quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Quem substituirá o professor? Seriam os "clones virtuais"?

No grande livro denúncia - A escola não é uma empresa - o neoliberalismo em ataque ao ensino público, de Christian Laval, em sua segunda parte, analisa " a escola sob o dogma do mercado". Logo depois de falar, no quinto capítulo, sobre "a grande onda neoliberal", no sexto, ele se debruça sobre "o grande mercado da educação". Nele, num subtítulo, sob o nome de "o mercado das novas tecnologias e as ilusões pedagógicas" ele vai fundo na questão da substituição dos professores pelas novas tecnologias. Deixo a íntegra do texto, me isentando de comentários:
O livro de Laval, do qual eu retirei esse texto sobre o não futuro dos professores.

"Um dos fenômenos mais significativos que surgiram na Europa nos anos 1990 foi a criação de um mercado de novas tecnologias para uso educativo. Para as empresas que buscam novos mercados, o ensino surgiu como uma espécie de Eldorado, em razão de seu tamanho e da importância dos equipamentos de informática que passou a exigir. Os Estados Unidos mostraram o caminho no fim dos anos 1980, tanto no que diz respeito aos contratos de escolas e universidades com grandes empresas (como a Microsoft) quanto no que se refere à experimentação, com as Apple Classrooms of Tomorrow [salas de aula do amanhã da Apple] (Acot). Nos estados Unidos, uma enorme concorrência entre fornecedores e um discurso de forte mobilização impulsionada pelos lobbies e pela grande imprensa aceleraram a equipação das escolas.

Nesse âmbito, a Europa não ficou para trás. No início de 1996, a Comissão Europeia propôs "estimular a pesquisa" com "programas educativos multimídia" e aumentar o orçamento já destinado a isso. A "parceria europeia para a Educação (1997) pretendia entregar o material e os programas necessários às escolas com a colaboração ativa dos industriais do setor. No mesmo ano Tony Blair lançou um plano amplo, patrocinado por Bill Gates, para conectar 32 mil escolas britânicas. Em março de 1997, Jacques Chirac exigiu solenemente que todos os estabelecimentos de ensino secundário fossem conectados à web, objetivo que depois se tornou prioridade no governo de Lionel Jospin. Mas o movimento começou muito antes. Nico Hirtt e Gérard de Sélys descreveram em pormenores a adesão dos governos europeus às virtudes do grande mercado das novas tecnologias. Destacaram, em particular, o entusiasmo com que a Comissão Europeia adotou as principais recomendações dos industriais a esse respeito. A ERT começou o movimento publicando um relatório intitulado "Educação e competências na Europa" em janeiro de 1989, em que preconizava a educação a distância", em especial para a formação permanente. Em março de 1990, a Comissão Europeia assumiu a tarefa com um documento de trabalho sobre "a educação e a formação a distância", Dizia: "O ensino a distância [...] é especialmente útil [...] para garantir um ensino e uma formação rentáveis". Em maio de 1991, a Comissão Europeia publicou um novo relatório: "A revolução informática desqualifica grande parte do ensino [...] Os conhecimentos úteis têm uma meia-vida de dez anos, com depreciação do capital intelectual de 7% ao ano, acompanhada de uma diminuição proporcional da eficiência da mão de obra". O ensino a distância permite a renovação necessária do "capital humano", transmitindo "conhecimentos úteis" graças ao impulso do home office. Falando em termos de "produtos" e "clientes", a Comissão Europeia garantia que desejava transformar o e-learning numa alavanca de transformação da escola: "A realização desses objetivos exige estruturas de educação que deveriam ser concebidas em função das necessidades dos clientes". Em 1994, a ERT publicou um novo relatório intitulado "Construindo as estradas da informação, no qual os industriais planejavam a criação de um sistema educacional virtual que associava setor privado e setor público em toda a Europa. No Livro branco sobre a educação e a formação,a Comissão Europeia afirmava que a época da regulamentação da concessão de diplomas pelos Estados havia acabado e era necessário adotar um "mapa pessoal de competências" que validasse as competências adquiridas no emprego e fosse concedido por organismos privados habilitados. Nessa visão futurista, a introdução das novas tecnologias no ensino deveria resultar numa gigantesca "rede de ensino a distância" e numa profissionalização muito mais incisiva de percursos acadêmicos com flexibilidade para se adaptar às necessidades das empresas. É profunda a interpenetração da Comissão Europeia e dos interesses privados nessa esfera. Com o pretexto de construir a e-europa, chegou-se ao ponto de as próprias empresas desenvolverem a base curricular das escolas e das universidades para ampliar seu mercado. O Consórcio Career Space, que agrupa onze grandes empresas do setor de tecnologia de informação e comunicação (TIC), europeias e principalmente norte-americanas (CiscoSystems, IBM, Microsoft, e Intel, mas também Philips, Siemens e outras), redigiu para uma publicação oficial das Comunidades Europeias um "guia para o desenvolvimento de programas de formação", cujo intuito era definir os "novos cursos de formação em TIC para o século XXI" que as universidades europeias deveriam oferecer.

