sexta-feira, 3 de julho de 2020

Como me tornei estúpido. Martin Page.

Deste livro eu guardo a origem. Ele tem uma dedicatória. "Ao grande Pedro Elói. Que você continue  com essa cabeça privilegiada. Um abraço".Júlio Hey. Me lembro perfeitamente do Júlio, um aluno do curso de Publicidade e Propaganda. Ao Júlio, um duplo agradecimento; pelo livro e pelo elogio. O livro em questão é Como me tornei estúpido, do escritor francês Martin Page. A edição francesa data de 2001 e a brasileira, pela Rocco, é de 2005. A tradução é de Carlos Nougué.
Tornar-se estúpido não foi uma tarefa tão simples. Uma vez tocado pela consciência...

O livro tem uma bela frase em epígrafe. É uma citação de O crime de lord Arthur Savile, de Oscar Wilde. "Ele lhes enviava o que eles não conheciam". Seria isso uma coisa perigosa? Creio que sim. Esse perigo está expresso também através de uma citação do livro do Eclesiastes: "Quem tem a sua ciência aumentada, este também tem aumentada a sua dor". Bastariam essas duas frase para um belo tratado sobre educação. Mas, Antoine, o jovem do título do livro, não fora prevenido dos perigos do estudo. Vejamos: "Mas, não tendo tido jamais a felicidade de frequentar o catecismo com as outras crianças, não foi prevenido dos perigos do estudo. Os cristãos tem a sorte, quando jovens, de ser postos em guarda contra os perigos da inteligência; por toda a vida saberão distanciar-se dela. Bem-aventurados os pobres de espírito".

Quem era Antoine? Na orelha do livro encontramos uma explicitação: "Antoine, o protagonista deste romance, é um rapaz como muitos outros. Não gosta de explorações colonialistas, não gosta que lhe obriguem a estudar assuntos desinteressantes, odeia burocracia e todas as suas máscaras.

Traduzir do aramaico e conhecer a fundo o cinema de Sam Peckinpah e Franz Capra, no entanto, não o levaram muito longe. Por isso um belo dia, Antoine anuncia a seus amigos mais queridos - Ganja, Charlotte, Aslee e Rodolphe - um plano perfeito. Investir na idiotice, como forma de sobrevivência.

 Depois de tentar o alcoolismo e o suicídio, Antoine está convencido de que só a estupidez lhe permitirá ser plenamente aceito pela sociedade em que vive.

E o que pode ser mais estúpido que ganhar dinheiro, muito dinheiro, e gastar em bens de consumo inúteis?

Manipulando imagens nonsense deliciosas, verdadeira homenagem a mestres do surrealismo e do humor francês, como Boris Vian, Alfred Jarry e Eric Satie, Martin Page oferece a seus leitores um banquete para a inteligência. Um livro leve, fácil de ler, enganosamente simples, e rico, repleto de minuciosas citações e piadas ao pé do ouvido. Um livro feito sob medida para todos os Antoines que existem por aí.

Os dois capítulos da resistência à idiotia são extraordinários. A tentativa de se tornar um alcoólatra ou um suicida são dois capítulos de um humor extraordinário. Ele faz cursos, com salas apropriadas à finalidade. Creio que conseguem imaginar! Já o caminho para a idiotice foi fácil e no caso de Antoine, isso foi facilitado por um amigo de infância, que se tornara empreendedor, um rico corretor de valores, que em agradecimento por tê-lo lançado nos caminhos do sucesso, o acolhe. A idiotia lhe vem junto com o dinheiro. Vida vazia, vida burguesa, vida de bens de consumo fúteis e, por óbvio, belas mulheres, carrões, roupas de marca, Nikes e McDonalds. E nenhuma preocupação ambiental. Doses de Felizac não podem faltar. Antoine, no entanto, tem resistências e recaídas.

Nessa sua nova vida plena ele sofre um sequestro. São os seus amigos de infância. O valor do livro está, obviamente, na sua ironia. O drama da existência vazia de significados e de todas as imagináveis e inimagináveis fugas possíveis e impossíveis. O drama da existência humana, narrada por um jovem antropólogo.

Na orelha da contracapa lemos sobre o autor: "Martin Page nasceu em 7 de fevereiro de 1975 e estudou antropologia. Convencido de que a escrita não exige a convivência em ambientes hostis, Martin Page tenta, até hoje, e desesperadamente, levar uma vida tranquila". Na contracapa um elogio do Le Monde: "Martin Page fez um romance coberto de razões e que revela um escritor que domina seu estilo tão bem quanto seu humor fino e sutil". Seria essa sua escrita uma sessão de psicanálise?

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