quarta-feira, 14 de junho de 2017

A formação permanente do educador. Um imperativo ético.



 Fiz esta fala em junho de 2015, por ocasião do lançamento de um curso de formação. Como pretendo trabalhar com este texto, reproduzo a fala aqui no blog. Apenas quero reiterar a importância da formação permanente do professor, que, como está registrado no título, é um verdadeiro imperativo ético.
Construindo pensamentos. Homenagem do cartunista e professor Cyryllo Oliveira Jr. a mim e ao professor João Wanderley Geraldi.




“Sabes, pai, gosto de pensar que nunca mais vou ficar sozinho e que alguém há de ficar comigo para sempre sem me abandonar.


O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais de mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se nossos mil pais e as nossas mais de mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós”.  Valter Hugo Mãe, em O Filho de Mil Homens.



Gostaria de começar, resgatando um pouco da memória do nosso sindicato. Em 1992, eu estava na direção do Núcleo Sindical de Umuarama, quando para lá levamos, para uma fala maravilhosa, o professor Paulo Freire. 20 anos depois, ou seja, em 2012, a sua fala foi transcrita para um caderno - Dialogando com Paulo Freire. Paulo Freire nos fazia belíssimas exortações, sobre a formação do professor e a necessidade de se ter clareza política. A clareza política somada com os nossos sonhos e o compromisso com a lealdade a estes sonhos. Só assim saberemos com quem eu trabalho e em favor de quem eu trabalho e nunca para quem ou sobre quem eu trabalho.


 Falava-nos também, já especificamente da alfabetização, que o educador tem que ter a noção de consciência de classe e noções básicas de linguagem, para entender e se fazer entender com os seus interlocutores. E por fim nos exortava: “O educador da escola pública brasileira não tem culpa, inclusive, de sua incompetência, mesmo quando ele não é competente. A culpa é do Estado”. E ainda nos exortava para que não deixássemos a nossa formação continuada e permanente, exclusivamente, nas mãos do Estado, sob o risco de ela sofrer graves reduções. O sindicato deve e pode assumir parte dessa formação. Ele deve testemunhar para a categoria que ele tem essa possibilidade.


E nós estamos aqui, no lançamento deste projeto, testemunhando que temos sim, a possibilidade de aceitar a parcela que nos cabe. Nós, aqui hoje, estamos aceitando o desafio desta exortação. É um tributo que lhe devemos.


Ainda na memória, quando em 1993, lançávamos o grupo OPA para a direção estadual do sindicato, três núcleos sindicais, que faziam oposição, já faziam trabalhos de formação. Eram os núcleos de Curitiba, de Paranavaí e Umuarama. Inclusive, foi nestes trabalhos que eu pessoalmente conheci o professor João Wanderlei Geraldy, hoje aqui presente, nos falando da identidade do professor. Foi nestes trabalhos que se fez a articulação da chapa que disputaria as eleições para a direção estadual. Este grupo, de uma forma ou outra, com as fraturas ocorridas na última eleição, ainda está na direção.



A natureza classista e corporativista, porque não, ocupa muito tempo das atividades sindicais e muitas vezes, isso faz com que as suas atividades sejam por demais envolvidas no cotidiano e na sua burocratização.  Muitas vezes a práxis fica um pouco esquecida e a reflexão sobre as atividades do cotidiano fica subsumida pela rotina do ativismo.


Este dia de hoje é, para mim, um dia de uma felicidade imensa. E também de perturbação. Articular orientação na formação é tarefa gratificante, mas desde que vi em Freud o questionamento sobre “o que este cara aí da frente quer da gente”, o meu sossego diminuiu muito. 


A questão da formação do ser humano exige algumas reflexões de ordem ontológica, remetendo ao próprio processo de humanização do ser humano. A principal característica do humano é que, além de sermos animais, a nossa primeira natureza, somos seres culturais.  Sermos seres culturais é a nossa segunda natureza e é o que, fundamentalmente, nos diferencia da ordem natural. Gostaria de ter tempo para aprofundar e relativizar estas afirmações.


