domingo, 19 de abril de 2020

Não é possível ser cristão e neoliberal. Dom Miguel Esteban Hesayne.

Hoje (16.04.2020), remexendo em papéis antigos, encontrei um documento de uma atualidade impressionante. Pelos meus cálculos, o guardo desde o final dos anos 1990. O documento, na verdade, é um manifesto, assinado pelo bispo emérito da cidade de Viedma, e que tem o sugestivo título de Não é possível ser cristão e neoliberal. Como nesses tempos de Coronavírus, discutir o papel ou as funções do Estado na organização da sociedade se constitui num tema muito atual, não hesitei em publicá-lo. É nos estados que professam esta ideologia que mais gente está  morrendo. É que eles sobrepõem o econômico à própria vida humana, sendo que a vida, para os cristãos, é absolutamente primordial. E, ressalte-se, vida em abundância.
Catedral de Nuestra Senora de la Merced, de Viedma.
O bispo Miguel Esteban Hesayne. Coerência entre a doutrina e a sua prática.

Vi algo sobre a cidade e sobre o seu bispo. Viedma está a quase mil quilômetros de distância, ao sul de Buenos Aires, na província e às margens do Rio Negro. Possui em torno de 50.000 habitantes. É a capital da província. Já sobre o seu bispo, vi a manchete do Clarin, anunciando o seu falecimento: "Murió el obispo Miguel Esteban Hesayne, un defensor de los derechos humanos que enfrentó a la dictadura". Altamente elogioso. O falecimento ocorreu no primeiro dia de dezembro de 2019, aos 96 anos de idade. Morte recente, portanto. Vida longa, a deste bravo argentino.

O documento é uma resposta à afirmação/provocação feita no título: Não é possível ser cristão e neoliberal. Vejamos então às incompatibilidades:

...Porque um cristão é discípulo de Jesus, cuja doutrina tem o amor solidário como mandamento central. E foi expresso pela boca do próprio Mestre: 'a felicidade está mais em dar do que receber' (Atos 20,35).

Porque o perfil do cristão é definido pela participação equitativa. Não há vida cristã sem comunidade de bens e pessoas. A igreja é comunhão de pessoas, cujo signo é a convivência fraterna, demonstrada no paradigma da comunidade cristã das origens cristãs, nas quais se revela textualmente: 'repartiam o dinheiro de acordo com as necessidades de cada um' (Atos 2, 45).

Não se pode ser cristão e neoliberal, porque o neoliberalismo é na história real, o capitalismo. A doutrina neoliberal, como demonstrado pelas consequências mais dramáticas de sua prática, situa-se no extremo oposto do Evangelho do Senhor Jesus.

Por outro lado, Jesus Cristo foi, em sua vida histórica, o homem no qual Deus se encarnou para mostrar a conduta de todo Homem que vem a este mundo. Por isso houve escritores sagrados que ensinaram a bela utopia de que a tarefa cristã é adquirir 'os costumes de Deus'. Não fizeram nada além de se basear nas palavras que lemos no Evangelho de Mateus 5,48: 'sejam bons como o Pai Celeste é bom' ou nestas palavras de João 15,22: 'Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado". E comenta o apóstolo, na sua primeira carta: 'Nisto conhecemos o Amor que ele deu a sua vida por nós. E nós também devemos dar a nossa vida pelos irmãos. Se alguém vive na abundância dos bens deste mundo, vê o seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavras nem de língua, mas por ações e em verdade' João 3, 16-18).

O cristão é o imitador de Jesus Cristo. E Jesus Cristo é o homem para os demais... A personalidade cristã consiste em doar-se e o Espírito que a anima é o que a impulsiona a fazer, de toda a humanidade, uma comunidade, uma comunidade fraterna, justa e solidária, com possibilidades iguais para todos. É a nova civilização do Amor, é a alternativa de convivência cidadã a partir  dos valores de Jesus Cristo, o Senhor da História. Ser cristão consiste em deixar-se animar pelo Espírito do Ressuscitado que recria o mundo dos homens num mundo novo e habitável para a família dos filhos de Deus. O neoliberal, ao contrário, basicamente orientado pela mentalidade capitalista cuja dinâmica interna leva à acumulação de bens, nutre-se em sua atividade econômica do:

- espírito do lucro, isto é, do desejo de obter ganhos cada vez maiores.

- espírito de competição, exacerbado por um forte individualismo. Isto provoca a rivalidade ou luta entre os indivíduos para conseguir os maiores ganhos possíveis e faz sempre tender para o monopólio, que representa o máximo de liberdade própria e o máximo de limitação alheia.

- espírito de racionalização, isto é, avaliar todas as coisas com base em cálculos de custo e lucro.

O espírito do NEOLIBERALISMO é diametralmente oposto ao Espírito dos Cristãos.

- porque no país onde se implanta, engendra morte, pela marginalização fria da maioria restante, criando a classe dos excluídos;

- porque desumaniza a técnica e esvazia de conteúdos humanos os progressos econômicos, que no projeto cristão devem servir para uma distribuição equitativa;

- porque altera e corrompe a liberdade e a democracia, pois não as faz acompanhar dos valores da justiça, da verdade e do amor solidário;

- porque seu dogmatismo e inflexibilidade na imposição da lei de mercado negam e impedem toda possibilidade de alternativa deixando de existir de fato uma convivência comunitária devido aos interesses privados absolutos de uma minoria poderosa;

- porque são violados de fato os direitos humanos elementares, necessários para que se alcance a dignidade humana tanto pessoal quanto comunitária.

Enfim, não se pode ser cristão e neoliberal porque a fé cristã promove a cultura da vida e a ideologia neoliberal, em sua realização histórica é a ante-sala da morte para a maioria excluída. Isto significa que o cristão se define pela construção da PAZ que Jesus Cristo conquistou com sua morte e ressurreição e dá a todo homem e mulher de boa vontade".

XXXXXX

Dois adendos, a partir de minhas leituras mais recentes. O primeiro é de Paulo Freire, retirado de seu livro Cartas a Cristina - Reflexões sobre minha vida e minha práxis, em que condena a dissociação entre os valores e a prática cristã. No caso, as práticas racistas. Vejamos:


"o processo discriminatório gera em quem discrimina um mecanismo de defesa que quase os petrifica ou os "impermeabiliza". Às vezes, até parece que se convencem mas não se convertem. Intelectualmente, aceitam que se contradizem, mas visceralmente, não se sentem em contradição. Não há para eles, inconciliação entre o discurso cristão do "ama a teu próximo como a ti mesmo" e a prática racista. O discriminado ou a discriminada, para o racista, não é 'outro', é 'isto'. É como se a prática de discriminar emburrecesse as pessoas além de embrutecê-las" Página 235.


O segundo, o retiro do belo livro de Eça de Queirós, O crime do padre Amaro. Nele o padre Amaro, discutindo com o cônego Dias, afirma que a moral existe apenas para ser pregada na escola e nos púlpitos da igreja. Na prática, outros valores imperam.



4 comentários:

  1. Li, gostei, compartilhei, copiei e arquivei. Encontrei hoje, dia 25/04/2020 08:36.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Um senhor documento. É o Cristo trazido aos tempos presentes. Muito obrigado, Venceslau pelo seu comentário.

      Excluir
  2. Amigo, muito esclarecedor, uma resposta às ansiedades dos cristaos verdadeiros que sao diariamente rechassados pelo seu posicionamento ideologico

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Um senhor documento. A coerência é um dos aspectos fundamentais na vida de um ser humano. Muito obrigado pelo seu comentário.

      Excluir

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.