segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

American Factory. Vencedor do Oscar de melhor documentário.

Creio que nunca na história da premiação do cinema os documentários ganharam tanta notoriedade como na disputa do Oscar de 2020. Talvez isso seja uma percepção mais nossa, mais brasileira, em virtude da participação de Democracia em vertigem de Petra Costa. Mas o vencedor foi American Factory, sobre a indústria americana em tempos de uma economia globalizada. Um tema absolutamente polêmico, uma vez que se trata da presença de uma empresa chinesa em território dos Estados Unidos.
American Factory, cartaz promocional.

O documentário também ganhou notoriedade especial pela presença da Higher Ground, a produtora do casal Barack e Michele Obama. Mas o documentário tem a assinatura de Steven Bognar e Júlia Reichert e distribuição pela Netflix. O mote é a presença da empresa chinesa, na cidade de Dayton, no estado de Ohio, que se instalou no espaço de uma fábrica da General Motors, fechada em função da forte crise americana no setor da indústria automobilística. A empresa é a Fuyao, indústria do setor de vidros automotivos. Um mote e tanto.

É um "adeus aos bons tempos", segundo um dos funcionários da antiga fábrica da GM e agora, empregado da fábrica chinesa. Na GM ganhava 29 dólares por hora, agora 14. Direitos trabalhistas, praticamente nenhum. O jeito é dobrar jornadas de trabalho, ficar distante da organização sindical e submeter-se a critérios de vigilância permanentes. O panótico de Bentham está onipresente, mesmo sem o perceber. Além dos rígidos controles  dos diretores chineses, há as cobranças de desempenho, que o próprio trabalhador se impõe. A auto culpabilização. Elas são impostas pelas necessidades familiares e pela não aceitação do rebaixamento da condição de classe média. Que drama. A respeito dou uma referência interessante. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/sociedade-do-cansaco-byung-chul-han.html

Chineses em território dos Estados Unidos. A economia do "capitalismo de estado" na terra das "liberdades". Um choque cultural, mas não apenas isso. Creio que o sonho capitalista é efetivamente o modelo autoritário chinês, sem concessões para a democracia. Sob esse aspecto o documentário é uma denúncia e, por isso mesmo, foi muito bem recebido pela crítica e pelo público.

São os tempos em que se somam o neoliberalismo, a economia global e o autoritarismo político. É o caminho para os retrocessos dos avanços regulatórios implantados pelo chamado Estado Democrático de Direito, embora os Estados Unidos sempre tivessem grande resistência a ele. Mas os chineses são mais frios, menos corazonados, para usar a expressão do Boaventura de Sousa Santos. Um capitalismo 100% voltado para a eficiência e 0% para as coisas do coração, dos afetos e dos sentimentos. É a razão instrumental, fria e calculista, levada às últimas consequências.

E o que é pior, este modelo de 100% de eficiência, só possível em um estado autoritário, é o grande produto de exportação do capitalismo global - da China e das suas empresas, ancoradas nas doutrinas do neoliberalismo e economia global. Observe-se e destaque-se que esse fenômeno não é restrito aos chineses, mas sim, um produto da economia global. Em vez da elevação da qualidade de vida, a sua deterioração (Vejam a legislação trabalhista e previdenciária sob Temer e Bolsonaro). Este 100% de eficiência na produção também elimina as preocupações ambientais e as preocupações com o ser humano, este agora profundamente abalado com as doenças da mente, provocadas pelas exigências do auto-desempenho. A ameaça da demissão sempre paira à sua frente. Tudo isso em meio a muita celebração do "pertencimento" à grande família da empresa, o porto seguro para as aspirações do american way of life.

O documentário muito me fez lembrar de Naomi Klein, de seu livro Sem Logo - A tirania das marcas em um planeta vendido, um livro do ano de 2000 e que chegou ao Brasil em 2002. Em especial, me lembrei dos três capítulos, sob o título geral, SEM EMPREGOS. São eles: capítulo 9. A fábrica descartada: a produção degradada na Era da Supermarca; 10. Ameaças e trabalho temporário: Do trabalho a troco de nada à "Nação do agente livre" e 11. A criação da deslealdade: Tudo que vai, volta. O título Sem Logo é uma referência às fábricas que produzem para qualquer marca. Elas não tem mais logo.
O necessário livro de Naomi Klein.

American Factory é um documentário para ser visto, para ser passado em salas de aula e amplamente discutido e debatido, embora muitos (Escola sem partido, por exemplo) não o queiram. Mas tudo isso integra o capitulo sobre o autoritarismo. Quanto ao modelo do comunismo chinês, embora a sua eficiência no campo da produção, representa o máximo da degradação de seus princípios: uma "ditadura do proletariado" permanente. Alimento a certeza de que a ideia do comunismo apavora tanto, não pelo seu passado real, mas pelos projetos de futuro, de sonhos, que ele representa. Afinal, como canta o samba enredo da Mangueira (2020) "Não tem futuro sem partilha".

2 comentários:

  1. Crítica pertinente. Realmente merecedor do prêmio, pois Alerta para uma questão global. Esclarecedor e demasiado preocupante. Mas vejo que o problema está mais ligado ao regime autoritário do na questão político ideológica. Capitalismo ou Comunismo tornam-se falácias quando vemos a base comum do abuso de poder e a desumanização das relações sociais. Os sistemas políticos sucumbiram ao sistema financeiro globalizado...

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  2. Esclarecedor e preocupante. Silvana, você definiu muito bem a situação. A voracidade do capitalismo global e financeiro não tem precedentes. Agradeço o seu comentário.

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