terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Parasita. Bong Joon Ho. Melhor filme e melhor filme estrangeiro.

Oscar 2020. Algo inédito. Parasita, o filme do diretor e roteirista sul coreano, Bong Joon Ho, ganhou, pela primeira vez na história, o Oscar de melhor filme não falado em língua inglesa. E de quebra e, por óbvio, levou também o prêmio de melhor filme estrangeiro. É..., o mundo do cinema vai para além de Hollywood.
Cartaz promocional de Parasita.

Vou começar o post definindo o que é um parasita, já que o termo, nesta semana, ganhou notoriedade também no Brasil, quando o ministro "Posto Ipiranga" de Bolsonaro, indevidamente chamou os funcionários públicos brasileiros de parasitas. Se o uso de Paulo Guedes do termo "parasita" foi absolutamente inadequado, o mesmo não se pode dizer do diretor e roteirista Bong Joon Ho. Vamos ao conceito, buscando-o no "Aurélio":

1. "Organismo que, pelo menos em uma fase de seu desenvolvimento, se encontra ligado à superfície ou ao interior de outro organismo, dito hospedeiro, do qual obtém a totalidade ou parte de seus nutrientes. 2. Indivíduo que não trabalha, habituado a viver, ou que vive, à custa alheia. (Seria às custas da extração de mais valia)? [...] 5. "Que vive à custa alheia, arrimadiço, pançudo". Me permito aqui buscar uma imagem de um parasita, extraído da natureza. A imagem é a foto, tirada na bela cidade de Bonito, no MS. Na foto uma figueira parasita uma palmeira. Deixo até o post que escrevi a respeito. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/09/bonito-ms-roteiro-de-uma-viagem-forca.html
Fotos em que a figueira vai se entrelaçando com a palmeira e lhe suga a seiva. O resultado é a deformação, tanto da palmeira, quanto da figueira.

Bem, voltamos ao filme. Ou melhor, ao uso do seu título Parasita. Uma metáfora do sistema capitalista. Mas volto, mais uma vez, à palavra e ao seu significado, recorrendo a Hegel, à sua dialética do escravo. A vida fácil, de quem detém meios para não fazer nada, vivendo na ociosidade,  com o tempo, desaprende o próprio fazer, tornando-se dependente daquele a quem ele paga para o fazer, que ele já desaprendeu. Tornando-se dependente dele, transforma-se, ele mesmo, em escravo.

O filme mostra duas famílias. Ambas tem quatro membros. A de Ki-Taek é muito pobre, vive mal e todos estão desempregados. Vivem buscando uma conexão no WiFi, captado da vizinhança. Já a família Park vive no maior dos luxos, casa projetada por arquiteto famoso e todos os meios de tecnologia à disposição. O filho da família pobre entra na casa rica como professor de inglês. Aos poucos e com muitas artimanhas emprega a família inteira na casa dos Park. A sabedoria "Google" ajuda até a arrumar emprego extremamente sofisticado. O contraste das habitações é mostrada como uma das contradições do capitalismo da Coreia, uma das vitrines do sistema. Êxitos recentes. Mazelas sempre ocultadas. Mas na casa rica existe vida também no porão. A cozinheira da casa "comia demais". Até enchente afetando a população pobre aparece.

A parasitagem é dupla. A da família Park, pelos mecanismos tradicionais e o da família Ki-Taek, pelos mecanismos da malandragem e até algo mais pesado, como as falsificações arquitetadas pelos planos do chefe da família. Por esses planos também pretendem chegar à vida de parasitas. A partir daí, o filme que começa meio comédia, vira tragédia. Tudo termina em violência. A festa é um bom momento para o seu começo. A violência que o sistema hospeda dentro de si, explode. O filme não é tão simples e a compreensão exige concentrada atenção. De preferência, vê-lo duas vezes.

Voltando às minhas fotografias. Figueira e palmeira definham, se atrofiam. Nenhuma terá o seu esplendor original, natural. Da mesma forma a sociedade, que em sua estrutura organizacional permite a parasitagem, definhará e se atrofiará. Só vamos lembrar que a parasitagem do filme atinge a esfera do humano. Não mais teremos a ação da natureza mas sim, a intervenção humana. E a resposta será dada através da violência e do medo dela, que por si só, já é o maior dos horrores.

Assim como muitos que estão lendo este post e, certamente, não estão gostando, assim também  deve ter outros tantos que não estão gostando nada deste filme e da temática por ele abordada. Afinal de contas, pensadores do sistema capitalista já chegaram a proclamar o próprio fim da história. Atingimos a única forma viável da organização humana, proclamam. Deixo ainda uma afirmação com a sabedoria de mais de dois mil anos de história. Ela é de Aristóteles. O seu pensamento afirma que a sociedade que não é boa para todos, não o será para ninguém. Quanto ao Paulo Guedes, personagem menor de nossa história, e que nela só entrou por um infeliz acidente, deixa ele de lado. Merece o esquecimento. É ele um parasita do sistema financeiro internacional, o pior de todos. A sua violência anda em outra velocidade. A sua necro-política ocorre num ritmo um pouco mais lento, mata aos poucos.

Bong Joon Ho, além de diretor também é o roteirista do filme. Cinema de autoria. O filme levou seis indicações de Oscar, a saber:

Melhor filme;
Melhor filme estrangeiro;
Melhor direção;
Melhor roteiro original;
Melhor direção de arte;
Melhor montagem.

Na premiação, levou quatro estatuetas: Melhor filme, melhor direção, melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original. Todos prêmios muito significativos.




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