sábado, 17 de janeiro de 2026

As Missões dos jesuítas no Paraguai, vistas em - As veias abertas da América Latina.

O tema das Missões sempre me chamou muita atenção. Sobre elas li bastante e já visitei as reduções que são encontradas no Paraguai, na Argentina e no Rio Grande do Sul. Ao longo deste ano de 2026, há no Rio Grande do Sul, uma extensa programação em comemoração aos 400 anos deste tão significativo fato histórico. As festividades ocorrerão tanto em Porto Alegre, quanto em Santo Ângelo, a principal das cidades missioneiras no estado. As ruínas de São Miguel são Patrimônio Cultural da Humanidade. Os chamados Sete Povos das Missões foram cenário de muitos acontecimentos. Portugueses e espanhóis se empenharam em sua destruição. Pelo Tratado de Madri (1750), houve a troca da portuguesa cidade de Colônia do Sacramento pelos espanhóis Sete Povos das Missões. Além da troca, os assinantes do Tratado deveriam também dar um fim ao experimento dos jesuítas. Segue a sangrenta Guerra Guaranítica e o extermínio dos povos indígenas.

As veias abertas da América latina. Eduardo Galeano. Paz e Terra. 2007. 

Ao reler As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, encontrei uma preciosa referência sobre este experimento jesuítico paraguaio. E como no Brasil estamos comemorando o evento de seus 400 anos, trago para este post, o relato encontrado. Inicia com uma referência aos jesuítas em geral e depois, sobre a sua experiência no Paraguai.

"Os fanáticos padres da Companhia de Jesus, 'guarda negra do papa', haviam assumido a defesa da ordem medieval ante as novas forças que irrompiam no cenário histórico europeu. Entretanto, na América espanhola, as missões dos jesuítas desenvolveram-se sob um signo progressista. Vinham para purificar, mediante o exemplo da abnegação e do ascetismo, uma Igreja católica entregue ao ócio e ao gozo desenfreado dos bens que a conquista pusera à disposição do clero. Foram as Missões do Paraguai as que alcançaram o maior nível; em pouco mais de um século (1603-1768), definiram a capacidade e os fins de seus criadores. Os jesuítas atraíram, mediante a linguagem da música, os índios guaranis que tinham buscado amparo na selva ou que nela haviam permanecido sem se incorporarem ao processo civilizatório dos encomenderos e donos de terra. 

Cento e cinquenta mil índios guaranis puderam, assim, reencontrar a sua organização comunitária primitiva e ressuscitar suas próprias técnicas nos ofícios e nas artes.  Nas missões não existia o latifúndio: a terra era cultivada em parte para a satisfação das necessidades individuais e em parte para desenvolver obras de interesse geral e adquirir os instrumentos de trabalho necessário, que eram de propriedade coletiva. A vida dos índios estava sabiamente organizada; nas oficinas e nas escolas, tornavam-se músicos e artesãos, agricultores, tecedores, atores, pintores, construtores. Não se conhecia o dinheiro; estava proibida a entrada de comerciantes, que deviam negociar a partir de hotéis instalados a certa distância. A Coroa sucumbiu finalmente às pressões dos encomenderos criollos, e os jesuítas foram expulsos da América. Os cadáveres pendiam das árvores nas missões; povoados inteiros foram vendidos nos mercados de escravos do Brasil. Muitos índios voltaram a encontrar refúgio na selva. As bibliotecas dos jesuítas foram parar nos fornos, como combustível, ou foram utilizadas para fazer cartuchos de pólvora". A referência, como explica a nota de rodapé, é uma citação de Jorge Abelardo Ramos, retirada do livro Historia de la nación latino-americana. Buenos Aires, 1968. (Nota 45. Página 248).

A música continua muito forte entre os herdeiros dos missioneiros guaranis. São Luiz Gonzaga é uma espécie de capital da música e de outras tradições missioneiras. Ela abriga os chamados quatro troncos missioneiros: Jaime Caetano Braun, Cenair Maicá, Noel Guarany e, o ainda vivo, Pedro Ortaça. Este, agraciado com títulos de Doutor Honoris causa, de universidades gaúchas, em reconhecimento pelo cultivo das tradições missioneiras. Deixo um link sobre eles. Também é missioneiro um outro monstro sagrado da música missioneira, já falecido, Luiz Carlos Borges. Outro missioneiro é o famoso galo missioneiro, o ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, da Bossoroca. E o Chamamé, então, o que falar!

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/01/a-musica-missioneira-os-4-troncos.html

Deixo também o Érico Veríssimo falando das Missões em sua memorável obra O tempo e o vento.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/erico-verissimo-descreve-as-missoes-o.html

E ainda o melhor livro que li sobre o tema: A República comunista cristã dos guaranis, do padre jesuíta suíço Clovis Lugon.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/03/a-republica-comunista-crista-dos.html 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA. Eduardo Galeano.

Há muito eu desejava fazer a releitura do livro de Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina. Creio que não poderia ter havido melhor oportunidade do que a do momento, por causa do sequestro praticado por Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, de Nicolás Maduro, o governante da Venezuela,. É sabido que o país possui as maiores reservas de petróleo do mundo. Mais explícito do que o foi Trump sobre o motivo desse sequestro, é absolutamente impossível: A posse e o controle do petróleo. Não quero aqui emitir qualquer juízo sobre o governo ou o regime de Maduro. Apenas afirmar que tudo o que aconteceu, se deu às margens do Direito Internacional. A vontade de Trump foi superior a toda a legislação construída ao longo de todo um processo civilizatório. Os governadores de estados brasileiros, ligados à extrema direita, tiveram ou simularam orgasmos múltiplos, ao contemplarem a ação não civilizada de Trump.

As veias abertas da América Latina. Eduardo Galeano. Paz e Terra. 2007. Tradução: Galeno de Freitas.

Dito isso, vamos ao livro, um dos maiores marcos da história. Galeano nos conta sobre seus propósitos: "Esse livro é uma busca de chaves da história passada, que contribui para explicar o tempo presente (que também faz história), a partir da base de que a primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la" (Do posfácio de 1978. Página 341). Galeano terminou a escrita do livro no ano de 1970 e a primeira edição apareceu já em 1971. No Brasil ele apareceu bem tardiamente. Apenas no ano de 1978. Lembro-me bem de sua leitura e de seu uso em sala de aula. Um furor!

É, sem dúvida, um dos maiores livros de denúncia que se possa imaginar. A sangria das riquezas da América Latina, que escorriam pelas "veias abertas", drenadas assim para os países colonialistas e mais tarde imperialistas. É a história da pirataria praticada pelos exploradores espanhóis e portugueses, tanto de nossas riquezas minerais e vegetais, das provenientes da agricultura e, mais tarde, de nossos minerais, nossas riquezas de subsolo. E, ainda mais tarde, a partir dos processos de independência, ou melhor, da troca da dependência da Espanha ou de Portugal, pela Inglaterra, tão ou mais perversa quanto aquelas. Uma história de piratas.

O livro é denso. Tanto em volume quanto em fatos. A edição que tenho em mãos é da Paz e Terra, 46ª edição, do ano de 2007. Presente de um amigo. Ele possui 365 páginas, sob as quais se estendem as duas partes, com os seus cinco capítulos do corpo do trabalho, mais um prefácio de autoria de Isabel Allende, uma introdução e um posfácio, este escrito em 1978. Aos pés da páginas estão centenas de notas explicativas e referências bibliográficas. As duas partes tem os seguintes títulos: Primeira parte: A pobreza do homem como resultado da riqueza da terra; Segunda parte: O desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos do que navegantes.

A primeira parte tem três capítulos. De maneira geral, se ocupa dos tempos coloniais. Colônias espanholas e portuguesas. Exploração pura. Nenhuma colonização. Devastação predatória no mais elevado grau. Vejamos os títulos dos três primeiros capítulos e algumas considerações: 1. Febre de ouro, febre de prata. Aí é tratada mais a questão espanhola, já que encontraram essas riquezas logo de saída. O ouro dos maias e dos astecas, a prata de Potosi; os mecanismos de dominação: entre a cruz e a espada, a cruz do convencimento e o desenraizamento das tradições culturais e a espada da violência. O extermínio das populações indígenas. E, mais tarde, o ouro de Ouro Preto. Essas riquezas e o desenvolvimento industrial europeu, predominantemente inglês. 

2. O rei do açúcar e outros monarcas agrícolas. O capítulo é aberto com o açúcar do nordeste brasileiro e a devastação dos solos. O mesmo acontece, logo em seguida, com os países caribenhos. Os trabalhadores da economia açucareira e a volta do trabalho escravizado e seus horrores. Depois o ciclo da borracha, do algodão e do café. O sistema de latifúndio e a fome como um subproduto seu. As primeiras lutas em torno da reforma da estrutura fundiária: a Reforma agrária. O autor ainda faz um importante contraponto com o ocorrido nas 13 colônias ao norte. Uma contraposição entre a Lei de Terras do Brasil (1850) e o Homestead Act (1862) dos Estados Unidos

3. As fontes subterrâneas do poder. A avidez em torno das riquezas de subsolo. Vejamos um subtítulo bem ilustrativo: - A economia norte-americana precisa dos minerais da América Latina como os pulmões necessitam de ar -. Uma história de espionagens e de sublevações. Os temas presentes são o guano e o salitre, os fertilizantes tão necessários; o cobre do Chile, o estanho e os seus pobres mineradores, o ferro e outros componentes e o petróleo, ah sim! Até hoje, o petróleo.

A segunda parte tem dois capítulos: os de número quatro e cinco. 4. História da morte prematura. Os ingleses e a independência das colônias. O desenvolvimento industrial. Protecionismo e livre-cambismo. A ditadura dos portos. Uma bela análise da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. As raízes missioneiras do Paraguai e sua economia autossuficiente. Protecionismo e nacionalismo. Os empréstimos e as ferrovias. A drenagem das veias na direção dos portos exportadores de matérias primas e importadores de bens de consumo das elites. E mais uma vez, um belo contraponto com as 13 colônias e os seus êxitos, especialmente após a Guerra da Secessão. 

5. A estrutura contemporânea da espoliação. O comportamento das burguesias nacionais. As bandeiras que tremulam sobre as máquinas da industrialização. Os mecanismos da dominação pós Segunda Guerra Mundial: O Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial. Empréstimos e endividamentos. Os mecanismos das dívidas externas. A farsa das integrações latino-americanas. A industrialização e a exportação do produto de braços baratos. A industrialização e a nova geração de desigualdades. As profecias de Simão Bolívar. "Nunca seremos afortunados".

