quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Fahrenheit 451. Ray Bradbury. Prefácio.

Entre os meus livros, tenho alguns pelos quais eu tenho uma estima especial. Eles figuram em local privilegiado em minha modesta biblioteca. Entre eles figura Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Ele foi meio eclipsado pela sua adaptação ao cinema, num filme genial de François Truffaut. Para quem não conhece, recomendo o livro e o filme.  Os dois nos dão uma das melhores visões sobre o que era e viria a ser a indústria cultural e, de uma forma facilmente compreensível. O grande tema é a queima de livros. Com 451 graus, pela escala Fahrenheit, começa a combustão.

A edição brasileira, da editora Globo, tem um prefácio primoroso. É de autoria do crítico literário Manuel da Costa Pinto. Uma vida dedicada à agitação cultural. O transcrevo em função da gravidade em que estamos vivendo. Escrevo na data de 10 de setembro, na cidade de Curitiba, entre as eleições de primeiro e segundo turno do ano de 2018 e diante de perspectivas sombrias. Mas vamos ao prefácio:
Entre a minha lista de preferidos.


Em 1933, quando os nazistas queimaram em praça pública livros de escritores e intelectuais como Marx, Kafka, Thomas Mann, Albert Einstein e Freud, o criador da psicanálise fez o seguinte comentário a seu amigo Ernest Jones: 'Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros'.

Deixando de lado o fato de que a ironia de Freud logo se tornaria ingênua diante dos fornos crematórios de Auschwitz e Dachau, podemos nos perguntar: o que aconteceria se os livros fossem incinerados, varridos da face da terra até o ponto em que o único vestígio de milênios de tradição humanista estivesse alojada na memória de alguns poucos sobreviventes. Qual seria o próximo passo da barbárie? Queimar os próprios homens, para apagar de vez a memória dos livros?

É essa a pergunta que reverbera na mente no leitor após a leitura de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Pois esse romance visionário - cuja justa celebridade foi amplificada pela repercussão do filme homônimo de François Truffaut (com Oskar Werner e Julie Christie nos papeis principais) - trata justamente de uma sociedade em que os livros foram proscritos, em que o simples fato de manter obras literárias ou filosóficas em casa constitui-se num crime.

Fahrenheit 451 foi publicado em 1953, mas sua ação se passa num futuro não muito distante dessa época. Em uma passagem do livro, aliás, uma personagem comenta: 'Desde 1990, já fizemos e vencemos duas guerras atômicas!' - o que leva o leitor a deduzir que o futuro de Bradbury corresponde mais ou menos ao nosso presente (a 1ª edição brasileira é de 2003).

O enredo é ambientado numa cidade dos EUA, mas não há nada futurista em sua paisagem; não há grandes aparatos tecnológicos ou aquela assepsia que costuma cercar as narrativas localizadas num porvir em que a ciência transformou o habitat humano num grande laboratório. A cidade de Fahrenheit 451, em resumo, é apenas um pouco mais sombria e opressiva do que a maioria das metrópoles contemporâneas, com seu misto de progresso industrial e deterioração do tecido urbano, onde moderníssimos meios de transporte atravessam bairros decadentes.

Há, porém, uma grande diferença em relação às nossas cidades: as casas de Fahrenheit 451 são à prova de combustão. Por isso, os bombeiros desempenham agora uma nova função: em lugar de apagar incêndios, sua tarefa é atear fogo. Os bombeiros de Bradbury são agentes da higiene pública que queimam livros para evitar que suas quimeras perturbem o sono dos cidadãos honestos, cujas inquietações são cotidianamente sufocadas por doses maciças de comprimidos narcotizantes e pela onipresença da televisão.

Esse dado inverossímel, que imanta a sociedade fictícia de Fahrenheit 451, faz com que o relato de Bradbury seja incluído na categoria das "distopias". Em geral associados à "ficção científica", as distopias são "a descrição de um lugar fora da história, em que tensões sociais e de classe estão aplacadas por meio da violência ou do controle social" - segundo palavras de Roberto de Souza Causo (um importante estudioso do assunto e escritor de ficção científica). Como o próprio nome diz, a distopia é o contrário da utopia, ou uma "utopia negativa" - e vale a pena refletir um pouco sobre esse gênero, tão peculiar ao nosso tempo, antes de avaliar a importância de Fahrenheit 451.

As utopias surgiram como uma imagem invertida do real, como uma espécie de contrapartida positiva da razão crítica: se uma das atitudes filosóficas mais persistentes ao longo do tempo é o antidogmatismo e a denúncia de uma sociedade construída sobre um sistema de mistificações (o mito, a religião, a ideologia), a utopia seria o mundo possível a partir do momento em que todas essas crenças tivessem sido superadas.

