quinta-feira, 22 de setembro de 2016

AQUARIUS. Um retrato cultural do Brasil.

Precisando ir ao centro da cidade aproveitei a oportunidade para assistir o tão comentado filme Aquarius, especialmente em função das polêmicas que ele criou, desde o Fora Temer em Cannes, até a sua não indicação como representante do cinema brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro para 2017. Confesso que me arrependi, mas por não tê-lo visto antes.
Clara em frente ao Aquarius, o prédio a ser demolido.


Aquarius tem roteiro e direção de Kleber Mendonça Filho (Pelo amor de Deus, não confundir com o Mendonça Filho, ministro da Educação) e como acontece com os filmes que tem roteiro e direção da mesma pessoa, é um chamado filme cabeça. No elenco está a extraordinária atriz Sônia Braga, em monumental interpretação. O filme é um retrato da cultura brasileira, cada dia mais individualista e egoísta, ou então cada dia mais estadosunizada.

A especulação imobiliária é o grande mote do filme. A praia de Boa Viagem é o grande cenário. Clara é uma jornalista e escritora, viúva, e moradora da Boa Viagem, num prédio antigo de vários apartamentos confortáveis, de classe média alta. Ela é uma resistente. O prédio é modesto diante dos imponentes novos prédios que atendem, além da finalidade da moradia, as necessidades de status, dos emergentes homens bem sucedidos, praticantes da ética do sucesso nos negócios.
A denúncia de golpe no Brasil no Festival de Cannes.


Clara tem uma vida sofrida, trazida à memória nas cenas iniciais do filme que mostram o  aniversário de 70 anos de sua tia. O diretor mostra, junto com os sofrimentos, os preconceitos que os acompanham. É o caso de seu câncer no seio e a consequente amputação. Mas Clara é resistente, temperada em seus sofrimentos. O único problema que não afetou a vida de Clara foi o problema financeiro, resultado de muito trabalho ao longo da vida.

Mas esta sua condição de privilégios financeiros se transformam no maior problema de Clara, a partir do momento em que a especulação imobiliária chega à Boa Viagem. Uma construtora quer demolir o velho prédio, construindo em seu lugar, um moderno prédio residencial. Todos os moradores aceitam as condições da construtora, menos Clara. Isso a põe contra tudo e todos, a começar pela filha, ávida para abocanhar a sua fatia, numa cena tão incomum em nossos dias.

As propostas de desocupação, no começo chegam de forma muito educada, com muitos sorrisos e boas maneiras mas com o tempo, o olho no foco, conceito aprendido pelo jovem engenheiro nos cursos de business nos Estados Unidos, alteram os tratamentos. A vida de Clara é transformada em um verdadeiro inferno. Pressões psicológicas, chantagens, indisposição com outros proprietários e possíveis compradores, com a filha suscetível à questão do dinheiro, até métodos menos ortodoxos.

Entre estes métodos está uma festa de arromba realizada no apartamento acima do de Clara, uma orgia que teve como sobra todos os exageros e defecações de seus participantes. Até os religiosos fundamentalistas da teologia da prosperidade viram instrumento de ódio a serviço dos interesses da construtora. Por fim, cupins são infiltrados nos apartamentos vizinhos para a corrosão das estruturas do antigo prédio. 
Sônia Braga interpretando Clara, a protagonista do filme.


Clara se defende junto com a sua advogada e amiga. Conseguem documentos sobre a vida pregressa dos donos da construtora e os levam a eles, quando o filme já entra em sua reta final. Aí sobra também para o poder judiciário, de uma forma bem subliminar, alertando para que Clara não se metesse no departamento jurídico da construtora, que era enorme. O implícito e não dito é que ele era poderoso. Poderoso relativo a quem?

Muitas outras questões entram no filme. A tênue linha que separa a Boa Viagem da Brasília Teimosa, a acusação à empregada como ladra, a questão da sexualidade, com o pioneirismo de Clara na luta pela emancipação feminina e a questão da homossexualidade do filho. Até a questão da origem escravocrata da alta sociedade pernambucana é lembrada com a célebre frase de que em Pernambuco "quem não é Cavalcanti é cavalgado".
Uma vista da praia de Boa Viagem da janela do quarto de um hotel, na altura do nº 4.000.

Enfim, é um filme para ser visto e debatido. Primeiramente pelo filme em si, pelas questões éticas e morais que ele suscita, pelo questionamento da nossa cultura, cada vez mais preconceituosa e fundamentalista e também por todas as polêmicas que o filme está causando e que vão para além do filme, como o Fora Temer, da equipe no Festival de Cannes e a ação de retaliação de sua não indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro para 2017. Imperdível. Precisa ser visto e debatido.


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