No posfácio, Galeano faz uma retomada do livro, sete anos depois. Belíssimas páginas, em 18 diferentes tópicos. Tomo duas frases; A primeira é de Brecht: "Nos países democráticos não é revelado o caráter de violência que a economia tem; nos países autoritários acontece o mesmo com o caráter econômico da violência". A segunda é de um jornal conservador argentino, revoltado com a rotulação de que a Argentina seria um país subdesenvolvido. Vejamos a sua indignação: "Como uma sociedade culta, europeia, próspera e branca podia ser medida com o mesmo metro com que se media um país tão pobre e negro como o Haiti". Vejam o preconceito!

E a frase final: "Nessas terras, o que assistimos não é a infância selvagem do capitalismo, mas a sua cruenta decrepitude. O subdesenvolvimento não é uma etapa do desenvolvimento. É a sua consequência. O subdesenvolvimento da América Latina provém do desenvolvimento alheio e continua a eliminá-lo. Impotente pela sua função de servidão internacional, moribundo desde que nasceu, o sistema tem pés de barro. Postula a si próprio como destino e gostaria de se confundir com a eternidade. Toda memória é subversiva porque é diferente. Todo projeto de futuro também. Obrigam Zumbi a comer sem sal: o sal, perigoso, poderia despertá-lo. O sistema encontra o seu paradigma na imutável sociedade das formigas. Por isto se dá mal com a história dos homens: pelo muito que esta muda. E porque, na história dos homens, cada ato de destruição encontra a sua resposta - cedo ou tarde - num ato de criação". Um livro escrito com muita gana e muita indignação. E por falar em indignação, uma bela frase sobre a esperança: " A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão. A coragem, a mudá-las".

E que momento para a leitura! O episódio da Venezuela não contém nenhuma novidade. As veias da América Latina continuam abertas e a sangrar muito. Deixo ainda a resenha de outro belo livro sobre o tema da exploração da América, sob os auspícios da liberdade apregoada pelo iluminismo.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/09/o-seculo-das-luzes-alejo-carpentier.html

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Diabo no imaginário cristão. Carlos Roberto F. Nogueira.

Haja imaginário! E acima de tudo imaginário doentio. Estou falando do livro O diabo no imaginário cristão, do professor de História Medieval, Carlos Roberto F. Nogueira. Da primeira leitura do livro lembrei perfeitamente - que num determinado catecismo, o número de referências ao diabo era maior do que o número de citações de Jesus Cristo. Com facilidade localizei novamente a passagem:

O diabo no imaginário cristão. Carlos Roberto F. Nogueira. Edusc. 2002.

"A essa situação (da teologia aterrorizante - e muitas vezes incompreensível - da cultura erudita) a Igreja respondia com a missão de convencer os ignorantes da verdadeira identidade do Maligno, através dos sermões, dos catecismos, das obras demonológicas e dos processos de bruxarias. Os demônios tudo podem, e sua presença nos discursos religiosos é muito maior do que a de Deus. No Grande Catecismo de Canisius, tornado obrigatório em diversas regiões no século XVI, o nome de Satã é citado 77 vezes, enquanto o de Cristo, apenas 63, como de resto na maioria das obras demonológicas" (Página 99).Satã maior do que Cristo. O que é isso?!

Antes de entrar na resenha do livro quero destacar uma parte de minha formação inicial, totalmente religiosa. Nasci em meio a uma comunidade de católicos de origem alemã, em que tudo na vida se centrava na prática religiosa. Tudo mesmo. Assim, já aos doze anos de idade eu me mandava para o seminário, para ingressar na vida religiosa. Seria a suprema honra para a família e meio seguro para eles obterem a sua salvação. Mas posso afirmar aqui, que o tema do demônio, raras vezes me assombrou. Já na comunidade havia a pregação de missões e, depois, no seminário, havia os chamados retiros espirituais. Aí sim, havia cenas de apavoramento, com a lembrança dos Novíssimos. Eram pregações sobre o pecado, a morte, o inferno e o paraíso. Tudo terminava numa grande confissão, confissão da vida toda. Foi numa dessas pregações que eu me encontrei. Me fez muito bem. De Deus não vem os temores, d'Ele vem apenas o Bem. Repito, isso me fez muito bem.

Uma outra cena também me perturbava bastante. Os enterros na vida da comunidade eram solenes. Missas de corpo presente, com cantos fúnebres. Não faltava o Dies irae, dies illa e muitos asperges com água benta. Mas a cena que mais mexia comigo ocorria no cemitério, ao final do enterro. O padre puxava um último Pai Nosso, destinado para aquele "que entre nós haverá de morrer em primeiro lugar". Quem seria? Era a dúvida que persistia. Isso acontecia na comunidade de Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro. Mas vamos ao livro.

Ele tem apenas 125 páginas. Tem Prefácio e Introdução. O prefácio é de autoria de Luís Adão da Fonseca. Ele destaca os momentos maiores da eterna briga entre o Bem e o Mal, com destaque para os efeitos diabólicos que se impregnaram na Moral. Na Introdução o autor retoma esta mesma luta e os seus efeitos nas lutas do cotidiano, com um destaque todo especial para o Juízo Final, a data do Grande Desfecho. Seguem sete capítulos, onde estão incluídos Epílogo, Vocabulário Crítico e Bibliografia. Capítulos mesmo, então somam quatro, que eu destaco:

I. As origens do anjo rebelde; II. Cristianismo e demonolatria; III. Deus e o diabo: a pedagogia do medo. IV. O triunfo de Satã. No primeiro capítulo encontramos a construção do arquétipo do demônio, qual seja a do anjo caído, o anjo derrotado na rebelião contra Deus. Por óbvio, como o cristianismo deriva do judaísmo e da Bíblia, na parte do Antigo Testamento, encontramos aí as raízes de sua construção. Como os hebreus passaram por diversas andanças, eles receberam as influências dos povos por onde passaram e onde se cristalizou a imagem da dualidade, da luta entre o Bem e Mal.

No segundo capítulo, com o advento do cristianismo e a sua destinação como uma religião universal, novas incorporações foram feitas. O demônio passa a ser visto como o Pai da desobediência e ele se impregna nos dogmas cristãos. A construção de um demônio institucionalizado levou ao surgimento de muitas heresias. O demônio passa a ser visto como alguém muito poderoso e em permanente combate com Deus. A eterna luta do Bem contra o Mal. No terceiro capítulo, já alcançamos a Idade Média. Como afirmado no título, se instaura uma pedagogia do medo, o medo da força diabólica. A mulher é identificada como a vítima preferida pelos demônios e se promove a caça às bruxas. São criados os instrumentos da Guerra, como o sinal da cruz e a água benta. As representações apavorantes do Demônio, do Inferno e do Juízo Final como componentes da pedagogia do medo. O medo chega a superar a confiança.

No quarto capítulo nos é mostrado o Império do Demônio e a sua relação com os pecados capitais. Novas imagens de apavoramento das consciências e a identificação do Demônio com os inimigos. A disseminação do ódio. A vinda do Anticristo. Quem é o Anticristo? Novas heresias. O otimismo cede à angústia generalizada. Um mundo em pânico. Sobre o número de demônios. (Para ilustrar - "No meio do caminho em nossa vida // eu me encontrei por uma selva escura" - o início de A Divina Comédia, de Dante Alighieri). No quinto capítulo, ou epílogo temos uma retomada do tema da luta do Bem contra o Mal e criação de uma espécie de estética do satanismo com o surgimento das seitas satânicas e o ocultismo, um verdadeiro flerte com o Demônio. Vejamos o Mefistófeles de Goethe.

Vamos ainda às orelhas do livro: "O diabo é uma das figuras centrais do imaginário cristão ocidental. Entretanto, o estudo de suas origens e dos papéis históricos que esta figura curiosa desempenhou ao longo dos séculos não tem merecido a atenção necessária.

Nesta obra, Carlos Roberto Nogueira aprofunda com a erudição necessária esta problemática, pesquisando e apresentando a fusão existente entre a história do Cristianismo e a história do próprio Diabo. O papel decisivo desempenhado pela presença deste personagem e seus agentes dentro de uma crença oficial - o Cristianismo - é analisado a partir da necessidade desta crença personificar um elemento como o representante do Mal.

A tentativa, tão característica ao longo da história do Cristianismo, de tranquilizar e uniformizar as consciências é aqui estudada em suas causas e efeitos, destacando-se que estes últimos não foram os definidos e esperados segundo seus objetivos originais, pois acabaram gerando aspectos considerados nefandos por seus proponentes, que culminaram até num certo "prazer estético" em relação ao Mal.

Após as revoluções burguesas na Europa, há uma certa reabilitação do Diabo, possibilitada sobretudo pela separação entre Igreja e Estado. Este momento merece uma análise especial do autor, que comenta e aprofunda abordagens existenciais e mesmo consagradas deste novo período histórico. É o momento em que o Demônio passa a ser um dos símbolos da revolta humana, encontrando seu ápice em muitos autores do romantismo".

Mas eu não posso terminar um post sobre a questão do Diabo sem me remeter a José Saramago. A dois de seus mais memoráveis livros. Caim é um acerto seu com o Antigo Testamento e O Evangelho segundo Jesus Cristo, um acerto com o Novo Testamento. Neste tem a memorável cena em que o Demônio e Deus passam 40 dias numa barca. Nela o Demônio promete abrir mão de sua missão se Deus fizer o mesmo, de continuar a ser apenas o Deus do povo judeu e não um Deus universal. Eu deixo o link desses livros, onde há elucidações a respeito do comentado.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/09/saramago-e-os-temas-religiosos-caim-e-o.html

sábado, 27 de dezembro de 2025

A IDEOLOGIA DA VERGONHA e o clero do Brasil. William Cesar Castilho Pereira.

Um passeio pelo facebook me levou a este livro. O seu título e um breve comentário. Por que este título me chamou tanta atenção? Ele não deixa de ser um bom pedaço de minha formação inicial. Além disso ele me trazia uma das características mais fortemente presentes em mim nesta fase de minha vida: uma timidez paralisante e uma vergonha que me induzia a um desejo de invisibilidade quase absoluta. O resultado disso seria uma dificuldade enorme de uma inserção no mundo, ou então me reservaria um espaço de absoluta subordinação. Quanto sentimento de inferioridade! Eu nasci em Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro, no Rio Grande do Sul.

A ideologia da vergonha e o clero do Brasil. William Cesar Castilho Pereira. Vozes. 2025.

