sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Nossa senhora do Nilo. Scholastique Mukasonga.

Na Feira Literária Internacional de Paraty - 2017, a escritora tutsi de Ruanda, Scholastique Mukasonga, além de comparecer pessoalmente no evento, também compareceu duas vezes entre os dez livros mais vendidos na tradicional feira. Ela ocupou o segundo lugar, com A mulher de pés descalços e o quarto com Nossa Senhora do Nilo. Os livros foram lançados pela editora Nós.
Mapa do pequeno país africano, tristemente conhecido por causa de seu genocídio.


Ruanda é um pequeno país africano que tem em torno de dez milhões de habitantes. O país é ainda dominantemente rural e convive com muita pobreza. Ele teve colonização alemã mas depois da Primeira Guerra o domínio passou para a Bélgica. A independência ocorreu em 1962. O país ficou mundialmente e tristemente conhecido em função de seus conflitos étnicos. Sua população se divide entre os tutsis (9%) e os hutus (90%). Os belgas celebraram um acordo com os tutsis e os mantiveram no poder. Em 1959 houve uma rebelião dos hutus, que ascenderam ao poder. Em 1994 ocorre um dos maiores genocídios do mundo, com a morte entre 800 mil a 1 milhão de pessoas, sendo 90% pertencentes a etnia tutsi.

Um belo livro que relata os horrores deste genocídio é o livro de Philiph Gourevitch, Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias, da Companhia De Bolso. Lembro que ganhei este livro de presente da professora e amiga Simone Meucci, quando ainda trabalhávamos na Universidade Positivo. O livro é um relato impressionante. Os colonizadores foram os grandes responsáveis por instigarem estes conflitos étnicos, tirando proveito da situação. Também é interessante lembrar o filme Hotel Ruanda.

Não conhecia a escritora, que atualmente vive na França. No livro senti falta de uma maior contextualização, através de uma apresentação ou prefácio para os leitores brasileiros. Na orelha do livro tem algumas informações sobre o Liceu Nossa Senhora do Nilo e a trama do romance que descreve "o ambiente sociopolítico dos anos que precederam o golpe de Estado de 1973. Como em seu precedente romance (A mulher de pés descalços), ela relata as tensões que marcaram a história da sociedade ruandesa, nomeadamente o período do regime autoritário e etnicista da Primeira República hutu, às vésperas do genocídio ruandês".
O livro lançado na FLIP 2017.


Na contracapa do livro temos mais a seguinte informação: "Uma escola para meninas, situada no alto das montanhas da bacia do Congo e do Nilo, em Ruanda, aplica rigorosamente um sistema de cotas étnicas que limita a 10% o número de alunas da etnia tutsi.  Quando os líderes do poder hutu tomam conta do local, o universo fechado em que têm que viver as alunas torna-se o teatro de lutas políticas e de incitações ao crime racial. Os conflitos são um prelúdio ao massacre ruandês que aconteceria tempos depois. Em Nossa Senhora do Nilo, Scholastique Mukasonga, sobrevivente do massacre, conta as experiências-limites pelas quais passaram as jovens do colégio, numa narrativa pungente que encantou o mundo".

O romance está envolvido nos belos mistérios africanos. O Liceu se situava nas nascentes do rio Nilo e Nossa Senhora do Nilo é uma Nossa Senhora negra, protetora de Ruanda. O Liceu abrigava as meninas da alta elite, onde as prendadas meninas aprendiam os valores da democracia e do cristianismo. O padre Hermenegilde é um dos perversos personagens do romance. Entre os objetivos do Liceu constavam a preservação da virgindade e o arranjar de bons casamentos.

A trama do romance ocorre especialmente quando Gloriosa começa a envenenar o Liceu com as suas pretensões políticas, disseminando a ideologia dominante e inventando fantasmas sobre os ataques tutsis que estariam por ocorrer. Verônica e Virgínia eram as suas vítimas preferidas. Quase ao final do romance encontramos, por uma de suas personagens, uma síntese quase perfeita sobre tudo o que aconteceu em Ruanda: "Agora não tenho dúvidas, dentro de cada homem há um monstro adormecido: não sei quem foi que o acordou em Ruanda". Com certeza, uma leitura muito interessante.

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