quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O Tiradentes. Uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier. Lucas Figueiredo.

Creio que muitos de vocês lembram da entrevista que Sérgio Moro deu ao programa de televisão do Pedro Bial. Nela, o entrevistador pediu ao entrevistado sobre as suas leituras. Moro não se fez de rogado, confessando-se um leitor assíduo e manifestou a sua grande preferência por biografias. Perguntado sobre as mais recentes que lera, ele não lembrou de nem uma única sequer. O fato ficou amplamente conhecido, para a vergonha de Sérgio Moro.

Posteriormente, li na Folha de S.Paulo (18.09.2019), um artigo em que Gregório Duvivier dava a  Sérgio Moro a sugestão da leitura de três biografias, que certamente seriam de seu interesse. Entre elas estava a de Tiradentes. Foi assim que cheguei ao belo livro de Lucas Figueiredo, O Tiradentes - uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier. As outras recomendações eram: Medo - Trump na Casa Branca, de Bob Woodward e Cartas da prisão, de Nelson Mandela. Comprei o livro do Lucas Figueiredo e o do Bob. Termino de ler o primeiro. Confesso que valeu muito a pena. Sempre tinha uma curiosidade em estudar mais de perto esse nosso herói nacional.
A biografia tem a edição da Companhia das Letras. 2018.

Ao final do livro, Lucas Figueiredo fala das dificuldades que encontrou para a elaboração dessa biografia. Uma questão de ir a fundo nas fontes primárias. No caso, os documentos referentes ao julgamento e condenação dos chamados inconfidentes. A dificuldade estaria nas enormes contradições e manipulações existentes no processo. Vejam bem, manipulações. Para uns a situação precisaria ser aliviada e para outros agravada. Esse era o caso de Tiradentes. Ah! E tem as delações. Joaquim Silvério dos Reis não fora o único, mas ele fazia questão de dizer que fora o primeiro.

Com certeza, o historiador fez uma grande trabalho e preencheu um enorme vazio que existia sobre o tema. E uma constatação, antes de entrar na resenha. Os nossos livros didáticos são razoavelmente bons quando abordam a questão, situando-o dentro da conjuntura internacional, da era das revoluções, do desejo de liberdade e de autonomia dos povos ao final do século XVIII. Também aqui havia homens determinados para isso. Era o caso de Tiradentes e de seus companheiros. Por que então o movimento brasileiro não deu certo? Falta de planejamento, articulação, munições, distâncias e, acima de tudo, a esperteza do governador, em adiar a derrama, esfriando assim o ânimo dos revoltosos. Para situar melhor a época, algumas datas. Tiradentes foi enforcado e esquartejado no dia 21 de abril de 1792. Em 1776 os Estados Unidos haviam proclamado a sua independência, bem como  os motivos que os levaram a isso. Já em 1789 ocorreu a derrubada da Bastilha. Era a força das novas ideias, dos ideais iluministas.

Para situar melhor esse movimento de liberdade cito duas frases. Uma foi proferida por um frade, que depois das orações após o enforcamento de Tiradentes, assim se manifestou sobre a causa de tudo o que estava acontecendo: "o louco desejo de liberdade". A outra, retiro da fala de um vereador de Vila Rica, proferida após os festejos em comemoração da derrota dos que tinham esse "louco desejo". Ele falava dos benefícios da colonização e das "delícias  da subserviência". É a história em seu processo.

Mas vamos ao livro, por sinal bem volumoso. São 519 páginas, muitas delas de notas explicativas e de fontes. O livro está divido em 11 partes e 31 capítulos. Apenas as partes tem títulos. Como eles dão a dinâmica da narrativa em sua sequência eu os apresento: 

I. Das origens à vida na estrada.,com três capítulos. (Família e profissão de tira-dentes.) II. Vida militar, também com três capítulos (Tiradentes alferes a vida toda, sem nunca ter recebido uma promoção). III. O louco desejo de liberdade. Mais uma vez três capítulos, com destaque para o de número 9, onde está todo o histórico da organização da revolta. IV. Armando a meada. A trama revolucionária está descrita em cinco capítulos. V. O traidor (Por quê?). Possui um único capítulo, dedicado a Joaquim Silvério dos Reis. 

VI. Sem medo de bacalhau. Possui três capítulos. O primeiro deles, o de número 16, é extraordinário. Versa sobre o instrumento da delação. (Teria sido esse o motivo pelo qual o articulista teria indicado o livro para o Sérgio Moro?). De maneira geral aborda a reação portuguesa ao movimento. VII. Castelos no ar. São quatro capítulos que mostram a fragilidade do movimento. Tiradentes era comparado a um Dom Quixote. VIII. No centro do alvo. Mostra, em capítulo único, o esfacelamento do movimento e a prisão dos líderes, no Rio de Janeiro (Tiradentes) e em Vila Rica, no rio das Mortes e na Serra do Frio. Merece atenção o único personagem feminino envolvido na luta: Dona Hipólita Jacinta Teixeira de Melo. IX. Na prisão. São quatro capítulos, em que são tomados os depoimentos dos presos. X. O julgamento. São dois capítulos, destacando-se o de número 29, onde estão as penas e as comutações. Tiradentes foi o único que não teve a pena de morte, pela forca, comutada. Era visto como o líder. XI. A execução. São mais dois capítulos. No 30 são narrados os acontecimentos do dia 21 de abril de 1792 e no 30 são levados e deixados pelo caminho os cinco pedaços do corpo de Tiradentes. Apenas a cabeça chega até Vila Rica.

Na contracapa o livro é apresentado pelo notável historiador, biógrafo de Getúlio, Lira Neto. Ainda estão inseridos no livro dois blocos de fotografias e documentos, de mapas e uma espécie de capítulo final, sob a forma de epílogo: Depois do fim. Nele é apresentada a trajetória dos apenados que tiveram as penas comutadas. Tem ainda 95 páginas de notas e uma rica indicação das fontes.

Para terminar..., os dois parágrafos finais do capítulo 30, o da execução: "A trajetória de Tiradentes ainda não havia terminado. Quando especificaram, na sentença, os detalhes das penas do alferes - 'morte natural para sempre' - os juízes da Alçada negaram a ele os dois ritos fúnebres fundamentais da religião cristã: o velório e o sepultamento em solo sagrado. A expressão 'para sempre', contida no despacho, significava que os restos mortais de Joaquim seriam abandonados ao tempo, até que a terra os consumisse - outra prática comumente usada com os negros fugitivos. De acordo com os dogmas da Igreja, não tendo direito à salvação eterna, a alma do alferes ficava assim à mercê da sedução de Satã.

Independentemente das crenças religiosas, o fato era que Tiradentes retornaria a Minas Gerais aos pedaços".

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