No que consiste essa nossa segunda natureza, essa nossa marca de sermos seres culturais? É o fato de que somos seres de relação. E disto segue outra questão fundamental. A pergunta agora passa a ser - com quem nos relacionamos? A resposta é simples. Nossos relacionamentos se dão com a natureza, com os outros e conosco mesmos. Outra pergunta. Por que e como nos relacionamos e quais são as consequências desses relacionamentos?  Vamos por etapas.


Relacionamo-nos com a natureza, assim como os animais e dela tiramos a nossa subsistência. A forma como fazemos isso, e já diferentemente dos animais, é pelo trabalho. Pelo trabalho humano, concebido como práxis, que poderia ser assim definido com a frase de Marx: “Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colmeias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça antes de construí-lo em cera”. O trabalho é uma construção da mente e da mão, mediando a concepção com a execução. É trabalho criativo e não trabalho mecânico e repetitivo. Esta também é uma questão fundamental na construção da identidade do professor.


Relacionamo-nos com os outros. “Nós somos as relações que estabelecemos com os outros”. Essas relações sempre vêm mediadas por um coeficiente de poder. Sem a percepção da existência do outro não teríamos nem sequer a percepção de nossa própria existência. Somando as relações que estabelecemos com a natureza e com os outros, também estabelecemos relações conosco mesmos, dando-nos a dimensão da subjetividade. 


Da soma das três relações formamos o mundo da cultura, e podemos buscar em Freud, em O futuro de uma ilusão, uma primeira definição: “Como se sabe, a cultura humana – me refiro a tudo aquilo em que a vida humana se elevou de suas condições animais e se distingue da vida dos bichos”.  Cultura é, portanto, a soma de todas as invenções ou criações humanas.


Creio que Brecht nos dá um belo auxílio na compreensão do termo cultura.

Nós vos pedimos com insistência:

Nunca digam – Isso é natural!

Diante dos acontecimentos de cada dia,

Numa época em que corre o sangue

Em que o arbítrio tem a força da lei,

Em que a humanidade se desumaniza,

Não digam nunca: Isso é natural.

A fim de que nada passe por imutável.


Marquemos bem. A cultura é uma invenção humana. Se ela é uma invenção humana, ela é passível de mudanças, de transformações. Mas vamos ainda insistir nas relações que estabelecemos. Primeiro com a natureza. Já vimos que, com ela nos relacionamos pelo trabalho, para dela tirarmos a nossa subsistência. Também já vimos que o trabalho pode ser concebido como práxis, mas que também pode ser concebido como mecânico e repetitivo, ou alienado. O trabalho é uma das principais categorias com as quais a filosofia trabalha.


Quando Marx investiga sobre a origem das desigualdades sociais ele, fundamentalmente, aponta duas causas: A propriedade privada e a divisão social do trabalho. É fácil a percepção de que a propriedade se origina do trabalho. O trabalho é fundamental no estabelecimento das relações sociais, que, como já vimos, sempre vêm mediadas por um coeficiente de poder. Neste mundo das relações com a natureza e com os outros se forma aquilo que Marx chamou de infraestrutura da sociedade. É nela que se localizam as grandes contradições que geram os conflitos.



Numa de minhas recentes leituras, Minha Paris – Minha memória - de Edgar Morin, encontrei a seguinte frase: “Embora o conceito de complexidade ainda não estivesse no meu horizonte, era um trabalho complexo que eu realizava ali (Uma pesquisa sobre a morte): conexão entre conhecimentos distintos, em geral compartimentados, identificação de contradições que meu espírito hegeliano-marxista me levava a detectar em lugares onde são ignorados pelo pensamento binário”. Por que trago esta frase? Porque a considero fundamental para entender a formação da cultura ocidental, que se cristalizou nesta visão binária, da separação entre o bem e o mal, entre o espírito e o corpo. E este conceito impregnou também toda a moral ocidental.


Em Nietzsche, em O nascimento da tragédia, aprendi que antes da racionalização do mundo, no tempo da tragédia grega, havia uma interpretação unitária do ser humano. Bem e mal integravam uma única realidade, eram os seus elementos constituintes. O apolíneo e o dionisíaco, as divindades do bem e do mal, viviam em equilíbrio e não em conflito. Equilíbrio era a palavra chave da moral.


