Depois de ler sobre Maquiavel, creio termos atingido as condições necessárias para ler a sua principal obra e, termos dela, uma razoável compreensão. Vamos então, a algumas questões fundamentais de O Príncipe, no ousado intuito de oferecer algumas dicas que possam, possivelmente, servir de guia para a sua leitura. Sempre ouço falar das dificuldades em sua leitura. Ela decorre dos detalhes históricos que sempre são apresentados para ilustrar a sua argumentação. Ele é um livro de época e, escrito para a sua época. E essa época é de grandes transformações. Uma época em que o poder é arrebatado dos céus e passa a ser exercido aqui na Terra, pelos homens. E esses homens precisam ter algumas qualidades, sem as quais o fracasso dos príncipes será uma mera questão de tempo. Forças exteriores e superiores aos humanos não mais intervirão nos destinos da política.
O príncipe. Maquiavel. L&PM Pocket. 2007. Tradução do italiano: Antonio Caruccio-Caporale.Datas são importantes. Não para serem decoradas, mas para serem contextualizadas. Dito isso, vamos a Maquiavel e situá-lo no tempo e no espaço. Ele nasceu no ano de 1469 e morreu em 1527, na cidade de Florença, na destroçada e dividida Itália de seu tempo. São tempos do Humanismo e do Renascimento. É retomada a visão clássica de mundo, dos gregos e romanos. A visão antropocêntrica se contrapõe a uma visão teocêntrica de mundo. Na casa de seus pais não havia grande riqueza material, mas havia a coleção dos volumes da história de Roma, de Tito Lívio. Isso dá origem a um outro grande livro do pensador - Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio e a outro importante princípio seu, a importância do estudo da história passada para a interpretação do tempo presente.
A visão que Maquiavel tinha dos seres humanos também é fundamental para a compreensão de sua obra. Vamos primeiramente ver uma definição sua a respeito: "Dos homens, em realidade, pode-se dizer genericamente que eles são ingratos, volúveis, fementidos, e dissimulados, fugidios quando há perigo, e cobiçosos. Enquanto ages em seu benefício, e contanto que a tua necessidade esteja ao longe, todos estão ao teu lado e oferecem-te o seu sangue, os seus bens, as suas vidas e os seus filhos. Ao avizinhar-se, porém, essa necessidade, eles esquivam-se. Um príncipe que se fie inteiramente na palavra desses homens, sem prover-se de quaisquer outras garantias, sucumbirá" (Capítulo XVII).
Outra questão importante diz respeito ao caráter repetitivo dessas características. Elas pertencem à própria natureza humana. E como são repetitivas, elas são previsíveis. Cabe ao príncipe fazer essas previsões e, a forma de fazê-lo, será o estudo da história, dos grandes príncipes do passado, especialmente, os do tempo de Roma, do seu período republicano. A história lhe dará exemplos de como agir e não agir. Eis a importância da presença dos livros de Tito Lívio em sua casa.
Também considero fundamental que se saiba algo em torno da forma da escrita de O príncipe. A forma é a do aconselhamento. Quando ele tinha em torno de 30 anos, ele exerceu um importante cargo político (segundo chanceler). Isso lhe conferiu bastante experiência política, assimilada a partir de suas observações e análises. Assim ele se viu na condição de dar conselhos aos governantes de seu tempo, aos príncipes. Quais os tipos de principados existiam, quais as qualidades necessárias ao príncipe, o que ele deveria evitar, que tipos de exércitos ele deveria ter, que estratégias aplicar... etc., etc. Estes conselhos estão ao longo de toda a obra, mas se concentram mais quando ele fala especificamente do príncipe. A leitura é bastante facilitada pelos títulos que ele dá aos 26 capítulos da obra, uma espécie de síntese de cada um deles.
A grosso modo, assim eles são apresentados: Do I ao XI ele fala sobre os principados. Os resultantes de conquistas, dos hereditários, dos mistos, exemplos históricos de como foram governados, sobre a importância do príncipe ter o povo a seu lado, sobre a prudência no agir, no medir a correlação de forças. Na sequência, dos capítulos XII ao XIV ele fala dos vários tipos de exército, de soldados mercenários, de forças próprias, do conhecimento do príncipe a respeito da estratégia militar. Mas creio que não erramos, em apontar nos capítulos XV ao XXV, o coração, a centralidade da obra, ao apontar as qualidades do príncipe para os novos tempos. Tempos em que a política não mais se guiará por desígnios divinos, mas estará na mão dos príncipes. Dela advirão os conceitos fundamentais da obra.
