quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Canção para os fonemas da alegria. Thiago de Mello.

2018 é o ano em que comemoramos os cinquenta anos da publicação da Pedagogia do oprimido de Paulo Freire. É tempo de retomar a sua leitura. Sobre Paulo Freire quero apenas dizer que é um dos educadores que é tomado como referência no mundo inteiro, doutor honoris causa por 41 universidades (entre elas não se inclui a USP), e é hoje o Patrono da Educação Brasileira. Um dos orgulhos de minha vida é ter convivido com ele, ao menos por alguns momentos.
 O primeiro grande livro do mestre.

Educação como prática da liberdade é o primeiro de seus livros. Foi escrito num tempo de desassossego, em meio a fugas empreendidas após o golpe civil militar que derrubou um dos mais queridos governos que o Brasil já teve, o governo de João Goulart, o que mais profundamente pensou reformas para este país. Um país, que era, dominantemente, um país de analfabetos. Angicos (SE) já havia entrado na vida do grande pensador/educador.

Educação como prática da liberdade tem apresentação de Francisco Weffort, sob o título de Educação e Política - Reflexões sociológicas sobre uma pedagogia da liberdade, em que faz uma contextualização da obra, bem como apresenta os seus fundamentos. Mas também tem poesia, uma exaltação ao método de alfabetização, aplicado lá em Angicos. É sublime e é por isso que eu o apresento:

CANÇÃO PARA OS FONEMAS DA ALEGRIA.

THIAGO DE MELLO.

Peço licença para algumas coisas,
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano,
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,

e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

As vezes nem há casa: é só chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:

porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,

e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão

que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que se paga por ser homem,
mas um modo de amar - e de ajudar

o mundo a ser melhor. Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:

ele atravessa os campos espalhando
a boa nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,

contra o bicho de quatrocentos anos, 
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:

canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.

Santiago do Chile,
verão de 1964.

O poema também pode ser encontrado em: Faz Escuro Mas eu Canto - Porque a Manhã Vai Chegar. Poesias, Editora Civilização Brasileira, Rio, 1965.

Talvez destoe, mas creio que não. Ouvi de Paulo Freire - que do regional se vai ao universal. Então..... a minha alma gaúcha me obriga a acrescentar, ao menos uma estrofe, de um outro poema de amor, em que um encontro com a vida, só é possível, uma vez rompida toda a timidez de uma formação, possibilitada pelo envio de um simples bilhete, graças a alfabetização. Nada a ver com o método, mas sim, com o desejo.

"Hei de ter uma tabuada e o meu livro
 Queres Ler
Vou aprender a fazer contas e algum bilhete
 escrever
Pra que a filha do seu Bento saiba que ela é 
meu bem querer
E se não for por escrito eu não me animo a
dizer" .

A autoria é dos irmãos João Batista Machado  e Júlio Machado da Silva Filho. Dou o link da música, com aquele que é considerado como o seu melhor intérprete. César Passarinho. https://www.youtube.com/watch?v=OsokOgHxT0Y





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