Diz um dito famoso, que toda a filosofia ocidental são notas de rodapé a Platão. Com Platão começamos a entrar no mundo das simbolizações, no mundo da construção de valores, que tendem para a universalização. Platão pode ser considerado o primeiro grande pensador positivista do mundo. As mentes iluminadas dão a direção para o mundo. O que são as mentes iluminadas senão a expressão viva da divisão social do trabalho, que como vimos, é uma das causas da origem das desigualdades. Agora entramos naquilo que Marx chamava de superestrutura da sociedade.


A modelação da cultura ocidental, no entanto, não está completa. Existe uma religião que está em ascensão, fruto de uma ruptura no judaísmo. O cristianismo. Quando este cristianismo deixa de ser a igreja de Cristo para se tornar a religião do Estado, a religião do Império Romano, sob Constantino, ela abraça Platão e o cristianiza.  Institui-se a ortodoxia e lança-se o anátema a toda a heterodoxia. Já no século IV se instituiu o pensamento único, sob a égide de Constantino. E o pensamento único é o não pensar.  A história nos conta sobre a Idade Média. Havia então maior submissão, fato que gerava uma violência menor.


Com a afirmação do mundo da modernidade, uma nova ordem econômica se estabelece. E esta nova ordem econômica muda todas as estruturas de funcionamento da sociedade. Viagens marítimas e descobrimentos, Humanismo e Renascimento, Reforma Protestante e Contra Reforma e a afirmação da racionalidade. Esta nova organização sofre a violenta repressão das antigas estruturas de poder que insistem em permanecer e que são representadas, especialmente, pela igreja católica e o seu instrumento do Santo Ofício e os autos de fé. Festas memoráveis levavam implacavelmente para a fogueira, todos os que ousavam desafiar. Sob o símbolo da cruz e da espada, novos povos foram dominados. Os negros serviram para a escravidão e as populações indígenas sofreram seguidos genocídios, até praticamente serem exterminadas. O Santo Ofício produziu muito sangue e nenhuma verdade.


O novo sistema econômico, o capitalismo em seus alvores, precisava de “ordem”. Ao governante caberia governar, isto é, manter a ordem em favor da nova classe protagonista das transformações, a classe burguesa.  Maquiavel traça estruturas de poder ilimitado. Mas é Thomas Hobbes quem melhor define esse novo quadro que se estabelece. Num sistema em que todos os indivíduos competem entre si, gera-se a guerra de todos contra todos, expressa na famosa frase do homo homini lúpus. Seria a guerra total. E esta guerra total só poderia ser evitada pela submissão total. É o Estado Leviatã, o monstro bíblico que a todos apavora. Desde cedo Hobbes percebeu a incompatibilidade entre o capitalismo que nascia, com a democracia, que a racionalidade do iluminismo procurava afirmar.


O mundo ganha uma nova religião, na qual a prosperidade passa a ser um valor absoluto e um sinal das preferências divinas. Deus celebra uma nova aliança, não mais com Israel, mas com os Estados Unidos, a terra da liberdade e da prosperidade. A estrutura filosófica, religiosa e moral continuam binárias, separando mente e corpo, supervalorizando a mente e menosprezando o corpo. Por esses dias ouvi Jessé Souza (o autor de A Tolice da inteligência brasileira) fazer um apêndice em sua fala para dizer que aí está toda a raiz machista de nossa sociedade, porque o homem é visto como mente e a mulher como corpo. Superioridade e inferioridade. O iluminismo, embora gerando grandes pensadores e belos projetos, acaba sucumbindo àquilo que se chamou de razão técnica ou instrumental. A razão passou a fazer cálculos em favor da acumulação do capital.


O novo sistema, o do capitalismo, se afirmou pelas revoluções burguesas e não por revoluções populares. Como ele é um projeto alicerçado em classes sociais, ele precisou e precisa de simulacros para chegar e se manter no poder. Mais uma vez ele recorre à divisão social do trabalho para produzir ideologia, a ideologia da igualdade, da meritocracia e da própria democracia, ou no dizer de Márcia Tiburi no seu fabuloso Como conversar com um fascista, que a sedução capitalista que escamoteia a opressão organiza-se por uma constelação de palavras mágicas, pelas quais todos conseguem realizar os seus desejos. “Palavras como felicidade, ética, liberdade, oportunidade, mérito, são todas mágicas. Uma dessas palavras mágicas usadas pelo capitalismo é a palavra ‘democracia’. Antidemocrático, o capitalismo precisa ocultar sua única democracia verdadeira – a partilha da miséria”. Um sistema de ocultamentos.