Já no capítulo XV, aparece o conceito da verdade efetiva das coisas. Da política como ela é e não como ela deveria ser. Vejamos: "Contudo, sendo o meu intento escrever coisas úteis àqueles que as lerão, parece-me mais conveniente conformar as minhas palavras à verdade efetiva do meu objeto que a uma visão imaginária do mesmo. Muitos foram os que conceberam repúblicas e principados que jamais foram vistos ou reconhecidos como tais" (Capítulo XV). Mas vamos adiante, com o título dos capítulos, acrescidos de alguma citação ou observação.
Capítulo XVI. Da liberalidade e da parcimônia. Que capítulo atual! Versa sobre os gastos do príncipe. Se ele agir perdulariamente ele terá que explorar o povo para praticar as suas liberalidades, o que não será um bom caminho. Vejam a pregação de hoje contra os impostos para cobrir os gastos públicos com os direitos sociais. Capítulo XVII. Da crueldade e da piedade, e se é melhor ser amado que temido ou o contrário. Vejamos, a partir do próprio Maquiavel. "Nasce daí o debate: se é melhor ser amado que temido ou o inverso. Dizem que o ideal seria viver-se em ambas as condições, mas, visto que é difícil acordá-las entre si, muito mais seguro é fazer-se temido que amado, quando se tem de renunciar a uma das duas" (Capítulo XVII). Isso é uma decorrência da sua concepção da natureza humana, tema exatamente tratado neste capítulo, possivelmente o mais importante do livro.
Capítulo XVIII. Como devem os príncipes honrar a sua palavra. Mais polêmicas à vista. Vejamos também pelo autor. "Em sendo assim, o príncipe deve fazer por onde alcançar e sustentar o seu poder: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos elogiados, e isto porque apenas às suas aparências e às suas consequências ater-se-á o vulgo, este vulgo cuja presença é predominante no mundo". É o capítulo onde aparece a famosa comparação com os animais. A astúcia do lobo e a força do leão. Vejamos as razões pelas quais o príncipe nem sempre precisa cumprir com a sua palavra: "Portanto, não pode nem deve um soberano prudente cumprir as suas promessas quando um tal cumprimento ameaça voltar-se contra ele e quando se diluem as próprias razões que o levaram a prometer. Se os homens fossem bons, bom não seria esse preceito; mas, visto que eles são pérfidos e que, em teu favor, tampouco honrariam a sua palavra, etiam tu não tens de sentir-te no dever de, em seu favor, honrar a tua".
O capítulo XIX é o mais longo dos capítulos. O seu título é: subtraindo-se ao desprezo e ao ódio. O que o príncipe não pode ser. Ele deve furtar-se de ser odiado e desprezado. Ele será odiado e desprezado "ao ser encarado como volúvel, fraco e leviano, e como pusilânime e irresoluto". Ao contrário disso, ele "deverá precaver-se contra isso como contra um escolho marinho, e empenhar-se para que em suas ações transpareça a grandeza, a coragem, a austeridade e a firmeza". É outro conceito fundamental em Maquiavel. O príncipe deverá ser dotado da virtù, para que, por ela, seja merecedor da fortuna. Ao príncipe é imprescindível a aliança entre a virtù e a fortuna. Isso está maravilhosamente exposto no penúltimo capítulo, o de número XXV, onde ele também explicita a forma pela qual o príncipe seduzirá a fortuna: "Dito isso, concluo que, sendo a sorte (fortuna) inconstante e os homens obstinados em suas formas de agir, estes serão felizes pelo tempo em que com ela convergirem e desditosos quando dela divergirem. E considero o seguinte: que vale mais ser impetuoso que circunspecto, pois que a fortuna é mulher, e, para mantê-la submissa, é preciso batê-la e maltratá-la [sic]. Notamos que ela deixa-se melhor dominar por quem assim procede do que pelos que se portam com frialdade. Por esse motivo, como é mulher, ela é sempre amiga dos jovens: estes são menos judiciosos, mais aguerridos e mais audazes ao comandá-la".
