terça-feira, 8 de outubro de 2019

O mundo da escrita. Como a literatura transformou a civilização. Martin Puchner.

Cheguei ao livro O mundo da escrita. Como a literatura transformou a civilização de Martin Puchner através de um belo presente do meu notável amigo, professor Sebastião Donizete Santarosa. Era um presente de aniversário. Que belo hábito, esse de presentear com livros. A origem do presente, por si só, revela a qualidade do livro. Um verdadeiro passeio, tanto pela literatura, quanto pela técnica da impressão e da difusão da escrita. Além desse passeio, conforme o anúncio do subtítulo, a ação da literatura sobre a sua importância na feitura do processo civilizatório.
O mundo da escrita, de Martin Puchner. Um livro de 2019, da Companhia das Letras.

Na orelha do livro, que busca o relato de uma síntese da obra, lemos: "Em suas campanhas militares, Alexandre, o Grande, levava consigo três objetos, que colocava embaixo do travesseiro todas as noites: um punhal, uma caixa e, dentro dela, uma cópia de seu texto favorito, a Ilíada. A obsessão pela narrativa homérica fez de Troia seu primeiro destino na jornada de conquista do Oriente.

A importância da literatura para o criador da biblioteca de Alexandria é o tema escolhido por Martin Puchner para o primeiro capítulo de seu monumental O mundo da escrita, obra que nos conduz a uma viagem maravilhosa pelo tempo e pelo globo, por meio de dezesseis textos fundamentais, selecionados em 4 mil anos de literatura mundial. O autor nos mostra como a escrita inspirou a ascensão e a queda de impérios e nações, o desabrochar de ideias políticas e filosóficas, e o nascimento de crenças religiosas".

Recorri a esta citação da orelha para dizer que o autor selecionou dezesseis obras fundamentais da literatura, que se tornou universal apenas a partir de Goethe, que ele considera as mais importantes na modelagem do mundo em que vivemos. Junto com os autores, ele mostra também a evolução da escrita e da técnica da impressão, desde o papiro da biblioteca de Alexandria, passando pelo pergaminho da biblioteca de  Pérgamo e pela impressora de Gutenberg até o fenômeno Harry Potter e o entretenimento dos festivais literários. Esses livros e a difusão de sua leitura é que deram consistência ao mundo, deram a sua consistência filosófica, política e, creio que podemos dizer sem medo de errar, a sua modelagem religiosa. E a partir daí, também a transformação do mundo em um grande palco de disputa de ideias e de conflitos sangrentos.

Ao final do capítulo 16, que nos põem em contato com Harry Potter, temos já uma espécie de conclusão, sob o subtítulo de o novo e o velho. Recorro a dois parágrafos, que são uma espécie de síntese: "A atmosfera festiva em Jaipur (um festival literário na Índia) me fez dar uma última olhada na história da literatura. Ela começou nos férteis vales dos rios da Mesopotâmia e seguiu sua marcha triunfal por todo o mundo. Ao longo do caminho, deixou de ser posse exclusiva de escribas e reis e alcançou um número cada vez maior de leitores e escritores. Essa democratização teve o auxílio de tecnologias, do alfabeto e do papiro ao papel e à impressão, que reduziram as barreiras de entrada, franqueando o acesso ao mundo literário a mais pessoas, que então introduziram novas formas - romances, jornais, manifestos - ao mesmo tempo que afirmavam a importância dos textos fundamentais mais antigos. Jaipur, com seus leitores de todo tipo e o choque entre textos antigos e novos, parecia um bom suporte de livros para essa história.

Lembrei também que essa expansão abrigava muitas voltas e reviravoltas, e muitas surpresas, pelo menos para mim: a história da literatura não era uma linha reta, mas tinha movimentos laterais e até para trás. A escrita foi inventada tanto no continente euroasiático como nas Américas. Histórias iam para lá e para cá na rede de coletâneas que se estendiam da Ásia à Europa. O surgimento da escrita provocou a oposição de professores carismáticos em diferentes partes do mundo. Novas tecnologias levaram a guerras de formatos, como aquela entre o rolo de papiro e o livro em pergaminho, enquanto textos sagrados eram muitas vezes os primeiros a adotar novos métodos de reprodução. Mas, apesar da enorme explosão da literatura, a narrativa oral persistiu, como mostra o exemplo dos bardos mandingos, com a história de Sundiata".

Bem, vamos ainda ao título dos dezasseis capítulos e as pistas para os respectivos livros: 1. O livro de cabeceira de Alexandre; 2. Rei do universo: a respeito de Guilgamesh e Assurbanípal; 3. Esdras e a criação da escritura sagrada; 4. Aprendendo com Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus; 5. Murasaki e o Romance de Genji: o primeiro grande romance da história universal; 6. Mil e uma noites com Sherazade; 7. Gutenberg, Lutero e o novo público da imprensa; 8. O Popol Vuh e a cultura maia: uma segunda tradição literária independente; 9. Dom Quixote e os piratas; 10. Benjamin Franklin: Empresário dos meios de comunicação na República das Letras; 11. Literatura universal: Goethe na Sicília; 12.  Marx, Engels, Lênin, Mao: Leitores do Manifesto do Partido Comunista, uni-vos; 13. Akmántova e Soljenítsin: Escrevendo contra o Estado soviético; 14. A epopeia de Sundiata e os artífices da palavra da África Ocidental; 15. Literatura pós-colonial: Derek Walcott, poeta do Caribe; 16. De Howgarts à Índia.
Outro livro extraordinário com temas similares.

Este é o livro. Ambicioso, erudito e bem sucedido. Ao Sebastião, os meus agradecimentos. A sua leitura me fez tomar duas decisões; Reler a Ilíada e conhecer Derek Walcot e o seu Omeros. Walcott é de Santa Lúcia, um país caribenho, ao norte e nas proximidades da Venezuela. Omeros, em importância, é comparado com a Eneida de Virgílio. Literatura fundadora, da América, no caso. E, mais ainda, Walcott é um Nobel de Literatura, do ano de 1992. O autor, Martin Puchner é professor de literatura comparada da Universidade Harvard. O livro me trouxe à memoria Uma história da leitura, de Alberto Manguel.

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