Como funciona este sistema de ocultamentos? Trago aqui duas frases como ilustração. Uma é de Marx. “Se a aparência fosse igual à essência não haveria a necessidade da ciência”. A outra é do grande educador, Dermeval Saviani, quando fala dos objetivos da educação, que se expressa mais ou menos assim: - Do pensamento sincrético se chega ao pensamento sintético, pela mediação da análise. Se a aparência não é igual à essência, se estamos todos imbuídos de um pensamento sincrético e precisamos avançar para o pensamento sintético, para a essência, precisamos de formação, precisamos de conhecimento, precisamos de teoria.


A razão calculista e instrumental também nos trouxe a indústria cultural, nos propondo mais diversão e menos reflexão, preenchendo o nosso tempo livre. A tecnologia, especialmente com a chegada da televisão, subverteu o processo de comunicação, transformando-a em meros comunicados, em espectadores passivos que não interagem. A cultura de massas. Onde ficariam as singularidades?



Da fala de Paulo Freire, lá de 1992, em Umuarama, eu lembro quando ele falava da elite brasileira. Ele dizia conhecer o mundo inteiro e que por isso podia afirmar, com toda a convicção, que a elite brasileira é a elite mais perversa do mundo. Por esses dias vi o vídeo do presidente da FIESP, falando do fim dos direitos trabalhistas. Foi um dos mais violentos discursos de pregação de luta de classes que eu já vi. Se o trabalhador quiser, perguntava ele, por que não mudar toda a legislação trabalhista? Olhem a desproporção da relação. Em tempos de crise, nem mesmo a simulações eles recorrem. Crise, afinal de contas, é uma invenção do capital, para efeitos de acumulação. 


Estando em Igarassu, cidade pernambucana, onde o governador Duarte Coelho aportou e onde está a primeira igreja do Brasil, ainda em funcionamento, o menino guia nos dizia. Aqui Portugal ordenou a matança dos índios caetés, porque eles eram muito ferozes e não se submetiam à escravidão. A igreja leva o nome de São Cosme e São Damião, porque no dia destes santos (27 de setembro de 1535) ocorreu o massacre dos indígenas. Certamente acreditaram que foram ajudados por estes santos e por Deus. 


A história do Brasil é uma história de violência. Violência simbólica e real. A cruz e a espada. No entanto, o que nos dizem os intérpretes de nossa história e cultura? Falam-nos da comunhão pascal das raças, do povo cordial, do povo da alegria, do carnaval e do futebol, da miséria lúdica, e disseminam uma estranha crença na infinita possibilidade de conciliação de interesses entre as classes. Não teria sido este o principal erro de Lula, nos seus anos no poder? Vejamos, neste sentido, um trecho da crônica de Luís Fernando Veríssimo de 14 de abril de 2016: “Mais...mais. Foi o fim de uma ilusão que qualquer governo com pretensões sociais - poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima. Era isso que estava acontecendo”. No estudo das revoltas populares no Brasil, e da violência com a qual eles foram exterminados, centraremos o nosso foco de estudo, num dos próximos temas deste curso de formação.


 Apenas para lembrar mais um fato, de muita violência, próximo de nós. Neste ano de 2016 “celebramos” o centenário do fim da Guerra do Contestado, que só terminou com a morte dos últimos colonos que resistiram à abertura do Brasil aos interesses estrangeiros e do latifúndio. O mesmo ocorrera alguns anos antes, num episódio mais conhecido, por causa da brilhante pena de Euclides da Cunha, com o extermínio total e completo de Canudos, da figura mística do beato Antônio Conselheiro. Aliás, a presença de beatos em nossa história, também seria um belo objeto de estudo. A oposição entre os padres e os beatos.