Naquele tempo, nasci no ano de 1945, imperava o conceito de que uma família que não tivesse um filho padre, os pais não iriam para o céu. Eu era o filho mais novo, entre cinco irmãos. Coube a mim prover o passaporte de salvação de meus pais. E, ainda criança, fui para o seminário de Bom Princípio, continuando depois em Gravataí e terminando em Viamão. E lá se foram doze anos: admissão, ginásio, clássico (ensino médio) e a faculdade de filosofia. Eu nunca quis ser padre. Eu sonhava alto. Eu queria ser bispo. Ao final do ano de 1968 me defrontei com a primeira encruzilhada mais séria da vida. Fazer mais quatro anos de teologia ou enveredar pela carreira do magistério. Foi o que eu fiz. Abandonei os pagos e me enveredei pelo Paraná. Dois fatos ocorridos em dezembro de 1968. No dia 4 eu recebia o meu diploma de filosofia e no dia 13 ocorria o mais grave ataque à democracia de toda a nossa história. O AI-5.

Mas, vamos ao livro. Trata-se de A ideologia da vergonha e o clero do Brasil. O autor é William Cesar Castilho Pereira. Vejamos alguns dados biográficos seus, contidos na orelha da contracapa: "Mineiro, estudou psicologia e é doutor pela UFRJ. Psicólogo clínico, atuou por várias décadas como professor da PUC Minas. Foi docente da Faculdade dos jesuítas (Faje). Assessor em trabalhos comunitários e analista institucional. Assessor da Arquidiocese de Belo Horizonte e do Conselho Latino-americano - Bogotá - Colômbia (Celam) Escreveu pela Editora Vozes: Sofrimento psíquico dos presbíteros: dor institucional e Os sete pecados capitais à luz da psicanálise. Uma vida dedicada à formação, à compreensão do ser humano e das formas de atuação que deem sentido à vida. Com certeza, de bem com a vida. Ele pratica uma frase de Paulo Freire que eu aprecio muito: "É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática".

É um livro que busca a superação. Uma frase ilustra bem o livro: "A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão. A coragem, a mudá-las". A frase é atribuída a Santo Agostinho ou a Pablo Neruda. O caminho percorrido entre a indignação e a coragem é longo e passa por toda uma formação teórica. De novo, Paulo Freire: "A leitura de mundo precede a leitura da palavra". Muita análise, muita indicação bibliográfica. A caverna de Platão, La Boétie e e seu Discurso sobre a servidão voluntária, Marx e o conceito do trabalho como práxis, a divisão social do trabalho e a divisão da sociedade em classes, a minha identidade como classe, a construção da minha individualidade e a superação da alienação pela tomada de consciência crítica.

Outra coisa notável do livro é a análise dos fatos que eu presenciei e vivi. A imensa grandeza do papa João XXIII (28 de outubro de 1958 a 3 de junho de 1963) com a convocação do Concílio Vaticano II, que teve continuidade com Paulo VI. Tempos de aggiornamento da Igreja. Um papa humilde, mas decisivo. Renunciou à sua infalibilidade e buscou soluções no coletivo de um concílio. Outra coisa foi a organização do clero brasileiro com a criação da CNBB (outubro de 1952). Antes as coisas da Igreja corriam meio desordenadas, meio espontâneas. Dom Hélder Câmara lhe conferiu organicidade. Aqui devo uma confissão: João XXIII foi uma das maiores presenças em minha vida.

Mas vamos a organização do livro: O livro, de 292 páginas, tem em seu corpo principal, cinco capítulos, além de introdução, do próprio autor, de agradecimentos e de um belíssimo prefácio assinado por Dom Leonardo Steiner, cardeal arcebispo de Manaus, que apresenta a vida como uma tecitura de transformações. Um longo tecer de relações. Na introdução o autor apresenta os três grandes temas do livro: a ideologia, a vergonha e o clero brasileiro. Os capítulos tem os seguintes títulos: 1. Regiões brasileiras e diferenças pastorais; 2. Questões etárias e raciais entre os presbíteros; 3. Aspectos familiares, sociais e educacionais; 4. Aspectos socioeconômicos dos presbíteros; 5. A ideologia da vergonha e o clero do Brasil. O posfácio, assinado por Dom Esmeraldo Barreto de Farias, bispo emérito de Araçuaí, MG, tem por título - Da vergonha à esperança: por uma igreja enraizada no Evangelho, em diálogo com as culturas. Na parte final, ricas referências bibliográficas.

Evidentemente que o quinto capítulo, que deu o título ao livro, é o que me levou à compra e à leitura. Mas, isso não significa que os demais capítulos não tenham a sua importância. Muito pelo contrário. No primeiro capítulo temos uma aula de realidade brasileira profundamente atual, que é uma verdadeira aula de sociologia, que inclusive recomendo aos professores da disciplina. O segundo capítulo é um mergulho na vida do clero e o terceiro e o quarto aprofundam este mesmo mergulho. A minha conclusão foi a de que a vida de um bispo não é uma vida fácil. Os padres são seres humanos que vivem dentro do mundo capitalista que estimula hiper-indivíduos, sob as marcas do narcisismo, do consumo e da vaidade. Lidam com dinheiro e perspectivas de futuro. São seres com instintos e com desejos. São humanos. Tentaram até formar um sindicato.

Agora, o quinto capítulo é um primor. Em primeiro lugar é um retrato desses tempos de pós-modernidade. Tempos líquidos. tempos de hedonismo e simultaneamente de contenção, tempos de cobrança de metas inalcançáveis. Tempos de muitas dores, especialmente dores psíquicas. Tempos de adoecimento.  Tempos de melancolia e de acídia. Vou me ater um pouco mais a este termo. Duas elucidações: "Evrágio Pôntico (345-399) parece ter sido o primeiro pensador a identificar como "demônio do meio-dia". O período da tarde e as práticas de jejum, provavelmente, teriam influenciado mais a indolência dos monges do que as tentações do demônio. Na tradição da Igreja, Delumeau percebe a acídia como sonolência espiritual, dificuldades dos exercícios religiosos, tristeza que apagava da alma o desejo de servir a Deus". Triste.

A segunda ilustração é de Maria Rita Kehl: "A metáfora para a acedia - "demônio do meio-dia"- remete à fraqueza corporal produzida pelo prolongado jejum a que os monges se submetiam por amor a Deus. A fome, o calor, a prostração do corpo enfraquecido abatem também a vontade da "alma", que recua diante da impossível proposta de encontro puramente espiritual com Deus - o que comprova que nem tudo, da pulsão, pode ser sublimado". E por aí seguem as descrições dos sofrimentos psíquicos de nossos tempos. Aqui deve ser dito que não são somente os padres que são acometidos pela acídia. É uma doença comum a todos e que se abriga no conceito comum da depressão.

O último tópico do quinto capítulo tem por título - A vergonha, enquanto fecundidade de emancipação. Depois de percorridos os caminhos teórico-práticos dessa emancipação tem uma pequena frase, enorme em seu significado: "A maior solidão é a dos seres que não amam e não se abrem ao outro". Afinal, a vida é um enorme tecer de relações. Um livro para todos.

E, a resenha de um livro fantástico sobre as dores psíquicas modernas. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/sociedade-do-cansaco-byung-chul-han.html

sábado, 20 de dezembro de 2025

Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister. Johann Wolfgang von Goethe.

A visita dos meus netos à minha biblioteca sempre é uma festa. Primeiramente eles queriam mexer nos livros mais volumosos, depois sempre quiseram ver e folhear o Drácula e na última visita quiseram saber dos livros que eu ainda não lera. Efetivamente eu tenho alguns livros não lidos. Eu os comprei em liquidações e os punha na lista de espera. Eles retiram os livros da estante e vou falando sobre eles. É uma curiosidade lindíssima de se ver. Momentos de raro encanto.


Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister. Johann Wolfgang von Goethe. Tradução: Nicolino Simone Neto. Editora 34. 2015.

Pois bem, dessa vez eles retiraram o Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Johann Wolfgang von Goethe. Eu o comprei no ano de 2017, certamente motivado pelo nome do autor, Goethe simplesmente. Outro motivo certamente foi o de se tratar de um romance de formação. Estes sempre mereceram de minha parte uma atenção toda especial. Coisas de quem dedicou uma vida inteira à formação. Me assombra o fato de hoje em dia a educação estar entregue a pessoas sem nenhuma compreensão do tema e somente por isso é que fazem o que estão fazendo. Isso quando não a usam para fins meramente comerciais. Isso é efetivamente criminoso. A formação de um ser humano é de uma responsabilidade suprema. E lá estou eu a ler este maravilhoso e complexo livro.

O romance tem uma história complexa mas de leitura extremamente atrativa. Por óbvio, Wilhelm Meister é o protagonista. Ele é filho de uma família da emergente classe burguesa. Mas ele não quer seguir os passos familiares e busca no teatro a realização de seus sonhos, apesar de não se sair mal nas missões que a família lhe confia. No roteiro entram ainda duas crianças maravilhosas, a pequena Mignon e o menino Felix. Atentem a esses personagens. O romance se passa na Alemanha, um país ainda relativamente atrasado e por isso o teatro analisado é o inglês e o francês. Hamlet então... Ainda..., os personagens burgueses se misturam com personagens da nobreza, que é bem vista. O romance é longo, 606 páginas. Ele é dividido em oito partes ou livros. Os cinco primeiros mostram Wilhelm envolvido com o teatro, o sexto é dedicado à formação feminina e os dois últimos, à Sociedade da Torre, com certeza, os mais interessantes e significativos.

O livro que eu li é da editora 34, uma editora que prima pela qualidade. Ele tem uma bela apresentação, de autoria de Marcus Vinícius Mazzari e um primoroso e valorizado posfácio, de ninguém menos do que Georg Lukács. Este posfácio é muito esclarecedor. Ele historia o romance, o data e o situa. O primeiro dado importante é a sua caracterização como um romance de transição. Acompanhemos os primeiros apontamentos de Lukács: "O Wilhelm Meister de Goethe é o mais significativo produto de transição da literatura romanesca entre os séculos XVIII e XIX. Exibe traços de ambos os períodos de evolução do romance moderno, tanto ideológica quanto artisticamente, na verdade".  As próximas linhas são dedicadas à escrita da obra, que apareceu no ano de 1795-1796, mas cuja escrita começou bem antes. Vejamos:

"As origens desse romance remontam decerto a época bem anterior. A concepção e possivelmente também as primeiras tentativas de redação podem ser comprovadas já em 1777. Em 1785 já estavam escritos os seis livros do romance - A missão teatral de Wilhelm Meister. Essa primeira versão, perdida durante muito tempo e redescoberta só em 1910 por um feliz acaso, oferece a melhor possibilidade de esclarecer em que momentos artísticos e ideológicos se manifesta aquele novo caráter transitório de Os anos de aprendizado". Que tempos são estes? Uma velha mania minha de professor era a de sempre perguntar pelo fato mais importante ocorrido no entorno das datas apresentadas. Fica mais fácil. É evidente que o fato mais importante nesse contexto é o da Revolução Francesa, ou melhor, o da Revolução burguesa da França, ocorrida no ano de 1789. Profundas mudanças.

