sábado, 21 de janeiro de 2017

Uma análise do discurso de posse de Trump.

O dia 20 de janeiro de 2017, o dia da posse de Donald Trump, como presidente dos Estados Unidos, deverá ficar para a história. Isso será verdade se ele cumprir o que prometeu em seu discurso de posse, fortemente marcado pelo sentimento de patriotismo e de nacionalismo. Vejamos a parte final de seu discurso: Tornar a América forte novamente, tornar a América rica novamente, tornar a América orgulhosa novamente, tornar a América segura novamente e tornar a América grande novamente e que "Deus abençoe vocês e que Deus abençoe a América".
20 de janeiro de 2017. "De Washington para o povo". ?

O discurso foi artesanalmente elaborado e pronunciado diante de um grande público e entre eles os ex presidentes Carter, Clinton, Bush e Obama. Eles devem ter ficado estarrecidos. Sem reagirem ouviram dizer que praticamente tudo o que fora feito antes dele, fora feito de forma errada. Fora feito para o mundo e não para os americanos. A transferência de poder, hoje realizada, não se daria de um presidente para outro, nem de um partido para outro, mas de Washington para o povo. Até hoje Washington ficara com as recompensas e o povo com os custos. No dia 20 de janeiro de 2017 - o povo se tornou comandante. No mínimo uma indelicadeza com os convidados presentes.

Em um outro post, logo após a vitória, eu observava um comentário que dizia que a eleição de Trump representava o fim do mundo. Neste comentário se lia que isto era verdade, se por fim de mundo entendíamos o fim dos mecanismos econômicos que governavam o mundo nos últimos anos, isto é, os mecanismos do ultra liberalismo econômico, da globalização, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Estes princípios se consagraram nos governos de Thatcher na Inglaterra e de Reagan nos Estados Unidos, ao final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

O dado mais visível destas políticas, que se tornaram hegemônicas, foi o da globalização. O mundo não conviveria mais com fronteiras econômicas e eliminaria todos os mecanismos pelos quais os estados nacionais protegeriam as suas economias. Muitos países passaram a se desindustrializar, favorecendo enormemente a China, que reuniu todas as exigências para absorver esta nova fase da industrialização, que na base da desproteção ao trabalho, absorveu quase tudo do mundo da produção.
Foto histórica. Para melhor ou para pior?

Este componente está onipresente no discurso de posse de Trump. Esse processo da globalização precisa ser revertido para que a América possa voltar a ser grande novamente. Retornamos à parte final do discurso. De uma maneira geral, o discurso não está consonante com a realidade dos Estados Unidos do presente. Obama foi um presidente dos Estados Unidos para os Estados Unidos. Pode ser criticado por muitos aspectos, mas ele recuperou a economia americana da crise de 2008, conseguiu a retomada do crescimento econômico e, praticamente, zerou o desemprego. Logo não haveria lugar para falar tão mal de seu antecessor imediato.

O discurso lembra muito um nacionalismo que nós aqui no Brasil conhecemos ao longo dos anos 1940, 1950 e no início da década de 1960, quando ocorreu o processo desenvolvimentista brasileiro, sob a marca da industrialização, do nacionalismo e do protecionismo. Isso fazia e ainda faz sentido, especialmente para nós, um país da industrialização tardia. A partir daí houve muitas transformações no mundo do trabalho. Houve uma nova Revolução Industrial, marcada pelos avanços tecnológicos que reconfiguraram o mundo do trabalho. O discurso de proteção ao emprego de Trump remete a estes empregos no campo, ainda, segunda Revolução Industrial, cada vez mais, mal remunerados.

O componente mais perigoso do discurso é o do patriotismo/nacionalismo. Um conceito bom, dentro de seus limites. Ele facilmente pode escorregar para o fundamentalismo nacionalista, fator responsável pelos maiores desastres da humanidade. Fundamentalismo entre os americanos não é novidade. Ao se julgarem como o novo povo escolhido por Deus, em suas preferências, se julgam no direito de exportar o seu modo de viver para o resto do mundo, por representar, segundo eles, um padrão superior no processo civilizatório. No discurso de Trump, ele relativiza isso, contrariando o processo histórico, afirmando que ele é apenas proposto como exemplo a ser seguido.

Outra afirmação perigosa está contida na ideia de que o patriotismo elimina os preconceitos. O patriotismo fará a unificação do país. A diversidade está cada vez mais presente em nosso mundo. A racionalidade técnica, instrumental, já não é, nem nunca foi suficiente para explicar toda a complexidade do ser humano.

Enfim, um discurso essencialmente conservador, como não poderia deixar de ser, e um tom altamente populista, no sentido de falar o que o povo quer ouvir, com forte apelo emocional de resgate de orgulho nacional e de auto estima em torno da grandeza da América. Um discurso de homem branco bem sucedido, para homens brancos, também bem sucedidos e que acima de tudo prezam os seus valores, como sendo imutáveis e universais e sob o forte amparo divino. Não existe muito espaço para a diversidade, para a imigração (num país de imigrantes), para a tolerância e para as questões de gênero e de raça. É o homem em linha reta.


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