sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O sonho chinês X O sonho americano. O coletivo X O individual.

Ultimamente tenho lido bastante sobre o modelo chinês de desenvolvimento. Dois livros me chamaram mais a atenção. São eles: China - O socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele e China - Tradição e modernidade na governança do país, de Evandro Menezes de Carvalho. Fiz a resenha desses dois livros. Do primeiro eu chamei a atenção para um conceito todo especial. A desmistificação da economia clássica como um sistema natural, com a sua ênfase na competição. Assim me referi com relação à questão:


Os dois livros sobre a China.

"Da primeira parte do livro quero destacar a força dos argumentos apresentados para a desmistificação da economia clássica, como uma economia natural, em que atua o homo economicus, e as ditas leis da "mão invisível do mercado". Estudos da neurociência analisam as categorias de competição e cooperação e a sua influência sobre o comportamento humano. Os adoecimentos psíquicos atuais nos poupam maiores explicações. Aliás, toda a primeira parte é um mergulho na história da economia clássica, iluminada pelas categorias marxistas". Somos mais felizes quando cooperamos do que quando competimos. E, lembrando, que no processo de competição sempre existirão infinitamente mais perdedores do que vencedores.

Mas o que me motivou a escrever este post é o que está na terceira parte do livro de Evandro Menezes de Carvalho. Esta terceira parte versa sobre o O governo de Xi Jinping e a "nova era" pela revitalização da China, mais precisamente sobre o capítulo 20 - O sonho chinês: a revitalização da nação chinesa. No capítulo anterior já encontramos a provocativa frase "O sonho americano agora é encontrado na China", dita por um dirigente do Partido Comunista Chinês e, ante ela, o autor apresenta a não menos provocativa interrogação a respeito. "Mas será que o sonho chinês é idêntico ao sonho americano?" (Página 391). Vejamos então Xi Jinping (No poder desde 2012) e a abordagem do tema:

Encontramos uma primeira referência numa exposição temática "O caminho para a revitalização", no Museu Nacional, em 2012. Vejamos o seu contexto: "Ela abrangia o período de derrotas, sofrimentos e humilhações sofridas pelos chineses desde as Guerras do Ópio do século XIX até o fim da dinastia Qing, em 1911, e a subsequente fundação da República Popular da China pelo Partido Comunista Chinês, em 1949. Falar em 'sonho chinês' no contexto desta exposição é associar esta expressão à restauração completa da soberania territorial e econômica do país e da dignidade do povo chinês. Para Xi Jinping, 'realizar a grande revitalização da nação constitui o maior sonho da nação chinesa desde o início da época moderna' (Página 397). Autoestima!

O tema é retomado por Xi Jinping no encerramento da Primeira Sessão da 12ª APN (Parlamento), em março de 2013. Foi o tema mais comentado do início do seu mandato. Vejamos a descrição dessa repercussão: "A mídia e as instituições acadêmicas chinesas discutiram o conteúdo deste sonho e a sua distinção em relação ao sonho americano. Na exposição dos contrastes entre um sonho e outro, destacava-se aquilo que é próprio da sociedade chinesa e que a colocava em uma trilha de desenvolvimento que lhe é peculiar. Não era um debate trivial naqueles primeiros anos do mandato de Xi, pois se tratava de um mote que tinha uma função mobilizadora da população ante um cenário de crescimento do PIB em torno de 6%. O objetivo do líder chinês era persuadir os chineses a se empenharem ainda mais na realização de seus projetos de vida e se unirem em torno do projeto de rejuvenescimento da nação. O 'sonho chinês' ressoou como um chamado patriótico ao buscar a sua força discursiva em uma ideia primordial do imaginário do povo chinês: a sua grandeza civilizacional.

O tema voltou ao debate num encontro de think tanks chineses e latino-americanos do PCCH, em Pequim, no ano de 2014. Uma das palestras versou sobre O sonho chinês e o mundo. Indagado sobre as diferenças do 'sonho chinês' do 'sonho americano', assim ele explicou: "que o sonho estadudinense consiste  no desenvolvimento do país através dos êxitos individuas; enquanto o 'sonho chinês dá mais atenção ao desenvolvimento integral da nação como foco, mas também estrutural". E o palestrante continuou evidenciando as diferenças.

"Na cultura chinesa, a proteção do interesse coletivo prevalece sobre o individual que, se preciso, deve ceder diante do bem comum. Na cultura estadunidense, refletindo a gramática política do Ocidente, a proteção dos indivíduos em torno da noção de propriedade privada rege a lógica de constituição normativa da sociedade.. Para Wasserstrom, 'o tipo de apego às tradições e fortalecimento do Estado que Xi exalta é às vezes visto como mais propensos a impedir do que ajudar os Sonhadores dos EUA'. Entretanto, para a China, os sonhos do Estado e dos indivíduos não se separam. Xi expressa esta compreensão do seguinte modo: 'a história nos ensina que o futuro e o destino de cada um estão estreitamente vinculados com os do país e da nação'. É o conceito de harmonia, imbricado com o de sonho. Vejamos:

" Nós estamos bem quando o nosso país está bem. Esta indissociabilidade entre nação e indivíduo é a base da já referida noção de 'Grande Harmonia' no pensamento confucionista. Gerenciar a Grande Harmonia de uma nação é uma tarefa de cada indivíduo dentro de uma rede social maior na qual está inserido e dela depende. [...] Para a realização da Grande Harmonia, não é bastante a virtude dos governantes, é preciso que cada indivíduo se dedique ao seu aperfeiçoamento. Diferentemente das sociedades ocidentais capitalistas, onde a virtude muitas vezes é associada  à riqueza material individual conquistada e da qual se pressupõe promover o bem comum, na cultura tradicional chinesa o desenvolvimento do bem-estar social provém do autocultivo da virtude por parte de cada indivíduo. Sem isto, a estabilidade social estaria ameaçada e, consequentemente, a sua riqueza material". 

O capítulo termina com a apresentação de pesquisas relativas à realização dos sonhos. Eles migram quando o estágio do atendimento das necessidades  básicas  já foi atendido. Aí surgem necessidades mais elevadas. O autor assim termina este capítulo: "O consumo passou a desempenhar um papel importante na satisfação das expectativas da população. Mas não é a única demanda do povo chinês. Observou Xie Chuntao que 'os cidadãos chineses já não estão simplesmente satisfeitos com o fato de serem alimentados e vestidos. Eles esperam mais direitos democráticos e um ambiente jurídico melhor', mas para ir ao encontro destas reivindicações, o governo chinês sabe que precisa fortalecer a sua capacidade de governança. Não é sem razão que o 'Pensamento de Xi Jinping' expôs que a tarefa de modernização do país para a grande revitalização da nação exige o desenvolvimento de uma 'governança baseada na lei'. Na China, ela terá qualidades distintas se comparada com as culturas jurídico-políticas ocidentais. É a chamada para o capítulo seguinte sobre A governança baseada na lei e no Estado de Virtude.

Neste capítulo aparecem importantes reflexões sobre a questão do Direito e da Justiça. Reflexões sobre os conceitos de racionalidade (do Iluminismo ocidental) e da relacionalidade e do Estado Democrático de Direito e do Estado de Virtude. Esta busca do Estado de Virtude provém do sonho chinês, do aperfeiçoamento de seu mundo de sonhos. 

E, cá comigo, eu verifico em minhas conversas que uma das maiores insatisfações brasileiras está no pagamento de impostos, que teoricamente poderiam melhorar a vida de toda a população através da ampliação das políticas públicas. Sei que é difícil entrar nesse debate em virtude de razões históricas de nossa formação cultural. E, eu me lembrando de Tom Jobim, de Wave. "É impossível ser feliz sozinho". Ah! A relacionalidade. Deixo ainda o post da resenha dos dois livros acima citados:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html?m=1

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/china-tradicao-e-modernidade-na.html


sábado, 8 de agosto de 2026

CHINA - Tradição e modernidade na governança do país. Evandro Menezes de Carvalho.

Nos dias atuais, quase toda a minha curiosidade está voltada para a China. A grande questão é a de como este país fez tão grandes transformações em tão pouco tempo. Busco explicações nas leituras. Há alguns dias recebi de presente, da minha amiga Suzi, um livro sobre a China. O livro é simplesmente fantástico. China - Tradição e modernidade na governança do país. O autor, Evandro Menezes de Carvalho, tem todas as credenciais para este empreendimento. Ele é, entre outros tantos atributos, professor da Universidade de Língua e Cultura de Pequim e condecorado com o Chinese Government Friendship Award, a mais alta honraria dada a estrangeiros pelo governo central da China.

China - Tradição e modernidade na governança do país. Evandro Menezes de Carvalho. Batel. 2024.

Na contracapa encontramos o desvelar da hipótese desenvolvida ao longo das 498 páginas do livro: "A prática e a sabedoria chinesas influenciam o modo de organização da República Popular da China. Desde esta perspectiva, sustentamos a hipótese de que a China promove uma mudança gradual do 'sistema socialista com características chinesas' para uma governança chinesa com características socialistas. Invertemos os termos para despertar a reflexão. O 'socialismo' - naquilo que o substantivo possa ser referenciado, na forma e no conteúdo, às teorias e processos políticos do século XX - torna-se adjetivo qualificador do que se pretende ser um modelo de governança próprio e original da China para o século XXI. Há muitos aspectos relativos ao modo de organização política do país que antecedem em centenas de anos a fundação da República Popular da China e são reelaborados para acompanhar os novos tempos. E se o tempo der razão à tese que costura o conteúdo deste livro, estaremos diante de um fato que pode mudar totalmente o rumo dos debates e reflexões sobre a China, sobre o socialismo e sobre o papel deste país no sistema internacional daqui em diante".

Antes de mais nada, duas datas são fundamentais em todo esse processo de rápidas transformações: 1921 e 1949. A estas, uma terceira data pode ser acrescentada. Mas, o que aconteceu nestas datas para elas serem tão importantes? Em 1921, depois da Revolução russa de 1917, ocorre a fundação do Partido Comunista Chinês (PCCH). Em 1949 ocorre a fundação da República Popular da China (RPC), após a Revolução vitoriosa, liderada por Mao Tsé-Tung. E em 1978, após o fim da chamada Revolução Cultural, a China inicia as reformas que a levaram para o seu atual modelo de governança, de abertura para o mercado mundial e para o que o mundo hoje designa como "Socialismo de mercado" ou "Socialismo para o Século XXI".

