domingo, 24 de setembro de 2017

O processo eleitoral de 2017 na APP-Sindicato.

Eu chegava ao Paraná em 1969, após me formar em filosofia no emblemático ano de 1968. Me estabeleci em Umuarama como professor suplementarista e em janeiro de 1971 me efetivei, em concurso público, na disciplina de História. Realizei a prova no Colégio Estadual do Paraná. Na entrada do colégio havia uma banquinha para a filiação na APLP. Não tive dúvidas e, além de me filiar, convidei o pessoal para fundar a entidade também em Umuarama. Conheci assim pessoas como Dino Zambenedetti, Adir de Lima, Elisiário Cattoni, Rubem de Oliveira, entre outros. Posteriormente participei ativamente da fusão das três entidades então existentes, em torno da APP.
A gralha. Alto valor simbólico. Ela planta.

Com boas equipes de trabalho, dirigi por três vezes o Núcleo de Umuarama e vim para a direção estadual em 1993, com o grupo OPA, trazendo de Umuarama mais de 95% dos votos. Antes de qualquer análise quero aqui fazer três afirmações: A APP já me beneficiou antes mesmo de ser professor e da minha chegada ao Paraná. Em uma histórica assembleia realizada em 1968 na cidade de Ponta Grossa, o então governador Paulo Pimentel praticamente dobrou o salário dos professores; que a APP nunca trouxe prejuízos a nenhum professor. Podemos ter tido descontos de faltas e algum problema de ascensão na carreira, mas por suas lutas garantimos estrutura de carreira e pisos salariais. Nos anos 1980 chegamos ao piso de 3,2 salários mínimos. O seu não cumprimento, pelo então governador Álvaro Dias, motivou o 30 de agosto de 1988; que a APP foi decisiva na minha formação e na minha conscientização política.

Na gestão OPA, 1993-1996, participei ativamente do processo de filiação da APP-Sindicato à Central Única dos Trabalhadores. Foi um dos mais importantes movimentos de conscientização política que houve no Paraná. Antes, a pregação era a de que os professores não eram trabalhadores, pois não usavam macacão e não tinham as mãos sujas de graxa. Junto com o meu amigo Elson Pereira de Campos fizemos os trabalhos de preparação para a filiação nas regiões que eram tidas como as mais conservadoras. A CUT sofria as acusações de promoção da desordem e da baderna. Lembro de uma fala de um padre polonês, em Palmas, afirmando que a CUT era um resto de comunismo.

Em 1995 houve a histórica assembleia de filiação na cidade de Ponta Grossa. Por questões internas e não de convicção me recusei a fazer a fala que encaminharia a filiação. Aceitei, no entanto, fazer a primeira fala após a filiação. Foi uma emoção rara. Muito choro e lágrimas de alegria. Os votos contrários não somaram uma dúzia. E eu lembrava que a estes deveríamos conquistar, não com as nossas palavras, mas sim com os nossos exemplos,com a nossa convivência solidária.

Na gestão 1996-1999 as lutas fratricidas das correntes políticas se tornaram mais agudas. Uma das correntes do PT queria se tornar majoritária. Houve interferências nacionais, via CNTE e CUT e uma composição e não uma unidade foi feita. Foram tempos difíceis. Contra a sindicalização em massa, sempre defenderam os mecanismos de controle. O mais belo trabalho foi a união dos sindicatos dos professores e o dos funcionários. Este foi o mais belo trabalho do qual eu participei. A luta pela superação dos preconceitos gerados pela divisão social do trabalho. No Congresso que propôs a unidade houve muitas tramoias e quase perdemos a nossa marca, que hoje ultrapassa os setenta anos; APP-Sindicato. O hoje professor deputado era então um dos mais ativos combatentes do grupo ao qual hoje está aliado. Depois deste evento eu me afastei da direção para retomar a minha vida acadêmica. Dois fatos me levaram a isso. A necessidade de formar meus filhos e os desgostos provocados pelas divisões internas. Sempre a divisão entre as tendências. Elas provocaram um adoecimento, do qual escapei com a volta à atividade acadêmica. A PUC/SP e a Universidade Positivo me acolheram.

Deste período, quando se instalaram os primeiros governos neoliberais no Brasil e no Paraná, quero destacar os trabalhos de formação. Por eles sabíamos o que era o neoliberalismo e compreendíamos a atuação dos economistas do Banco Mundial que se transformaram em pretensos intelectuais orgânicos da educação. Com alegria constatamos que houve vida e vida intensa, após os governos de Fernando Henrique e de Jaime Lerner. Em Adorno, em Educação após Auschwitz,  li com profunda tristeza que as raízes do fascismo estão no fato de indivíduos se submeterem cegamente a coletivos, abrindo mão do pensar. Contra sujeitos coletivos passei a defender sujeitos que abraçam causas coletivas. Formação contra a doutrinação.

Os meus anos de Positivo foram de alta densidade intelectual. Lá permaneci por 13 anos. Quando resolvi exercer a minha última profissão, a de administrador de tempo livre, recebi o convite para exercer outras funções, às quais recusei, por compromissos históricos comigo mesmo, com a minha história de vida. Comecei a receber convites para fazer falas na APP-Sindicato e me reaproximei. A minha aproximação se deu devido a afinidades ou a ausência delas. Ela se deu com o grupo APP- Independente, assumindo a coordenação de alguns trabalhos de formação.