A Revolução Francesa se enquadra dentro de acontecimentos que permitiram o surgimento de uma nova classe social, a partir da expansão comercial e dos descobrimentos marítimos e de um novo ordenamento ideológico que revolucionou as estruturas sociais do período: humanismo, renascimento, iluminismo, revolução científica. Tempos da Aufklärung. Tempos em que a razão prometia substituir a importância do trono e do altar. Tempos de emancipação, tempos de autonomia do ser humano. 

Marcos Mazzari inicia o seu prefácio citando vários comentários sobre o livro e o enquadra dessa forma: "... Então o romance Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister perfila-se certamente na linha de frente dessas grandes obras literárias (as que fundam ou dissolvem um gênero). Pois ao publicá-lo entre os anos de 1795 e 1796, Goethe criou o gênero que mais tarde foi chamado de 'romance de formação' (Bildungsroman), a mais importante contribuição alemã à história do romance ocidental". Lukács, no posfácio confirma que se trata de um romance de educação, de formação: " Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister é um romance de educação: seu conteúdo é a educação dos homens para a compreensão da realidade".

Mas Lukács, um pouco antes dessa afirmação, já assim se expressara sobre a centralidade da obra; "Assim, coloca no centro deste romance o ser humano, a realização e o desenvolvimento de sua personalidade, com uma clareza e concisão que dificilmente um outro escritor haverá conseguido em alguma outra obra de literatura universal. É claro que essa visão de mundo não é propriedade particular de Goethe. Ela domina antes toda a literatura europeia, desde o Renascimento; constitui o ponto central de toda a literatura do Iluminismo. O traço peculiar do romance goethiano mostra-se contudo no fato de que, por um lado, essa visão de mundo se põe no centro de tudo com uma elevada consciência, acentuada permanentemente de modo filosófico, ou pelo estado de ânimo, ou relacionada com a ação, a ponto de se transformar na força motriz consciente de todo o mundo configurado; e, por outro lado, essa peculiaridade consiste em que Goethe nos apresente como um devir real de seres humanos concretos  em circunstâncias concretas essa realização da personalidade plenamente desenvolvida com que o Renascimento e o Iluminismo sonharam, e que na sociedade burguesa tem sempre permanecido como utopia". 

Considero esses elementos fundamentais para a leitura e o início de uma compreensão desse monumental livro. Eu o considero como um livro, não apenas para ser lido, mas um livro para ser estudado em grupos, e, de preferência, acompanhado por algum professor de literatura, com algum aprofundamento em Goethe. Mas, ainda para uma visão inicial deixo a contracapa do livro.

"'Ponto culminante na história da narrativa'. É, em termos como esses que Georg Lukács se refere a Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, livro que deu origem a um novo gênero literário - O Bildungsroman, ou o romance de formação, a mais importante contribuição alemã à literatura mundial.

Reunindo e superando as formas narrativas anteriores, o livro conta o percurso aventuroso do jovem Wilhelm Meister em busca do pleno desenvolvimento de suas potencialidades. Atraído inicialmente pelo teatro, Meister abandona o ambiente burguês de sua família e, como ator e poeta, viaja por povoados e cortes da Alemanha, convive com os tipos mais diversos e experimenta várias ligações amorosas antes de cumprir uma trajetória que, repleta de reviravoltas, desenha um esplêndido painel da sociedade de seu tempo.

Com meios inéditos para a época, Goethe se debruça aqui sobre o problema da formação do indivíduo em condições históricas concretas. De fato, para o autor do Werther e do Fausto, a realização do homem não dependia apenas da harmonia de sua vida interior, mas do modo como este se insere no contexto social. Pois é exatamente esta rara aliança entre valores individuais e coletivos que constitui o cerne deste livro extraordinário, em que se combinam, como num concerto de Mozart, paixão e senso de medida, leveza e profundidade". E uma provocação: "Que és tu? Que tens tu?".

Não posso também deixar de apresentar um texto de Kant, que considero o mais belo texto da filosofia em que ele fala da Aufklärung como a maioridade do ser humano. Atingir esta maioridade é a finalidade primeira da formação.


Mas o Iluminismo também teve profundas contradições. A razão, rapidamente se transformou em razão instrumental. Vejam a resenha de um livro que desvela essas contradições.





sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

OS INTELECTUAIS NA IDADE MÉDIA. Jacques Le Goff.

Que livro maravilhoso. Um dos intelectuais mais brilhantes de nossos tempos, ou mais precisamente, dos tempos recentes. Estou falando de Jacques Le Goff (1924-2014) e de seu maravilhoso livro Os intelectuais e a idade Média. É sabido que Le Goff é um dos maiores especialistas neste tema. É um livro fundamental para conhecer as transformações que mais tarde desembocariam na chamada modernidade. Ao contrário do que se imaginava e se propagava, a Idade Média não era a época de trevas, mas uma época em ebulição. Tudo fervilhava. Era água nova, teimando em brotar. Lembrando que a história considera como Idade Média, o tempo entre os anos de 476 e 1453. As datas marcam a Queda do Império Romano e a Tomada de Constantinopla, respectivamente. Período entre os séculos V e XV.

Os Intelectuais e a idade Média. Jacques Le Goff. José Olympio. 2003. Tradução: Marcos de Castro.

O livro aborda o surgimento dos intelectuais, algo que tem a ver com as universidades. Estas, por sua vez, surgem junto ao movimento de urbanização e das consequências ligadas a este fenômeno. O conhecimento sai dos mosteiros e faz das cidades o seu novo habitat. Mas ele continua sob o controle da Igreja, dividindo-o com o Estado, este também um fenômeno emergente, ao menos na tomada de suas novas formas. É um fenômeno dos séculos XII e XIII, e como lemos, já no prefácio do próprio autor, ele tinha por objetivo maior o controle do poder. Das universidades sairiam os funcionários mais graduados, as mais altas hierarquias dessas instituições. Bolonha, Paris e Oxford são os grandes centros ligados a essas universidades.

Le Goff também nos indica os pensadores mais influentes desse período. Como se trata de um período de transformações, estas também atingem os campos do conhecimento. Um mundo de certezas passa por questionamentos. A fé revelada passa a ser cada vez mais questionada e a questão da fé versus razão atinge novos patamares de questionamentos. Platão e Santo Agostinho passam a ser confrontados com Aristóteles, que chega às universidades pela retomada dos estudos e da tradução direta dos pensadores da Grécia clássica e também pela via dos árabes que chegam a Europa. O período marca sobretudo uma volta ao esplendor da cultura greco-romana. Os intelectuais viviam perigosamente, sempre beirando às heresias. Entre os pensadores, entre outros, encontramos os nomes de Pedro Abelardo (1079-1142), Roger Bacon (1214-1294), Santo Tomás de Aquino (1227-1274 e Guilherme de Ockham (1288-1348). As faculdades mais tradicionais eram cinco: Artes,  Medicina, Direito Civil, Direito Canônico e Teologia. A ciência permeava todas elas. O estudo da natureza povoava cada vez o imaginário dos intelectuais, especialmente, à medida em que o tempo passava. No século XV o intelectual medieval entra em declínio. Este século XV também é o limite do estudo de Le Goff neste livro.

Vamos à estrutura do livro. Ele tem um belo prefácio do próprio autor, uma pequena introdução e o corpo do trabalho, formado por três capítulos. Termina com algo meio inédito, um ensaio bibliográfico, sublinhando os livros mais importantes que abordam o período, um índice remissivo e preciosas referências cronológicas, obviamente relativas ao período trabalhado. Vamos então aos três capítulos do corpo do trabalho: I. O século XII. Nascimento dos intelectuais. II. O século XIII. A maturidade e seus problemas. III. Do universitário ao humanista.

Vejamos os temas abordados nos capítulos: I. O século XII. Nascimento dos intelectuais: Renascimento urbano e nascimento do intelectual no século XII; Antigos e modernos; A contribuição greco-árabe; Os tradutores; Paris: Babilônia ou Jerusalém?; Os goliardos (maravilhoso); A vagabundagem intelectual; O imoralismo; a crítica da sociedade; Abelardo; Heloísa; a mulher e o casamento no século XII; Novos combates; São Bernardo e Abelardo; O lógico; O moralista; O humanista; Chartres e o espírito chartriano; O naturalismo chartriano; O humanismo chartriano (Percebam a importância de Chartres como centro intelectual); O homem microcosmo; A usina e o homo faber; Figuras; Brilho; o trabalhador intelectual e o canteiro urbano; Pesquisa e ensino; As ferramentas.

II. O século XIII. A maturidade e seus problemas: Perfil do século XIII; Contra os poderes eclesiásticos; Contra os poderes leigos; Apoio e embargo do papado; Contradições internas da corporação universitária; Organização da corporação universitária; Organização dos estudos; programas; Exames; Clima moral e religioso; A piedade universitária; O equipamento; O livro como instrumento; O método: a escolástica; Vocabulário; Dialética; Autoridade; Razão: a teologia como ciência; Os exercícios: quaestio, disputatio. quodlibet; Contradições - Como viver? Salário ou benefício?; A querela dos regulares e dos seculares; Contradições da escolástica: os perigos da imitação dos antigos; As tentações do naturalismo; o difícil equilíbrio da fé e da razão: o aristotelismo e o averroísmo; As relações entre a razão e a experiência; As relações entre a teoria e a prática (É como uma visita à universidade para conhecer a sua estrutura e funcionamento). 

III. Do universitário ao humanista. O declínio da Idade Média; A evolução das vicissitudes dos universitários; Rumo a uma aristocracia hereditária; Os colégios e a aristocratização das universidades; Evolução da escolástica; Divórcio entre a razão e a fé; Limites da ciência experimental; O antiintelectualismo; A nacionalização das universidades: a nova geografia universitária (Uma bela mostra da expansão das universidades); Os universitários e a política; A primeira universidade nacional: Praga; Paris: grandezas e fraquezas da política universitária; A esclerose da escolástica; Os universitários se abrem ao humanismo; A volta à poesia e à mística; Em torno de Aristóteles: a volta à linguagem bonita; O humanista aristocrata; A volta ao campo; A ruptura entre a ciência e o ensino.

As orelhas do livro são ocupadas pela historiadora Mary Del Priore. Na orelha, além de apresentar um retrato da obra, apresenta também um perfil do autor. Ela ocupa também a contracapa: "Capítulo fundamental da história medieval, este livro feito de limpidez, sutilezas e erudição apresenta ao leitor um autor fundamental, íntimo dos arquivos, hábil em criticar os documentos, ágil em interpretar seus silêncios, enérgico em revelar suas contradições. Passando com maestria da longa duração aos fatos pontuais, do material ao espiritual, Jacques Le Goff explica a história dos intelectuais medievais. Mas ele também confirma seu papel e seu lugar dentre os maiores intelectuais de nosso tempo".