O avanço do mercado das novas tecnologias educativas é acompanhado de um discurso "pedagógico" que anuncia o "fim dos professores". A informática e a internet não são vistas como objetos técnicos que devem ser estudados e compreendidos, ou como ferramentas suplementares úteis à aprendizagem, mas como alavancas "revolucionárias" que permitirão mudar radicalmente a escola e a pedagogia. Apostas comerciais e métodos pedagógicos se enredam de uma forma nunca vista. Se os defensores das pedagogias por projeto, ensino mútuo ou técnicas Freinet foram incensados tanto por parte do alto escalão administrativo e ministerial quanto pelos grandes desenvolvedores de material de informática, é porque, para os promotores dessa "revolução", a eliminação das relações pedagógicas tradicionais e a utilização das novas "máquinas de ensinar" estão estreitamente relacionadas. A introdução das novas tecnologias no ensino tradicional revelou um rendimento muito fraco, quase nulo, conforme a experiência com as Acot já havia mostrado nos Estados Unidos. Portanto, era preciso difundir a ideia de que a natureza do ensino tinha de mudar, que a aprendizagem é, sobretudo e fundamentalmente, busca "autônoma" de documentos e tratamento de informações, e que o papel do professor tem de ser totalmente revisto. Para a ERT, essa evolução pode ser resumida da seguinte maneira: graças às novas tecnologias, passamos de um "modelo de ensino" para um "modelo de aprendizagem". O papel do professor não é mais transmitir conhecimentos, mas motivar, orientar, avaliar. Ele se tornou "coach" e "pesquisador".  Os educational leaders à frente das escolas, formados em gestão privada, se dedicarão a introduzir essa guinada no modelo pedagógico e promover a difusão das novas tecnologias na nova "organização educadora".

Fazer com que se acredite que o professor deve ser um orientador de pesquisas pessoais e exercícios padronizados em suporte informático possibilita justificar a compra de equipamentos em nome de uma "substituição (inelutável) do trabalho pelo capital".  No futuro, a educação será uma indústria capitalista que funcionará com a ajuda dos "professores de silício", segundo a imagem proposta por um dos mais fervorosos defensores dessa revolução tecnológica. Especialistas preveem, mais radicalmente, que haverá um enfraquecimento mais ou menos rápido dos sistemas escolares tais como foram construídos ao longo de séculos, e que eles serão substituídos por um embate entre oferta e demanda, supostamente capaz de produzir uma "formação mais rentável". Essa concepção pedagógica mistura a utopia de uma "nova cultua escolar", construída pelos alunos por meio de "tentativa e erro", o uso intensivo das NTIC nas salas de aula e a adaptação da escola à globalização econômica e cultural. Dessa forma, estão garantidas a vitória do construtivismo pedagógico ("os alunos constroem o próprio saber") sobre a transmissão dos conhecimentos, o fim do mestre, a abertura da escola para o mundo e a comunicação horizontal entre os alunos. Alguns se precipitam e veem essas ferramentas como alavancas para uma evasão escolar geral: porque se descolar, se sujeitar a horários restritivos, aceitar a autoridade de um professor, quando se pode aprender em casa, no momento que se quiser, em pé de igualdade com os colegas?  O home schooling seria o futuro, porque resolveria o problema da escola eliminando-a. O jornal Le Monde, por ocasião do WEM de Vancouver, descreveu da seguinte maneira as futuras transformações, ou ao menos as que imaginam os mercadores da educação:

"Quer se trate de uso de tempo, de local ou de condições de estudo, o WEM promete um futuro radicalmente novo não somente para o estudante do século XXI, mas também para o educador. Basta de anfiteatros superlotados, em que alunos tomam nota de aulas expositivas durante horas a fio, páginas a fio. O estudante poderá realizar sua formação em casa, pelo computador, a seu ritmo. Ele poderá completá-la ao longo de toda a vida".

Quanto ao professor, ele será substituído por "clones virtuais", bem mais eficientes que os velhos fichários de autocorreção da pedagogia de Freinet".

LAVAL, Christian. A Escola não é uma empresa - o neoliberalismo em ataque ao ensino público. São Paulo. Boitempo. 2019. Páginas 141-145.

Mais adiante, nas páginas 221-222, tem mais algumas frases que me entristeceram profundamente: "A promoção dessas tecnologias vai ao encontro das preocupações dos que querem reorganizar o ensino eliminando o cara a cara entre professor e aluno. É preciso acabar com essa "atividade artesanal", com essa "profissão liberal" ultrapassada, porque ela é pouco "racional". A ERT vai no mesmo sentido: "É mais que tempo de transformar a sala de aula com os mesmos benefícios conhecidos da tecnologia e das técnicas de gestão que revolucionaram cada local de trabalho na indústria e nos negócios". Confesso que sempre gostei dessa "atividade artesanal". Coisas da práxis. 

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