quarta-feira, 27 de maio de 2015

Frei Betto. Sua entrevista na revista CULT.

Já faz alguns anos que sou assinante da revista Cult. Ela me aproxima do ambiente cultural que vivi nos dois anos de mestrado na PUC de São Paulo. Sempre tínhamos personalidades do mundo intelectual, presentes  em palestras e debates acadêmicos. Aprecio as entrevistas, geralmente de personalidades do mundo cultural que passam pela cidade ou de estudiosos e especialistas nos grandes intelectuais da humanidade, com destaque para a filosofia. Dá gosto em ser assinante.
Capa da revista Cult do mês de maio, número 201. Destaque para a psicanálise e a entrevista de frei Betto.

A revista do mês de maio, a de número 201, traz uma entrevista com o frei Betto com a seguinte chamada de capa: "Não é fácil ser de esquerda em um mundo tão sedutor quanto o do capitalismo neoliberal". Parece que o mundo do desejo, do imaginário, dos sonhos sempre se sobrepõe ao mundo da realidade. A entrevista tem a apresentação de Manuel da Costa Pinto e as perguntas são dirigidas ao literato, ao religioso e ao político, que são exatamente os seus campos de atuação.
O chamado de capa para a entrevista com frei Betto.

Tenho a felicidade de conhecer o Frei Betto, pessoalmente. Ele fez parte de minha formação nos cursos do Instituto Cajamar e o ouvi em várias palestras aqui em Curitiba e também em suas participações no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Não o vejo faz um bom tempo. Não conheço o ficcionista, mas conheço bem o memorialista de Batismo de Sangue, A Mosca Azul  e Calendário do Poder. A sua presença sempre é iluminadora. Ele está atualmente com 71 anos de idade.

A entrevista se compõe de 14 perguntas. As primeiras se dirigem ao escritor, sobre as origens de sua vocação literária, de como concilia a atividade literária com a política e sobre a influência das ideologias em sua literatura. Frei Betto vem de um lar letrado, pai advogado e cronista e mãe escritora, livros de culinária. Na escola se distinguia pela qualidade do texto de suas redações, nas quais antecipava o futuro escritor. Este emergiu dos cárceres da ditadura militar, onde esteve preso por duas vezes. As cartas da prisão marcam a sua estreia como escritor.
Frei Betto, 71. O escritor, o religioso e o político.

Na entrevista afirma que procura afastar por completo as ideologias de sua literatura e que o seu campo preferido é o da ficção, o mundo dos mistérios. Dedica 120 dias do ano exclusivamente à escrita. Em tempos de aridez, diz, lê Machado de Assis. Isso me lembrou uma outra afirmação sua, de sua devoção por Santa Tereza d'Avila, nas crises de fé. Confessa que foi leitor voraz de Jorge Amado e de Érico Veríssimo, como mais tarde de Sartre e de Camus.

Depois dessas perguntas o tema se centra na política. Sobre o ser esquerda hoje, sobre o PT e o seu projeto e sobre os desvios deste seu projeto original. As perguntas finais estão relacionadas com os temas ligados a moral e aos dogmas religiosos, ou não, como o aborto e às relações homoafetivas, terminando com a redução da maioridade penal e, ainda, sobre o impeachment  da presidente Dilma.

O tema da política é introduzido com o final da resposta sobre a questão de ser esquerda hoje. Vejam "Não é fácil ser de esquerda  em um mundo tão sedutor quanto o do capitalismo neoliberal. Daí o problema do PT, que foi perdendo o horizonte  histórico de um projeto Brasil e trocando-o pelo horizonte imediato de um projeto de poder". Daí seguem as seguintes perguntas: "Quando percebeu que o PT abandonou seu projeto inicial"? "Se você já havia se decepcionado desde a "Carta aos Brasileiros", por que participou do programa Fome Zero, do governo Lula"? "Você chegou a escrever que o PT faz "populismo cosmético" e "Os católicos de esquerda foram preteridos pelo PT por conta dos compromissos com os evangélicos"? Vamos ver algo das respostas.
Certamente o livro de maior repercussão do escritor. Também foi levado ao cinema.

A primeira resposta já está evidenciada na pergunta seguinte. A decepção começou com a "Carta aos Brasileiros" e com a opção de fazer um governo tradicional, com o mercado e com o Congresso e não com os movimentos populares e que por isso, "agora está refém dos dois e pagando um preço muito alto. Tanto que chamou um homem do mercado para ver se melhora a economia e entregou a parte política para o PMDB". Para a segunda questão respondeu que entrou por entusiasmo e por ver no Fome Zero um programa emancipador, mas assim que viu que ele foi substituído por um programa compensatório, caiu fora.  Creio que o cerne da entrevista está na questão seguinte, a do populismo cosmético.

Afirma que o erro de Lula foi o de ter facilitado o acesso aos bens de consumo pessoais e não aos bens sociais, como fez a Europa no início do século XX. Primeiro se assegurou o acesso à educação, moradia, transporte e saúde e depois, aos bens pessoais. "Aqui não", afirma. "Você vai a uma favela e as pessoas têm TV a cores, fogão, geladeira, microondas (graças à desoneração da linha branca), celular, computador e até um carrinho no pé do morro, mas estão morando na favela, não têm saneamento, educação de qualidade. É um governo que fez a inclusão econômica na base do consumismo e não fez inclusão política". O resultado é o que estamos vendo.
Os livros do memorialista frei Betto.

Quanto a questão dos católicos de esquerda e os evangélicos evoca a importância das Comunidades Eclesiais de Base na formação do PT. Afirma que essas constituíram o núcleo ético do PT. Que essas comunidades enfraqueceram sob o papado de João Paulo II e que elas continham o avanço das religiões pentecostais. O catolicismo se tornou assim uma religião de classe média e está perdendo o povo mais pobre. E, como são voto certo, isso favorece um projeto de poder, razão pela qual os católicos de esquerda ficaram relegados a uma posição secundária.

 As outras respostas, que envolvem os temas religiosos e morais, são brilhantes e em contradição com a tradição do catolicismo oficial. Cito apenas a questão relativa ao aborto, na certeza de que você procurará a revista para a leitura da entrevista por completo. "Se o homem parisse, aborto seria um sacramento". Na questão das relações homoafetivas, afirma que todo o fundamento de uma relação é o amor. Vale a pena conferir.

2 comentários:

  1. A entrevista é "brilhante" para quem é de esquerda, mas não para católicos. Você não acharia brilhante, uma entrevista do Padre Paulo Ricardo, sobre o aborto, eu até entendo. Agora, Frei Beto, ou agiu de má fé ou foi ignorante ao citar Tomás de Aquino. ele é um Doutor da igreja, na medida em que desenvolveu a teologia de forma - isso sim - brilhante. No entanto, sua obra, a "Summa Theologica" , contem especulações, que ora, seriam confirmadas pelos papas, ora rejeitadas. São Thomas de Aquino, não era, nem pretendia ser infalível, prerrogativa apenas do Papa. Quando convém sempre um esquerdista cita, Tomás de Aquino, nas suas especulações, quando bastaria o Catecismo. Tem cabimento ? : " o catecismo diz que o aborto é pecado, mas Tomás de Aquino, definiu brechas...." Desista, isso não é verdade.

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  2. Eduardo Pereira. Não entro no mérito deste debate. Frei Betto é um conhecido militante da Teologia da Libertação, do catolicismo progressista, que obviamente entra em conflito com o catolicismo tradicional conservador. Agradeço o seu comentário.

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