Recentemente eu li e ouvi uma palestra de Jessé Souza. O seu livro recebe o título de - A Tolice da inteligência brasileira - ou como o país se deixa manipular pela elite. Uma de suas expressões, que eu adorei, foi a de que no Brasil é feito todo um esforço para intelectualizar o senso comum. Passando por todos os intérpretes do Brasil, mostra as incoerências e os erros de alguns e a má fé de outros. Qual é, segundo ele, o maior problema do Brasil. É de longe a sua escandalosa distribuição de renda. 1% da elite tem a mesma riqueza que os outros 99% da população. Qual é a origem desta acumulação. A apropriação privada do Estado, por uma série de concessões, melhor, de apropriação de privilégios. Mas os direitos não podem ser assim percebidos. Eles precisam ser vistos sob a ótica dos direitos e da meritocracia. Mais uma vez percebemos o jogo de simulações. Por isso, para as elites, a intelectualização do senso comum se torna uma prioridade. As elites veem no combate à corrupção, um desvio de foco dos verdadeiros problemas.


De Jessé Souza tomo também outra expressão. “racismo cultural”. O que seria este racismo cultural? Seria um transcender do elemento racial, para indicar um branco idealizado, não apenas o negro, mas o homem idolatrado pelo sistema capitalista. O homem branco europeu e norte americano, calvinista e empreendedor, que com a ajuda de Deus, recebeu e ostenta os sinais da prosperidade. Assim o racismo atinge todos os povos pobres, mesmo brancos, como todos os povos da América Latina. A dominação lhes será benfazeja, uma vez que carecem de autodeterminação.


Este homem é o homem competitivo, que reduziu a sua vida ao econômico, o homem da guerra de todos contra todos; o homem que quer impor aos outros a figura do Estado Leviatã. Este é o homem que carrega dentro de si, em potencial, a personalidade autoritária, pronta para explodir e tão exaustivamente estudada por Adorno e sua equipe de pesquisadores, para tentar encontrar explicações para o surgimento do nazismo fascista.


Este homem é absolutamente incapaz de ter bons sentimentos. Este é um homem recluso, fechado em si mesmo, com um potencial de ódio, sempre prestes a explodir. Pergunto. Este homem é bem formado? Ou é a este homem que se aplica a teoria da semiformação, que como nos alertava Adorno, não é o início da formação, mas o seu oposto.


Há muito trago comigo o livro de Albert  Jacquard, Filosofia para não filósofos. Nele lemos: “Eu sou os vínculos que vou tecendo com os outros”. E, depois de constatar a impossibilidade da tomada de consciência sem a presença do outro, Jacquard nos alerta: “É essa coexistência que é fonte de tensão; ela inicia uma dinâmica, a da comunicação. Comunicar é colocar em comum; e colocar em comum é o ato que nos constitui. Se alguém considera esse ato impossível, recusa qualquer projeto humano”.


Em recente texto publicado no blog O outro – Inferno ou paraíso, eu faço mais algumas reflexões. Se colocar em comum é o ato que nos constitui e que possibilita o humano, como são as relações entre os seres humanos? Elas devem ser relações de verticalidade ou de horizontalidade? As leis morais e éticas devem brotar da metafísica, hierarquicamente impostas pelos sacerdotes, ou por aqueles que na divisão social do trabalho ocupam as funções mais elevadas, ou elas devem brotar da convivência do cotidiano? Qual é palavra que deve dominar as relações que se estabelecem? A palavra respeito ou tolerância? Vejam bem as marcas da nossa cultura, da nossa sociedade, em que a palavra tolerância é aceita como uma grande palavra. Pensem um pouco sobre o como foi o nosso processo de formação. As primeiras lições que aprendemos, não foram, por acaso, as da catequese?  Discurso ou diálogo?

Neste post eu também lembro D. Hélder Câmara: “Se discordas de mim, tu me enriqueces”. E complementa: “Ter ao próprio lado quem só sabe dizer amém, quem concorda sempre, de antemão e incondicionalmente, não é ter um companheiro mas, sim, uma sombra de si mesmo”. 


Aliás, dizer sempre amém, de antemão e incondicionalmente, com a imersão em coletivos , segundo Adorno, em seu clássico Educação após Auschwitz, quando pergunta sobre as causas que geraram Auschwitz, ele certeiramente nos aponta que é: “A identificação cega com o coletivo”. O sindicato não pode fugir do debate deste tema.


