sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Rinoceronte. Eugène Ionesco.

No dia 6 de setembro de 2019 iniciávamos o Segundo ciclo de leitura e debates da obra de Paulo Freire, centrado em um de seus últimos livros, ou no dizer de Nita, "o livro testamento de sua presença no mundo", Pedagogia da autonomia - saberes necessários à prática educativa. Houve solenidade na abertura e a apresentação de uma peça de teatro, com um grupo do Rio de Janeiro, que nos trouxe Paulo Freire - Andarilho da utopia. Vale relembrar.

Na peça havia uma forte referência a Ionesco e à sua peça de teatro mais famosa - Os rinocerontes. A peça é de 1959 e deixou marcas em Paulo Freire. Fiz uma rápida busca e encontrei duas referências. Uma em Ação cultural pela liberdade e outra em À sombra daquela mangueira. Sandro Castro Pitano nos mostra Paulo citando a frase final e comentando "Não posso ser se os outros não são; sobretudo não posso ser, se proíbo que os outros sejam". Todos haviam se tornado rinocerontes, menos Bérenger.
O Rinoceronte. Edição da Nova Fronteira, 2015. Tradução de Luís de Lima.

Fui ao livro que traz a famosa peça. Uma edição da Nova Fronteira, da coleção 50 anos. Como não sou muito familiarizado com o teatro, observei atentamente o livro. Na contracapa um diálogo entre Jean e Bérenger sobre moral. Jean defende uma moral da natureza: "A natureza tem as suas leis. A moral é antinatural". Bérenger retruca: "Se estou compreendendo bem, você quer trocar a lei moral pela lei da selva". Cultura versus natureza, seria isso?

Fui à orelha: "...os habitantes de uma cidade são atacados por uma estranha moléstia que os transforma, pouco a pouco em rinocerontes. O animal encarna o fanatismo que desfigura pessoas, tira-lhes a humanidade". Fui ao prefácio. Zora Seljan versa sobre teatro. Diferenças entre o teatro de Brecht e o de Ionesco. O teatro realista contra o teatro do absurdo. O teatro de Ionesco "traz os demônios à superfície"... 

O Rinoceronte é uma peça em três atos, com cenários relativamente simples, uma mercearia, um escritório e o quarto de dois dos personagens, Jean e Bérenger. As discussões começam pelas obviedades da vida. Beber ou não beber, as vantagens de uma vida disciplinada, do esforço e da dedicação ao trabalho, sobre os ideais da vida. Entre os personagens há até um lógico. Mas todos, praticamente todos, são adeptos da racionalidade, que Adorno já havia chamado de instrumental. O primeiro rinoceronte aparece, seguido de mais um. Unicórnio ou bicórnio? Africano ou asiático? Uma discussão infindável. Jean sai ofendido e magoado com Bérenger.

O cenário das discussões se transfere para o escritório em que trabalham vários dos personagens. O rinoceronte é o grande tema, com grandes teimas. Novos rinocerontes aparecem e desfazem as incredulidades. Bérenger vai ter com Jean. Bons sentimentos, quer o perdão pelos desentendimentos do dia anterior. Mais e mais rinocerontes aparecem. Chamam os bombeiros e a polícia. Entre eles também já há rinocerontes. Jean também adere a essa "doença nervosa".

Todos viram rinocerontes. Todos, o cardeal, os intelectuais, os prelados e os clássicos. Sobra Bérenger e Daisy. O amor será o antídoto. Daisy não resiste. Se considera anormal e se soma aos rinocerontes, deixando Bérenger sozinho em desespero, com as suas resistências incompreendidas e o medo de também sucumbir: "Mas eles não nascem! Minhas mãos estão suadas. Será que ficarão rugosas? Tenho a pele flácida. Ah, este corpo tão branco e peludo! Como eu gostaria de ter uma pele dura e aquela soberba cor esverdeada, uma nudez decente, sem pelos como a deles! Há um certo atrativo no canto deles, um pouco rude, mas mesmo assim é atraente! Se eu pudesse fazer como eles. Ahh! Ahh! Brr! Não, não é assim! Preciso experimentar outra vez, mais forte! Ahh, Ahh, Brr! Não, não é isso! Isto é fraco, não tem vigor! Não consigo dar barridos, só dou berros. Ahh, Ahh, Brr! Berros não são barridos!

Ah! Como eu me arrependo. Devia ter seguido todos eles, enquanto era tempo. Agora é tarde demais! Infelizmente, sou um monstro. Infelizmente, nunca serei rinoceronte, nunca, nunca! Nunca mais poderei mudar. Gostaria muito, gostaria tanto, mas já não posso. Não quero nem olhar  para meu rosto. Tenho vergonha! Como eu sou feio! infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! Muito bem! Pior assim! Eu me defenderei contra todo mundo! Minha carabina, minha carabina. Contra todo mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim. Não me rendo".

E, uma palavrinha sobre Ionesco (1909-1994). Nasceu na Romênia, mas a sua formação se deu em Paris, cidade em que também veio a morrer. Junto com Samuel Beckett  é considerado o criador do teatro do absurdo. O pós guerra está muito presente em sua obra. Certamente o pré guerra, mais ainda. Como tudo isso pode ter acontecido?

É. Paulo Freire tem toda razão: "Não posso ser se os outros não são. Sobretudo não posso ser, se proíbo que os outros sejam". Pode haver atualidade maior? Da minha parte, não temo os rinocerontes. Eu temo os bozos. Já se transformaram em maioria e já minaram prelados...... É preciso, com a máxima urgência, detê-los. Ah, as massas! O teatro será sempre um bom antídoto, seja o do realismo ou o do surrealismo, do absurdo.

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