E, ainda antes de mais nada, afirmar que o órgão que define estas políticas é o Partido Comunista Chinês (PCCH). É ele que, através de seus Congressos define as políticas a serem efetivadas na República Popular da China. O PCCH é enorme e bem estruturado. Ele consiste em organizações centrais, locais e de base e possui aproximadamente cem milhões de filiados. Todo o capítulo 12 (Páginas 219 a 237) é dedicado à descrição de sua organização. Há ainda outros  oito partidos, órgãos de cooperação e consulta política. São remanescentes do período pré-Revolução de 1949. Não são antagônicos. Bem, mas vamos à estrutura do livro. 

Ele se divide em três partes. Primeira parte: Da perda à retomada de rumo para a nação chinesa; Segunda parte: Compreendendo os pilares institucionais da governança da China; Terceira parte: O governo de Xi Jinping e a "Nova Era" pela revitalização da China.

Na primeira parte é apresentada a longa história da China, especialmente a sua história moderna de dominações e sofrimentos impostos pelo colonialismo e imperialismo ocidental. Esta história é apresentada ao longo de nove capítulos: 1. Introdução: entre o céu e a terra, as entrelinhas; 2. A continuidade ameaçada: invasões estrangeiras e revoltas internas; 3. A dinastia agonizante e as reformas tardias; 4. A República nascente: o declínio dos conservadores e a ascensão dos reformadores e revolucionários; 5. GMD (Guomindang - burguesia) e PCCH: alianças e disputa pelo destino da nação; 6. A reconquista da independência da nação chinesa pelo Partido Comunista da China (PCCH); 7. A República Popular da China de 1949 a 1976: as contradições na era maoísta; 8. Mao Zedong e Fei Xiaoping: o marxismo e o confucionismo na interpretação da sociedade chinesa; 9. Deng Xiaoping e a nova longa marcha para o auto fortalecimento da China: a conciliação dos antagonismos.

Na segunda parte são apresentadas as instituições básicas que governam a China, os chamados pilares institucionais. São mais nove capítulos: 10. A República Popular de uma Nação-Família; 11. A busca por talentos e virtude na nova burocracia; 12. O Partido Comunista da China; 13 A República Popular da China: a divisão administrativa do Estado chinês; 14. O sistema de Autonomia Étnica Regional; 15. Órgãos centrais do poder do Estado (cinco sub-itens); 16. Sistema de cooperação multipartidária e consulta política (dois sub-itens); 17. Os Partidos não comunistas e a questão democrática na China; 18. A democracia popular de processo integral.

A terceira parte é dedicada a uma análise do governo de Xi Jinping. Tem sete capítulos. 19. Xi Jinping e a Nova Era do Socialismo Chinês; 20. O Sonho Chinês: a revitalização da nação chinesa; 21. A governança baseada na Lei e no Estado de Virtude; 22. A Política Externa de Xi Jinping e a Comunidade Global do Futuro Compartilhado; 23. A iniciativa Cinturão e Rota: uma Nova Rota da Seda para o século XXI; 24. A nova diplomacia chinesa, sabedoria milenar; 25. Conclusão: Uma nova governança chinesa com características para o século XXI.

Desta terceira parte, sublinhei alguns traços que merecem uma reflexão mais cuidadosa. O mundo deve ser governado pela racionalidade ou pela relacionalidade? O mundo é uma mera soma de indivíduos com apregoava a senhora Thatcher, ou o fruto de uma complexa relacionalidade? "O sonho americano, agora é na China", diz um dirigente do PCCH. Mas o que distingue o sonho americano do sonho chinês? O Estado democrático de Direito é suficiente? Ele não necessita também da busca de um Estado de Virtude? Influências cristãs e confucionistas! E um grande questionamento da Racionalidade ocidental do Iluminismo. Chamo uma atenção toda especial para o capítulo 20, onde são apresentadas as características do sonho chinês, um sonho coletivo, sem o submergir do indivíduo.

E uma frase final: "A sabedoria milenar chinesa tem séculos de acúmulo intelectual e prática social, e o modo como os chineses lidam com os problemas e buscam soluções nem sempre é coincidente com aquele com o qual os ocidentais estão acostumados. O relativo desengajamento das potências ocidentais na defesa de um multilateralismo inclusivo reforça a adesão internacional à globalização ao estilo chinês e prenuncia a emergência de uma nova ordem internacional mais diversificada em diversos aspectos, e, portanto, mais complexa. Compreender a história da China, os mecanismos institucionais de governança no âmbito interno, suas raízes filosóficas e culturais, bem como a nova orientação diplomática do país, será crucial para entendermos este século XXI que tende a ser um século cada vez menos ocidentalizado" (Paginas 467-8). E para a Suzi, um beijo, junto com os meus agradecimentos pelo maravilhoso presente. 

Como eu tenho outras leituras sobre o tema, eu apresento os posts. Nele encontramos análises sobre a China do século XX, sobre a era das guerras civis e estrangeiras, sobre os triunfos de Mao, sobre a Revolução Cultural e sobre as reformas a partir dos anos 1980. Destaque todo especial para o último -China - o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/pro-e-contra-mao-organizacao-do-texto-m.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/10/a-revolucao-chinesa-wladimir-pomar.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O ATENEU (1888). Raul Pompeia.

O livro da vez - O Ateneu, de Raul Pompeia. Devo dizer que  ainda não tinha lido esse clássico, embora o livro figurasse em uma de minhas estantes. Coisas do tempo em que ainda estava em sala de aula. Fatos mais urgentes e prementes relegavam as leituras, remetendo-as para o futuro. No título do post grifei a data da publicação do livro, o ano de 1888. Uma data significativa de nossa história e de fundamental importância para a compreensão da leitura. Para além do contexto brasileiro, da abolição do regime de escravização e da transição do regime da monarquia para a República, imperava no mundo um espírito de euforia, a ideia, - ainda hoje me lembro de aulas do ano de 1968, dadas pelo inesquecível professor D. Antônio Cheuiche, - do progresso indefinido,  do triunfo da racionalidade, do entendimento humano. Se o passado é marcado pelo progresso, o futuro será a continuidade desse mesmo progresso. Raciocínio perfeito. A realidade nem tanto.

O Ateneu. Raul Pompeia. Penguin & Companhia das Letras. 2013.

Esse progresso seria assegurado, acima de tudo, pela educação. O Ateneu é um livro que fala de educação, ele figura entre os chamados romances de formação. O romance termina em tragédia. Um incêndio consome o educandário. Raul Pompeia é um especialista em caricaturar, exímio no uso de metáforas: "Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo - o funeral para sempre das horas" (Página 276). Tudo termina num "De profundis". também a vida de Raul Pompeia (1863-1895), aos 32 anos.

A edição da Penguin & Companhia das Letras, que eu li, é primorosa. Ela mantém as 44 ilustrações originais da publicação. Ela tem também duas contextualizações extraordinárias: A introdução - o domínio do sujeito: O Ateneu, de Pedro Meira Monteiro e o posfácio - Sobre as ilustrações d'O Ateneu, de José Paulo Paes. Vou me ater aos seus comentários, nesse post. A primeira das vinhetas é uma espécie de síntese do que iremos ler ao longo livro. Vejamos o comentário de José Paulo Paes:

"Começa a série na primeira página do livro, numa vinheta mostrando Sérgio (narrador e protagonista) e o pai, de costas para o observador, parados diante do portal de entrada do Ateneu; o pai tem a mão protetoramente espalmada nas costas do filho, como que a impeli-lo e a confortá-lo ao mesmo tempo; a legenda da figura é a abertura do romance: 'vais encontrar o mundo, disse-me meu pai à porta do Ateneu. Coragem para a luta'"(Página 291). 

E assim continua o comentário: "Daí por diante, Sérgio terá de caminhar sozinho, Dante sem nenhum Virgílio a guiá-lo pelos círculos infernais da vida do internato. A menos que se queira ver tal Virgílio em Rebelo, o colega veterano que aparece ao lado de Sérgio numa das vinhetas do capítulo II, a adverti-lo dos perigos à sua espera: 'Olhe, um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se, [...] os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo'. A vinheta seguinte da série, no capítulo VIII, mostra dois colegas ajoelhados, com o rosto oculto pelo braço dobrado. Trata-se de Tourinho e Cândido, obrigados por Aristarco (o proprietário e diretor do Ateneu) a ajoelharem-se em pleno refeitório, diante de todos os colegas, como 'acólitos da vergonha'. Interceptara o diretor uma carta amorosa assinada "Cândida' e, após rigorosa devassa, apura ter sido escrita por Cândido a Tourinho, marcando um encontro secreto no bosque. Uma frase da página contígua da vinheta serve-lhe à maravilha de legenda: 'Cândido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a furto, confrontando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo no inferno'" (Página 291-292).

É possível esse caminhar? Ou essa pedagogia tenderia para o malogro. Vejamos outro comentário: "Com isso, a pequena vinheta do capítulo II tem o seu alcance grandemente ampliado, num efeito de eco ou ressonância, passando a servir de índice do próprio malogro da pedagogia do Ateneu e do seu diretor. Contra a hipocrisia dessa pedagogia e desse pedagogo, cujo moralismo palavroso não alcança esconder-lhe a rapacidade de essência, o incêndio final ateado por um dos alunos constitui, tanto quanto os vícios e as abjeções de outros alunos evocados ao longo do livro, um gesto prometeico de rebeldia. Rebeldia da natureza humana, selvagem que seja, mas autêntica, contra tudo que busque falseá-la; revolta da criatura imperfeita contra o criador ainda mais imperfeito do que ela" (Página 290). Ah! a hipocrisia. Ah! a falsidade.

Da introdução sublinhei alguns traços: "O que talvez se possa dizer, para auxiliar a leitura, é que seu autor está todo impregnado do espírito do tempo, e que em 1888, quando O Ateneu vinha a público na forma de folhetim, havia uma grande interrogação no ar: quanto o homem deve ao meio? A questão se desdobrava em outras: somos o produto inconsciente das forças que nos ultrapassam? Mas de onde viriam então essas forças? Da paisagem que nos cerca? Do próprio corpo que carregamos? Seríamos apenas joguetes impotentes nas mãos da natureza?" (Página 7-8).