Como preciso encerrar, vou procurando alguns termos. Rubens Casara na apresentação do livro de Márcia Tiburi, Como conversar com um fascista, nos conta uma fábula oriental. Nela um homem teve a sua boca invadida por uma serpente, enquanto dormia. A sua liberdade desapareceu, ele estava à mercê da serpente. Ele já não mais se pertencia. Estava sob o domínio da serpente. Figurativamente, esta serpente está entranhada, não no nosso estômago, mas em nossa cultura, em nosso cotidiano do senso comum. Muito mais do que cultivar o ovo da serpente, usando a imagem de Bergman, esta serpente já está muito viva e entranhada em nós. Casara então nos convida para vomitar esta serpente e assim recuperarmos o humano em nossas vidas.


De uma fala de Márcia Tiburi, promovida pelo Núcleo de Criminologia e Política Criminal, do curso de Direito da UFPR, depois de muito falar da importância da alteridade e da linguagem, ela construiu um jogo dialético entre as palavras amor, ódio e inveja. O pior sentimento humano não é o ódio, porque ele, pela dialética, é capaz, inclusive, de suscitar o amor, o que jamais acontecerá com aquele que se nutre do sentimento da inveja. O seu cotidiano será feito de humilhações e de xingamentos. Depois dessa reflexão ela fez um grande convite ao congraçamento e à aprendizagem com o outro. Nenhuma formação pode prescindir de ouvir o outro, o diferente, o plural.


Quando falamos que o mundo do iluminismo, da racionalidade se transformou numa racionalidade técnica e instrumental a serviço do capitalismo, também temos que apontar para a sua insuficiência para explicar a realidade complexa do humano. Há mais ou menos um ano eu ouvia uma fala de Leonardo Boff. O tema era - O cuidado de si, do outro e do mundo.


 Nesta fala e em seu livro – Francisco de Assis e Francisco de Roma, ele nos alerta que “toda a modernidade se construiu quase que exclusivamente sobre a inteligência intelectual; ela nos trouxe incontáveis comodidades. Mas não nos fez mais integrados e mais felizes porque colocou em segundo plano ou até recalcou a inteligência emocional ou cordial e negou cidadania à inteligência espiritual”. Esta seria uma grande indicação para uma formação em seu sentido pleno: a integração entre estas três inteligências. A racional ou intelectual, do mundo da ciência, a cordial para a afetividade das coisas do coração e a espiritual para tudo aquilo que nos diz sobre a transcendência.


Por fim, retomo uma fala de Jessé Souza. Na Aula Magna que ele proferiu na abertura do ano letivo de 2016, no curso de Direito da UFPR, ele concluiu falando sobre a relação entre a mídia e a democracia. Afirmou que a democracia não se dá pelo voto, mas sim, pelo voto consciente. Para isso a mídia deve ser tão democrática para que na sua comunicação ela permita aos leitores, ouvintes ou telespectadores a percepção de que vivemos numa sociedade em que existem contradições. Quero acrescentar dizendo, que a qualidade da educação também deve, além do conhecimento específico das disciplinas, permitir que os educandos, pela formação de uma consciência crítica, também possam flagrar as enormes contradições em que está mergulhada a nossa sociedade. E a nossa formação de educadores deve transitar por esse caminho.


É por essa razão que estamos aqui reunidos, iniciando este programa de formação. Para que não mais vejamos colegas nossos, muito queridos, assumir as lutas corporativas do sindicato, se submeter a bombas e bombardeios, mas que, nas grandes causas, que exigem visões de mundo mais abrangentes, eles abracem ideias contrárias às de sua classe, abraçando, inclusive, autoritarismos absolutamente desumanizantes. Alguns lumpen são inevitáveis.


É nessa perspectiva que iniciamos este curso. Pela nossa formação permanente recuperarmos a nossa identidade, e essa identidade necessariamente passa pelo nosso trabalho como práxis, o que também mexe profundamente com a nossa autoestima. Que tenhamos muito êxito neste empreendimento e que os filhos e filhas dos trabalhadores, ou seja, os alunos da escola pública sejam os grandes beneficiados deste nosso trabalho.


E para concluir, voltamos ao nosso começo:



“Sabes, pai, gosto de pensar que nunca mais vou ficar sozinho e que alguém há de ficar comigo para sempre sem me abandonar.

O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais de mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se nossos mil pais e as nossas mais de mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós”




















terça-feira, 13 de junho de 2017

Papa Francisco. Meritocracia - a legitimação ética da desigualdade.

