Ultimamente tenho lido bastante sobre o modelo chinês de desenvolvimento. Dois livros me chamaram mais a atenção. São eles: China - O socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele e China - Tradição e modernidade na governança do país, de Evandro Menezes de Carvalho. Fiz a resenha desses dois livros. Do primeiro eu chamei a atenção para um conceito todo especial. A desmistificação da economia clássica como um sistema natural, com a sua ênfase na competição. Assim me referi com relação à questão:
Os dois livros sobre a China.
"Da primeira parte do livro quero destacar a força dos argumentos apresentados para a desmistificação da economia clássica, como uma economia natural, em que atua o homo economicus, e as ditas leis da "mão invisível do mercado". Estudos da neurociência analisam as categorias de competição e cooperação e a sua influência sobre o comportamento humano. Os adoecimentos psíquicos atuais nos poupam maiores explicações. Aliás, toda a primeira parte é um mergulho na história da economia clássica, iluminada pelas categorias marxistas". Somos mais felizes quando cooperamos do que quando competimos. E, lembrando, que no processo de competição sempre existirão infinitamente mais perdedores do que vencedores.
Mas o que me motivou a escrever este post é o que está na terceira parte do livro de Evandro Menezes de Carvalho. Esta terceira parte versa sobre o O governo de Xi Jinping e a "nova era" pela revitalização da China, mais precisamente sobre o capítulo 20 - O sonho chinês: a revitalização da nação chinesa. No capítulo anterior já encontramos a provocativa frase "O sonho americano agora é encontrado na China", dita por um dirigente do Partido Comunista Chinês e, ante ela, o autor apresenta a não menos provocativa interrogação a respeito. "Mas será que o sonho chinês é idêntico ao sonho americano?" (Página 391). Vejamos então Xi Jinping (No poder desde 2012) e a abordagem do tema:
Encontramos uma primeira referência numa exposição temática "O caminho para a revitalização", no Museu Nacional, em 2012. Vejamos o seu contexto: "Ela abrangia o período de derrotas, sofrimentos e humilhações sofridas pelos chineses desde as Guerras do Ópio do século XIX até o fim da dinastia Qing, em 1911, e a subsequente fundação da República Popular da China pelo Partido Comunista Chinês, em 1949. Falar em 'sonho chinês' no contexto desta exposição é associar esta expressão à restauração completa da soberania territorial e econômica do país e da dignidade do povo chinês. Para Xi Jinping, 'realizar a grande revitalização da nação constitui o maior sonho da nação chinesa desde o início da época moderna' (Página 397). Autoestima!
O tema é retomado por Xi Jinping no encerramento da Primeira Sessão da 12ª APN (Parlamento), em março de 2013. Foi o tema mais comentado do início do seu mandato. Vejamos a descrição dessa repercussão: "A mídia e as instituições acadêmicas chinesas discutiram o conteúdo deste sonho e a sua distinção em relação ao sonho americano. Na exposição dos contrastes entre um sonho e outro, destacava-se aquilo que é próprio da sociedade chinesa e que a colocava em uma trilha de desenvolvimento que lhe é peculiar. Não era um debate trivial naqueles primeiros anos do mandato de Xi, pois se tratava de um mote que tinha uma função mobilizadora da população ante um cenário de crescimento do PIB em torno de 6%. O objetivo do líder chinês era persuadir os chineses a se empenharem ainda mais na realização de seus projetos de vida e se unirem em torno do projeto de rejuvenescimento da nação. O 'sonho chinês' ressoou como um chamado patriótico ao buscar a sua força discursiva em uma ideia primordial do imaginário do povo chinês: a sua grandeza civilizacional.
O tema voltou ao debate num encontro de think tanks chineses e latino-americanos do PCCH, em Pequim, no ano de 2014. Uma das palestras versou sobre O sonho chinês e o mundo. Indagado sobre as diferenças do 'sonho chinês' do 'sonho americano', assim ele explicou: "que o sonho estadudinense consiste no desenvolvimento do país através dos êxitos individuas; enquanto o 'sonho chinês dá mais atenção ao desenvolvimento integral da nação como foco, mas também estrutural". E o palestrante continuou evidenciando as diferenças.
