sábado, 24 de março de 2018

O grande mentecapto. Fernando Sabino. Vestibular Unicamp.

Este livro ficou numa longa fila de espera. Ele chegou a mim através de uma lista de livros com indicações para vestibular, que, confesso, é uma das minhas orientações de leitura. No caso, foi a Unicamp. Não sei a razão pela qual demorei em lê-lo. Cheguei a Fernando Sabino através de Luís Fernando Veríssimo, que coloca O Encontro marcado entre os dez livros de sua preferência. Ler O grande mentecapto - Relato das aventuras e desventuras de Viramundo e de suas inenarráveis peregrinações foi uma bela aventura para o espírito.
O extraordinário livro de Fernando Sabino.

Na orelha do livro tem uma observação interessante. Antes vamos dizer que Fernando Sabino nasceu em 1923 e morreu em 2004. O local de nascimento foi Belo Horizonte e o da morte, o Rio de Janeiro. Geraldo Viramundo, virou apenas o mundo das Minas Gerais. Foi o suficiente para ser universal.O grande mentecapto foi concebido em 1946, quando o escritor tinha apenas 23 anos. Ficou como um embrião, sob a forma de pequenas anotações. Em 1979, com apenas 18 dias de trabalho, ele ganhou a sua forma definitiva. São oito capítulos e um epílogo. Eram tempos da ditadura militar.

Na leitura dos primeiros capítulos tive uma leve decepção. Imaginei que Fernando Sabino estava brincando conosco e, algumas brincadeiras, achei-as meio infantis. Me recordaram até a minha infância. Brincadeiras que eu fazia, não no seminário de Mariana, mas nos de Bom Princípio e de Gravataí. Isso, não nas Minas Gerais, mas nas terras gaúchas. Mas o livro veio num crescendo e, chegando ao último capítulo, eu estava simplesmente maravilhado. Outra vez eu me flagrei lendo o Dom Quixote em seus momentos de lucidez e de mentecaptez, sendo estes últimos melhores do que os da iluminação. Estes representavam a hipocrisia das convenções. Encontrei até a doce Dulcineia, que em Minas, necessariamente, teria que responder pelo nome de Marília. Teria sido, o seu amor, maior? Sancho Panças encontrei dois, Batatinhas e Barbecas. Aí parei de procurar.

A narrativa é breve e andante, como o foi a vida de Geraldo Viramundo. Apenas 33 anos. A causa mortis, consta que era ignorada, mas nela estava envolvido o seu irmão. Coisas de patrimônio.  Nasceu em Rio Acima (hoje oito mil habitantes e trinta e quatro quilômetros distante de Belo Horizonte), em meio a numerosa família e o seu destino e êxito na vida seria trabalhar na olaria ou no armazém do pai. Um padre o levou para o seminário de Mariana, onde, para se esconder de uma molecagem ou fazer uma meditação, cometeu outra maior. Se escondeu dentro do confessionário e aí atendeu a confissão da insaciável Pietrolina, ou seria Peidolina, que irá reencontrar, sempre no ofício, apenas como Dona Lina. Ainda em Rio Acima ocorreu uma tragédia em virtude de proezas com a chegada do trem.

A estas alturas, já no terceiro capítulo, encontramos o Viramundo em Ouro Preto. Aí mantém íntimos contatos com os estudantes da universitária e histórica cidade. Aí conhece a única amada de sua vida, Marília, a filha do governador. Com ela troca intensa e apaixonada correspondência, não acreditando na sacanagem que lhe fizeram os seus amigos estudantes. A sua despedida da cidade ocorreu em função de um festivo baile, em que, literalmente, jogou merda no ventilador. A caminho de Barbacena quer tomar um roseiral inteiro para oferecer rosas para a sua amada. Lá irá conhecer, pela primeira vez o hospício,  mas ainda lhe sobra tempo para mandar prender o alemão, dono do roseiral, e ser candidato a prefeito, contra o candidato único, imposto pelo governador. Dá um verdadeiro show de habilidade política. Esta habilidade lhe custa a prisão, que terá de cumprir em Juiz de Fora.

Em Juiz de Fora, ele, mandado cuidar de cavalos, se afeiçoa a um deles e, com ele, passa a conversar regularmente. Ganha notoriedade. Nesta cidade trava amizade com o general Batatinhas, que também enlouqueceu. É mandado para São João del Rei, fica preso em Tiradentes e, em Congonhas do Campo, passa por uma séria crise espiritual junto aos profetas da cidade. Sempre lhe faltara, desde a meninice, assunto para meditar. Nestas andanças encontra um sonhador, João Tocó, que sonha o sonho de muitos. Enriquecer com os diamantes. No caso, os de Diamantina. Em sua crise religiosa confessa não mais se sentir bem dentro das igrejas.

Em suas viramundices não poderia faltar a cidade de Uberaba, pegar vaca à unha e participar da grande exposição. De Uberaba vai rumando por uma centena de cidades, até chegar em Belo Horizonte. Nesta cidade, tem um reencontro com praticamente todos os personagens que encontrara em suas andanças. O reencontro se dará debaixo de um viaduto, de onde serão levados para  a "Cidade Livre dos Mendigos".  É o encontro dos retirantes do povo brasileiro, na busca de um destino na cidade grande. O mesmo destino também é reservado para as mulheres das casas de tolerância da área central. Lá reencontra Pietrolina, agora apenas Dona Lina, a comandar uma familiar casa de pensão. Geraldo Viramundo vira Antônio Conselheiro, disposto a fazer uma revolução.

Ainda sobra tempo para mostrar o governador em apuros, tanto para receber os revolucionários, como por causa de um fato ocorrido com o seu barbeiro. O novo Conselheiro veta as propostas de conciliação, interrompendo a leitura de um possível acordo cheio de palavras vãs. Confusão generalizada e o Viramundo se retira de Belo Horizonte no rumo da corte, no Rio de Janeiro. Lá, junto com o seu Estado maior, formado pelos dois Sanchos, levaria as suas reivindicações. A caminho, na sua terra natal, ocorre uma grande tragédia, envolvendo a sua família e o armazém. Assim, Geraldo Viramundo, ou, simplesmente, um brasileiro, encontra o seu final trágico de forma absolutamente precoce. Este oitavo capítulo é simplesmente genial. É uma síntese muito bem feita da história do sofrido povo brasileiro, empilhado nas grandes cidades e desassistido de políticas públicas. Estas, quando ocorrem, passam a ser criminalizadas imediatamente. Que força nas palavras! No início da 'República" esta criminalização recebia o nome de higienização. A história da favelização do Rio de Janeiro, onde se encontram milhares de grandes mentecaptos, é exemplar).

Na contracapa do livro temos três referências ao livro. Tristão de Ataíde, Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade. Fico com o poeta e conterrâneo de Fernando Sabino: "Fernando Sabino, na posse madura da arte de escrever, mostra-se sempre à vontade neste livro ágil, matreiro e comovente, em que loucura e razão se entrelaçam e não se sabe ao certo onde está o absurdo. [...] A gente sai do livro amando o mentecapto como o irmão que não tivemos". Muito humor e a poderosa arma da ironia. E, como acabo de ler, deixo aqui registrado. É uma frase do Henfil, um outro mineiro: "O humor que vale para mim é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime".

O grande mentecapto também foi levado ao cinema. Geraldo Viramundo é interpretado por Diogo Vilela. Deixo o link. https://www.youtube.com/watch?v=y2AD9XNA8QI






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