 Há muito tempo leio sobre a ressignificação de palavras, especialmente, a muitas delas que sempre me foram muito gratas. Me recordo de um texto de Hugo Assmann, que trabalhei ao longo do ano de 1998, que falava da cooptação das linguagens progressistas. Já em 2002, por ocasião da realização do Fórum Social Mundial, vi um texto de Pierre Bourdieu e Loïc  Wacquant com o título A nova bíblia de tio Sam em que os autores falam de uma nova e estranha língua, chamada por eles de uma "nova vulgata", ou usando a expressão novilíngua, tomada de Orwell.

Posteriormente trabalhei - já a especificidade da palavra meritocracia - num texto para o blog, em que eu examino os espaços públicos e a abertura de oportunidades como condição para a meritocracia efetivamente acontecer e terminava com uma metáfora da minha horta e as plantinhas, das quais as mais bonitas eu plantava na parte central e melhor adubada do canteiro, as mais fraquinhas nas beiradas  e as mais mirradinhas mesmo, em ato de crueldade, eu simplesmente descartava, as jogava fora. Não valia a pena cuidar delas. Jamais elas seriam absorvidas pelo mercado.

Recentemente vi em Boaventura Sousa Santos, no epílogo de seu maravilhoso livro A difícil democracia - reinventar as esquerdas, o seguinte: "Mudaram os nomes às coisas para as coisas se esquecerem do que eram. Assim desigualdade passou a chamar-se mérito; miséria austeridade; hipocrisia, direitos humanos; guerra civil descontrolada, intervenção humanitária; guerra civil mitigada, democracia".


Agora estou diante das declarações do papa Francisco, em exortação aos trabalhadores da empresa Ilva, em Gênova, no dia 29 de maio de 2017. Nele o papa diz textualmente que com o discurso da meritocracia "legitima-se eticamente a desigualdade". O seu discurso, dirigido aos trabalhadores, foi enfático e a parte que mais chamou atenção foi exatamente a referência feita à meritocracia, palavra cuja ressignificação já vem sendo trabalhada há mais de vinte anos. Vejamos um trecho do discurso:

"Outro valor que, na realidade, é um desvalor é a tão elogiada "meritocracia". A meritocracia fascina muito porque usa uma palavra bonita: o "mérito", mas, como a instrumentaliza e a usa de modo ideológico, ela a desnaturaliza e a perverte. A "meritocracia", para além da boa fé dos tantos que a invocam, está se tornando uma legitimação ética da desigualdade". Francisco continua em seu discurso dirigido aos trabalhadores:

"Uma segunda consequência é a mudança da cultura da pobreza. O pobre é considerado um desmerecido e, portanto, culpado. E, se a pobreza é culpa do pobre, os ricos são exonerados de fazer algo. Mas essa não é a lógica do Evangelho, não é a lógica da vida: encontramos a meritocracia no Evangelho, em vez disso, na figura do irmão mais velho na parábola do filho pródigo. Ele despreza o irmão mais novo e pensa que este deve continuar sendo um fracassado, porque mereceu isso. Ao contrário, o pai pensa que nenhum filho merece as bolotas dos porcos".

Grande papa Francisco. Ele realmente representa a igreja de Cristo e não a Igreja poder que se afirmou a partir de Constantino. Leonardo Boff faz belas reflexões nesse sentido, ao mesmo tempo em que teme o que possa vir contra Francisco por parte da Igreja como instituição de afirmação de poder. Boff também destaca a simbologia do uso do nome Francisco. Os dados do discurso tem como fonte o Instituto Humanitas da Unisinos.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Memórias de uma viagem. De Dourados a Paranavaí.

Estando em Cascavel, aproveitei a oportunidade para ir até Dourados. Lá mora um dos meus grandes amigos, o Giovani Scholz. Ele tinha dois motivos especiais para comemorar., que eu queria compartilhar. A sua esposa, a Jayne, acabara de se formar no curso de pedagogia e o filho, Caio, terminara de defender a sua dissertação de mestrado na Unioeste, em Cascavel. A nossa amizade vem dos tempos de Umuarana, especialmente construída no CTG Querência da Amizade.