"Na cultura chinesa, a proteção do interesse coletivo prevalece sobre o individual que, se preciso, deve ceder diante do bem comum. Na cultura estadunidense, refletindo a gramática política do Ocidente, a proteção dos indivíduos em torno da noção de propriedade privada rege a lógica de constituição normativa da sociedade.. Para Wasserstrom, 'o tipo de apego às tradições e fortalecimento do Estado que Xi exalta é às vezes visto como mais propensos a impedir do que ajudar os Sonhadores dos EUA'. Entretanto, para a China, os sonhos do Estado e dos indivíduos não se separam. Xi expressa esta compreensão do seguinte modo: 'a história nos ensina que o futuro e o destino de cada um estão estreitamente vinculados com os do país e da nação'. É o conceito de harmonia, imbricado com o de sonho. Vejamos:
" Nós estamos bem quando o nosso país está bem. Esta indissociabilidade entre nação e indivíduo é a base da já referida noção de 'Grande Harmonia' no pensamento confucionista. Gerenciar a Grande Harmonia de uma nação é uma tarefa de cada indivíduo dentro de uma rede social maior na qual está inserido e dela depende. [...] Para a realização da Grande Harmonia, não é bastante a virtude dos governantes, é preciso que cada indivíduo se dedique ao seu aperfeiçoamento. Diferentemente das sociedades ocidentais capitalistas, onde a virtude muitas vezes é associada à riqueza material individual conquistada e da qual se pressupõe promover o bem comum, na cultura tradicional chinesa o desenvolvimento do bem-estar social provém do autocultivo da virtude por parte de cada indivíduo. Sem isto, a estabilidade social estaria ameaçada e, consequentemente, a sua riqueza material".
O capítulo termina com a apresentação de pesquisas relativas à realização dos sonhos. Eles migram quando o estágio do atendimento das necessidades básicas já foi atendido. Aí surgem necessidades mais elevadas. O autor assim termina este capítulo: "O consumo passou a desempenhar um papel importante na satisfação das expectativas da população. Mas não é a única demanda do povo chinês. Observou Xie Chuntao que 'os cidadãos chineses já não estão simplesmente satisfeitos com o fato de serem alimentados e vestidos. Eles esperam mais direitos democráticos e um ambiente jurídico melhor', mas para ir ao encontro destas reivindicações, o governo chinês sabe que precisa fortalecer a sua capacidade de governança. Não é sem razão que o 'Pensamento de Xi Jinping' expôs que a tarefa de modernização do país para a grande revitalização da nação exige o desenvolvimento de uma 'governança baseada na lei'. Na China, ela terá qualidades distintas se comparada com as culturas jurídico-políticas ocidentais. É a chamada para o capítulo seguinte sobre A governança baseada na lei e no Estado de Virtude.
Neste capítulo aparecem importantes reflexões sobre a questão do Direito e da Justiça. Reflexões sobre os conceitos de racionalidade (do Iluminismo ocidental) e da relacionalidade e do Estado Democrático de Direito e do Estado de Virtude. Esta busca do Estado de Virtude provém do sonho chinês, do aperfeiçoamento de seu mundo de sonhos.
E, cá comigo, eu verifico em minhas conversas que uma das maiores insatisfações brasileiras está no pagamento de impostos, que teoricamente poderiam melhorar a vida de toda a população através da ampliação das políticas públicas. Sei que é difícil entrar nesse debate em virtude de razões históricas de nossa formação cultural. E, eu me lembrando de Tom Jobim, de Wave. "É impossível ser feliz sozinho". Ah! A relacionalidade. Deixo ainda o post da resenha dos dois livros acima citados:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html?m=1
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/china-tradicao-e-modernidade-na.html




.jpg)


.jpg)