Voltemos agora ao capítulo, em nossa sequência, ao capítulo XX. - Se as fortalezas e tantas outras coisas produzidas pela ação quotidiana dos príncipes são úteis ou não. Ele pondera entre o armar e desarmar o povo, para evitar dissidências e revoltas e, depois de mostrar vantagens e desvantagens, dá o conselho de que a melhor forma de intentar os seus objetivos é o ser benquisto e respeitado pelo povo. No capítulo XXI, - Como deve portar-se um príncipe para fazer-se benquisto, a exortação mais uma vez se volta às qualidades do príncipe, ele "deve esmerar-se para oferecer de si, em cada gesto seu, a ideia de um homem com grandeza e que excele no pensar". De novo, a ideia da virtù. E o que acontece aos não portadores dela: "Os príncipes irresolutos, para escapar a esses perigos, seguem, o mais das vezes, pela via da neutralidade, e o mais das vezes caem em ruína". O príncipe deve sempre posicionar-se com resolução e firmeza.
O capítulo XXII - Dos ministros dos príncipes e o XXIII - Como escapar dos aduladores me parecem temas mais óbvios. Os aduladores são tidos por Maquiavel como verdadeiras pestes, mas o príncipe, também, jamais deve abrir mão de bons conselhos e bons conselheiros. O capítulo XXIV fala da ruína da Itália de seu tempo, dividida e esfacelada, em razão de nenhum príncipe ter a virtù necessária para promover a sua unificação e retornar ao período da grandeza dos tempos de Roma, sua fonte e inspiração, especialmente os tempos da República, regime pelo qual demonstra sempre sua preferência. Ao capítulo XXV já fizemos a referência, às relações entre a virtù e a fortuna.
Já o último capítulo, o de número XXVI - Exortação à tomada da Itália e à sua libertação dos Bárbaros. É a razão de ser da escrita do livro: "Não se deve portanto, deixar passar esta ocasião: a Itália, tanto tempo passado, há de ver, enfim, a chegada do seu redentor. E faltam-me palavras para exprimir com que amor seria ele recebido em todas aquelas províncias que padeceram com o alúvio invasor dos estrangeiros; com que sede de vingança, com que inabalável fé, com que devoção, com que lágrimas. Que portas fechar-se-lhe-iam? Que povos negar-lhe-iam a obediência? Que inveja ser-lhe-ia oposta? Que italiano negar-lhe-ia o respeito? A cada um repugna esta dominação bárbara. Que a vossa ilustre casa assuma esta missão, com aquela esperança de que são tomadas as justas iniciativas, a fim de que, sob o seu estandarte, nossa Pátria seja engrandecida, e a fim de que, sob os seus auspícios, se comprove este dito por Petrarca: 'Bravura contra o furor // tomará armas; o destruirá num zás // que o antigo valor // no peito italiano inda não jaz'".
Ah sim! Ainda falta a dedicatória - De Nicolau Maquiavel para o magnífico Lourenço de Médicis, certamente no afã, da volta a um cargo público. Depois de considerações várias ele assim conclui: "Destarte, receba, Vossa Magnificência, este singelo dom com o mesmo espírito que anima-me a enviá-lo. Lendo-o e considerando-o atentamente, nele notará meu grande anseio de que Ela eleve-se à majestade que a fortuna e que os seus outros atributos lhe prometem. Se Vossa Magnificência, do alto de sua magnanimidade, vez por outra voltar os olhos para cá embaixo, saberá o quanto me degrada suportar o meu fado (fortuna) infinda e perenemente funesto".
E uma última frase. Eu a tenho anotado num livro que faz a abordagem de Maquiavel. A frase é de Le Goff, mas não apontei a fonte. Ela é profundamente esclarecedora: "O poder político sai em favor das forças econômicas". Por isso, os principados precisam de estabilidade de poder, e tudo fazer para mantê-la. Talvez isso se traduziria, nos dias de hoje, pela necessidade de segurança jurídica.
Deixo ainda os posts relativos a interpretações de O príncipe. Primeiramente o ensaio bibliográfico de Newton Bignoto.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html
Depois a apresentação de seu pensamento por Maria Tereza Sadek para o livro Os clássicos da política.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/nicolau-maquiavel-o-cidadao-sem-fortuna.html
E, a revista História Viva.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/historia-viva-maquiavel-o-genio-de.html

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