O livro me lembrou muito das aulas de história. Humanismo e Renascimento. Agora visto em profundidade e com rara e cativante beleza que te prende à leitura. Simplesmente um livro imperdível e maravilhoso. Esta já foi uma releitura.

 


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

CHÂTEAUNEUF - DU - PAPE. Um vinho e muita história.

Este post é uma decorrência de dois fatos recentes. O primeiro ocorreu no dia 21 de setembro, quando eu completei 80 anos de histórias vividas. Como foram bem vividas, festejamos com as pessoas mais próximas. Como é de hábito nessas ocasiões, ganhei presentes. O segundo fato foi uma releitura do magnífico livro de Paul Johnson História do cristianismo. Um detalhe. Rodrigo, que é um cristão muito generoso, me presenteou com o vinho Châteauneuf -du - Pape. O seu número é o de 003764. Algo raro.

Châteauneuf - du - Pape. Observe o brasão papal com as chaves de São Pedro. Número 003764.

Agora vamos somar os fatos. A parte IV do livro de Paul Johnson tem por título A sociedade total e seus inimigos. Trata-se de um livro de valor extraordinário. Uma de suas teses é a de que S. Paulo foi o grande estruturador do cristianismo. Foi São Paulo quem fez a afirmação categórica de que Jesus Cristo era efetivamente o Salvador prometido. Foi S. Paulo que, no ano 49, no Concílio de Jerusalém, sustentou esta verdade, quando muitos dos discípulos já pretendiam voltar ao judaísmo. Foi S. Paulo, o chamado apóstolo dos gentios, que transformou a religião restrita e particular do povo judeu em uma religião de caráter universal e que, por suas epístolas, lhe deu o seu caráter estruturante. Que personagem histórico impressionante! Santo Agostinho lhe deu continuidade com o seu A Cidade de Deus, fundando assim o chamado Cristianismo Total. 

Por óbvio, isso geraria muitas perturbações. O cristianismo procuraria se expandir, não meramente pelo convencimento, mas também por outros meios. Muitas vezes, à cruz se somava a força da espada. O capítulo IV do livro tem como delimitação histórica os fatos ocorridos entre 1054 e 1500. Seria a consolidação da transformação, depois de Carlos Magno (742 - 814), da Europa num continente cristão. Em meio as perturbações ocorridas ao longo desse período, Roma foi por elas atingida. Isso afetou a vida do papa. No período, certamente a França era o país mais cristão da Europa. Seu rei, Felipe IV, ofereceu proteção ao papa, com a transferência da sede papal para a cidade de Avignon. O que seria um protetorado se transformou posteriormente num cativeiro. A sede do papado deveria continuar sendo em Avignon. Isso ocorreu entre os anos de 1309 e 1377. Isso vale uma boa pesquisa. Agora vamos a história do famoso vinho.

O vinho tem profunda relação com o cristianismo, uma relação mística e uma relação de gosto, mesmo! É sabido que a hierarquia religiosa é grande apreciadora de vinhos, de bons vinhos. Avignon se situa na região do rio Ródano, no sudeste francês. Já era uma região produtora de vinhos. Ao todo, sete papas permaneceram em Avignon até o retorno da sede papal a Roma. Um deles foi João XXII, o segundo deles. Ele estimulou muito o desenvolvimento da vinicultura na região. Foi ele também o construtor do referido castelo. Uma das marcas desse estímulo foi o surgimento do vinho em questão, o Châteauneuf - du - Pape, ou, o Novo Castelo do Papa. Ele logo se tornou conhecido como "O VINHO DO PAPA". Até hoje o vinho mantém uma relação com o papa pelo uso do símbolo papal, o brasão com as chaves de São Pedro.

Hoje Avignon tem em torno de 90 mil habitantes, e em torno de 500 mil em sua região metropolitana. Está situada a menos de 100 Km. de Marselha. Conhecer a antiga cidade papal é um de seus maiores atrativos turísticos. Conhecer o castelo e tomar um "vinho do papa" deve ser um prazer indescritível para os que conhecem, ao menos um pouco de sua história.  Tomá-lo deve ser algo de profundamente edificante. Quanto ao preço do vinho, tenho duas coisas a dizer: Primeiro, que um vinho com toda esta história, não é um vinho de preço popular. Segundo: Reafirmo o dito no início. Rodrigo é um cristão generoso.

Ganhei-o sob uma condição. Tomá-lo com o meu irmão, que é irmão e mora na cidade de Ponta Grossa. Ele pertence a ordem religiosa do Verbo Divino. Vou cumprir essa condição com o máximo de satisfação. E, ao Rodrigo, os meus melhores agradecimentos pelo vinho e pelo conhecimento que veio através dele.

E como citei o famoso livro de Paul Johnson, deixo a sua resenha:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/11/historia-do-cristianismo-paul-johnson.html




  


domingo, 16 de novembro de 2025

História do cristianismo. Paul Johnson.

Continuando com os temas religiosos. O cristianismo e a moldagem da cultura Ocidental. É absolutamente inadmissível negar a importância desse tema. Acima de tudo, estamos estudando a nós mesmos. Agora foi a vez de uma releitura. Ufa! Mais de duas semanas. Falo do livro de Paul Johnson - História do cristianismo. A primeira edição do livro é de 1976. É portanto a data limite dos episódios narrados. São quase dois mil anos.

História do cristianismo. Paul Johnson. Imago. 2001.

Da primeira leitura, lembro perfeitamente da importância dada a S. Paulo, tido como o verdadeiro fundador do cristianismo. Sem ele, provavelmente, os primeiros seguidores de Cristo teriam voltado ao judaísmo. É a presença de Paulo no Concílio de Jerusalém (Ano 49): "...o primeiro ato político na história do cristianismo e o ponto inicial a partir de que podemos procurar reconstruir a natureza da doutrina de Jesus, bem como as origens da religião e da igreja que ele trouxe à luz". Marca assim uma ruptura com o judaísmo. Paulo transformaria a religião particular do povo judeu, numa religião de caráter universal. Jesus, de acordo com Paulo, é o Salvador prometido e, a salvação que ele trouxe, seria para todos. Paulo, o apóstolo dos gentios.

No epílogo do livro Paul Johnson traça os caminhos percorridos em sua longa e austera pesquisa, onde já no primeiro capítulo destaca a importância devida a S. Paulo: "Deve estar evidente, com este relato de dois mil anos de história cristã, que a ascensão da fé e a transformação de seu relacionamento com a sociedade não foram fortuitos. Os cristãos surgiram em uma época em que havia grande e urgente necessidade, ainda que não formulada, de um culto monoteísta no mundo greco-romano. As divindades civis e nacionais haviam deixado de fornecer explicações satisfatórias para a cosmopolita sociedade mediterrânea, com seus padrões de vida em ascensão e suas crescentes pretensões intelectuais; e, sendo incapazes de explicar, não podiam proporcionar conforto nem proteção dos terrores da vida. O cristianismo oferecia não somente um Deus todo-poderoso mas também uma promessa absoluta de uma vida feliz por vir, além de uma explicação clara de como assegurá-la. Ademais, foi desligado de suas origens raciais e geográficas e dotado, por seu fundador, de uma resplandecente variedade de insights e diretrizes, calculados para evocar respostas de todas as naturezas. Foi, desde o princípio, universalista em seu escopo e objetivos. S. Paulo, ao muni-lo de uma estrutura de pensamento internacionalista, transformou-o em uma religião de todas as raças; Orígenes expandiu sua metafísica, convertendo-a em uma filosofia de vida que conquistou o respeito dos intelectuais sem perder o entusiasmo das massas, tornando o cristianismo, assim, não só independente de classes sociais, mas ubíquo" (Página 627).

Bem, depois desse dado inicial, vamos à estrutura do livro. Ele é longo e denso. Letras bem minúsculas e 677 páginas. Ele tem prólogo e epílogo curtos e oito partes bem longas. Vamos a elas, junto com alguns tópicos da abordagem e situação no espaço temporal: Parte Um - Ascensão e resgate da seita de Jesus (50 a. C. - 250 d. C.). (O Concílio de Jerusalém. S.Paulo é o personagem central na confluência de culturas sob o Império Romano. O sistema teológico de Paulo; suas epístolas. A libertação das amarras judaicas. Os Evangelhos). Parte Dois - De Mártires a inquisidores (250 - 450). (Edito de Milão- um casamento indecoroso entre Igreja e Estado. Em busca de alinhamento com o Império Romano. Os grandes nomes. Ambrósio - Agostinho. Os cerimoniais religiosos. Jerônimo e a  Vulgata. Agostinho, a graça e os eleitos; a legitimação da inquisição no combate às heresias. A Cidade de Deus).

Parte Três - Senhores Mitrados e Ícones Coroados (450 - 1054). (Em Constantinopla, tudo bem. No Ocidente, os francos: Carlos Magno. A expansão por toda a Europa. Bonifácio). Parte Quatro - A Sociedade Total e seus inimigos (1054 - 1500). (O Império carolíngio, a ascensão do clero. Uma Teocracia mundial. Prestar contas somente a Deus. Conflitos entre Igreja e Estado. A organização jurídica da Igreja - Gregório VII. Avignon - Protetorado e cativeiro. Confissão e penitências. Indulgências. As ordens religiosas. As universidades. As Cruzadas. A Inquisição. Santo Agostinho, a Cidade de Deus e a sociedade cristã total. Revoltas camponesas).

Parte Cinco - A Terceira Força (1500 -1648) (Surgimento das gráficas. Erasmo. Rabelais, Calvino, Inácio de Loyola, um cristianismo mecânico. Lutero e os avanços da Reforma. Contra-Reforma, Concílio de Trento, Companhia de Jesus. Caça às bruxas. Giordano Bruno). Parte Seis - Fé, Razão e Desrazão (1648-1870) (O Iluminismo inglês e francês. Fora dos parâmetros da razão. Seitas protestantes, novas ordens católicas. 1870 e a decretação da infalibilidade do papa).

Parte Sete - Povos Quase escolhidos (1500-1910) (As atividades missionárias com o surgimento das colônias. As ordens religiosas e os instrumentos de controle. Seitas protestantes nos Estados Unidos. Religião e insurreições. Guerras de Independência. Religião, escravidão e democracia. Religião, abolição e a Guerra da Secessão. Evangelismo e colonialismo na África). Parte Oito - O Nadir do Triunfalismo (1870-1975). (As guerras e o cristianismo. Uma análise dos papas sob a infalibilidade. Autocracia. Adesões ao nazismo e fascismo, contra o comunismo. Pio XII, João XXIII e Paulo VI. O Concílio Vaticano. Paulo VI, a contracepção e o celibato).

