sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Napoleão Bonaparte. Pascale Fautrier.

Embora compreendendo toda a importância histórica de Napoleão Bonaparte, nunca tinha lido algo de mais substancioso a seu respeito. O fiz agora, lendo Napoleão Bonaparte de Pascale Fautier, numa edição da L&PM. Dificilmente poderia ter feito uma escolha melhor. O livro se centra exatamente sobre os significados de Napoleão, a "última das grandes existências individuais", no dizer de Chateaubriand e " a primeira das existências modernas: das quais precisaram forjar por si mesmas seu destino sem dever nada ao nascimento", no dizer da autora.
 Um livro cheio de significados e da importância de Napoleão.

O livro é formado por seis capítulos, mais prólogo e um precioso epílogo. Os capítulos tem os seguintes títulos: Napoleão Bonaparte, ou como ser corso; A Revolução Francesa: amputação córsica e conversão à nação revolucionária; De Robespierre a Barras, de Toulon ao 13 vendemiário; O general Bonaparte; O momento Cromwell, ou as loucuras imperiais: Austerlitz e Waterloo, triste planície. São 319 páginas.

O prólogo, como não poderia deixar de ser, apresenta Napoleão como o definidor das políticas modernas, após as convulsões revolucionárias do mundo posterior às monarquias absolutas. ´Trata-se de uma memorável apresentação dos significados de Napoleão para a história.

O primeiro capítulo versa sobre os anos de infância e juventude de Napoleão em seu país natal, a ilha de Córsega, denominada como a "terra da liberdade". A ilha é próxima da cidade de Gênova, da qual recebeu as mais fortes influências. O pai de Napoleão morre cedo, aos 39 anos, (ele estava com 16) de câncer no estômago, doença que também vitimaria o general. O nome do pai era Carlo, nome do qual Napoleão procura tirar proveito em favor de uma nova dinastia carolíngea. Seu pai lutou para que a Córsega se tornasse francesa. Napoleão leu muito e poderíamos dizer que teve uma formação clássica dentro do espírito do iluminismo. Ingressa na carreira militar, na cavalaria.

O segundo capítulo, o mais longo deles, é dedicado aos anos da Revolução, das primeiras insurreições até a República. Diante do terror, Napoleão sempre se mostra um conservador, sempre ao lado da "ordem". Napoleão cresce sob a influência de Robespierre e vamos encontrá-lo em Toulon, já como general, preocupado com a reorganização das forças da artilharia. Assiste ao fim das agitações populares e já frequenta os círculos mais íntimos do poder, junto a Barras. Casa-se com Josephine e recebe o comando das tropas que irão combater na Itália. Napoleão terá outros amores, para além de Josephine.

No terceiro capítulo entra em ação o general Bonaparte, na campanha da Itália. Ali nasce e cultiva o sonho de ser o Alexandre dos tempos modernos. Dividir o butim e fazer propaganda de seus feitos alimentaram o mito do gênio militar junto ao Diretório. Desaprende as lições da soberania popular de Rousseau em favor do culto à personalidade do chefe. É também o tempo de sua famosa campanha no Egito e de sua derrota para o almirante Nelson

O quarto capítulo, de apenas 6 páginas, é aberto por uma significativa frase em epígrafe, de autoria de Chateaubriand. "O 18 brumário se encerra; o governo consular nasce, e a liberdade perece". Napoleão anuncia o fim dos ciclos revolucionários. É a fase do golpe parlamentar e militar. Para Napoleão tudo passa a ser cálculo.

O quinto capítulo é marcado pela fase das acomodações internas e das guerras a qualquer preço. Em suas memórias ditadas a Las Cases, ele meio que parafraseou Luís XIV, afirmando "O Estado fui Eu". É a fase da restauração da monarquia, da sua coroação em Aix la Chapelle, na tentativa de uma nova restauração carolíngea. É a fase do Código civil ou o Código de Napoleão. É o tempo de sua paixão pelo Poder e das maiores ofensivas contra a Inglaterra, como o famoso Bloqueio Continental, contando com o total apoio da burguesia francesa. Napoleão fez do ataque a sua grande estratégia militar.

O sexto e último capítulo é dedicado a Austerlitz e Waterloo. É o tempo das derrocadas. Sobre a campanha da Rússia Tolstoi em Guerra e Paz afirma que ele estava "sobre a fria mecânica do poder". Ele reconhece seu erro sobre o tempo de permanência na Rússia: "Estive em Moscou, pensei que assinaria a paz. Lá fiquei por tempo demais. Cometi um grande erro, mas terei como repará-lo". Ao final das campanhas, encerradas em Waterloo, quando uma alternativa ainda lhe restava, o quarto estado ou a "canalha", ele desistiu. Isso significaria recomeçar toda a revolução, agora em favor do povo, que ele abandonara ao longo do processo. Aí ele proclama: Estou sozinho diante da Europa. Esta é a minha situação". 

O Epílogo é uma rara preciosidade. Versa sobre o degredo de Napoleão sob custódia inglesa, na ilha de Santa Helena. Ali permanece até a sua morte em 1821, acometido também por um câncer de estômago. É um tempo de melancolia, de tendências suicidas e de escrita. Só que em vez de escrever ele ditava para o seu "fiel escudeiro", Las Cases, as suas reflexões, que junto com as observações deste resultou no Memorial de Santa Helena. Neste epílogo ele é apresentado como o Messias moderno da política. Seus restos mortais estão hoje em Paris, no Palácio dos Inválidos. Este Memorial me despertou bastante interesse. Por ele se construiu muito do mito de Napoleão.

A biógrafa recorre a uma frase de Michelet para encerrar o seu livro: "Napoleão Bonaparte tem a horrível honra de ter confirmado e aumentado um mal muito natural ao homem, a adoração da força brutal e a idolatria do sucesso". Antes já afirmara que ela não poderia em nada mascarar ou desculpar os seus erros criminosos. Uma nota de rodapé os menciona: "Lembremos aqui especialmente os mais incontestáveis: os quatro mil prisioneiros otomanos degolados em Gaza, a incompreensível aventura espanhola, os cem mil mortos (no mínimo) na retirada da Rússia, que poderiam ter sido evitados com um regresso menos tardio, os mortos de Fleures ou de Waterloo, preço a ser pago pela "aventura " romanesca dos cem Dias". Quanto ao código de Napoleão vou preparar um post especial.

Como a frase de abertura do primeiro capítulo me marcou profundamente, a deixo aqui transcrita. Ela é válida não apenas para Napoleão. Ei-la: A inteligência, mesmo a mais aguda inteligência de ação, é conservadora: o homem raciocina a partir de poucos elementos, em geral adquiridos ao longo de sua formação. Os complementos mais sutis ou mais específicos recolhidos posteriormente têm dificuldade para modificar as grandes linhas de força dessa bússola antiga que funciona para a vida toda, sobretudo nos momentos de crise". Quantas pessoas permanecem neste estágio de suas vidas!


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