O comentarista prossegue: "Um leitor informado verá aí as marcas do século XIX. O pensamento científico, que prevalecera e se multiplicava em inúmeras tendências, pretendi explicar o mundo a partir de um materialismo mais ou menos estrito. Não poucas mentes brilhantes se deixaram seduzir pela ideia de que havia um progresso necessário, inelutável, que nos conduziria a todos, como se o gênero humano fosse o natural portador e combatente da civilização. Evidentemente, no quadro mental que então prevalecia, uns eram mais civilizados que outros e, no limite, caberia ao homem branco carregar às costas o 'fardo' do atraso que se espalhava nas zonas para além do mundo culto, isto é, da Europa com suas luzes. Em sua inflexão imperialista, vemos aqui o princípio expansivo e otimista do progresso, cujas raízes apontam para o Iluminismo do século anterior. Mas o século XIX ofereceria entraves importantes para a seta invencível da civilização" (Página  8).

Dentro desse contexto Pedro Meira Monteiro também volta um olhar sobre o Brasil: "No Brasil, a própria escravidão era a marca do debacle civilizador, nódoa incômoda que razões econômicas justificavam e perpetuavam. O Império brasileiro, nesse sentido, sustentou uma ordem iníqua que a República falharia em consertar. A escravidão está praticamente fora do romance de Raul Pompeia, embora possamos senti-la como uma 'presença ausente', ou como a base inconfessável da riqueza familiar de quase todos os meninos que se ilustram no Ateneu. E como ser otimista com um monstro desses no armário?" (Página 8).

Pedro Meira Monteiro assim termina a sua introdução: "Talvez O Ateneu seja, ao fim, a expressão possível e arrebatadora da inadequação, ou do sentimento de desterro que ameaça aniquilar o indivíduo, seja ele o jovem Sérgio, ou o narrador maduro que se debruça sobre o passado. Ao debruçar-se, ele não pode senão imaginar o que aconteceu, colhendo na memória os sinais da corrupção que o indivíduo Raul Pompeia quis sempre vencer, como se a retidão, que ele intransigentemente cobrava de si e dos outros, pudesse manter-se pelos tempos, intacta. Não surpreende que ele tenha perdido a batalha" (Páginas 18-19).

Raul Pompeia era republicano e abolicionista. Foi, inclusive, amigo do Dr. Luiz Gama. Era fervoroso adepto do Marechal Floriano Peixoto. Seus dissabores lhe abreviaram os sofrimentos da vida. Ah! a educação. Ah! a escola. Ah! os internatos. Ah! a formação do ser humano. Raul Pompeia estudou no colégio Ateneu, ops, desculpem, no colégio Abílio, o colégio da elite do bairro Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O romance é profundamente autobiográfico. Uma pequena síntese, na contracapa:

"A inesquecível galeria de tipos humanos imortalizada por Raul Pompeia no microcosmo do Colégio Ateneu constitui o centro deste romance, publicado originalmente em 1888 como folhetim na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro e até hoje um marco de nossa prosa.

A partir das memórias do autor como aluno do Colégio Abílio no bairro das Laranjeiras, onde estudou entre 1873 e 1877, o romance narra as experiências de Sérgio, um tímido garoto de onze anos como aluno interno no Colégio Ateneu.

Esta edição de O Ateneu conta com texto introdutório de Pedro Meira Monteiro, doutor em teoria e História Literária pela Unicamp e professor no Departamento de Espanhol e Português na Universidade Princeton, além de detalhada cronologia biográfica do autor". Um imenso mal- estar.


segunda-feira, 27 de julho de 2026

ITAPIRANGA. Minha terra. Recorte histórico e memórias. José Nedel.

Recebi do meu irmão Hédio José o belo livro Itapiranga - Minha terra. Recorte histórico e memórias. A autoria é de José Nedel, sem dúvida um dos cidadãos mais ilustres da terra, filho de pioneiros dessa então tão promissora terra. A história nos remete aos idos da década de 1920 para apresentar os seus primeiros registros. Na época havia, no extremo oeste de Santa Catarina, dois portos no rio Uruguai, que formaram os núcleos iniciais da colonização: o Porto Feliz, atual Mondaí (10.066 hab.) e o Porto Novo, atual Itapiranga (16.638 hab. censo IBGE - 2022). Essa colonização foi uma extensão da colonização alemã do Rio Grande do Sul, iniciada em 1824. O tema remonta às minhas origens, à minha formação primeira em Harmonia e depois continuada em Bom Princípio, Gravataí e Viamão. 

Itapiranga. Minha terra. Recorte histórico e Memórias. José Nedel. Oikos.

A história da colonização alemã é bastante conhecida. Os primeiros colonos se estabeleceram em São Leopoldo e São José do Hortêncio, expandindo-se depois pelos vales dos rios dos Sinos, Caí, Taquari e Pardo. As famílias foram se multiplicando e novas frentes de colonização foram sendo abertas. Isso se transformou em uma necessidade. As famílias eram muito numerosas. Cito o exemplo dos meus avós. A família dos avós paternos teve nove filhos e a dos avós maternos quatorze. Alguns dos seus filhos, meus tios, estão nessa saga de pioneiros em Itapiranga. Meu irmão foi para essa região nos anos 1950, como professor. Passou por Palmitos, Linha Catres e Cambucica. Hoje mora em Mondaí.

A história do autor, José Nedel, é bastante semelhante a minha. A diferença é que meus pais ficaram nas chamadas colônias velhas, Harmonia no caso, e os dele, foram para Itapiranga, emigrados da região de Nova Petrópolis. Ele é mais velho do que eu. Nasceu em 1934 e eu em 1945. A semelhança entre nós se deu pela ida ao seminário. Ele, com os jesuítas, em Salvador do Sul e eu com os seculares, em Bom Princípio. A semelhança se dá também pelo exercício da função de professor. José Nedel, além de professor, foi também juiz de direito no Rio Grande do Sul. Mas essa história, a de juiz, ele não conta nesse livro. A diferença é a de que,  enquanto eu me estabelecia no Paraná, ele voltou ao Rio Grande do Sul.

Mas vamos ao livro. Ele é maravilho e, como se trata de recortes históricos e de memórias, ele é de leitura fácil e agradável. Adotou uma narrativa num estilo jornalístico, fugindo do academicismo. Ele consta de apresentação, cinco capítulos, considerações finais e preciosas referências bibliográficas. Os cinco capítulos tem os seguintes títulos: I. Aspectos da ação dos jesuítas no sul; II. Porto Novo - Itapiranga: Do início à emancipação política; III. Itapiranga: autonomia e desenvolvimento; IV. Linha Jaboticaba: Paulo e Catarina Nedel pioneiros; V. Memórias pessoais: tópicos seletos. Os três primeiros capítulos remetem à história, enquanto que os dois últimos à crônica familiar e pessoal.

Para mim, o capítulo de maior interesse foi o primeiro. Confesso que me senti um tanto jesuíta, tal foi a sua influência em minha formação, embora eu tenha ido para o seminário dos padres seculares e o padre Oscar Mallmann, padre vigário de Harmonia por mais de cinquenta anos, também fosse um padre secular, mas de formação jesuítica.

José Nedel nos oferece um panorama sobre a ordem dos padres jesuítas, desde a sua fundação em 1534, sua vinda e expulsão do Brasil, o seu retorno em 1842, as suas intensas atividades no sul do Brasil, a fundação dos colégios, até hoje colégios de formação de elite. O aspecto mais interessante do capítulo é a sua forma de atuação, sempre interligando a igreja com a escola. Como, com a República, o Brasil se tornou um país laico, as paróquias se encarregaram da criação de escolas paroquiais, sob o seu comando. No início dos anos 1950, foi numa dessas escolas que eu fui alfabetizado. As paróquias tinham também a seu encargo a organização da vida da comunidade. O termo Verein se tornou onipresente: Lehrerverein, Bauersverein, Volksverein. Dessas instituições, o Volksverein se tornou a instituição mais interessante. Ela preservou a língua alemã (foi ela a minha primeira língua), os costumes e impulsionou a formação de novas colônias, tendo o cuidado de mantê-las sob a influência alemã e católica. Itapiranga é um exemplo dessa colonização.

Da organização da vida comunitária e a unidade em sua manutenção eu teria dois destaques a fazer. As colônias se intercomunicavam através de dois veículos de comunicação, praticamente presentes em todas as comunidades. O St. Paulus Blatt e o anuário Ignatius Kalender, escritos em alemão. Creio que o St. Paulus Blatt continua circulando até os dias de hoje. Ele foi um importante veículo de propaganda da colonização de Porto Novo - Itapiranga. O outro aspecto é o da organização cooperativa, especialmente no setor financeiro. A poupança dos colonos, depositada nas Sparkasse, financiavam especialmente os novos casais que vinham se formando, ajudando-os, especialmente na aquisição de um pedaço de terras. Nesse setor teve grande destaque o padre Theodor Amstad. Essa forma de crédito deu origem as atuais cooperativas de crédito como a Sicredi e a Sicoob. A Sicredi, em Linha Imperial (Nova Petrópolis e a Sicoob, em Itapiranga. Vejam bem que o espírito cooperativo acompanhou os colonos em sua migração para o extremo oeste catarinense. Sobre esse tema também tenho a recomendação de um interessante livro, do qual eu ofereço uma resenha. Trata-se de A missão dos jesuítas alemães no Rio Grande do Sul, do padre Ambrósio Schupp.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/11/a-missao-dos-jesuitas-alemaes-no-rio.html

