segunda-feira, 1 de junho de 2015

COMPATRIOTAS. Como os judeus da Dinamarca fugiram dos nazistas e o surpreendente papel da SS.

Acabo de ler mais um livro, da parceria que o blog mantém com a Companhia das Letras. Trata-se de Companheiros - Como os judeus da Dinamarca fugiram dos nazistas e o surpreendente papel da SS., do historiador e diplomata Bo Lidegaard. O livro é um lançamento do mês de abril deste ano de 2015. Creio que convém observar um detalhe do título, em sua segunda parte. E o surpreendente papel da SS. Eu o observei, mais precisamente, já quase ao final da leitura, quando a questão é tratada de forma específica. E uma grande questão se levanta. Usando uma palavra brasileira, quando a Folha de S.Paulo usou a palavra Ditabranda, faço a analogia. Teria havido um nazismo brando?
Compatriotas. O relato da fuga dos judeus dinamarqueses para a Suécia.

O livro é formado por 444 páginas, distribuídas em 14 capítulos, de raro humanismo. Nele são narrados os acontecimentos ocorridos na Dinamarca entre os dias 26 de setembro e 9 de outubro do ano de 1943. O país já sofria uma intervenção do nazismo alemão, - é difícil encontrar um termo apropriado, - meio consentida a partir de 9 de abril de 1940. A correlação de forças nos dá indicativos para a compreensão do fato. Se houvesse resistência, o pequeno, mas estratégico país seria subjugado em questão de horas. A Alemanha, por sua vez, mais do que necessitava os alimentos ali produzidos. Coisas da realpolitik.

O livro nos dá uma bela descrição da social democracia dinamarquesa, ou danesa e a construção de uma grande unidade nacional em torno da Constituição e do rei Cristiano X. Uma frase de legenda para uma charge, explica a realidade. Na charge  Stauning, o primeiro ministro, pergunta ao rei Cristiano. "O que faremos, majestade, se Scavênius disser que os nossos judeus também têm de usar a estrela amarela?" "Então provavelmente todos nós usaremos a estrela amarela", teria respondido o rei Cristiano. Na verdade, na Dinamarca ninguém foi obrigado a se identificar com a estrela amarela ou a estrela de Davi. Esta charge virou um mito, símbolo da unidade do povo.
A charge com Stauning e o rei Cristiano X. Todos a usaremos. Todos somos iguais. O mito.

O livro traz um minucioso estudo sobre os judeus dinamarqueses e os divide em três grupos. Havia os descendentes de famílias que ali chegaram desde o século XVII. Estavam perfeitamente integrados, cosmopolitas, e pertenciam às camadas economicamente mais elevadas da sociedade. Outro grupo foi formado pelos chamados judeus "russos", oriundos da parte oriental da Europa e que tinham migrado no início do século XX. Praticamente todos haviam melhorado de vida. Uma leva mais recente, veio já com as perseguições iniciais do regime nazista. Ao todo formavam em torno de 7 a 8 mil pessoas. 

Quando as relações com a Alemanha nazista se complicaram e veio a ordem de prisão aos judeus e o consequente confinamento em campos de concentração, a maioria conseguiu fugir para a Suécia, que continuava um país livre e que mantinha com os alemães boas relações econômicas, mas que fez de tudo para bem receber os judeus fugitivos. A ordem de prisão aos judeus chegou no dia 28 de setembro de 1943, quando começa o grande pânico. Eles seriam levados para a Polônia, se enquadrarem nos processos seletivos para a morte ou para o trabalho e terem os bens confiscados. No entanto, foram presos, em torno de 300 judeus, sendo 202 pessoas de um asilo de idosos.
A estratégica posição da Dinamarca e a proximidade com a Suécia.

Os mais visados eram os judeus puros. Os casados com outras etnias e especialmente com os "arianos", deveriam ser poupados. É difícil a compreensão dessa química ou matemática. Em todos os casos, a operação foi considerada como um grande fracasso dos nazistas. Em torno de sete mil judeus fugiram para a vizinha Suécia, atravessando os vigiados mares. Daí é que surge a especulação da segunda parte do título do livro. Os judeus presos também não foram levados para a Polônia e sim para a Checoslováquia de então, para Theresienstadt.
Charge de jornal clandestino. Cara amarrada. A má vontade dos dinamarqueses para com os nazistas.

A narrativa se ocupa da descrição das dramáticas e traumáticas fugas, de seus custos, de seus medos e de suas chegadas e acolhidas e das transcrições desses mesmos fatos, relatados em diversos diários. O que mais me chamou a atenção dessas descrições é o comportamento humano quando este chega às chamadas situações limite. Uns expressam os melhores sentimentos de solidariedade e de ações concretas de ajuda, mesmo pondo em risco suas vidas, enquanto que, em outros aflora a besta humana ensandecida contra os seus semelhantes. Segundo os relatos, prevaleceu a solidariedade. As travessias, embora custassem caro, todas foram realizadas, com ou sem dinheiro para o pagamento.

O que houve afinal de contas? O autor do livro exalta a unidade e o sentimento de igualdade do povo dinamarquês, fortalecido pelo mito do rei. Mas é importante observar a data. Setembro e outubro de 1943. Estaria a Alemanha já à deriva? Poderiam os alemães se expor a ainda maiores hostilizações a esta altura e terem os dinamarqueses como inimigos declarados ou teriam mesmo os encarregados alemães na Dinamarca afrouxado as normas de vigilância? O livro procura responder a essas questões. Depois de 14 capítulos, o epílogo trata do destino dos principais atores envolvidos nesse difícil momento da história, tanto a mundial, quanto a nacional dinamarquesa. Os comunistas, pela narrativa, foram presos desde o início das hostilidades.
O quartel general alemão em Copenhague. A Dagmarhus.

Termino com um poema de resistência da época. A autoria é de Poul Hennigsen, intelectual, escritor e arquiteto dinamarquês que viveu e sentiu a época:

"Eles nos acorrentam as mãos e a boca,
mas não conseguem atar nossas ideias,
e ninguém é prisioneiro enquanto o espírito corre solto.
Nós temos cá dentro uma fortaleza
que se revigora por si só,
enquanto lutamos pelas coisas em que cremos.
Quem mantém a alma ereta jamais há de ser escravo.
Ninguém pode governar aquilo
que nós mesmos determinamos.
Prometemos com a boca e a mão,
na escuridão que precede a aurora,
que o sonho da liberdade nunca morrerá". 


2 comentários:

  1. Muito interessante. Não conhecia essa parte da história da guerra e, em particular, a participação da Dinamarca, o ato corajoso do monarca Cristiano X.

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  2. Todos nós a usaríamos. Bela observação. Cristóvão, muito obrigado pelo seu comentário.

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