No epílogo, o autor nos apresente as perspectivas. Primeiramente faz uma retrospectiva: "Sem dúvida, a humanidade, sem o cristianismo, inspira perspectivas lúgubres. A história dos homens com o cristianismo já é, como vimos assustadora o suficiente". Daí parte para a projeção, constatando um grave encolhimento do cristianismo ao longo dos últimos anos: 

"Na última geração, com o cristianismo em um recolhimento rápido ao extremo, tivemos nossa primeira visão distante de um mundo descristianizado, que nada teve de empolgante. Sabemos que a insistência cristã na potencialidade humana para o bem geralmente é desenganada; estamos descobrindo também, contudo que a capacidade humana para o mal é quase ilimitada - sendo limitada, de fato, somente por seu próprio alcance em expansão. O homem é imperfeito com Deus. Sem Deus, o que ele é? Nas palavras de Francis Bacon: 'aqueles que negam a Deus destroem a nobreza do homem; pois decerto o homem é semelhante às feras em seu corpo; e, caso não seja semelhante a Deus em seu espírito, será uma criatura vil e ignóbil'. Somos menos vis e ignóbeis em virtude do exemplo divino e do desejo pela forma de apoteose oferecida pelo cristianismo. Na personalidade dupla de Cristo, é-nos oferecida uma imagem aperfeiçoada de nós mesmos, eterno marca-passo para nossos esforços. Por esses meios, nossa história, ao longo dos últimos dois milênios, vem refletindo a busca de se erguer acima das fragilidades humanas. E, nessa medida, a crônica do cristianismo é uma história edificante " (Página 629-30).

Edificante foi também a leitura e releitura desse livro. Muita erudição e um domínio extraordinário do processo da evolução histórica. Anos e anos de pesquisa. Quero também destacar a última parte do livro. Esta eu vivi. Frequentei os seminários de Bom Princípio, Gravataí e Viamão (RS) ao final da década de 1950 e ao longo da de 1960. Vivi, neste período, sob os pontificados de Pio XII, João XXIII e Paulo VI. João XXII promoveu o grande aggiornamento da Igreja e marcou profundamente a minha maneira de ver o mundo. Depois disso iniciei a minha carreira de professor. Super recomendo este livro, com uma recomendação: não é um livro para iniciantes. Deixo também o link de outro livro, com o mesmo tema. Domínio. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/10/dominio-o-cristianismo-e-criacao-da.html

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O Relatório Lugano. Susan George. Para a COP-30.

Do dia 10 a 21 de novembro de 2025 ocorrerá a COP-30, a trigésima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas. Ela ocorrerá na cidade de Belém, na porta de entrada da Amazônia, o maior santuário natural da humanidade, fato que certamente aumentará a sua importância. Tenho a certeza absoluta de que se trata de um dos maiores eventos de preservação do meio ambiente e da própria humanidade e, por isso mesmo, não ficarei  de todo ausente. Farei algumas postagens relativas ao evento.

O Relatório Lugano. Susan George. Boitempo. 2002.

Começo com a explanação de um texto que eu trabalhei quando ainda estava em sala de aula, ministrando a disciplina de Teoria Política. Era a principal aula relativa a questão do clima e a preservação do meio ambiente. O texto eu o retirei de um livro extraordinário: O Relatório Lugano, da cientista política Susan George. Ela é licenciada em filosofia pela Sorbonne e doutora em política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris.  O seu livro data do ano de 1999 e que chegou ao Brasil, pela Boitempo, em 2002. No Brasil eram tempos de efervescência com a realização do Fórum Social Mundial, em 2001, em Porto Alegre.

Vamos começar falando da forma do livro. O título nos dá a primeira pista. Trata-se de um relatório, de um suposto relatório. Ele atende a uma suposta encomenda por parte dos mercados para que fornecessem um diagnóstico sobre a questão do clima ao final do século XX.  Os pesquisadores são reunidos na internacional cidade de Lugano, na Suíça, entre novembro de 1998 e novembro de 1999, para elaborarem o seu relatório. Antes de iniciarem os trabalhos, recebem algumas instruções, em que se ressalta o tempo favorável para a pesquisa, já que o sistema de livre mercado globalizado não tem mais inimigos. Apesar desse caráter eufórico, eles alimentam temores. Há perigos que se prefiguram muito claramente. O nome completo do relatório é: O Relatório Lugano - sobre a manutenção do capitalismo no século XXI. As instruções recomendavam um relatório objetivo e imparcial e os nomes dos pesquisadores teriam o sigilo preservado. A opção pela forma de relatório, nos diz a autora, seria inimaginável para a elite dominante da globalização, uma  vez que eles são absolutamente incapazes de ter alguma preocupação com o futuro. Uma bela dose de ironia.

No primeiro capítulo são apresentados os perigos, sob o título: Ameaças e perigos. Após uma grave advertência eles elencam cinco preocupações fundamentais, mesmo que os livres mercados não tenham mais inimigos explícitos a combater, como nos tempos da Bipolaridade e da Guerra Fria e de não haver nenhuma perspectiva de sua volta e que, hoje em dia, há milhares de pessoas que tiram proveito da situação. Por que então o sistema estaria ameaçado? Eles apresentam os seguintes elementos: 1. O potencial catastrófico do desequilíbrio ecológico; 2. Crescimento pernicioso; 3. Os extremos sociais e o extremismo; 4. Capitalismo de quadrilhas; 5. Colapso financeiro. Os inimigos estavam incrustados no próprio sistema. Esses tópicos são devidamente analisados. Vamos a alguns destaques:

1. O potencial catastrófico do desequilíbrio ecológico: A constatação é simples. Ele contrapõe dois sistemas. O ecológico e o econômico. E faz uma pergunta. Qual é o principal dos sistemas? Como o sistema ecológico é maior do que o sistema econômico, é nele que o sistema econômico deveria estar inserido. Mas o sistema econômico não é assim considerado. Ele inverte a situação e afirma a preponderância do econômico. Outra questão visível: O sistema natureza ou ecológico é finito. Mas o sistema econômico não o vê dessa forma. Ele o vê como uma riqueza infinita. No livro de contabilidade do sistema econômico são inscritas apenas as vantagens, nunca as perdas. É o famoso negacionismo da ciência. Em síntese, o sistema natureza é um sistema fechado e limitado mas o sistema econômico o vê como um sistema aberto e ilimitado. Isso implica no desprezo por fontes alternativas de energia, por exemplo. O lucro a curto prazo é o que importa. E, um alerta para a possível falta de água e para o aquecimento global. 

2. Crescimento pernicioso: Ninguém ignora a importância do crescimento. Sem crescimento há estagnação e declínio. Ele é o motor da economia. Mas, maior e mais, não significa necessariamente, melhor. Nem sempre o crescimento econômico está vinculado à promoção do bem-estar. O crescimento do PIB como um dado social, não é um dado confiável. Ele não mede a distribuição do crescimento, podendo gerar uma grande concentração de renda. (Acho interessante lembrar o modelo econômico proposto pela ditadura militar brasileira, de que primeiro é preciso crescer, para depois distribuir). 

3. Os extremos sociais e o extremismo: É uma decorrência da questão anterior. Se há crescimento sem distribuição, incorremos necessariamente na questão dos extremos sociais e, para nele, se incrustarem os extremismos. Como o sistema é competitivo e se nega a intervenção do Estado para promover as políticas públicas, por óbvio, estaremos produzindo mais desigualdades. E o que brotará desse sistema? Desordem, ódio e violência. E, uma forte tendência para o fim das chamadas camadas médias da população. O ódio pode ser direcionado contra a própria política, contra uma elite corrupta ou voltar-se contra si próprios. As teorias explicativas da desigualdade, como a da meritocracia, caem por terra e a política de privatizações destrói as oportunidades geradas pelos serviços públicos, agravando os problemas. Lembro de um belo livro, também dos anos 1990. A Armadilha da Globalização, dos sociais democratas alemães, Hans Peter Martin & Harald Schumann. O título do primeiro capítulo é: A sociedade 20 por 80. 20 % incluídos e 80 %  excluídos. Deixo o link da resenha:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/12/a-sociedade-20-por-80-uma-nova.html

4. Capitalismo de quadrilhas: O solapar dos fundamentos das atividades econômicas legítimas. As economias paralelas como o tráfico de drogas, de armas e da lavagem de dinheiro podem ficar de fora da jurisdição do Estado e até de chantagear ou se associar às autoridades constituídas.  As milícias e o crime organizado. A desregulamentação e a expansão das atividades ilícitas. Vejam esta citação: "Se ele chegar a superar os negócios legais, as regras tradicionais de concorrência serão pulverizadas, e o terrorismo multinacional tornar-se-á a ordem do dia". Se instaurará uma guerra hobbesiana, de indivíduos contra indivíduos, de empresas contra empresas e de nações contra nações, em suma, de todos contra todos.

5. Colapso financeiro: A surpresa é a de que ele ainda não tenha acontecido. O mercado de derivativos é maior que o mercado do PIB dos países. A especulação financeira se tornou maior do que a economia ligada à produção. Muitos falam do capitalismo financeiro como um capitalismo vadio. Ele gera crises de loucura e de colapsos mentais. E os eternos socorros financeiros do Estado, mesmo que o abominem. Em suma, uma série de aporias, de contradições internas dentro de um sistema que, inclusive, chegou a anunciar o fim da história, A perfeição já teria sido alcançada e a ela todos teriam que se submeter.

Isso foi escrito no ano de 1999. Se o texto teve a intenção de ser profético, estas profecias estão se realizando e são, a cada dia que passa, mais visíveis. E como eu saía feliz após essas aulas com esse teor. Formação de consciências, de preservação de futuro. Eu, desde que conheci uma frase de Jean Claude Forquin, do livro Escola e cultura - as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar - "Ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida a seus próprios olhos", ela me acompanhou como uma espécie de lema em meu trabalho de professor.

Acompanhar os debates e as deliberações da COP-30 é uma obrigação ética de todo o professor que ainda não se entregou a um sistema de ensino por meio de plataformas e reduzido a meros treinamentos, alheios à formação de consciência social. Estou me referindo, é claro, ao sistema educacional imposto à rede pública de ensino do estado do Paraná. Somente quem nada entende de educação é que pode implementar um sistema desses. É preciso resistir, e, para isso, ter conhecimento é fundamental.

Mais incompreensível ainda é o fato de existirem os negacionistas. E como são muitos, elegem até presidentes. Entregam em suas mãos o futuro do mundo e da humanidade. É trágico. Em breve apresentarei o inteiro teor do livro.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

DOMÍNIO. O cristianismo e a criação da mentalidade ocidental. Tom Holland.