O segundo capítulo nos leva ao extremo oeste de Santa Catarina, ao Porto Novo, hoje Itapiranga. Como vimos, a sua colonização é uma extensão da imigração alemã no Rio Grande do Sul. Após cem anos, ela precisava de uma expansão. O St. Paulus Blatt se encarregou da propaganda da nova terra prometida. A narrativa passa pela organização das empresas colonizadoras, das possibilidades econômicas oferecidas e das dificuldades encontradas. O rio Uruguai garantia o fluxo das riquezas. Ganham destaque na narrativa as famílias dos pioneiros e a presença dos padres jesuítas que vivamente acompanharam os colonos em seu processo migratório. Esse núcleo pioneiro fez surgir três municípios: Itapiranga, São João do Oeste e Tunápolis. O grande destaque desse capítulo é o da atuação do Volksverein, em todo esse processo e no espírito da preservação do germanismo e do catolicismo. O germanismo ocasionou sérios problemas no entorno da Segunda Guerra Mundial. Nos mesmos moldes, só que sob o comando dos luteranos, alguns anos antes houve a colonização do Porto Feliz, atual Mondaí. Também tenho a resenha de dois livros sobre o tema. Os livros também me foram remetidos pelo meu irmão.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/07/um-novo-lar-na-imensidao-da-mata.html e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/08/porto-feliz-mondai-o-centenario-da.html

No terceiro capítulo já adentramos na segunda metade do século XX. O foco está no desenvolvimento da região. Os antigos lugarejos agora se transformam em municípios, desmembrados de Chapecó, o grande município mãe. O desenvolvimento ocorre com a abertura de estradas, com a chegada da energia elétrica, do saneamento básico, de estabelecimentos educacionais, comerciais e industriais. A presença do Estado se tornou efetivamente presente: CELESC, TELESC... Também o espírito cooperativo se fez presente. E, ao que parece, em meio a isso, tem uma história um tanto complicada. A da cooperativa SAFRITA - agropecuária, que ainda hoje existe, sob o domínio da JBS, me informa uma consulta Google. O espírito do cooperativismo creditício se fez presente com a Creditapiranga, raiz da atual SICOOB.

O quarto capítulo é dedicado à família do autor. Paulo e Catarina Nedel são os pioneiros, que se estabeleceram na Linha Jaboticaba, hoje pertencente ao município de São João do Oeste. Nesse capítulo, meu irmão sublinhou dois nomes que adquiram lotes na referida colônia: Pedro Rech e Arnoldo Fridolino Reichert. Reichert é o sobrenome de minha mãe, de quem Arnoldo Fridolino era irmão. me lembro vagamente de uma visita sua, numa de suas vindas para Harmonia. Não tenho lembranças de Pedro Rech. Meu irmão os visitava constantemente.

O quinto capítulo é de foro particular do autor, suas memórias pessoais. Foi aí que estabeleci muitas de suas memórias com as minhas, especialmente a vida de seminaristas. O seminário foi o grande elemento constituidor de nossas vidas. Acima de tudo, ele nos deu uma sólida formação humanística e nos fez portadores de virtudes que felizmente preservamos. Também numa rápida consulta ao Google, vi que José Nedel faleceu no dia 14 de junho de 2025, e que ainda em seus tempos derradeiros manteve intensa produção cultural. O presente livro é um exemplo disso. A sua edição é do ano de 2025.

Recomendo ainda as ricas indicações bibliográficas, que interessam a todos os que tem interesse na colonização alemã no Rio Grande do Sul, que 2024 festejou o seu bicentenário. Dessa bibliografia me chamou especial atenção um livro sobre esse bicentenário. Trata-se de Duzentos anos de imigração alemã: flagrantes - de autoria de Arthur Blásio Rambo. Editora Oikos, 2023. A essa bibliografia eu tenho um acréscimo a fazer. Uma indicação de Antônio Cândido sobre a colonização alemã. A aculturação dos alemães no Brasil - de Emílio Willens, da Companhia Editora Nacional, 1980. Tenho uma resenha.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/01/a-aculturacao-dos-alemaes-no-brasil.html

E como essas leituras me provocam um enorme saudosismo também deixo um post do blog sobre Harmonia, a minha querida terrinha natal. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/11/tributo-harmonia-i-terra-em-que-eu-nasci.html



segunda-feira, 20 de julho de 2026

SHAKESPEARE. UMA VIDA. Park Honan.

Várias leituras me levaram a retomar um contato com Shakespeare. Sempre me intrigou o fato de que dois dos maiores gênios das letras fossem praticamente contemporâneos, embora vivessem em países em guerra. Acredita-se até que eles tenham morrido no mesmo dia, qual seja, o de 22 ou 23 de abril de 1616. Vejamos as datas, de acordo com uma rápida pesquisa Google. Shakespeare: abril - 1564 - 22 de abril de 1616. Cervantes: setembro - 1547 - 22 de abril de 1616. Formas diferentes de escrever, mas, ambos se ocupam, com toda a profundidade, do tema do humano.

Shakespeare - uma vida. Park Honan. Companhia das Letras. 2001. Tradução: Sonia Moreira.

Em 2016 me detive mais de perto com o Dom Quixote. Agora, para me deter em Shakespeare, tomei a biografia escrita pelo biógrafo norte americano, Park Honan. A primeira frase que lemos na contracapa do livro não é nada modesta: A mais completa e precisa biografia de Shakespeare já publicada. E, já que começamos com a contracapa, vamos continuar a ver a apresentação da obra:

"Em 1709, um texto de quarenta páginas esboçava o perfil de um poeta, ator e dramaturgo que, um século antes, entusiasmara o público inglês. Foi essa a primeira biografia que se fez de William Shakespeare. De lá para cá, escreveram-se milhares de páginas para compreender esse homem genial, autor de uma obra que a cada geração suscita novas perguntas e novas interpretações. 'Ser ou não ser: eis a questão': bastaria reunir as versões, citações e comentários dessa frase dita por Hamlet, o personagem shakespeareano mais célebre, e já se teria uma respeitável biblioteca.

Park Honan reúne virtualmente tudo o que se conseguiu saber até hoje sobre William Shakespeare. Surpreendendo mesmo os estudiosos, recorre a materiais inéditos e apresenta inúmeras informações novas e relevantes, estabelecendo com precisão o que é fato e o que é mito ou equívoco. As lendas imaginam o dramaturgo envolvido com tantas damas sombrias, rapazes pobres e conspirações em tabernas, que só um milagre poderia explicar como ele encontrou tempo para o teatro. Por outro lado, descobrimos que os fatos são mais empolgantes e sugestivos do que tudo o que já se fantasiou.

A crônica histórica, social e política da Inglaterra dos séculos XVI e XVII - incluindo o movimento das companhias teatrais, o poder dos mecenas e as características dos teatros e do público da época - também constitui um dos grandes méritos deste livro. Tal como apresentada por Honan, ela não apenas ilumina a vida de Shakespeare, como amplia efetivamente a compreensão de seus escritos: entendemos melhor por que eles nos fascinam".

Nunca trabalhei com a literatura de Shakespeare. Já participei de grupos de leitura, onde examinamos uma de suas peças históricas, Ricardo III. Também estudei um pouco mais de perto Ricardo II. Li biografias, mas nada comparado ao livro de Park Honan. Sempre tive muitas curiosidade com relação ao dramaturgo. O que sempre mais me intrigou foi a questão de como se formou este gênio, qual a sua formação, quais foram as suas fontes e como ele acumulou tanto conhecimento. Desde a leitura de Romeu e Julieta soube que ele não tirava do nada as suas histórias, mas que ele as adaptava de histórias já existentes. Isso está plenamente confirmado na obra de Honan. Na obra também fica muito claro que ele teve uma boa formação escolar.

Essa formação escolar ele teve em sua própria cidade natal, Stratfort-Upon-Avon, onde, além da escola básica fundamental, ele frequentou a escola de latim, que deveria se constituir num profundo mergulho na cultura clássica, da literatura, na filosofia e na política de gregos e romanos. Isso lhe foi fundamental. Plutarco sempre foi uma de suas grandes fontes. Lembrando que - de Plutarco recebemos em torno de cinquenta biografias. Outro dado fundamental. Shakespeare encomendava estudos históricos junto a historiadores profissionais. Isso explica as suas peças sobre as monarquias, especialmente sobre a monarquia inglesa. Sempre foi também antenado ao seu tempo, o tempo do Renascimento. Hamlet, o seu personagem principal, fora estudante na Universidade alemã de Wittenberg.

Outro fator fundamental em sua obra foi o debate coletivo. Shakespeare, além de autor das peças, era também ator. E junto aos colegas atores discutia o teor das peças, formas de expressão que fossem em direção ao agrado do público. Agradar ao público sempre foi o grande motivo da escrita de suas peças. Tanto Shakespeare, quanto os atores, eram profissionais que viviam do teatro. Era praticamente a sua única forma de sobrevivência. O teatro era, seguramente, a maior forma de entretenimento da época. Havia vários teatros em Londres, bem como, companhias teatrais profissionais. Observem bem o tempo da maior produção do autor, a passagem do século XVI, para o XVII, dos anos 1590 em diante, até a sua morte em 1622. Anos em pleno Renascimento.

A biografia de Park Honan também é rica em detalhes da sua vida pessoal. Sua família, pais, irmãos, filhos, posses, relações, sexualidade, ida a Londres, convivência com os artistas, bebidas. Uma vida, é importante dizer, muito ativa. Muito conhecimento da vida humana, conhecida através de suas experiências. Tudo isso está presente em sua obra e se constitui no seu maior êxito, uma expressão viva dos mais diferentes, contrários e contraditórios sentimentos e afetos humanos. Por óbvio, Shakespeare, ao longo de sua vida, passou por inúmeros perrengues. 

Outro fator interessante a ser observado na obra, é a convivência constante com as pestes. Elas eram fatais e intermitentes. Para além do que elas representavam por si só, uma convivência com a morte, elas também fechavam os teatros. Isso obrigava as companhias a serem ambulantes, indo para o interior, para cidades pequenas, com menores índices de contaminação e expansão das doenças. A própria causa mortis do dramaturgo, suspeita-se, tenha sido uma febre tifoide.

Como biografia, o livro segue a linha cronológica de sua vida, intercalando-a com a sua produção artística. As peças principais merecem capítulos inteiros. Entre notas, bibliografia, introdução e descendentes de sua família, o livro está dividido em quatro fases, a saber: I. Um jovem em Stratford; II. Ator e poeta do teatro londrino; III. A maturidade do gênio; IV. A última fase. Ao todo são 18 capítulos, assim distribuídos: A parte I tem seis capítulos; a parte II, mais seis; a parte III, quatro e a parte final mais dois capítulos. Ao todo são 557 páginas.

