segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Úrsula (1859). Maria Firmina dos Reis. Mulher e afro descendente.

Cheguei ao livro, através de um comentário que fiz sobre a cidade de São Luís, que fazia uma referência ao livro de Josué Montello, Os tambores de São Luís. Eis o comentário, ao qual deixei registrado, os meus agradecimentos. "Olá, professor. Uma dica que minha esposa e eu damos - ela é Maranhense - é um livro de 1859 chamado Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, também maranhense. É considerado o primeiro romance abolicionista do Brasil. Abraços"! Fernando Souza. Renovo aqui os meus agradecimentos.
Úrsula. O próprio livro tem uma história. Ainda terá mais repercussões.


Ao contrário do que eu imaginava, foi fácil encontrar o livro. Ele ganhou uma nova edição, em 2017, pela editora PUC - Minas. Nesta edição está também o conto A escrava, escrito em 1887, no calor da efervescência abolicionista. Como me alertou Fernando Souza, o livro, considerado o primeiro romance abolicionista, na verdade, é muito mais do que isso. Ele é pioneiro também sob outros aspectos, como a visão de uma mulher  e do afrocentrismo no debate da questão. O livro precisa ser contextualizado. Maria Firmina dos Reis é mulata, afrodescendente e letrada. É maranhense e foi professora. observem bem a data da publicação, 1859.

O livro, além de seu valor próprio, tem outras duas preciosidades: Uma introdução, sob o título, Maria Firmina, mulher do seu tempo e do seu país e um posfácio, que vai fundo na análise do grande significado do livro, Úrsula e a desconstrução da razão negra ocidental. Ambos são assinados por Eduardo de Assis Duarte. Este posfácio é uma preciosidade rara. Ele situa o livro dentro da literatura brasileira. E sob este aspecto um livro absolutamente singular.

Maria Firmina tem consciência plena da importância e das repercussões de sua obra e ela mesma alerta sobre isso no prólogo: No posfácio lemos ele: "O prólogo estabelece o território cultural que embasa o projeto do romance. Estamos em 1859 e com seu gesto Maria Firmina aponta o caminho do romance romântico como atitude política de denúncia de injustiças há séculos arraigadas na sociedade patriarcal brasileira e que tinham no escravo - e também na mulher -, suas principais vítimas". Isso é raro na literatura brasileira. Se ela tivesse sido mais ouvida, certamente, não teríamos tido toda a literatura conciliatória de uma escravidão branda, afirmada, especialmente, a partir da década de 1930, quando surgiram as grandes linhas de interpretação de nossa escravidão.

Vamos a alguns dados bibliográficos, dados de contextualização, para melhor situar e compreender a obra. Estes dados estão na apresentação do livro, fornecidos por Eduardo de Assis Duarte: 1822 - Em 11 de março, nasce Maria Firmina dos Reis, em São Luís - MA. Consta em sua Certidão de Batismo ser 'filha natural' de Leonor Felipa dos Reis, 'mulata forra que foi escrava do Comendador Caetano José Teixeira'. Bastarda, não chega a conhecer seu pai, cujo nome está ausente na certidão de batismo.

1830 - Com o falecimento da mãe [...] passa a morar com a avó, na localidade de São José dos Guimarães [...] a autora viveu alguns anos em casa de uma tia materna 'mais bem situada economicamente'. Isso talvez explique o acesso ao letramento e a aquisição de um repertório literário que inclui a presença de obras do Romantismo brasileiro e francês".

1859 - Em gesto inédito em todo o território da lusofonia, Maria Firmina dos Reis traz a público, em São Luís do Maranhão o primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa. [...] Maria Firmina dos Reis não grava seu nome na capa da primeira edição. Inscreve apenas o termo 'uma maranhense'.

1962 - O pesquisador e bibliófilo Horácio de Almeida encontra por acaso o romance Úrsula em meio a um lote de livros usados comprados por ele. [...] É 'o único exemplar remanescente', da edição de 1959. 1975 - Sai finalmente a edição fac-similar de Úrsula.

A escritora faleceu, pobre e cega em Guimarães, em 1917. Foi professora da escola pública, onde permitia a presença masculina e feminina na mesma sala. Eu pesquisei a localização da cidade de Guimarães. Fica na região litorânea, não distante de Alcântara. 58 quilômetros em linha reta e 200 por rodovia. Para se situar melhor, Alcântara está distante, por mar, 18 quilômetros de São Luís. Próximo a Guimarães está Turiaçu, cenário rural de outro monumental romance maranhense envolvendo a escravidão, Os tambores de São Luís, de Josué Montello. Digo isso para falar que no Maranhão se situava um dos mais importantes polos agrícolas do Brasil, ao longo do segundo reinado, no auge do regime da escravidão.


No posfácio estão assinaladas todas a virtudes do romance, que não são poucas, e que não cabe aqui, serem todas especificadas. Ao longo da leitura fiquei meio intrigado com algumas fragilidades psicológicas dos personagens do romance. Eduardo de Assis Duarte concorda, para dizer, que o romance obedece a outros objetivos e passa a elencá-los. O romance é profundamente humano, cristão e de aproximação entre a s raças. Mas não se trata de um romance piegas e conciliatório. A sua narrativa parte dos valores cristãos, para ter uma melhor sintonia com o público leitor. A partir disso é que afirma os seus propósitos, que estão alinhados no posfácio sob o título, prestem atenção: Úrsula e a desconstrução da razão negra ocidental. Um tema de profundidade. Lembrando que Achille Mbembe tem um livro sob o título de Crítica da razão negra.

Concluo o post com uma convocação à leitura e ao debate, com redobrada atenção ao capítulo IX, em que mãe Susana, conta para Túlio (Susana e Túlio são os personagens negros), que ganhara a alforria, sobre o significado da liberdade e sobre os fundamentos da organização solidária dos ancestrais africanos. Uma razão superior à razão ocidental. O romance se centra nos personagens brancos de Úrsula, anjo de bondade e Tancredo.Eles formam o par romântico. O pai de Tancredo, que lhe toma Adelaide, a menina de seus primeiros sonhos, e Fernando, o comendador. Fernando simboliza os horrores e sofrimentos da escravidão. Ele tinha o "inferno em seu coração".

2 comentários:

  1. Soube desse livro também recentemente e adorei.
    beijos
    Suzi

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  2. Oi Suzi. E ele é maravilhoso. E que posfácio! Obrigado pelo seu comentário.

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