sábado, 4 de janeiro de 2020

Sobre a proibição de comer carne de porco e sobre a origem do porco, do rato e do gato.

Lendo as Cartas persas, me deparei com as dúvidas expressas por Usbek a Mehemet-Ali, servidor dos profetas. Cartas persas é um impressionante livro/romance sob forma de cartas, de Montesquieu sobre filosofia, política e moral, do qual apresento uma pequena resenha para contextualizar o presente post, sobre a questão da proibição de comer carne de porco aos seguidores da doutrina religiosa de Maomé.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/cartas-persas-montesquieu.html
Cartas persas: filosofia, política e moral.


 As dúvidas de Usbek são apresentadas na carta XVII e expressas da seguinte forma: "Não consigo conter minha impaciência, santo mulá: não poderia esperar tua sublime resposta. Tenho dúvidas que preciso formular: sinto que minha razão se extravia: recoloca-a no bom caminho: vem esclarecer-me, fonte de luz; fulmina com teu cálamo divino as dificuldades que vou propor-te; faze-me sentir pena de mim mesmo e enrubescer pela pergunta que te vou fazer.

Por qual razão nosso legislador nos priva da carne de porco e de todas as carnes que chama de imundas"?  Deixo também as outras perguntas/dúvida do aflito Usbek. "Por qual razão ele nos proíbe de tocar em um corpo morto?  e, para purificar nossa alma, ordena que lavemos constantemente nosso corpo?" Vamos à resposta, em tom altamente repreensivo, contidas na carta seguinte, a XVIII:

"Continuais fazendo-nos perguntas que já foram feitas mil vezes a nosso santo profeta. Por que não ledes as tradições dos doutores? Por que não ides a essa  pura fonte de todo entendimento? Veríeis resolvidas todas vossas dúvidas.

Infelizes de vós, que, sempre enredados nas coisas da terra, nunca olhastes com olhos firmes as do céu, e que venerais a condição dos mulás mas não ousais abraçá-la nem segui-la.

Profanos, que nunca penetrais nos segredos do Eterno! Vossas luzes se parecem com as trevas do abismo; e os argumentos de vosso espírito são como a poeira que vossos pés levantam, quando o sol está em seu meio-dia no ardente mês de chaban.

Por isso o zênite de vosso espírito não chega ao nadir do espírito do menor dos imauns. Vossa vã filosofia é aquele relâmpago que anuncia a tormenta e a escuridão; estais no meio da tempestade e vagais ao sabor dos ventos.

É muito fácil responder à vossa dificuldade: para isso basta narrar-vos o que aconteceu um dia a nosso santo profeta, quando, tentado pelos cristãos, posto à prova pelos judeus, desconcertou igualmente uns e outros.

O judeu Abdias Ibesalon perguntou-lhe por que Deus proibira comer carne de porco.

Não foi sem motivo: é um animal impuro e vou convencer-vos disso - respondeu Maomé.

Ele fez na mão, com barro, a figura de um homem; jogou-a por terra e bradou-lhe:

Sou Jafé, filho de Noé

Tinhas os cabelos assim tão brancos quando morreste? - perguntou-lhe o profeta.

- Não - respondeu ele. - Mas, quando me despertaste, julguei que o dia do julgamento tivesse chegado; e senti um pavor tão grande que meus cabelos embranqueceram de repente.

- Ora essa, conta-me toda a história da arca de Noé - disse-lhe o enviado de Deus.

Jafé obedeceu, e narrou-lhe com detalhes exatamente tudo o que acontecera nos primeiros meses; depois falou assim:

- Colocamos os excrementos de todos os animais em um lado da arca; isso a fez inclinar-se tanto que sentimos um medo mortal; sobretudo nossas mulheres, que se lamentavam sem trégua. Como nosso pai Noé procurasse conselho com Deus, ele lhe ordenou que pegasse o elefante e o fizesse voltar a cabeça para o lado que estava pendendo. Aquele grande animal fez tantos excrementos que deles nasceu um porco.

Entendeis agora, Usbek, que desde aquele tempo nos tenhamos abstido de porco e o consideremos um animal impuro?

Mas, como o porco remexia diariamente aquela imundície, ergueu-se na arca um tal fedor que ele mesmo não pode deixar de espirrar; e de seu nariz saiu um rato, que foi roendo tudo que encontrava pela frente; e isso se tornou tão insuportável para Noé que ele julgou conveniente consultar Deus mais uma vez. Deus ordenou-lhe que desse uma forte pancada na fronte do leão, que também espirrou e expeliu pelo nariz um gato. Entendeis agora que esses animais também sejam impuros? Que vos parece?

Portanto, quando não percebeis a razão da impureza de certas coisas é porque ignorais muitas outras e não tendes conhecimento do que se passou entre Deus, os anjos e os homens. Não conheceis a história da eternidade; não lestes os livros que estão escritos no céu; o que deles vos foi revelado é apenas uma pequena parte da biblioteca divina; e os que, como nós, os abordam mais de perto, enquanto estiverem nesta vida, ainda estão na escuridão e nas trevas. Adeus. Maomé esteja em vosso coração".


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