Por seu alto poder de síntese e de importância, embora um tanto longo deixo alguns parágrafos da parte final do livro. Eles nos dão um panorama de seu tempo, de sua obra e de sua herança para os nossos tempos:

"Por que tivemos a sorte de que tantos trabalhos de Shakespeare chegassem até nós? A quantidade de obras escritas em sua época que se perderam é imensa. Dos 175 títulos de peças registrados por Henslowe do Rose, apenas 37 peças sobrevivem hoje. O número total de peças escritas entre 1560 e 1642 deve ser pelo menos seis vezes maior do que o número de peças que sobreviveram. As peças de Shakespeare chegaram até nós porque ele era imensamente popular e, também, porque era afortunado. Afinal, a população da Inglaterra crescera cerca de 3 milhões de habitantes na época em Shakespeare nasceu para cerca de 4,5 milhões cinquenta anos depois. Apesar dos muitos problemas que tiveram de enfrentar, os atores de sua trupe puderam contar, com o passar do tempo, com um público atento e cada vez mais numeroso. Além disso, embora sua plateia fosse constituída por gente de todas as classes e formações, nesse público estavam incluídas aquelas pessoas que Milton louva em Areopagitica: os londrinos que estão 'tentando tudo, atendendo à força da razão e do convencimento', como afirma o ensaísta, 'questionando, examinando, inventando, debatendo [...] coisas sobre as quais nunca ninguém debateu ou escreveu antes'.

Londres ajudou Shakespeare a criar as peças mais profundas e exigentes já oferecidas a uma cidade. Não há dúvida de que as pressões comerciais forçaram seu talento a vir à tona, enquanto ele trabalhava para atender às necessidades  dos atores. Mas sua receptividade e extraordinária sensibilidade deram-lhe uma compreensão única da experiência humana, de modo que todas as obras dele transcendem seu tempo. Suas peças são inesgotavelmente férteis em seu estímulo a novas ideias e interpretações - e o fato de terem o poder de transformar as vidas dos espectadores e leitores é prova não de um 'milagre', mas das qualidades únicas da arte e do intelecto do autor.  Esse poder intelectual pode ser sentido, por exemplo, nas estruturas fortes, sutis e complexas de seus trabalhos, na enorme diversidade de seus mais de mil personagens e até mesmo no caráter perturbador de suas percepções e de sua arte. Seu humor e senso de comédia são incomparáveis, mas, longe de reconfortar o público, Shakespeare retrata a natureza humana de formas que são ao mesmo tempo verossímeis e profundamente inquietantes. Sua curiosidade com respeito à natureza humana era de certa maneira impiedosa, muito embora nunca superasse sua solidariedade para com o quinhão humano.

 As maiores modificações que faz em suas fontes têm a ver com motivação e emoção; Shakespeare rejeita toscas simplificações do sentimento e da violência, embora se empenhe em fazer com que a sua própria representação da violência no palco alcance o máximo de efeito. Encorajado por seus colegas, ele lhes dava o que queriam e sempre mais, no sentido de que suas peças geram de forma brilhante a sua própria renovação e afetam as pessoas como nenhuma outra peça fizera antes. Shakespeare desafia as maiores habilidades de uma trupe, mas também é verdade que recompensa amplamente aqueles que atuam em suas peças. Uma de suas características típicas é complicar o texto alternando atmosfera, o tom e o ritmo de uma fala para a outra, e, na verdade, ele oferece a cada ator uma diversificada superfície interna para explorar.

Tudo isso atesta sua proximidade cotidiana com os atores e também, provavelmente, a necessidade que sentia de fazer parte de um grupo. Mas essa 'miríade de pontos de vista' advém de seu próprio esforço intelectual e espiritual, de seus questionamentos, esperanças e insatisfações. Na dialética de suas peças, ele busca o que é válido, digno ou possível na natureza humana e chega, enfim, a uma visão sombria. Henrique VIII, como Palamon e Arcite de Dois parentes nobres, representam a mediocridade, a banalidade de nossa falta de percepção, de nossa falta de fé e de nossa paixão cega e egoísta, como se o passado triste e decepcionante da humanidade fosse ceder espaço a um futuro ainda mais triste e trágico. E, no entanto, nas falas de Teseu no final de Dois parentes nobres, Shakespeare talvez implicitamente dê graças pela vida em si" (Páginas 487-489). Seguramente Park Honan escreveu uma biografia à altura do valor do seu biografado.

Deixo ainda o post que fiz sobre Hamlet, a sua obra maior:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/05/hamlet-shakespeare.html



quinta-feira, 9 de julho de 2026

COMO E POR QUE LER. Harold Bloom.

Que vontade de voltar a ser aluno! Mas com um detalhe. Ter a compreensão e a visão que tenho hoje. Mas, o que me leva a esse devaneio? A leitura e, mais do que a leitura, o debate em torno do lido. E eu prometeria, com toda a aplicação do mundo, ser o mais dedicado entre todos. Nunca deixaria de lado nenhuma tarefa, não deixaria de ler nenhuma das leituras sugeridas. É que terminei de ler, Como e por que ler, do professor Harold Bloom (1930 -2019), que simplesmente foi professor de Crítica Literária da Universidade de Yale. Mas por que este livro me causou tal sensação? Na contracapa, creio, existe a explicação:

Como e por que ler. Harold Bloom. Tradução:José Roberto O'Shea. Objetiva. 2001.

"Um clicar no mouse pode levar-nos, em segundos, a saber do que se passa em outro extremo do planeta. Museus do mundo todo podem chegar até nós nos monitores de nossos computadores. A cada dia recebemos a informação de forma mais veloz. Entretanto, o livro permanece com seu público cativo. Escritores, leitores, críticos, uma legião de apaixonados que não abre mão do bom e velho exercício de criar e ler histórias.

Harold Bloom, um dos mais importantes nomes da crítica literária contemporânea, convida-nos nesse livro a uma deliciosa viagem por grandes textos da literatura universal. Turgenev, Borges, Whitman, Shakespeare são alguns dos autores que o texto inspirado de Bloom ilumina, com suas sensíveis e inteligentes percepções". Essa viagem passa por muitos outros escritores de diferentes formas e gêneros literários, como o conto, a poesia, as peças teatrais e o romance.  Vou me limitar neste post, com o intuito de despertar a curiosidade, a fazer referência aos autores apresentados.

Nos contos teremos encontros com Turgenev, Tchekhov, Guy de Maupassant, Ernest Hemingway, Flannery O'Connor, Vladimir Nobokov, Jorge Luis Borges, Tommaso Landolfi e Italo Calvino. Já na poesia veremos A. E. Housman, William Blake, Walter Savage Landor, Alfred Tennyson, Robert Browning, Walt Whitman, Emily Dickinson, Emily Brontë, William Shakespeare, John Milton, William Wordsworth, Samuel Coleridge, Shelley e Keats. Devo confessar duas coisas: O mundo da poesia me é bem estranho enquanto que manifesto muito apreço pelos romances, aos quais o autor dedica dois capítulos. Vejamos os do primeiro:

De Miguel de Cervantes, o Dom Quixote, de Stendhal - A cartuxa de Parma, de Jane Austen - Emma, de Charles Dickens - Grandes esperanças, de Fiodor Dostoiévski - Crime e castigo, de Henry James - Retrato de uma senhora, de Marcel Proust - Em busca do tempo perdido e de Thomas Mann - A montanha mágica. Por óbvio, a preponderância recai sobre Dom Quixote, os diálogos entre o Dom e o Sancho. E o que há de tão importante nesses diálogos? Bloom nos conta: "Se abrirmos, aleatoriamente, o livro, é provável que nos deparemos com uma dessas conversas - zangadas, sonhadoras, em última análise, sempre afáveis, fundadas em respeito mútuo. Mesmo quando discutem com veemência, jamais faltam com a cortesia, e sempre aprendem, a partir daquilo que o outro tem a dizer. E ouvindo, ambos se modificam" (Página 140).

Três são as peças teatrais analisadas: Hamlet de William Shakespeare, Helda Gabler de Ibsen e A  importância de ser prudente, de Oscar Wilde. Bloom dá um destaque todo especial à importância de Hamlet. Depois desse interlúdio para a dramaturgia, Bloom retorna ao romance, mais precisamente para o romance nos Estados Unidos:

De Herman Melville examina Moby Dick; de William Faulkner, Enquanto agonizo; de Nathanael West, Miss corações solitários; de Thomas Pinchon, O leilão do lote 49; de Cormac McCarthy, Meridiano de sangue; de Ralph Ellison, O homem invisível e de Toni Morrison, A canção de Solomon. Sublinhei um trecho da análise de Meridiano de sangue: "Cujo frêmito incessante de violência descreve com tanta acuidade nosso passado, representa tão bem nosso presente obcecado por armas, e, sem dúvida, pressagia nosso futuro sangrento. Os Estados Unidos, já faz dois séculos, estão obcecados por Deus e por armas, e esse fascínio não parece decrescer" (Página 266).

Sublinhei ainda, para responder a questão do título, o parágrafo final, antes do epílogo: "Não cabe à leitura nos alegrar, nem, antecipadamente, nos consolar. Mas quero concluir afirmando que todas essas visões norte-americanas do Final dos Tempos nos oferecem mais, muito mais do que uma negatividade purificadora. Se o leitor reler o que vale a pena ser relido, haverá de guardar na memória aquilo que lhe fortaleceu o espírito. Quando me lembro de Moby Dick, penso, antes de mais nada, no amor fraternal entre Ismael e Queequeg, e, em seguida, comovo-me diante de Ahab, o Prometeu americano. Em última análise, o efeito causado pelos seis romances melvillianos aqui discutidos não é niilista, mas ambíguo, e essa ambiguidade reserva extraordinária gratificação à pessoa do leitor. Ahab, Addie Bundren, Shrike, os anônimos agentes de Tristero, o malévolo juiz Holden, Ras, o Exortador/Destruidor, Rinehart, o Traficante/Reverendo e Guitar constituem um grande pesadelo, mas não obstruem, para o leitor, as buscas (por mais frustrantes que sejam) de Ismael, Darl Bundren, Miss Corações Solitários, Édipa Maas, Kid, o Homem Invisível e Milkam Dead. Entre estes últimos há sobreviventes: Ismael, Édipa, e o Homem Invisível. Por que Ler? Para ser assombrado por grandes visões: de Ismael, o sobrevivente que escapa para poder nos contar a história; de Édipa Maas, embalando nos braços o velho indigente; do Homem Invisível, preparando-se para emergir, como Jonas, do interior da baleia. Todos eles, nas frequências mais altas, falam ao leitor, e pelo leitor" (Página 267).

