quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Zé Dirceu. Memórias - Volume I.

O livro de José Dirceu Zé Dirceu - Memórias - Volume I, me chamou muita atenção desde os primeiros comentários sobre sua disposição em escrevê-lo. Comprei-o já no pré lançamento, que, descobri agora, é uma forma de financiamento, um adiantamento do leitor para que o autor tenha a possibilidade de publicação de sua obra. Certamente bem mais barato do que o caro financiamento bancário.
Capa do livro Zé Dirceu. Um lançamento setembro 2018. Uma importante fonte para a história.


O meu particular interesse é porque residi em Umuarama entre os anos de 1969 e 1993 e eu ouvia falar muito de um "terrorista" da luta armada que se refugiara na cidade de Cruzeiro do Oeste, onde ele montou uma loja e se casou com uma moça da cidade. Ela se chamava Clara e com ela teve um filho, o atual deputado federal Zeca Dirceu. Também se falava muito, que a única pessoa que sabia de sua história era o Dr. Ivo Sooma, um dos melhores seres humanos que eu conheci ao longo de minha vida e com o qual, já ao final dos anos 1980, conversava abertamente sobre o caso. O livro fala também do Dr. Gil. Em torno do Dr. Gil se formou, com certeza, o círculo de pessoas mais cultas de Umuarama.

Também ao final dos anos 1980 me filiei ao PT e, em um determinado momento, ocupei a presidência do partido na cidade. Um dia, sabendo da presença sua em Cruzeiro do Oeste, fui procurá-lo na casa de Clara, que eu já conhecia, uma vez que ela frequentava as festas do CTG Querência da Amizade. O meu intento era agendar um encontro seu com a nossa militância. Os seus afazeres o impediram de atender a nossa demanda. A sua visita à cidade atendia exclusivamente a agenda familiar. Em outro post farei algum recorte sobre esta passagem, porque agora, o objetivo é o livro.

Quando comecei a leitura, imediatamente me chamou atenção a profundidade de suas análises e a devida contextualização dos fatos vividos e rememorados. Já na leitura dos primeiros capítulos, tirei a minha primeira conclusão: Somente a prisão tornou possível este livro. Ele terminou de ser escrito em julho de 2018 e foi lançado no mercado no mês de setembro. Possui 34 capítulos, um epílogo e dois anexos. Possui 495 páginas. É um lançamento da Geração Editorial. Como consta na capa - Volume I, existe a certeza de que virá o II, o que está anunciado no epílogo deste primeiro volume. A área de abrangência é até o ano de 2007. 2007 é, portanto, o marco divisório entre os dois volumes.

Na contracapa do livro, para situar os principais temas, lemos o seguinte: "No primeiro volume de suas memórias [...] ele expõe o que jamais foi dito sobre sua vida e sobre os principais líderes da política brasileira nos últimos 50 anos. Um livro imprescindível para se entender como foi a luta contra a ditadura militar, a redemocratização, a derrubada do presidente Fernando Collor, a oposição aos governos de Fernando Henrique Cardoso, a eleição de Lula e Dilma e o atual momento político do país". É a história viva, contada por um de seus sujeitos históricos, quase sempre na condição de protagonista. Destacaria ainda, dentro da redemocratização, a questão da fundação do PT, de seu projeto de ser um partido de massas e jamais de vanguarda. Um partido, portanto, de democracia, de difícil democracia.

A leitura é apaixonante e todos os capítulos tem a sua importância. Mas eu destacaria aqueles sobre os quais ainda não temos tanta literatura. Assim, a fundação do PT, de sua constituição histórica, e das fontes que lhe deram origem. São passados carregados de história que confluem. Isso obviamente torna a sua condução algo extremamente complicado. As pessoas vinham portando muitas certezas. Tenho comigo, especialmente após esta leitura, que é o seu ideal socialista que mantém o partido em pé, que não permitiu a sua destruição ou autodestruição e que lhe dará, ainda, uma longa vida. Desde a sua fundação, o PT é presença forte em todos os momentos importantes de nossa história.