Ressalta daí uma das características das utopias: elas parecem irreais porque são racionais em excesso, porque contrastam com a irracionalidade reinante nas relações sociais. A Cidade do sol de Campanella, o Eldorado de Thomas More (autor de Utopia ou sobre o último estado da república e sobre a nova Ilha Utopia) e o "falanstério" de Fourier criam em termos meramente hipotéticos uma idade de ouro do racionalismo. As utopias são constituídas por noções de cordialidade em meio a uma natureza dadivosa e domesticada, que serve de celeiro e jardim da humanidade. As utopias são, por assim dizer, o sonho da razão, além de uma vulgarização do humanismo - e por isso as grandes utopias ocidentais estão compreendidas entre o renascimento e o fim do século XIX.

Num século anti-humanista como o que acabamos de atravessar, porém, a razão deixou de ser antípoda da desrazão, da mitologia e da religião, para se tornar, ela mesma, um desdobramento dessa fúria dominadora. 'O esclarecimento, ou seja, a razão instrumental, é a radicalização da angústia mítica', escreveram Adorno e Horkheimer - e a imaginação literária do século XX foi pródiga em criar sociedades fictícias em que a racionalidade se transforma num fim em si mesma: abstrata, mecanicista, reduzindo o existente a um utensílio, alienando a consciência na linha de montagem e produzindo massacres com planejamento industrial. No século XX, como na famosa gravura de Goya, o sonho da razão produz monstros. Ou, em outras palavras, distopias.

Os universos opressivos descritos em romances distópicos  como Nós, de Ievguêni Zamiátin (também publicado no Brasil sob o título A Muralha Verde), Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, ou A revolução dos bichos e 1984, de George Orwel, seriam assim os antecedentes imediatos de Fahrenheit 451. A exemplo desses livros, encontramos em Bradbury uma sociedade policialesca, com propensões totalitárias, em que a individualidade é sacrificada a razões de Estado. Em certo sentido, porém, Fahrenheit 451 é bem mais realista - e isso não apenas no sentido da representação naturalista (o livro é muito mais rico em invenções de um mundo alternativo do que seus precursores), mas na estranha verossimilhança que esse livro adquiriu cinquenta anos após sua publicação.

A trama de Fahrenheit 451 é bastante simples e apresenta vários pontos de contato com as obras de Huxley e Orwell. O romance conta a história de Guy Montag, um bombeiro que, após várias incinerações de livros, começa a se perguntar sobre o fascínio que essas páginas impressas exercem sobre algumas pessoas obstinadas, que desafiam a ordem estabelecida pelo simples prazer de ler. Dois fatos são decisivos na urdidura do romance. Numa ação dos bombeiros, ele testemunha a auto-imolação de uma senhora (cujo sugestivo nome de família é Blake) que se recusa a abandonar sua casa, preferindo morrer no incêndio de sua biblioteca pessoal. Paralelamente, Montag conhece Clarice McClelland, uma jovem adolescente que instila nele o prazer de coisas simples e espontâneas - como a conversa entre amigos (coibida numa sociedade que administra o ócio por meio de atividades programadas) e a indagação sobre "o porquê" das coisas (uma excrescência no mundo utilitário de Fahrenheito 451, onde só importa "o como" de vivências protocolares.

Esses dois acontecimentos têm como pano de fundo o cotidiano asfixiante das demais personagens. Assim como em Admirável mundo novo (em que existe um narcótico, o soma, que provoca um bem-estar politicamente anestesiante), em Fahrenheit 451, a mulher de Montag, Mildred, vive à base de pílulas que embalam sua irrealidade cotidiana. E, como em 1984 (no qual a privacidade era devassada pela onipresença do Grande Irmão), as casas têm murais televisivos que transmitem ininterruptamente "novelas" com as quais os moradores podem interagir. A partir daí, toda a ação de Fahrenheit 451 vai se desenrolar no desafio de Montag às proibições vigentes e na sua tentativa de fuga da cidade, proporcionada pela amizade com Faber - um professor que ele outrora investigara e que agora se torna seu cúmplice.

O que interessa aqui, porém é frisar a singularidade da distopia de Bradbury. Pois enquanto Huxley e Orwell escreveram seus livros sob o impacto dos regimes totalitários (nazismo e stalinismo), Bradbury percebe o nascimento de uma forma mais sutil de totalitarismo: a indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético - a moral do senso comum.

