quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Despedida. Rubem Alves.

Não costumo transcrever crônicas ou textos de outros neste blog. Procuro compartilhar as minhas leituras, os meus filmes, as minhas viagens e, acima de tudo, as minhas visões de mundo. Mas tenho sob a minha mesa de trabalho a crônica do Rubem Alves, com a qual ele se despediu de seus leitores da Folha de S.Paulo, no dia primeiro de novembro de 2011. Ele veio a falecer em 19 de julho de 2014. A transcrevo por dois motivos. Primeiro porque ela tem muito a ver comigo, especialmente, naquilo que se refere à obrigação. Hoje eu sou um administrador de tempo livre, eu não tenho mais obrigações e em segundo lugar, eu quero prestar uma homenagem à verdadeira legião de seus admiradores. Vamos à crônica:
Rubem Alves, o grande mestre. 1933 - 2014. Continua presente por sua obra.

"Essa crônica é uma despedida. Resolvi, por decisão própria, parar de escrever em Cotidiano.

Devo ter perdido o juízo. Minha decisão contraria um dos maiores sonhos de cada escritor. Primeiro, o sonho de ser um best-seller. Encontrar algum livro seu nas prateleiras da livraria La Selva, nos aeroportos. Confesso: sou vítima dessa vaidade. Mas não aprendo a lição. Nos aeroportos, vou sempre visitar a La Selva na esperança de lá encontrar um dos meus livros. Saio sempre desapontado.

O outro sonho dos escritores é ter seus textos publicados num jornal importante: ser lido por milhares de leitores. O que significa reconhecimento duplo: do jornal que os publica e dos leitores. Isso faz muito bem para o ego. Todo escritor tem uma pitada de narcisismo.
Por este livro tive o primeiro contato com o grande mestre.

Fernando Pessoa tem um poema que diz assim: "Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas..." E ele se pergunta se "não haverá um cansaço, das coisas, de todas as coisas..." Respondo: Sim. Há um cansaço. A velhice é o cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. Mas agora, meus 78 anos estão pesando. E como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar.

A obrigação: é isso o que pesa. Quereria de ser capaz de viver um poeminha do Fernando Pessoa: "Ah!, a frescura na face de não cumprir um dever... Que refúgio o não se poder ter confiança em nós..." Perco o sono atormentado por deveres, pensando no que tenho de escrever. Sinto - pode ser que não seja assim, mas é assim que eu sinto - que já disse tudo. Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.
Porque, afinal de contas, todo o ato de educar é um ato político.

Não é qualquer coisa que se pode publicar num jornal. O próprio nome  está dizendo: "jornal", do latim "diurnalis"; de "dies", dia, diurno; o que acontece no dia; diário.

O tempo dos jornais é o hoje, as presenças. Mas minha alma é movida pelas ausências; nos jornais não há lugar para ressurreições.

Acho que aconteceu comigo coisa parecida com o que aconteceu com a Cecília Meireles. Escrevendo sobre ela, Drummond  falou o seguinte: "Não me parecia uma criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me sempre a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Por onde erraria a verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um curioso, admitiu ser seu principal defeito "uma certa ausência do mundo"?
Uma ausência do mundo preenchida com a sua obra. Lições que permanecem.

Deve ser alguma doença que ataca preferencialmente os velhos e aos poetas. A Cecília descrevia o tempo da sua avó com "uma ausência que se demorava". Rilke se perguntava: "Quem assim nos fascinou para que tivéssemos um olhar de despedida em tudo o que fazemos?" O sintoma dessa doença é aquilo que a Cecília disse: uma certa ausência do mundo.

O músico Ângelus Silesius já havia notado que temos dois olhos, cada um deles vendo mundo diferentes: "Temos dois olhos. Com um, vemos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro, vemos as coisas da alma, eternas, que permanecem". Jornais são seres do tempo. Notícias: coisas do dia, que amanhã estarão mortas.

E é por isso que vou parar de escrever: porque estou velho, porque estou cansado, porque minha alma anda pelos caminhos do Robert Frost, porque quero me livrar dos malditos deveres que me dão ordens desde que me conheço por gente..."
É bem isso mesmo. Um caso de amor com a vida.

Quanto a mim, ainda não escrevi nada, mas também, ainda não sinto o tempo se esvaindo. Ainda prefiro ver as coisas com o olho do tempo e não com o das coisas da alma. E mais, estou começando, apenas agora, a conseguir ler poesia. Enquanto isso, continuo aqui a escrever, mas não como um maldito dever, mas sim, como um grande prazer. E... sempre tendo a coragem de ser um eterno aprendiz, inclusive com o grande mestre que foi Rubem Alves.


6 comentários:

  1. tomara que os que creem tenha razão que aja vida apos, a MORTE porque assim poderemos nos encontrar com pessoas maravilhosas como esta, RUBEM ALVES e centenas de outras tão brilhantes quanto.

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  2. Se livrar das obrigações. Um texto realmente brilhante de uma pessoa que foi maravilhosa, seu Arnaldo.

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  3. Quem escreve sempre terá uma alegria maior entre outras: a de deixar sua presença presa às tintas dos papeis e, no caso de Rubem Alves, com palavras imperecíveis e atemporais, humanas no que temos de mais divino.Obrigada Prof° Pedro Eloy por nos lembrar dele.

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    1. Mais uma vez, Sucapoeta agradeço o teu comentário. A crônica reflete uma vida se esvaindo em permanências.

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  4. Doce ilusão, mestre Elói! Quem disse que vc não tem mais obrigações? Não lembras do que disse o velho Platão: cada um é responsável por aquilo que conquista? Então, meu mestre e companheiro, vc tem um compromisso com quem conquistastes com teu brilho e tua luz. Se apagares essa lanterna...

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  5. Romeu, é despedida de obrigações burocráticas. Hoje sou administrador de tempo livre, e tu sabes bem o que significa tempo livre. Lembras? "Oficina de satanás" "porta aberta de todos os vícios" e assim por diante. Enquanto o mundo não for minimamente humano a luta, o esclarecimento é um dever ético. Abração.

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