Destaque especial também merece a construção e a chegada ao poder e o seu difícil exercício deste. Zé Dirceu ganhou notória fama de grande articulador. Construção de alianças de alianças e garantias de governabilidade necessariamente passavam por ele. Havia autorizações e desautorizações, inimigos explícitos e muito fogo amigo. Nomes e fatos são explicitados. Entre eles está a crise do mensalão, que culminou com a cassação de seu mandato, seguida de uma nova espécie de exílio, desta vez dentro de seu próprio país.

O livro também ganha destaque na análise das questões fundamentais do PT à frente do governo e a reação que estas políticas causaram na elite brasileira, inimiga histórica de todas as causas populares ao longo de nossa história. Neste sentido existe uma bela análise da trajetória do PSDB, que se distancia da social democracia para abraçar as políticas neoliberais do Estado mínimo e do mercado máximo, atendendo os interesses do atual estágio do capitalismo financeiro e improdutivo. O PSDB se tornou o instrumento de execução destas políticas, capitaneando o golpe de 2016.

São eles os reias inimigos das realizações do PT, especialmente, quando este afirma a soberania nacional e popular e os direitos sociais e os do trabalhador. Vejamos um trecho do epílogo, quando ele analisa o Brasil, já após o golpe de 2016: "Não é preciso fazer um balanço e um histórico do governo Lula e de seus, nossos erros, alguns crassos. Basta conferir a agenda, o discurso, a propaganda do governo Temer e de seus reais aliados, a mídia e o grande capital financeiro e rentista. É fácil constatar: tudo o que eles atacam é nossa realização, que diz respeito aos interesses nacionais e aos direitos dos trabalhadores.
A cortina de fumaça da corrupção só é usada e desvendada para encobrir a verdadeira natureza e o real objetivo do golpe e da volta regressiva dos governos tucanos a serviço da banca internacional e da elite reacionária do país, de suas classes médias iludidas e enganadas" (pág.458).

Esta citação retirada do apêndice, que é uma perfeita análise de conjuntura do momento que estamos vivendo. Nele também afirma as razões do golpe: "Era insuportável para a elite ver o povo 'invadir' seu meio social, cultural, seus espaços 'exclusivos' (universidades, aeroportos e aviões, por exemplo); ver o povo ascender, por políticas públicas universais,, na cultura, na renda, na cidadania e no poder" (pág. 459).

Apresento ainda os dois parágrafos finais do capítulo 34, o último, antes do epílogo. Eles sintetizam o sentido da luta que pautou toda a sua vida e aponta para a sua continuidade: "No afã de derrubar Lula e o PT, nossas elites manipulam e açulam o ódio e o preconceito. Buscam atalhos, não vacilando em assassinar biografias. Ou até vidas, como na ditadura civil-militar de 1964. Seu alvo principal é a anulação das lideranças e de suas ações, fazer regredir o que se acumulou de força social e de cultura política. Colocar a roda da História rodando ao contrário para fazer o tempo retroceder. Manter o status quo dos muito ricos, que moldam a sociedade à sua imagem e semelhança não em renda, riqueza e cultura, mas no acatamento de sua dominação.

Nós, como outros, éramos uma ameaça, potenciais candidatos de um projeto-processo histórico que não se encerrou. Apenas retrocedeu pela força, agora da própria Lei e do Parlamento, usados como instrumento do golpe de 2016" (pág. 451).

O livro foi revisado por ninguém mais, ninguém menos do que Fernando Morais. O segundo volume está sendo escrito, com previsão de lançamento no primeiro semestre de 2019. E - com certeza - no futuro, muitos historiadores se debruçarão sobre este livro para escrever a história destes momentos vividos pelo país. É um livro  escrito com a paixão do viver, com todas as suas dores e alegrias, suas denúncias e seus anúncios. A história de uma vida, escrita com paixão, sentido e finalidade. E, obviamente, também uma versão em sua defesa perante os fatos. Dirceu sempre foi protagonista.


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