Para dar sequência a estes trabalhos de formação me envolvi no processo eleitoral de 2017. Participei ativamente, viajando pelo estado, tanto na montagem de chapas nos núcleos, quanto na divulgação das propostas do grupo da chapa 2. Foram momentos lindos, de reencontros, de avivamento da memória, de verdadeiras celebrações de amizade e também do estabelecimento de novas. Conheci pessoas maravilhosas, que certamente reenergizariam as atividades do sindicato. Tudo isso fez um bem extraordinário para a minha auto estima. Eu estava sendo útil.

Ao longo de toda a campanha não proferi nenhuma ofensa pessoal ou fiz qualquer fala da qual eu tenha que me arrepender. Mas também disse tudo o que precisava ser dito. Mostramos divergências com relação a concepção sindical e a condução de direção. Direção que perde assembleia precisa fazer forte autocrítica. Quando isso acontece e, efetivamente aconteceu, ocorre a cisão da direção com a sua base. A base deixou de ser ouvida. Perdemos a eleição mas ganhamos no processo. Este foi extremamente rico.

Quanto ao pós eleição, temo uma vitória de Pirro. Ao longo da caminhada pelas escolas percebemos muito desânimo e desalento. A dessindicalização foi uma das tônicas encontradas nas escolas. Creio que esta foi uma das causas de termos perdido. Os nossos possíveis eleitores já não eram mais sindicalizados. Os custos da campanha provavelmente serão muito elevados. Eles deverão se refletir sobre o ânimo da categoria. As piores práticas da conturbada vida política brasileira estiveram presentes na campanha, na eleição e na apuração. Existe a sensação generalizada de uma dissintonia entre o sentimento da categoria e o resultado das urnas.

Algumas questões precisam ser submetidas à crítica, já que a autocrítica dificilmente será feita. Algumas perguntas precisarão ser respondidas: Qual foi a função de uma quarta chapa no processo? A que interesses ela atendeu? Por que houve a adoção de um processo de votação eletrônica sem a comprovação de sua viabilidade e eficiência? Como foi conduzido o processo de apuração dos votos? A exaustão física atingiu os seus limites ao longo da apuração. Também a atuação da Central Única dos Trabalhadores, que por sinal não é tão única, precisa ser profundamente questionada. Temo que muitos recursos financeiros e energias humanas, que deveriam ser direcionadas para o combate aos governos Temer e Richa, foram direcionados para um mero aparelhamento burocrático das facções ou correntes que se digladiam no interior do sindicato. Da mesma forma a atuação do Partido dos Trabalhadores, especialmente, no processo de formação das chapas precisa de questionamento. Lembro ainda, para os que não entendem, que partidarização e politização não combinam. Doutrinação versus formação.

E nós que pensávamos, lá em 1995, em conquistar mais companheiros com a nossa prática...!Termino com um convite à unidade. Para uma unidade possível, que não ultrapasse os limites éticos. Que práticas abomináveis não sejam normalizadas. E vamos em frente. Estou imune aos fluidos líquidos da pós-modernidade. Haverá vida após Temer e após Beto Richa. E haverá vida também após o processo eleitoral da APP-Sindicato -2017. Um registro para a história das minhas percepções.

8 comentários:

  1. Magnífico texto. Nos obriga a refletir sobre os descaminhos tomados por grupos que se alinham, como fim, na defesa da hegemonia do poder. Se isso é o fim, ao fim chegaram, mas não ao final. Penso em Paulo, o Freire, e na questão do opressor, oprimido, opressor e imagino que a diferença entre conscientizar e politizar para manter o poder explica as atitudes que justificam os fins.

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  2. Muito obrigado professor Augusto. Eu tive o privilégio de conviver por alguns momentos com o grande mestre. Inclusive levei-o para Umuarama enquanto era presidente daquele núcleo, em 1992. Temos que refletir e sempre a partir de grandes referências.

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  3. Belo texto Prof Pedro Eloi!!!
    Tive o prazer de conhece-lo na década de 90 .
    Grande abraço .
    Renata Francisco Abdalla- Bandeirantes

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  4. Parabéns pelo texto, excelente reflexão, crítica honesta a um processo levado por vitória tão ignóbil, que, apesar da minha juventude, espero não testemunhar num próximo período.

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  5. Oi Renata, Lembro de você. Das nossas andanças em Bandeirantes. Grande abraço. Muito obrigado pelo seu comentário.

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  6. Bruno agradeço o seu comentário. A sua juventude representa o renovar de esperanças. Muito obrigado.

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  7. As percepções vieram fundamentadas com um pouco da história das suas práticas sindicalistas e análises de conjuntura. Muito interessante seu registro Prof. Eloi. Forte abraço e renovo votos da minha admiração.

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  8. Sérgio, agradeço o seu generoso comentário. A burocracia sindical faz parte de um jogo político, que não interessa a quem deseja mudanças mais profundas nas estruturas da sociedade. Vamos continuar unidos.

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