quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O Vermelho e o Negro. Stendhal.

Quando li a bela biografia de Napoleão, escrita por Pascale Fautier, editado pela LPM, me deparei com a enorme devoção que Stendhal devotava ao general. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/12/napoleao-bonaparte-pascale-fautrier.html Imediatamente separei o número 23 da minha coleção Os Imortais da Literatura Universal, mas ele ficou na fila por um longo tempo. Como estamos vivendo um tempo de profunda atribulação política (Escrevo no dia 8 de outubro de 2018, dia posterior ao primeiro turno das eleições presidenciais) eu me refugiei na leitura deste clássico. Um refúgio seguro. O tema é político. Não é um livro assim tão simples.
Esta não é minha edição. A minha é de coleção. Esta privilegia Napoleão na capa. Um símbolo de ambição.


Vamos primeiramente situar e datar o autor para depois procurar entender o que ele nos quis dizer. Stendhal (1783 - 1842) é o pseudônimo de Henry Bayle, nascido no interior da França, em Grenoble, e que, ainda jovem, irá morar em Paris. Parentes o ajudam a alistar-se junto às forças de Napoleão Bonaparte, mas será a escrita que lhe irá fascinar. É também evidente o seu gosto pela arte, o que o leva a escrever biografias de artistas, que foram tomadas por plágios. Outro de seus gostos era pelas mulheres, muitas mulheres. Inversamente, não gostava mesmo era dos padres, do clero. O Vermelho e o Negro é uma grande crônica dos costumes da França revolucionária. Acabo de ver que o livro tinha um subtítulo: Crônica do XIX.

Assim como Henry Bayle, ou Stendhal, o jovem Julien Sorel, protagonista de O Vermelho e o Negro, deixa o interior buscando aventuras e poder na cidade de Paris. A vida de  Napoleão o ensina que, mesmo sendo filho de camponês e carpinteiro, isso é possível. Julien escolhe as mulheres para esta busca de ascensão. Se relaciona, sempre se expondo perigosamente, com mulheres muito poderosas, expondo-as também e procurando tirar vantagens. Sem escrúpulos. Muitos ciúmes e poucos remorsos.

Julien tivera um pai horroroso, camponês e marceneiro, sempre tão violento quanto avarento. Julien o odeia. O jovem tinha uma memória fantástica. Sabia de cor todos os textos sagrados. Isso lhe granjeou o emprego de preceptor dos filhos do sr. de Rênal, o prefeito da cidade. Ele tinha três filhos e uma esposa de beleza de escultura grega. A sra. de Rênal irá conhecer as doçuras do amor, não conhecidas em seu casamento formal movido a interesses. A mediocridade humana. Esta foi concedida aos homens com grande generosidade, como afirma uma das frases em epígrafe, ao início de um dos muitos capítulos do livro.

Essa é a primeira parte do livro que consta de trinta pequenos capítulos. O cenário é a cidade de Varrières. Ajudado por um velho padre e um comerciante ele irá para o seminário em Besançon, onde permanece por pouco tempo. Em Paris chega à casa do senhor de la Mole, que se encanta com a sua inteligência e o introduz na alta sociedade e lhe confia missões. Julien logo percebe Mathilde, a filha do rico, nobre e poderoso senhor. Mas Julien também percebe uma outra mulher, viúva, rica e poderosa. Julien, mesmo em Paris, não esquece da senhora de Rênal  de sua cidade natal. E a crônica vai se desenvolvendo.

Em meio a uma missa, bem na hora da elevação, Julien desfere dois tiros na sra. de Rênal. Os tiros  não a ferem mortalmente, para o desespero dela, louca de amor e que preferia ter morrido do que viver sem o amado. Ele será preso, julgado e condenado. Essa parte ocupa toda a segunda parte, desta vez em 45 pequenos capítulos. Em meio a estas narrativas é que vai descrendo a época. O ano de lançamento do livro foi o ano de 1830. É o período das revoluções e contra revoluções.

Destaquei algumas partes que envolvem especialmente as questões dos padres e as suas desavenças nas disputas pelo poder. Mas lendo o livro de biografias que acompanha a coleção, destaquei algumas informações que considero mais interessantes. Primeiro sobre o título: "O significado do título suscitou muita discussão. Segundo alguns críticos, Stendhal quis representar o jogo da roleta. Outros veem no vermelho o Exército, o sangue das batalhas, e o negro a Igreja, o sangue das batinas. Há também os que consideram o negro uma alusão ao estado de seminarista do herói, e o vermelho o sangue que o embebe no cadafalso. Numa quarta interpretação, o vermelho representaria a época da Revolução Francesa e do Império, com suas oportunidades de vencer pelas armas e pela coragem, enquanto o negro simboliza a época da restauração da monarquia (1814-1830), quando as possibilidades de ascender através do exército eram diminutas"

Uma segunda observação seria sobre as intenções do autor, sobre o que ele quis efetivamente dizer: "Mais do que um romance de costumes, uma crônica política, ou uma crítica à sociedade, O Vermelho e o Negro é um romance psicológico da ambição, um estudo profundo 'sobre os motivos secretos dos atos e a qualidade interior das almas, na sociedade criada pela Revolução', como diz o crítico Gustave Lanson".

Termino com uma última observação sobre os seus dados biográficos: "O amigo Romain Colomb providenciou os serviços fúnebres, realizados na igreja da Assunção. Com mais duas pessoas apenas - Mérrimée e Abraham Constantin - acompanhou o féretro até o cemitério de Montmartre. Ali repousa o homem ambicioso e ávido de amor, o escritor orgulhoso que escrevia para gerações futuras. Em vida não conhecera a glória. Após a morte, consagrou-se como um dos maiores autores franceses do século XIX". O Vermelho e o Negro é profundamente autobiográfico e revelador do humano, do sombrio que nele existe.

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