Nas rodas de conversa que eu frequento o tema da religião sempre é recorrente. Assim, numa delas, veio à tona o livro Domínio - o cristianismo e a criação da mentalidade ocidental, do historiador inglês, especializado no mundo antigo, Tom Holland. Esta mentalidade ocidental moldada pelo cristianismo pode mais ou menos ser assim definida, como a definiu o autor, já quase ao final de seu livro:

Domínio. O cristianismo e a criação da mentalidade ocidental. Tom Holland. Record. 2022.

"... O humanismo (presente no mundo ocidental) deriva, no fim das contas, de alegações feitas na Bíblia: os seres humanos são feitos à imagem de Deus; seu Filho morreu igualmente por todos; não existem judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher. Repetidamente, como um grande terremoto, o cristianismo enviou reverberações pelo mundo. Primeiro houve a revolução primal, pregada por São Paulo. Então vieram os tremores secundários: a revolução do século XI que colocou a cristandade latina em seu curso momentoso, a revolução comemorada como Reforma, a revolução que matou Deus. Todas com a mesma estampa: a aspiração de incluir em si mesma toda outra forma de ver o mundo e a reivindicação de um universalismo que era culturalmente específico. Que os seres humanos possuem direitos, nascem iguais e devem obter sustento, abrigo e proteção contra a perseguição nunca foram verdades autoevidentes". Em suma, o mundo ocidental foi tomando as formas de pensar do mundo cristão (Página 535).

No belo prefácio do livro encontramos a pergunta fundamental que o autor busca responder: "Como um culto inspirado pela execução de um criminoso obscuro em um império há muito desaparecido pôde exercer uma influência tão transformadora e duradoura no mundo?" (página 24). Logo adiante, o autor dá as marcas  do mundo cunhadas pela morte desse criminoso. "Dois mil anos após o nascimento de Cristo, não é preciso acreditar que ele se ergueu dos mortos para ser marcado pela formidável - de fato, inescapável - influência do cristianismo. Seja a convicção de que os mecanismos da consciência são os mais seguros determinantes das boas leis, de que a Igreja e o Estado existem como entidades distintas ou de que a poligamia é inaceitável, seus elementos podem ser encontrados em todo o ocidente. Mesmo escrever em uma língua ocidental é usar palavras permeadas de conotações cristãs. 'Religião', 'secular', 'ateu, - nenhuma dessas palavras é neutra. Todas elas, embora derivem do passado clássico, trazem consigo o legado da cristandade. Falhar em entender isso é correr o risco de anacronismo. Por mais vazios que estejam os bancos das igrejas, o Ocidente permanece firmemente atracado a seu passado cristão" (página 25). O termo criminoso, usado pelo autor, é uma referência à morte na cruz, reservada no Império Romano, aos piores criminosos. Vai por aí o teor do longo livro de Tom Holland. Ele tem também três grandes divisões: Antiguidade, Cristandade e Modernistas.

Acima de tudo o livro do historiador é um livro de história, um longo livro de história. São 642 páginas, divididas em prefácio, vinte e um capítulos, notas e bibliografia. E três epígrafes notáveis. Eu as apresento: Ame e faça o que quiser. Santo Agostinho. // Que você sinta haver algo certo pode se dever ao fato de jamais ter pensado muito a respeito de si mesmo e ter aceitado cegamente os rótulos que recebeu desde a infância. Friedrich Nietzsche. // Tudo de que você precisa é amor. John Lennon e Paul McCartney. Os autores estão muito presentes nas análises do livro, que é, aliás, o sentido do emprego de boas epígrafes.

Vamos aos títulos dos capítulos: ANTIGUIDADE: I. Atenas (Até chegar à filosofia grega); II. Jerusalém (Antigo testamento - domínio romano); III. Missão (As cartas de Paulo - Roma e o legado de Pedro); IV. Crença (Expansão da doutrina, mártires, Cartago, heresias, Constantino e Niceia); V. Caridade (Juliano, Partilhando e cuidando, o voltar-se aos pobres. Agostinho); VI. Paraíso (A invenção do demônio, o bem contra o mal, usinas de orações); VII. Êxodo (Judeus, muçulmanos, choque de civilizações, Carlos Magno).

CRISTANDADE: VIII. Conversão (modelo carolíngio, Bonifácio, as fundações da ordem cristã, bávaros, húngaros, fragmentação do império franco); IX. Revolução (ressurgem os donatistas, um exército de peregrinos, universidades, o direito humano, Abelardo e Heloísa, a racionalidade da ordem divina); X. Perseguição (o julgamento dos hereges, a instituição da confissão, guerra santa, remover feridas à faca, os dominicanos contra as heresias, a perseguição aos judeus); XI. Carne (a era do Espírito Santo, uma era feminina, Catarina de Sena, a continência da carne, a liberdade de escolha do casamento e a negação do Pater familias, Madalena e a precedência, a igreja e a prostituição, sodomia; XII. Apocalipse (O monte Tabor, os reformistas sociais, ovelhas entre lobos - o colonialismo e a escravidão, Bartolomeu de las Casas, Lutero e a consciência); XIII. Reforma (Carlos V. Lutero e a tradução da Bíblia, a adesão dos príncipes, a justiça como dever dos príncipes, Müntzer, Henrique VIII, Calvino e a reforma moral, o papismo, os puritanos); XIV. Leiden (Leiden e Praga, Plymouth e a comunidade devota, os passageiros do Myflower - sua procedência, uma nova aliança, o morticínio indígena, Copérnico e o heliocentrismo).

MODERNISTAS: XV. Espírito (a propriedade, os presbiterianos, Cromwell, a liberdade religiosa, Maryland, Filadélfia - a cidade do amor fraterno, Spinoza, os huguenotes); XVI. Iluminismo (Diderot, Voltaire, a Vendeia, Robespierre e o terror, Napoleão, o marquês de Sade); XVII. Religião (A Inglaterra e os judeus, Colônia e os judeus, a Inglaterra e a abolição); XVIIII. Ciência (Os fósseis de Montana, uma teologia natural, Darwin,, as leis da evolução, Marx e os primeiros cristãos); XIX. Sombra (Nietzsche e o triunfo da vontade, Rússia - 1917, fascismo e nazismo, o sentimentalismo misericordioso, Tolkien); XX. Amor (All You Need Is Love, Beatles, o pós 2ª Guerra, Luther King, John Lennon, África e o gerenciamento da selvageria, Frantz Fanon e o colonialismo. Bush, o 11 de setembro e o Iraque); XXI. Woke - desperto (Ângela Merkel e os imigrantes, Orbán e a Hungria, Charlie Hebdo, o cristianismo e a transformação do mundo).

Eu assinalei pelo menos três destaques do livro: o significado da morte pela crucificação entre os romanos e o caráter de rebeldia de Jesus; a contextualização das cartas de Paulo e a escrita temática para cada povo ao qual ele se dirige e o posicionamento do autor frente ao tema. Ele claramente se posiciona como um cristão, mas não se omite e muito menos assume posições de neutralidade diante do mundo de contradições que permeiam  todo o cristianismo. Eu destaquei uma passagem: "Em um país tão saturado de suposições cristãs quanto os Estados Unidos, não havia como escapar de sua influência, mesmo para aqueles que imaginavam ter escapado. As guerras culturais norte-americanas eram menos uma guerra contra o cristianismo que uma guerra civil entre facções cristãs". (página 526).

Deixo também a orelha da capa do livro: "Os romanos acreditavam que a crucificação era o pior destino imaginável, uma punição reservada aos ladrões e aos escravos. Foi surpreendente, então, quando as pessoas passaram a acreditar que uma vítima em particular da crucificação - um desconhecido que atendia pelo nome de Jesus - deveria ser adorado como Deus.

O cristianismo é o legado mais longevo e influente do mundo antigo, e seu surgimento foi o episódio mais transformador da história do Ocidente. Mesmo aqueles que abandonaram a fé de seus pais, julgando a religião uma superstição sem sentido, permanecem inegavelmente seus herdeiros. De perto, a divisão entre os que creem e os que não creem pode parecer irreconciliável. No entanto, basta se afastar um pouco para perceber que o impacto duradouro do cristianismo no Ocidente pode ser observado em muito do que é tradicionalmente visto como seu oposto: a ciência, o secularismo e, sim, até mesmo o ateísmo.

Domínio explora as consequências desta crença e seus efeitos ao longo da história mundial. Hoje, o Ocidente está completamente saturado das crenças cristãs: como demonstra Tom Holland, nossa moral e nossa ética não são universais, e sim fruto de uma civilização muito específica. Conceitos como secularismo, liberalismo, ciência e homossexualidade são profundamente enraizados em fundamentos cristãos. Da Babilônia aos Beatles, de São Miguel ao movimento #MeToo, Domínio conta a história de como o cristianismo transformou o mundo moderno".

Deixo também a resenha de outro livro - a grande referência sobre o tema.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/11/historia-do-cristianismo-paul-johnson.html

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

A Revolução Chinesa. Wladimir Pomar.

Quem é que não se interessa pelo que está ocorrendo na China? Me refiro ao seu fabuloso crescimento econômico, fenômeno que, inclusive, está alterando a geopolítica mundial. Recentemente li um livro sobre Mao Tsé-Tung. Foi ótimo para saber sobre a Revolução Chinesa, que emergiu de uma série de guerras civis, no ano de 1949, quando foi instituída a República Popular da China. Mas parava por aí. Agora revendo meus livros deparei com A Revolução Chinesa, de Wladimir Pomar. O livro integra a coleção Revoluções do Século XX, da editora da UNESP. O seu limite é o ano de 2003, o ano de sua publicação.

A Revolução Chinesa. Wladimir Pomar. UNESP. 2003.

Na contracapa temos uma pequena nota, que apresento como uma introdução: "A revolução chinesa, bem como o país que a abrigou, intriga o Ocidente. A extrema complexidade de seus antecedentes, a rica trajetória cumprida entre os anos 50 e 70, e, finalmente, as reformas promovidas pelo regime a partir de fins do século XX impõem sobre simpatizantes e detratores, a tarefa sempre renovada de esclarecer o perfil dessa epopeia ainda não terminada".

Creio que sejam estes os dois temas centrais da obra. O período que vai de 1950 a 1970, ou seja, os primeiros tempos da Revolução e as profundas reformas, feitas a partir dos anos 1980, que alçaram a China a sua condição de grande potência, possivelmente, no rumo de ser a primeira potência do mundo. O fato bem singular é o de que a China não copiou modelos prontos. Não copiou o modelo soviético, embora com ele tivesse a mesma inspiração nos princípios marxistas e nem os modelos dos países capitalistas e suas posições de submissão aos princípios da dominação imperialista.

