terça-feira, 30 de junho de 2020

O som e a fúria. William Faulkner. Nobel de literatura - 1949.

Não sei exatamente como cheguei ao livro de William Faulkner, O som e a fúria. Creio ter sido por uma passagem de O homem medíocre, do ítalo argentino José Ingenieros. Numa rápida consulta, vi que Faulkner era Nobel de Literatura e que esta era a sua obra principal. O tema me interessou. Uma família decadente do sul dos Estados Unidos. Agora vem os complicadores. Não gostei da leitura e só não a interrompi por ser extremamente persistente, teimoso mesmo. Depois eu explico.
Edição da Companhia das Letras. 2019.

O livro tem a assinatura de sua escrita - como Nova York, outubro de 1928. Já o autor, nasceu em 1897 e morreu em 1962. O Nobel foi ganho no ano de 1949. O livro está dividido em quatro partes, anunciadas por diferentes datas: I. 7 de abril, 1928; II. 2 de junho, 1910; III. 6 de abril, 1928; IV. 8 de abril, 1928. A partir de 1946 ganhou um apêndice: Compson 1699-1945. Esse apêndice é bem esclarecedor e sugiro que seja lido antes do início da leitura do livro. Ali estão as vidas dos principais personagens envolvidos na narrativa. Da orelha da contracapa retiro dois parágrafos:

"Publicado em 1929, quando William Faulkner tinha apenas 32 anos, O som e a fúria é uma epopeia do Sul. Ao narrar as agruras dos Compson, uma família do Mississipi no auge de sua desagregação, Faulkner sintetiza a ruína de um mundo e de um grupo social. Mas não só. O passado aqui é o grande tema, que retorna sempre e, principalmente, não se ordena segundo a "afirmação redonda e idiota do relógio".

Inovador da forma, Faulkner estilhaça a perspectiva clássica do tempo, sobretudo na seção narrada pelo ponto de vista de Benjy, que "nasceu bobo" - personagem que representa a alusão ao título, extraída da passagem de Macbeth em que a vida é definida como 'uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significa nada'. Com seus arroubos de ódio e crueldade, lampejos de esperança e a constante contaminação do real pelo delírio, O som e a fúria é uma obra-prima incontornável, que não perde sua atualidade e segue a ecoar, como o grito de Benjy no fim do romance, 'uma agonia sem olhos e sem língua; puro som".

Importantes esclarecimentos são trazidos pelo tradutor. Ao final do livro, Paulo Henriques Britto faz duas críticas ao livro a partir de Harold Bloom. Vejamos: "A primeira é que o impacto do Ulysses de Joyce sobre o romance de Faulkner é um tanto óbvio; em particular por conta da voz de Quentin, o protagonista da segunda parte, que 'é, de modo excessivamente nítido, a voz de Stephen Dedalus'. Poderíamos acrescentar que, além do fluxo de consciência, um outro importante recurso joyciano foi utilizado no livro: o leitor só recebe as informações necessárias para compreender boa parte do que lhe é apresentado bem depois das passagens que elas finalmente esclarecem, o que torna a releitura de toda a obra uma exigência fundamental. Em defesa de Faulkner, seria possível argumentar que, tendo O som e a fúria sido publicado apenas cinco anos depois do romance de Joyce, o próprio fato de ter o romancista norte-americano lido, assimilado e emulado com sucesso a obra do irlandês em tão pouco tempo indica o quanto ele estava atento para o que havia de mais avançado em matéria de ficção e preparado para enfrentar o desafio.

A segunda crítica é talvez a mais severa, e já ocorreu a outros leitores - Bloom cita Hugh Kenner, e eu próprio tive esta impressão a primeira vez que li o livro: há um certo descompasso entre a sofisticação técnica do stream of consciousness adotado por Faulkner e a substância francamente melodramática e folhetinesca do enredo. No contexto do Ulysses - uma narrativa em que muito pouco do 'romanesco' acontece - a ourivesaria estilística de Joyce parece perfeitamente adequada. Afinal, não há suspense, intrigas, revelações, conflitos que fervilham e por fim explodem, nada ou quase nada da maquinaria normal de uma narrativa ficcional extensa; é simplesmente a linguagem virtuosíssima de Joyce que sustenta o interesse do leitor. Mas numa história que contém uma castração, um suicídio, uma acusação de pedofilia, um caso de retardo mental grave, desfalques de um roubo, uma fuga no meio da noite, uma perseguição implacável, amores incestuosos e ódios tremendos no seio de uma família decadente, o leitor pode se perguntar com razão se as descontinuidades cronológicas, a opacidade dos monólogos interiores e as demais dificuldades criadas pelo autor - como, por exemplo, o fato de dois personagens de sexos diferentes terem o mesmo nome, ou de um mesmo personagem aparecer ora com um nome, ora com outro - não constituiriam excessos dispensáveis".

O tradutor faz uma outra interessante observação: "E, no entanto, feitas essas ressalvas, o fato é que O som e a fúria se tornou um clássico, um livro que resiste às críticas, sustenta releituras e apaixona sucessivas gerações de leitores". Concordo com a necessidade da releitura. Creio que agora eu estaria mais preparado para a sua leitura. Mas essa é uma tarefa que eu deixo para os especialistas. Li o Ulysses de Joyce. Mas foi em grupo, com a ajuda de um especialista.

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