A ideia de que existe uma ditadura da maioria, que pune o diverso, aparece em vários momentos do romance, quase sempre personificado em Beatty, o chefe dos bombeiros. No momento em que está prestes a incendiar os livros da senhora Blake, por exemplo, ele diz: 'Não há o menor acordo entre esses livros. Você ficou trancada aqui durante anos com essa malfadada Torre de Babel. Saia dessa situação! As pessoas nesses livros nunca existiram'. Essa intolerância diante do que é complexo, do que é desviante, do que é problemático ou contraditório perpassa a narrativa de Bradbury e corresponde a uma antiga desconfiança em relação ao ficcional, ao poder desestabilizador da literatura e do imaginário (diga-se entre parênteses, que Fahrenheit 451 poderia ilustrar perfeitamente a ideia do "controle do imaginário" desenvolvida por um ensaísta como Luiz Costa Lima, que em diversas obras - Vida e mímesis, Limites da voz e Mímesis: desafio ao pensamento - descreve o processo pelo qual a literatura foi constituída, enquanto discurso autônomo, como um espaço circunscrito e limitado do imaginário social e individual, de modo a subordinar o ficcional - e sua criticidade implícita - aos discursos dominantes da religião, da filosofia ou da ciência).

Beatty é a personagem mais fascinante de Fahrenheit 451.  Como chefe dos bombeiros, ele desempenha o papel de inquisidor-mor; ao mesmo tempo, conhece profundamente aquilo que quer esmagar, sendo capaz de citar Shakespeare de cabeça. Não seria exagerado fazer um paralelo entre essa figura contraditória e o Grande Inquisidor de Os irmãos Karamazov. No romance de Dostoiévski, Cristo retorna à terra e é preso pela igreja católica espanhola porque, segundo o Grande Inquisidor, sua mensagem de liberdade seria insuportável para o homem. Da mesma maneira, o chefe dos bombeiros procura mostrar ao hesitante Montag que os livros são "o caminho da melancolia", da incerteza. Os livros, enfim são um convite à transcendência, ao desvario, à errância, ao desvio em relação ao destino bovino da humanidade conformada. 'Sempre se teme o que não é familiar' diz Beatty - e conclui: 'Um livro é uma arma carregada na casa vizinha'.

E é justamente aí que surge o aspecto mais inquietante de Fahrenheit 451. Bradbury não imaginou um país de analfabetos, mas diagnosticou um mundo em que a escrita foi reduzida a um papel meramente instrumental e no qual a literatura e a arte tem função "culinária" (segundo a expressão de Adorno). As personagens sabem ler, mas só querem ler a programação de suas televisões ou o manual técnico que lhes permitirá ter acesso a um entretenimento que preenche seu vazio - como está magistralmente sintetizado por essa fala de Beatty:

'Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. Eu sei porque já tentei. Para o inferno com isso! Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo o que peço é um passatempo sólido'.

É difícil avaliar o quanto a descrição de um mundo assolado pela indústria do entretenimento soava caricatural quando Bradbury publicou Fahrenheit 451. Atualmente, porém, nenhum leitor do romance terá dificuldade em ver nesse quadro desolador um instantâneo de nossa realidade mais cotidiana. Os monitores de televisão onipresentes nesse livro, podem ter sido inspirados no Grande Irmão de Orwell; hoje ironicamente, se parecem mais com os reality shows. Em Fahrenheit 451, não há um poder central que tudo vigia (como acontecia em 1984), mas um ressentimento geral que produz "bombeiros" - essa corporação de censores com mandato popular para representar "o rebanho impassível da maioria".

Sob certo aspecto, portanto, Fahrenheit 451 não é uma distopia, mas um romance realista, que flagra a dialética demoníaca da sociedade de massas, em que as massas parecem ser títeres das elites, mas na qual as elites só existem em função das massas. Como lembra Faber, em um diálogo com Montag, a sociedade do espetáculo é uma espécie de servidão voluntária:

'Os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria. Vocês, bombeiros, de vez em quando garantem um circo no qual multidões se juntam para ver a bela chama de prédios incendiados, mas, na verdade, é um espetáculo secundário, e dificilmente necessário para manter a ordem. São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes'.

Ao final do romance, Montag se refugia em uma comunidade de homens que vivem à margem da sociedade e que, para escapar à ameaça dos juízes e dos censores, decoram livros. Eles podem, assim, apagar os perigosos vestígios materiais de sua devoção, ao mesmo tempo que preservam a memória da escrita. Entretanto, esse pequeno gesto de rebeldia estará sempre ameaçado pelo veredicto de Heine: 'Onde se lançam livros às chamas, acaba-se por queimar também os homens'.

Espero que este prefácio tenha conseguido instigar o suficiente para provocar a leitura deste livro, que você esteja no rol destas pessoas que "ainda querem ser rebeldes".

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