Mas não são estes os temas únicos do, podemos dizer, pequeno livrinho. Ele tem 180 páginas, divididas em dez capítulos. Eles são precedidos por uma apresentação da coleção - Revoluções do Século XX, escrito pela professora Emília Viotti da Costa, que nos apresenta as revoluções liberais do século XIX e das socialistas do século XX e nos lança a pergunta sobre o teor das revoluções do século XXI. Ela termina o seu texto da seguinte forma: "A Revolução chinesa, em 1949, e a Cubana, dez anos mais tarde, ampliaram o bloco socialista e forneceram novos modelos para revolucionários em várias partes do mundo.

Desde então, milhares de pessoas pereceram em conflitos entre o mundo capitalista e o mundo socialista. Em ambos os lados, a historiografia foi profundamente afetada pelas paixões políticas suscitadas pela guerra fria e deturpada pela propaganda. Agora, com o fim da guerra fria, o desaparecimento da União Soviética e a participação da China em instituições até recentemente controladas pelos países capitalistas, talvez seja possível dar início a uma reavaliação mais serena desses acontecimentos.

Esperamos que a leitura dos livros desta coleção seja, para os leitores, o primeiro passo numa longa caminhada em busca de um futuro, em que liberdade e igualdade sejam compatíveis e a democracia seja a sua expressão". De acordo com o texto de Pomar, este é o ideal perseguido pelas reformas chinesas, em curso a partir da década de 1980.

O livro tem introdução e dez capítulos. Na introdução, um pequeno prospecto da obra nos é apresentado. Os capítulos tem como títulos: I. As sementes revolucionárias: Um mergulho pela história antiga dos chineses, num paralelo com a história grega. A China é apresentada como um dos berços da civilização. Quando o Ocidente se abre para o mundo, a China se recolhe na permanência de sua economia agrícola e é submetida ao colonialismo estrangeiro. II Uma só faísca. A raiz de sua economia na agricultura nos indica um país dominado pelas oligarquias agrárias, em que uma faísca facilmente provocaria grandes incêndios. A sua história começa a se modificar com o 1917 da Revolução Russa e com a criação do Partido Comunista Chinês em 1921 e a adesão à Terceira Internacional. A China mergulha em uma Guerra Civil de três etapas.

III. Frente única bem chinesa. O Guomindang. Uma aliança entre a burguesia nacional e os proprietários de terras com os comunistas, na luta contra a dominação estrangeira e na Guerra para derrotar as invasões japonesas. Um período bem complicado, passando pela Segunda Guerra Mundial e pela Guerra Fria. IV. Ainda sob fogo. A Guerra civil entra em sua fase mais aguda. A burguesia e os comunistas não conseguem mais a convivência. Chiang Kai-chek e Mao. Chiang fica com a China Nacionalista e Mao proclama a República Popular da China. Mao inicia os esforços para a modernização da República Popular da China.

V. Em busca da modernidade. Duas décadas de muitas dificuldades. A China era uma economia fechada e atrasada, fato que em tudo dificultou a sua modernização. A solução encontrada foi o uso das armas e a propaganda, a chamada Revolução Cultural, que se encerra em 1976. Ela foi acompanhada de um culto à personalidade de Mao. Com o fim da Revolução Cultural se inicia um vasto programa de novas reformas. VI. Novas combinações estratégicas. Sob quatro princípios cardeais: Fidelidade aos princípios marxistas e maoístas; força ao Partido Comunista;  Respeito aos cientistas; Planejamento, mercado e propriedade. A base para as reformas. Abertura de mercados e ingresso na OMC. A estruturação de sua economia em bases novas. Sua estruturação.

VII. Estratégias de orientação. A prioridade agrícola. A conjuntura de sua agricultura. Tecnologia, modernização e produtividade. Contenção do inchaço urbano. Educação (Em 1949 - 80% da população era analfabeta). Dois princípios: pensamento crítico e solução de problemas práticos. Seguridade social. VIII. Estabilidade social e política. Por desenvolvimento social e cultural e melhorias no padrão de vida. Interligação entre as reformas econômicas e políticas. Esquecer a Revolução Cultural. A necessidade do crescimento econômico para sustentar o plano político. Grande desenvolvimento cultural. Meios de comunicação de massa.

IX. Abertura internacional. Em 1971 os USA suspendem o Bloqueio Econômico. A partir de 1979, grande abertura econômica e modernização de padrão internacional. Desenvolvimento em todos os setores. Nova formatação de empresas. Grande foco no turismo. Aproximações com a América Latina e com os países em desenvolvimento. A busca por uma multipolaridade. Imunes às crises capitalistas. Uma bela análise de todos os fatores de seu desenvolvimento. O limite do tempo analisado é o tempo do livro, publicado em 2003. Ainda não se fala em BRICS. X. A China no século XXI. Os efeitos do crescimento acelerado. A crise ambiental. A elevação da renda, os baixos salários. Boa capacidade de poupança interna e investimentos. Desafios.

Um livro maravilhoso e de nível elevado. Vejam a edição do livro. Uma editora universitária e de uma boa universidade. A UNESP.  Para satisfazer ainda mais a minha curiosidade, duas propostas: Novas leituras, que englobassem o século XXI. A literatura é farta. A outra seria uma visita à China. Esta eu descarto. Acabei de completar oitenta anos e as dificuldades com a língua. E para satisfazer a curiosidade minha e de muitos, eu busquei os dez maiores PIBs do mundo e a população dos respectivos países. 2025. Pesquisa Google.

Estados Unidos: U$ 30,34 trilhões. 340 milhões de habitantes.

China: U$ 19,53 trilhões. 1.049 milhões.

Alemanha: U$ 4,92 trilhões. 83 milhões.

Japão: U$ 4,39 trilhões. 124 milhões.

Índia: U$ 4,27 trilhões. 1.451 milhões.

Reino Unido: U$ 3.73 trilhões. 69 milhões. 

França: U$ 3,28 trilhões. 68 milhões.

Itália; U$ 2,46 trilhões. 59 milhões.

Brasil: U$ 2.17 trilhões. 212 milhões.

Canadá: 2,11 trilhões. 41 milhões.

E, ainda, sobre a revolução de Mao. 1949.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/pro-e-contra-mao-organizacao-do-texto-m.html


 

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

AS REFORMAS DE BASE. As razões da queda de João Goulart.

Acabo de ler o fantástico livro A oligarquia brasileira - Visão histórica, de Fábio Konder Comparato. Na contracapa do livro aparece uma frase, que representa uma espécie de síntese do livro e define quem compôs, ao longo de nossa história, esta oligarquia. "Não se trata, porém, daquela oligarquia tradicional, em que o poder supremo pertence exclusivamente à minoria de abastados, mas sim de uma coligação oligárquica, típica do capitalismo, na qual a classe rica permanece sempre unida aos principais agentes do Estado, ficando o povo à margem de todas as decisões".

A oligarquia brasileira. Visão histórica. Fábio Konder Comparato. Contracorrente. 2018.

Portanto, ao longo de toda a história do nosso Brasil, proprietários e agentes do Estado (governantes, instituição jurídica, Igreja (padroado), militares), sempre estiveram unidos na salvaguarda de seus interesses privados, em detrimento do bem coletivo. Nas raras vezes em que se rompeu esta aliança, as reações sempre foram rápidas, através dos golpes. As aspirações populares sempre foram sufocadas, especialmente pela força das armas.

A partir de 1930 ocorreram no Brasil mudanças bastante significativas, mesmo sem afetar esta permanente aliança. Por isso mesmo este período é de  grande instabilidade política. O período contém uma ditadura, a de Vargas sob o Estado Novo, e vai culminar em 1964 com o golpe empresarial-militar de interminável tempo de 21 anos (1964-1985), passando pelo suicídio de Vargas e pela instituição do regime parlamentar contra a posse de João Goulart, sob o regime presidencialista, em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros.

A finalidade deste post não é a de apresentar as causas, ou uma análise conjuntural que levaram ao golpe de 1964, mas sim, o de apresentar a intervenção das forças da aliança da oligarquia brasileira, exatamente para salvaguardar os seus interesses. Estes estavam ameaçados, quando um plebiscito popular restaurou o regime presidencialista, e Jango, agora governaria com os poderes de presidente restituídos. Antes de apresentar o texto de Fábio Konder Comparato, deixo um post sobre as reformas de base do presidente João Goulart. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/01/jango-conversa-com-joao-vicente-12-1.html

Agora vamos ao texto. "Entrementes, no curso de 1962, o Governo João Goulart divulgou o Plano Trienal, elaborado pelo economista Celso Furtado para combater a inflação e promover o desenvolvimento econômico. O plano incluía as chamadas reformas de base, a saber:

- Reforma agrária, incluindo a desapropriação das áreas rurais inexploradas ou exploradas contrariamente ao princípio da função social da propriedade, notadamente aquelas situadas às margens dos grandes eixos rodoviários e ferroviários, recebendo os proprietários expropriados, a título de indenização, títulos da dívida pública;

- Reforma educacional, visando a valorização do ensino público em todos os níveis e do combate ao analfabetismo, com aplicação do método idealizado por Paulo Freire;

- Reforma fiscal, com fundamento no princípio da tributação proporcional ao valor da base de cálculo; além da limitação da remessa de lucros ao exterior;

- Reforma eleitoral, mediante extensão do direito de voto aos analfabetos e aos militares de baixa patente;

- Reforma política, compreendendo a legalização do Partido Comunista Brasileiro;

- Reforma urbana, 'visando à justa utilização do solo urbano, à ordenação e ao equipamento das aglomerações urbanas e ao fornecimento de habitação condigna a todas as famílias';

- Reforma bancária, mediante ampliação do acesso ao crédito em favor dos produtores de bens;

- Nacionalização dos setores industriais de energia elétrica e químico-farmacêutico, bem como do refino de petróleo".

Cito um momento anterior. A abolição do regime monárquico após a abolição do regime da escravidão. Um golpe militar que derrubou a monarquia, em atendimento à elite cafeeira. Uma República nada pública. 

Cito também o momento presente. Há quanto tempo está tramitando na Câmara dos Deputados a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais. Em compensação, os super ricos, que integram a aliança oligárquica, devem arcar com a compensação da perda dessa arrecadação. Protelações e chantagens, é o que estamos vendo. E até hoje (29.09.2025), o projeto não foi votado.

Deixo também a resenha de um outro livro, que envolve o tema dos golpes contra a democracia. Trata-se de Utopia autoritária brasileira - Como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje, de Carlos Fico.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/09/utopia-autoritaria-brasileira-carlos.html