Pela importância que o autor conferiu a Hamlet, deixo  a resenha, inclusive com um adendo desse livro.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/05/hamlet-shakespeare.html

quinta-feira, 2 de julho de 2026

ÉTICA da libertação. Introdução: História mundial das eticidades. Enrique Dussel.

Em minhas rodas de conversa o tema das raízes de nossa cultura sempre estão vivamente presentes. Quais teriam  sido os mitos fundadores dessa cultura, que costumamos chamar de ocidental, capitalista e cristã. Que ela é eurocêntrica e, mais particularmente, helenocêntrica. Estamos até tentando formar um grupo, para uma imersão no tema. Por óbvio, essa questão passa pela religião e pela moral. Moral ou ética? As religiões sempre procuraram assumir a paternidade das doutrinas morais. A moral sempre enseja  em si, todo um complexo de paixões, interpretações e, porque não dizer, hipocrisias. Já a ética, é um acerto de contas, contigo mesmo. Creio não existir um tema mais atual do que esse, que possa ser merecedor de estudos em tempos tão conturbados como os que estamos vivendo.

Ética da libertação - na idade da globalização e da exclusão. Enrique Dussel. Vozes. 2002.

Pois bem. Revendo em minha biblioteca alguns títulos, separei o livro Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão, do filósofo argentino, Enrique Dussel (1934-2023). Tenho este livro em meu poder desde 2002, mas ele foi apenas folheado e não lido. Agora eu vejo que ele vai para muito além de ser lido. É um livro para ser estudado. É um livro que preenche todos os requisitos para ser uma das fontes para o grupo de estudos a que nos referimos no parágrafo acima: as origens do nosso modo de pensar, ou seja, as origens e os fundamentos da cultura ocidental. 

Estou impressionado com o livro. E desde já, tenho a certeza de que será impossível fazer uma resenha. Talvez sim - um texto centrado em provocações para a sua leitura. E olha..., eu terminei apenas a leitura da primeira seção da introdução e já quero deixar registradas as minha primeiras anotações de leitura. E digo bem, anotações de leitura. Não pretendo fazer comentários, apenas situar algumas citações para fundamentar diferentes concepções bem como o seu enfoque fundamental. Então vamos lá. Elas estão na introdução: História mundial das eticidades. Seção 1. As altas culturas e o sistema inter-regional. Além do helenocentrismo (Das páginas 25 a 50). Essa seção aborda quatro tópicos, a saber: 01. A origem do sistema inter-regional: O Egito africano-bantu e os semitas do oriente médio. 02. Culturas sem relação direta com o sistema. O mundo meso-americano e inca. 03. O mundo "indo-europeu": Do império chinês ao romano. 04. O mundo bizantino, a hegemonia muçulmana e o Oriente. A Idade Média europeia periférica. 

Os tópicos 1 e 2, privilegiam as necessidades de um ser indiviso, privilegiando as necessidades corporais, as do viver e do manter-se vivo e saudável. Já os itens 3 e 4 nos apresentam o ser dividido entre corpo e alma, com toda a centralidade focada na salvação da alma e com o menosprezo ao corpo.

Do primeiro tópico, tomamos uma citação do Livro dos Mortos, uma coletânea reunida em torno de 1500 anos antes de Cristo. Um ser, o Ka (o princípio individual da pessoa) assim se apresenta diante do Juízo Final e exclama: "Não cometi iniquidade contra os homens... Não empobreci um pobre em seus bens... Não fiz padecer fome... Não acrescentei peso à medida da balança... Não roubei com violência... Não roubei pão... Satisfiz a Deus cumprindo o que ele desejava. Dei pão ao faminto, água ao sedento, vesti o que estava nu e uma barca ao náufrago... Fazei-o vir, dizem os deuses falando de mim. Quem és tu? me dizem. Qual é o teu nome? me perguntam".

O autor assim comenta essa passagem: "A existência humana concreta, individual, com nome próprio vivida responsável e historicamente à luz do Juízo de Osíris, constitui a 'carnalidade' real (a sua materialidade) da vida do sujeito humano como referência ética suprema: dar de comer, de beber, de vestir, hospedagem... à carne faminta, sedenta, nua, exposta às intempéries" (Página 27).

Do segundo tópico tomamos um texto com o qual os astecas promoviam a sua arte de educar: Mesmo que fosse pobre ou miserável //  mesmo que sua mãe e seu pai fossem os pobres dos pobres // não se via a sua linhagem, // só se atendia ao seu gênero de vida, // à pureza de seu coração, // a seu coração bom e humano, firme, // dizia-se que tinha o divino em seu coração, // que era sábio nas coisas divinas. 

Vejamos o comentário do autor: "A partir dos costumes (Huehuetlamanitiliztli - a antiga regra da vida) que juridicamente alcançaram um alto grau de precisão, com códigos de leis e tribunais de justiça, sempre entre os astecas - os tlamantinime racionalizaram uma doutrina unitária sobre o sentido da práxis humana individual e comunitária" (Página 32).

Do terceiro tópico tomamos duas passagens de Plotino, um dos adaptadores da filosofia de Platão ao cristianismo:

Se as almas (individuais) tivessem permanecido no Inteligível com a Alma do mundo, teriam evitado o sofrimento... Permanecendo durante longo tempo no afastamento e na separação do Todo, sem dirigir seu olhar para o Inteligível, tornaram-se um fragmento, isoladas, debilitadas, multiplicaram-se em ação.

Vejamos o comentário do autor:

"Toda a ética consiste agora num 'retorno' ascendente para o Um, quer dizer, 'a necessidade que a alma sente de fugir de seu trato com o corpo... que consiste em se libertar das gerações a fim de se  encaminhar para a Substância (divina Ousian)'. Este ato de retorno é a dialektike da ascensão para a Ideia de Bem em Platão, a bios theoretikós do exercício do noús em Aristóteles, a apatheia dos estoicos, a ataraxia de Epicuro, a gnose dos gnósticos, o 'conhecimento' do monge maniqueu, o êxtase final do monge budista pelo qual se liberta do samsara (eterno retorno da ensomatose ou reincorporação da alma) no estado de nirvana, e a via contemplativa como perfeição humana na Idade Média Latina.

E, uma segunda frase de Plotino: A purificação consiste - escreve ainda Plotino - em isolar a alma, não a deixando se unir às coisas, não as olhar mais; não ter mais opiniões estranhas à sua natureza [divina]. Quanto  à separação [o êxtase] , é o estado da alma que não se encontra mais no corpo, como a luz que não se encontra mais nas trevas.

Assim o autor comenta essa passagem: 

"É assim que desde a Grécia e Roma, até os persas, os reinos da Índia e da China taoísta, uma ontologia  do absoluto como o Um, uma antropologia dualista da superioridade da alma sobre o corpo (de alguma maneira, sempre causa do mal), instaura uma ética ascética de 'libertação' da pluralidade material como 'retorno' à Unidade original - movimento da ontologia neoplatônica e, posteriormente, do idealismo alemão, especialmente da Lógica de Hegel. É a lógica ética da Totalidade" (Páginas 35-36).

Do quarto tópico, por ser mais complexo e já, com muitas interconexões e de um período de tempo de longa duração, deixo uma transcrição de caracterização mais geral do período, um período marcado por crises, mas com a "ontologia indo-europeia e a eticidade dualista" já estabelecidas. 

Assim o autor comenta esse quarto tópico: "A visão de mundo do primeiro estágio do sistema inter-regional, o egípcio mesopotâmico-semita, voltará a se fazer presente, embora realizando, por seu lado, um desenvolvimento universalizador expansivo (tanto pelo fenômeno do cristianismo como pelo islamismo) e, talvez, como vimos acima, pela insuportável situação dos oprimidos dos impérios. A ética crítica de um pequeno povo dominado e escravo nas mãos do poder dos que dominavam a técnica da guerra e da agricultura, como o cavalo e o ferro (os filisteus e seu simbólico guerreiro "Golias nos tempos de Amarna) é reformulada numa região periférica do Império Romano, oportuna para explorados e excluídos...".

Não vou fazer outro post a partir desse livro. Creio que com essas quatro visões do mundo dá para deduzir e explicar muito do que se dá com as religiões e a sua pretensão de serem as donas das doutrinas morais. Salvar a alma, sem antes criar as condições de uma vida decente não faz o menor sentido. Esses dia vi um comentário interessante sobre os sete pecados capitais, a saber: Soberba (orgulho), avareza (ganância), inveja, ira, luxúria, gula e preguiça. Faltaria um oitavo, que seria o que efetivamente se chama de pecado capital, o pecado do capital, embora ele esteja implícito no pecado da avareza, ou da ganância. Semana passada tivemos a notícia de que um único ser humano alcançou, como propriedade sua, uma riqueza calculada em um trilhão de dólares, o que equivale quase a metade do PIB brasileiro. É óbvio que isso tem consequências. Libertação, emancipação...

Ainda quero fazer uma recomendação especial. No capítulo quinto do livro - A validade anti-hegemônica da comunidade das vítimas, temos no sub item 5.2. Processo ético-crítico em Paulo Freire, uma das melhores interpretações que eu já vi do principal livro que fundamenta o seu pensamento Pedagogia do oprimido. São 16 páginas (Da 427 a 443) de extrema valia. Vale demais uma conferida.

terça-feira, 23 de junho de 2026

WINSTON CHURCHILL. Stuart Ball.

De volta às biografias. E dessa vez, uma toda especial. A de um dos homens mais importantes e influentes ao longo das seis primeiras décadas do século XX. Foi um personagem decisivo no entorno da Segunda Guerra Mundial e determinante na resistência aos avanços nazistas. A França já havia capitulado. Tornou-se um dos três grandes da época: Churchill, Roosevelt e Stálin. Estou falando de Winston Churchill, do livro Winston Churchill, de autoria de Stuart Ball, da coleção - British Library Historic Lives:  - Winston Churchill. 

