ao mesmo tempo também, está se borrando de medo, diante da perspectiva de golpe a ser deflagrado por Getúlio. Sentimentos de traição e lealdade flutuam a mercê de cálculos de vantagens sonantes a serem obtidos dentro dos diferentes cenários. 

Os personagens do cenário burguês são os velhos paulistas quatrocentões, os políticos que os representam,   e o poderoso banqueiro Costa Vale, diante do qual todos dobram os seus joelhos. Os emergentes são representados pela comendadora da Torre, importante industrial do ramo da tecelagem. As maiores ironias, de acordo com a minha leitura, recaem no entanto, sobre o poeta Schopel, que, por dinheiro é absolutamente capaz de tudo, inclusive, ser leal e sobre Antônio Alves Neto, diretor do jornal A Notícia, eternamente apavorado pelo medo. A parte mais romanceada da obra recai sobre Paulo, jovem e irresponsável diplomata, filho de deputado, que além do nome pomposo - Paulo Carneiro Macedo da Rocha, pouco tem. Paulo se enamora de Manuela, irmão de Lucas, que tudo faz para sair da pobreza. Paulo e Manuela são a encarnação do amor burguês e todas as vicissitudes que ele envolve. Manuela é uma pobre menina bonita, enganada pelo canalha Paulo. Mais tarde ela se encontrará com os comunistas.
Na foto acima, está o tenente Apolinário,  Apolônio de Carvalho, na vida real. Em baixo, Carlos, ou Carlos Marighella, 

Os personagens comunistas se centram em torno da doce operária Mariana, filha de um pai comunista, baluarte do partido. Mariana organiza greves, células e a sua bravura e lealdade a elevam a condição de estafeta da direção do partido, missão que ela cumpre com galhardia. Se envolve afetivamente com o camarada João, com quem se casa. O casal vive com os sofrimentos que lhe são impostos, especialmente a separação, em função das missões recebidas pelo Partido, mas vivem em transcendental felicidade, que a finalidade da luta lhes dá. Outros personagens que logo ganham a enorme simpatia do leitor são o tenente Apolinário, o lendário cidadão honorário espanhol e francês, honraria em função de sua bravura na Guerra Civil Espanhola e nas lutas da Resistência Francesa, o velho Orestes e o Gonçalão. Este ainda deverá ganhar destaque no segundo livro, pois as lutas em torno do Vale do Rio Salgado (Doce) ainda estão por começar. Também está para começar a luta dos trabalhadores do porto vermelho de Santos, para não embarcar o café brasileiro doado por Vargas ao ditador espanhol, o general Franco.

Sobra ainda a grande polêmica com o pessoal de esquerda, mas que não se enquadra na ortodoxia do Partido. É o caso do confuso e vacilante líder trotskista Saquila, que trabalha no jornal de Antônio Alves Neto. Lê a conjuntura e o mundo com os olhos de seu patrão. Representa a confusa participação dos intelectuais no Partido, destituídos da visão da classe operária. Torpe mesmo é o personagem Camaleão, trazido ao Partido por Saquila.

O livro é maravilhoso. O meu interesse na sua leitura é primordialmente entender este período histórico em sua conjuntura, tanto nacional, quanto internacional e em especial, ver esta história sendo contada do ponto de vista de um comunista ortodoxo e, acima de tudo, brilhante e reconhecido escritor. E vamos à leitura de Agonia da Noite.

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