segunda-feira, 13 de junho de 2016

Plenos Pecados. A Gula. O Clube dos anjos. Luis Fernando Veríssimo.

Haja imaginação! O clube dos anjos é o clube do picadinho. O picadinho de carne que a meninada comia no bar do Alberi. Eram dez meninos bem nascidos. Os pais afortunados permitiam que eles vivessem sem grandes esforços na vida e pudessem se dedicar ao que bem entendessem. O convidado para falar sobre o pecado da gula, na coleção Plenos Pecados, foi Luis Fernando Veríssimo. A gula recebeu o título de O clube dos anjos.
O maravilhoso livro de Luis Fernando Veríssimo sobre o pecado da GULA.

O clube foi formado por jovens voluntariosos que em seus horizontes vislumbravam o mundo como limite, mas que nem a famosos municipais conseguiram chegar. Como fracassados foram todos muito bem sucedidos. O clube do picadinho se reunia já há 21 anos, mas o tesão acabara. O clube estava por ser desfeito, apesar da sofisticação, dos incrementos culinários e da qualidade dos vinhos. Houve quem atribuiu a culpa da possível separação às mulheres.
Mas um dia, Daniel, o narrador, se encontra com Lucídio numa loja de vinhos. Lucídio é um dos 117 nomes do demônio. Era exímio cozinheiro. Da conversa entre os dois, o clube ressurge. A partir dessa data os jantares do clube passaram a ser realizados no enorme apartamento vazio de Daniel e preparados por Lucídio. Em termos de sabor nunca houve algo parecido. Só que um estranho ritual se estabelece. A cada jantar, um integrante morre. Sempre aquele que come o último prato, o prato que sempre sobrava e que também sempre era o prato da sua preferência.

O primeiro a morrer, assim como na bíblia, foi Abel. A rotina se repetia. A cada reunião do clube, o ritual da morte se repetia. Havia suspeitas sobre envenenamento, mas ninguém ousava denunciar e nem mesmo concordava com a interrupção dos jantares. Não seria justo com os que já morreram, ponderavam. Para não ter suspense, o narrador, já nas primeiras frases, anuncia quem é o assassino. Seu nome está na capa. É um direito dos autores.

Invariavelmente, a cada jantar realizado, um velório era celebrado. A qualidade dos jantares se superava a cada encontro. Nada mais lembrava o picadinho que originara o clube, apesar de toda a ociosidade de seus membros. Os pais sustentavam os custos dos mesmos com eternas mesadas. Os membros do clube, que a cada reunião se encolhia passou a ser objeto das mais diversas observações, inclusive policiais. Um estranho se aproxima e passa chamar mais atenção. Era o senhor Spector, que não era um inspetor, como o nome poderia sugerir.

Spector tinha proposta para oferecer a Daniel e a Lucídio. Formar novos clubes, com novos participantes. Havia várias sugestões para os seus nomes: Clube das execuções misericordiosas, das mortes clementes, dos prazeres terminais. Um conceito marcaria os clubes: eutanásia festiva, retirada orgiástica, estouro final, apoteose compadecida. Spector se propunha a trazer muitos sócios para o clube e todos dispostos a pagar um bom dinheiro. Grandes negócios à vista.

Vejamos a parte final do livro: "Com o sr. Spector nos agenciando, trazendo clientes para as nossas apoteoses compadecidas, poderemos pensar em expandir o negócio e aproximá-lo da mentira que o João inventou para o seu médico, do exagero do nosso contador de anedotas.

 Nos vejo não apenas matando doentes terminais com grandes jantares nos meus salões vazios mas organizando cruzeiros de moribundos pelo Caribe, excursões milionárias de casos perdidos pelas capitais da Europa, pelos antros de perdição da Ásia, pelos prazeres definitivos do mundo, proporcionando aventuras mortais, êxtases finais, extremos fatais, orgasmos zenitais, congestões monumentais a quem quer mais, sempre mais, e mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais... Daniel chega"!

Como nos livros anteriores eu dei a definição do pecado, também dou a definição de gula: "Excesso na cozinha e na bebida. Apego excessivo a boas iguarias". Com relação ao Veríssimo volto a dizer: Haja imaginação! Ainda em tempo. O livro tem uma possível epígrafe, de uma provável máxima japonesa: "Todo desejo é um desejo de morte".

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