Winston Churchill. Stuart Ball. Tradução de Gleuber Vieira. Nova Fronteira. 2006.

Winston Churchill (1874-1965) foi duas vezes Primeiro Ministro inglês. O foi de 1940 a 1945, pela primeira vez, no difícil período da Segunda Guerra Mundial e, pela segunda, de 1951 a 1955, quando foi fundamental na modelação da geopolítica mundial do pós-guerra e na reconfiguração da importância política da Inglaterra, até então a primeira potência mundial, agora, já não sendo mais o Império Britânico. Por óbvio que um personagem de tal tamanho só pode provocar a curiosidade em torno de sua vida. E, diga-se de passagem, que foi alguém extremamente controvertido.

O livro não é longo. São 252 páginas, muitas delas tomadas por fotografias. Está estruturado em seis capítulos, uma cronologia dos fatos e algumas indicações de outras biografias. Vejamos os títulos dos capítulos, que aparecem em sequência cronológica: I. Marcando a presença (1874-1904). II. Mudanças de rumo (1904-1915). III. Navegando os baixios (1915-1929). IV. Sozinho (1929-1940). V. Caminhando com o destino (1940-1945). VI. Refreando os anos (1945-1965). Ele renasce para a política, quando emerge de seu período de solidão dos anos 1930, quando tudo aparentemente parecia ter acabado. A determinação foi a grande marca de sua vida, especialmente nessa fase mais conturbada de todo o século. Vamos aos capítulos, que crescem em importância ao atingirem a fase final de sua vida. Mas ele tem origens, ele tem construção histórica, ele tem vida política ativa, embora um tanto avesso, especialmente a partidos e a fidelidade a eles.

I. Marcando a presença (1874-1904). Uma contextualização da Inglaterra da época e da inserção nela de sua família. Ele pertenceu a uma família aristocrática por parte do pai, de quem herdou o gosto pela política e de uma família de novos ricos dos Estados Unidos, por parte da mãe. Sempre foi um menino desejoso pelas 'luzes da ribalta'. Estes eram os tempos da poderosa Inglaterra, do domínio imperialista, da maior marinha mercante do mundo. Vivia-se ainda o espírito de grandeza da era vitoriana. Na escola nunca foi bom, nem nos estudos, nem nos esportes. Seus anos escolares foram considerados improdutivos, sob o rigor dos regimes de internato. Desejava a carreira militar. As leituras e as viagens o transformaram em autodidata. O jornalismo o levou para a literatura. Com ela ganhou muito dinheiro e ela o levou, inclusive, ao Nobel de Literatura no ano de 1953. Ingressou nos debates políticos e às primeiras instabilidades na fidelidade a eles. 

II. Mudanças de rumo (1904-1915). Na política já trocara o Partido Conservador pelo Liberal. Nela era tido como um aventureiro sem princípios. Em sua atuação política, convivia tranquilamente com as diferenças sociais, mas batalhava para elevar a condição dos pobres a níveis de decência e de boa saúde, mas odiava o termo "luta de classes". Já percebia o antagonismo anglo germânico que estava em formação. Batalhava pela manutenção da superioridade naval britânica. Ocupa e deixa cargos na formação do Ministério. Ocorre a Primeira Guerra. A saída do Ministério marca um aparente fim de sua carreira política. 

III. Navegando os baixios (1915-1929). Aos 40 anos recorre à pintura como fuga à solidão e à depressão. Se apavora com os acontecimentos da Rússia e passa a ter, no combate ao comunismo. uma de suas obsessões. Se mostra favorável às pretensões do sionismo. Escreve sobre a Primeira Guerra. Após reveses políticos, volta a ela como Ministro das Finanças. A crise de 1929. Novas derrotas na política.

IV. Sozinho (1929-1940).Se ocupa e se mantém com viagens, palestras e livros. Relação familiar sempre tumultuada. Problemas com a bebida. Muito uísque, que bebia lentamente. Se ocupa com a questão da Índia, que considerava como o coração do Império. Era contrário a sua independência, que irá ocorrer em 1947, no contexto do pós-guerra. Há suspeitas de que perdera a razão. Tem poucos seguidores. Declara a lealdade à monarquia por temor às ditaduras. Defende uma política armamentista, como precaução contra os alemães. Se declara contra o Acordo de Munique de 1938, de política de apaziguamento. Assiste e condena os avanços alemães e cresce em importância política. Com a queda de Chamberlain (1940), ocupa o cargo de Primeiro Ministro, formando um governo de coalizão. A guerra se expande.

V. Caminhando com o destino (1940-1945). Assume o governo com a famosa promessa de "sangue, trabalho, suor e lágrimas" e com o brado de " nunca nos renderemos". Aos 65 enfrenta a Blitzkrieg alemã. O auge da resistência ocorre entre o mês de junho de 1940 e maio de 1941. É desse período a sua mais famosa frase: "Nunca na história dos conflitos humanos tantos deveram tanto a tão poucos". A sua aprovação sempre beirava os 80%. Conduzia a guerra como se ela fosse uma ciência, sempre buscando aperfeiçoamentos. A situação melhorou um pouco com a entrada dos Estados Unidos na guerra e com a URSS, retendo o exército alemão em seu território. É um dos estrategistas da guerra nesse período. A frente do governo, assiste ao famoso 7 de maio, o dia D. Participa de todas as difíceis negociações de paz, do pós-guerra, da fundação da ONU e do Conselho de Segurança. As negociações com a URSS o incomodam sobremaneira. Sai da guerra exausto, tanto quanto a exaustão da economia inglesa. Assiste ainda a liquidação do Império Britânico com o espírito anticolonialista pós-guerra. Participa da Conferência de Potsdam. Mas na Inglaterra perde poder e prestígio para os trabalhistas. Era um grande líder apena nos tempos de guerra. Renuncia ao cargo de Primeiro Ministro, aos 70 anos.

VI. Refreando os anos (1945-1965). Foi difícil para ele, depois do protagonismo, a inatividade, longe da política. Ocupou-se mais uma vez com as viagens e a escrita. Intensificou seus ataques a URSS e cuidou para que a Inglaterra, após o declínio de seu Império, se mantivesse alinhada aos Estados Unidos. Temia o armamento nuclear com o acirramento da Guerra Fria. Se ocupa com a narrativa da Segunda Guerra e com a sua autobiografia. Literatura e palestras o tornaram uma pessoa rica e proeminente. Em 1953 é agraciado com o Nobel de Literatura. Em 1951, aos 77 anos, volta ao cargo de Primeiro Ministro e nele permanece até 1955. Se preocupa com a Commonwealth e a manutenção das conquistas trabalhistas e, aos 90, em 1964, comparece pela última vez à Câmara dos Comuns. Morre em janeiro de 1965.

Da parte final, tomamos uma síntese de seus feitos: "A vida política de Winston Churchill abarcou as seis primeiras décadas do século XX e durante todo este tempo ele foi um dos mais conhecidos e importantes homens públicos. Mudou por duas vezes sua filiação partidária e sempre despertou suspeitas de ser um aventureiro ambicioso, diagnóstico aparentemente confirmado pelos equívocos políticos e estratégicos que marcaram sua carreira. A carreira de Churchill não teve paralelo em extensão e variedade. Ficou assinalada por incansável empenho, pensamento inovador, julgamentos imperfeitos e extraordinárias realizações. Tudo fluiu de suas notáveis qualidades e personalidade, mas seu progresso foi sempre atrapalhado pela desconfiança que despertou até chegar em 1940 à liderança, durante a guerra". E arremata:

"A liderança obstinada e triunfante de Churchill na Segunda Guerra Mundial foi, sem dúvida, sua maior proeza. Sua 'hora mais bela' de 1940-42, quando a vitória total parecia estar quase ao alcance da mão para a Alemanha nazi, determinou o curso não apenas da Inglaterra mas da história do mundo. Muitas outras coisas na vida de Churchill mereceram bronze ou mesmo chumbo, mas esta façanha foi digna de ouro. É sobre ela que repousa sua posição como vulto mais importante da Inglaterra no século XX". 

terça-feira, 16 de junho de 2026

MINHAS HISTÓRIAS DOS OUTROS. Zuenir Ventura.

Ainda na fase de minhas releituras. E que livro maravilhoso. A crônica de uma época. E é também maravilhoso saber que o grande jornalista ainda continua testemunhando a nossa história, da qual é, simultaneamente, participante e narrador. Estou falando de Minhas histórias dos outros, de Zuenir Ventura. Ventura é mineiro de Além Paraíba, mas toda a sua vida se desenvolveu no Rio de Janeiro. Anos de formação e de profissão. Ele nasceu no ano de 1931. Começo esse post com um testemunho seu, de um projeto que norteou a sua vida de jornalista, que encontramos na contracapa do livro:


Minhas histórias dos outros. Zuenir Ventura. Planeta. 2005.

"Não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar, viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas, somos testemunhos de nosso tempo, uma testemunha crítica, não necessariamente de oposição, mas implacavelmente crítica". Maravilhoso. Críticos foram também os maiores intérpretes da realidade brasileira e muitos deles, colegas seus de profissão. Muitos deles você conhecerá mais de perto através de seu livro. Eu continuo com a contracapa do livro, uma espécie de apresentação.

"Este livro traz o testemunho de Zuenir Ventura, um dos mais brilhantes jornalistas do nosso tempo, sobre um período que vai do final dos anos 50, quando publica suas primeiras reportagens, até os dias de hoje. Em meio a lembranças pessoais e coletivas, estão as principais mudanças comportamentais, políticas e sociais, revividas em episódios conhecidos e desconhecidos, em personagens famosos e anônimos.

Pela excelência do texto e a diversidade da narrativa, minhas histórias dos outros é como o romance real de uma época em que houve do melhor e do pior: revolução sexual e arrojadas aventuras existenciais, mas também flagelos planetários como a aids e o narcotráfico; depressão e euforia, choro de alegria e de tristeza.

