quarta-feira, 17 de junho de 2015

Operário em constução. Vinícius de Moraes.

Desde 1956 um poema para formar a consciência. A consciência de classe. O Brasil teve toda uma geração de intelectuais marxistas. O trabalho como práxis.
 O ser humano e a sua construção pelo trabalho. 

"Era ele que erguia casas
onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
ele subia com as casas
que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
de sua grande missão:
não sabia, por exemplo,
que a casa de um homem é um templo,
um templo sem religião.
Como tampouco sabia
que a casa que ele fazia, sendo a sua liberdade,
era a sua escravidão.

De fato, como podia
um operário em construção
compreender por que um tijolo
valia mais que um pão?
Tijolos ele empilhava
com pá, cimento e esquadria.
Quanto ao pão ele comia.
Mas fosse comer tijolo...
E assim o operário ia,
com suor e com cimento,
erguendo uma casa aqui,
adiante um apartamento;
além uma igreja, à frente
um quartel e uma prisão:
prisão de que sofreria
se não fosse eventualmente
um operário em construção.
Vinícius de Moraes (1913- 1980). Bom na poesia, bom na música.


Mas ele desconhecia
esse fato extraordinário:
que o operário faz a coisa
e a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia,
à mesa, ao cortar o pão,
o operário foi tomado
de uma súbita emoção
ao constatar assombrado
que tudo naquela mesa
- garrafa, prato, facão -
era ele quem os fazia!
Ele, um humilde operário,
um operário em construção.

Olhou em torno: gamela,
banco, enxerga, caldeirão,
vidro, parede, janela,
casa, cidade, nação!
Tudo, o que existia
era ele quem fazia!
Ele, um humilde operário
um operário que sabia
exercer a profissão.
Marx, o inspirador.


Ah! homens de pensamento, não sabeis nunca o quanto
aquele humilde operário
soube naquele momento!
Naquela casa vazia
que ele mesmo levantara,
um mundo novo nascia
de que sequer suspeitava.
O operário emocionado
olhou sua própria mão
sua rude mão de operário
de operário em construção.
E olhando bem para ela
 teve um segundo a impressão
de que não havia no mundo
coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
desse instante solitário
que, tal sua construção,
cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo,
em largo e no coração.
E como tudo que cresce,
ele não cresceu em vão.
Pois além do que sabia
- exercer a profissão -
 o operário adquiriu
uma nova dimensão:
a dimensão da poesia.
A famosa frase final do Manifesto, no original. Proletarier allerländer vereinigt euch!

E um fato novo se viu
que a todos admirava:
o que o operário dizia
outro operário escutava.
E foi assim que o operário
do edifício em construção
que sempre dizia sim
começou a dizer NÃO.
E aprendeu a notar coisas
a que não dava atenção:
notou que sua marmita
era o prato do patrão,
que sua cerveja preta
era o uísque do patrão,
que o seu macacão de zuarte
era o terno do patrão,
que o casebre onde morava
era a mansão do patrão,
que seus pés andarilhos
eram as rodas do patrão,
que sua imensa fadiga
era amiga do patrão.
E o operário disse: NÃO!
E o operário fez-se forte
na sua resolução.

Como era de se esperar,
as bocas da delação
começaram a dizer coisas
aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
nenhuma preocupação.
"Convençam-no do contrário"
disse ele sobre o operário.
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
ao sair da construção,
viu-se súbito cercado
dos homens da delação.
E sofreu, por destinado,
sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido,
teve seu braço quebrado,
mas quando foi perguntado
o operário disse: NÃO!
Em 1995, ganhei dos sindicalistas alemães da DGB. esta preciosidade. Uma coleção de cartões sobre o primeiro de maio. O dia mundial da classe trabalhadora.


Em vão sofrera o operário
sua primeira agressão.
Muitas outras se seguiram
muitas outras seguirão.
Porém por imprescindível
ao edifício em construção,
seu trabalho prosseguia
e todo o seu sofrimento
misturava-se ao cimento
da construção que crescia.

Sentindo que a violência
não dobraria o operário,
um dia tentou o patrão
dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
ao alto da construção
e num momento de tempo
mostrou-lhe toda a região.
E apontando-a ao operário
fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
e a sua satisfação
porque a mim me foi entregue
e dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer,
dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
será teu se me adorares.
E, ainda mais, se abandonares
o que te faz dizer não.
Viena, 1890. Um dos primeiros cartões.


Disse, e fitou o operário
que olhava e refletia.
Mas o que via o operário
o patrão nunca veria.
O operário via as casas
e dentro das estruturas
via coisas, objetos,
via tudo o que fazia
o lucro do patrão.
E em cada coisa que via
misteriosamente havia
a marca de sua mão.
E o operário disse: NÃO!
Loucura! gritou o patrão.
Não vês o que te dou eu?
- Mentira disse o operário.
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
um silêncio de prisão
um silêncio povoado
de pedidos de perdão
como o medo em solidão
um silêncio de torturas
e gritos de maldição
um silêncio de fraturas
a se arrastarem no chão.

E o operário ouviu a voz
de todos os seus irmãos.
Os seus irmãos que morreram
por outros que viverão.
Uma esperança sincera
cresceu no seu coração
e dentro da tarde mansa
agigantou-se a razão
de um homem pobre e esquecido.
Razão porém que fizera em operário construído
o operário em construção".



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.