Há momentos cômicos e surpreendentes, como a entrevista com Fidel Castro, que nunca pôde ser publicada ou a foto acidental da calcinha branca de Jacqueline Kennedy. E há dramas pungentes como a zaga de uma testemunha marcada pelo destino. Em suma, o livro de Zuenir é uma fascinante aventura humana". A "testemunha marcada pelo destino", adianto desde já, é um dos momentos mais marcantes do livro, já na sua fase final. Ela está presente no último capítulo e envolve profundamente o escritor. O "até os dias de hoje", chega ao início dos anos 2000. O livro foi lançado em 2005, pela Planeta. 

O livro, de 270 páginas está estruturado numa sequência mais ou menos cronológica dos fatos, citando os principais, como também "os outros", de quem conta as histórias. Lembra de sua primeira morada no Rio de Janeiro, na Vila Isabel, de seu ingresso no curso de Línguas Neolatinas da Universidade do Brasil (Hoje UFRJ), de seus professores, com destaque para Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima. Da política fala do suicídio de Getúlio Vargas e de seu significado, de JK., da renúncia de Jânio Quadros, de Jango, dos cinco ditadores militares, de Tancredo e Sarney, de Collor, de FHC e de Lula. Vejamos um trechinho da primeira página:

"Alternando depressão e euforia, desencanto e esperança, o país se submeteu a um processo de ciclotimia crônica. Atravessou anos dourados, anos rebeldes e anos de chumbo. Chorou de alegria e tristeza, conheceu o arbítrio, a censura, a tortura, mas acabou reconquistando a democracia. Saiu às ruas em várias ocasiões - para enfrentar a polícia, lutar contra a ditadura, exigir liberdade, entoar cantos à anistia, festejar a volta dos exilados, pedir eleições diretas e derramar pranto pela morte de um presidente.

Houve do melhor e do pior. Foram tempos de revolução comportamental, de liberdade sexual, de arrojadas aventuras existenciais, mas também de flagelos planetários como a aids, o narcotráfico, o terrorismo e a violência urbana. Descobriu-se a pílula anticoncepcional e enterrou-se a camisinha, para depois ir buscá-la como defesa contra a aids".

Na sequência, os capítulos em que são narrados os episódios mais marcantes desses acontecimentos anunciados. Os tópicos da apresentação - uma faculdade de bambas e - como se pega um vírus - deveriam ser textos levados a debates nos cursos de formação continuada de professores, em contraposição ao que hoje é apresentado como paradigmas pedagógicos (tecno burocracia, plataformas, militarização em nome da disciplina...). Um tributo aos professores e o gosto pelo desvendar. Quanto ao vírus, trata-se de um vírus bom, o gosto pelo jornalismo, como sendo a sua segunda natureza. 

Na sequência e no espírito de 1968, Zuenir nos leva a Paris, o grande centro das mudanças culturais e comportamentais que se irradiaram mundo afora. É um belo panorama dos acontecimentos do pós Segunda Guerra Mundial, da atuação do presidente Charles de Gaulle, da diplomacia desse período de Guerra Fria e da independência da Argélia. E como De Gaulle enfrentou os generais franceses da extrema direita. Segue um capítulo dedicado a Glauber Rocha e, na sequência, fatos do período: perdão para todos - anistia; um mártir da abertura - Vladimir Herzog; O pênis não preservado - o terrorismo no Riocentro; um verão colorido - uma nova moralidade, um novo comportamento sexual; a chegada da peste -a aids; Bumbum e carteira do PCB - 1985 e a abertura democrática que permitiu exibir bunda e carteira de filiação ao PCB; Se meu computador falasse - sobre a evolução da tecnologia e suas dificuldades em lidar com ela; Enfim, as pazes - um reatar de amizades entre Nelson Rodrigues e Alceu Amoroso Lima; um suicídio mal contado - o do memorialista Pedro Nava, ocultado pela imprensa, na época. A questão da sexualidade; Mostra a tua cara - "Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo" (Ulysses Guimarães). Cazuza.

Na sequência, uma série de textos sob a denominação de - notícias de uma guerra civil - em que trata da violência urbana e do crescimento da criminalidade nas grandes cidades brasileiras. O último tópico é dedicado a alguns temas que lhe mereceram especial atenção, como  a relação do Governo do Rio de Janeiro no combate ao crime (governo Garotinho), a sua relação e admiração por Darcy Ribeiro e a sua interpretação de Brasil (simplesmente magnífico), sobre uma entrevista com Fidel Castro, nunca publicada, sobre a sua relação com os patrões com quem trabalhou e o já referenciado capítulo final - A saga de uma testemunha - a de Genésio Ferreira da Silva, fundamental para condenar o mandante e o executor do assassinato de Chico Mendes. Com certeza, este capítulo faz crescer no leitor, a admiração pelo grande brasileiro, testemunho e protagonista em muitos fatos da história brasileira. Tive um prazer enorme com a releitura desse livro, que li pela primeira vez no ano de 2011. Outro livro imperdível de Zuenir Ventura é 1968, o ano que não terminou. Que livro e que ano!

terça-feira, 9 de junho de 2026

REPARAÇÃO. Ian McEwan.

"Ela (Briony) estava calma, pensando no que tinha de fazer. A carta para os pais e a declaração formal, ela as escreveria rapidamente. Então estaria livre o resto do dia. Sabia o que se exigia dela. Não apenas uma carta, mas um novo rascunho, uma reparação, e ela estava pronta para começar" (Página 418). Assim termina o romance Reparação, de 2001, do escritor inglês, Ian McEwan. Fiz agora uma releitura. Conforme a anotação ao fim do livro, a primeira leitura foi em março de 2006. Não me lembrava praticamente de nada da primeira leitura. 

Reparação. Ian McEwan. Tradução: Paulo Henrique Britto. Companhia das Letras. 2002.

Eis aí o teor do livro. Briony é a grande personagem, a protagonista. Vamos então ver quem é ela e o que lhe aconteceu. Por óbvio, o título a entrega, ela cometeu algo de errado e o seu erro exigia uma reparação. Um erro sempre envolve uma relação com outras pessoas. Quem seriam elas? O parágrafo final também nos dá a ideia de que ela estava disposta ao reparo, a reconsiderar algo errado de um longínquo passado. Briony não era uma menina fácil. Ela sonhava ser escritora. Pertencia a uma família, que tudo indica, pertencia a classe média alta. Os outros dois personagens mais diretamente envolvidos são, a sua irmã Cecília e Robbie, este filho da faxineira da casa. Ele era como alguém da casa. 

Lá pelos idos dos anos 1935, a família de Briony e Cecília recebem a visita de parentes vindos do norte da Inglaterra. Observar a data é importante, são os anos que antecedem a Segunda Guerra Mundial. Muitos dos fatos narrados são decorrentes da guerra. Para as visitas, a menina prepara a apresentação de uma peça - Arabela em apuros. Ela queria se exibir. É nessa noite que ocorrem os fatos. Ela flagra Robbie beijando Cecília e também, pouco depois, Robbie estaria aos beijos com a prima Lola. Eis os fatos. Há a penalização em função das acusações fortes e convictas de Briony. Há, em função disso, uma mudança profunda nos destinos de todos.

O livro é dividido em três partes, mais uma espécie de apêndice, sob o título - Londres 1999. Isso ocupa as 444 páginas do livro. A primeira parte é dedicada a apresentação e o envolvimento dos principais personagens e as encrencas da família de Briony e Cecília e a visita de seus parentes. A segunda parte se ocupa especialmente de Cecília e Robbie, envolvidos já na Segunda Guerra. Como soldado ele ameniza a sua pena e Cecília trabalhará como enfermeira, atendendo aos feridos, os seres humanos esfarrapados pela guerra. Já a terceira parte é dedicada a descrever os passos de Briony, que também escolheu ser enfermeira e também envolvida no tratamentos dos feridos. No apêndice, encontraremos, no ano de 1999, uma homenagem a escritora Briony Tallis, onde muitos dos fatos do passado são novamente trazidos à memória. O valor do romance está na força da narrativa e na caracterização psicológica dos personagens. Seu passado, psicanálise...

Como não quero adiantar os relatos, me limito a apresentar ainda, apenas o exposto nas orelhas do livro: "O premiado autor inglês Ian McEwan arma em Reparação uma trama fascinante em torno de Briony Tallis, pré-adolescente que nutre a ambição de se tornar escritora.

No dia mais quente do verão de 1935, numa casa de campo na Inglaterra, Briony vê pela janela uma cena incompreensível: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, filho da arrumadeira da família, despe a saia e a blusa para mergulhar, de sutiã e calcinha, na fonte do quintal. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a aprendiz de romancista, movida por uma imaginação febril e pela inexperiência, comete um crime que marcará a vida de toda a família. Briony passará o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou.

No nível mais imediato, Reparação é um drama psicológico que tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial e as tensões de classe da sociedade britânica. Como vários críticos já observaram, há semelhanças interessantes entre esta obra e Pelos olhos de Maisie, de Henry James: em ambas, o núcleo é uma menina inocente tentando entender o mundo adulto da paixão e da sexualidade. Só que aqui temos, além do ponto de vista da protagonista, também os dos outros personagens centrais, de modo que os mesmos episódios são apresentados sob vários ângulos.

Mas o romance ganha uma nova perspectiva com base num dado que só é revelado no epílogo. Retrospectivamente, o leitor percebe que o que estava em jogo ao longo de toda a obra, além da questão da culpa e do perdão, eram as relações entre estética e ética. E só então se dá conta de que o livro cuja leitura está terminando, à parte ser uma narrativa deslumbrante, é também uma reflexão sofisticada a respeito da natureza da literatura, seus poderes e limitações".

E mais duas apresentações do livro, agora da contracapa: "A narrativa, como sempre em McEwan, mantém uma tensão ameaçadora, lenta e incansável. A leitura é magicamente cativante, e nunca antes McEwan havia mostrado tanta compaixão para com a vulnerabilidade do coração humano" (The Sunday Times).

"McEwan é um contador de histórias irresistível, um criador de narrativas que prendem o leitor até a última página. Mesmo para seus padrões exigentes, este último romance é extraordinário. Marcas registradas do estilo de McEwan, as frases, de grande eloquência e delicadeza, que em obras anteriores por vezes racionalizavam em excesso a evocação dos sentimentos, ganham ressonâncias ainda mais profundas em Reparação" (The Times).

Do escritor temos também a resenha de Sábado. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/12/sabado-ian-mcewan.html