O reencontro foi maravilhoso e devidamente celebrado. A viagem entre Cascavel e Dourados foi num ônibus extremamente confortável, da linha Cascavel a Rio Branco. Três dias de viagem para quem cumpre o roteiro completo. Mas eu quero me reportar a viagem de volta. Uma viagem que percorreu alguns lugares do chamado Brasil profundo. A rota seria Durados a Paranavaí, onde me aguardava um outro compromisso. O ônibus saiu de Dourados as 7h30 e chegou ao destino as 18h00.  Pelo caminho havia um percurso de mais de cem quilômetros de estrada de chão e uma balsa para a travessia no rio Paraná. Me lembrei muito dos idos de 1969, quando eu chegava em Umuarama.
Travessia do rio Paraná.


A estrada de chão se situava entre as cidades de Naviraí (MS) e Querência do Norte (PR). As dez horas, em Naviraí, houve uma parada de 30 minutos para almoço, que eu não fiz. Me sobrou comer um pedaço de peixe frito, por ocasião da travessia de balsa, no rio Paraná, que por sinal, estava delicioso. Um incidente pitoresco pelo caminho. Um cervo à frente do ônibus. Por três vezes ele tentou sair da estrada pela direita, voltando para a pista para finalmente sair à esquerda, onde certamente estava o seu chão ou a sua morada. Correu enormes riscos, mas o motorista foi muito camarada. Todos merecem um chão para se sentirem seguros.

Mas a grande emoção da viagem estava reservada para Querência do Norte. Ali, em 1990 eu e o Osni Santana, de Umuarama fomos convidados para celebrar, no acampamento dos Sem Terra, a sua primeira festa da colheita. Foi um acontecimento único em minha vida. As lembranças desta festa se avivaram, aflorando à memória, especialmente o sermão que o padre fez, passando-lhes um verdadeiro "sermão". Vou tentar reproduzi-lo.

Hoje estamos em festa e temos o que celebrar e temos convidados especiais. Mas isso não me impede de fazer uma grave advertência. Eu conheci vocês, quando vocês estavam acampados em beira de estrada. Quando vocês tinham coragem de repartir a comida guardada para amanhã, com aqueles que não tinham o que comer no dia de hoje, confiando na Providência. Hoje vocês já estão assentados e fazendo a primeira colheita e em breve terão o pedaço de terra de vocês e isto já se torna motivo para brigas. Nunca esquecerei este sermão.
O majestoso rio Paraná.

Voltei outras vezes a este acampamento e reencontrei alguns dos assentados em movimentos em Curitiba. Depois perdi o contato. Me lembro especialmente de uma visita em que haveria um protesto na cidade contra uma juíza da comarca, que na ocasião estava sediada em Loanda. Ela era uma implacável perseguidora do movimento. Lembro também que os trabalhos eram organizados em cooperativa, que inclusive providenciava para que a agricultura praticada seguisse modernas técnicas para garantir a produtividade. O assentamento reaqueceu o comércio da cidade. E em meio a estas lembranças cheguei ao destino.

Em Paranavaí chovia e fazia frio. Uma rodoviária aberta. Foi difícil encontrar um canto para me abrigar, enquanto aguardava a chegada dos companheiros desta viagem. Uma menina muito linda e gentil me acolheu, inclusive não me vendendo um salgado, de duvidosa qualidade.  Para fazer um tempo li. Li Agamben. Estado de exceção. Fui abordado por um bêbado. O senhor deve ser uma pessoa muito distinta por estar lendo na rodoviária. Assim o tempo passou rápido. O Grêmio começou a fazer gols contra a Chapecoense e os companheiros logo chegaram. Um dia absolutamente fora da rotina do cotidiano.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

LULA. Coletânea de textos. Prefácio de Raduan Nassar.

Ao final do mês de maio foi lançado, em São Paulo, o livro LULA - uma coletânea de textos organizados pela jornalista Cleusa Slaviero. O livro tem o prefácio assinado pelo grande escritor Raduan Nassar. Mais de cem autores dão o seu testemunho e a sua percepção do que foi o governo do presidente Lula. Cleusa está despontando e se destacando como editora. Tem se dedicado ao gênero de crônicas, crônicas de resistência democrática, em tempos em que a serpente está procurando se livrar da fina membrana que a recobre em seu ovo, mas que já se apresenta com absoluta visibilidade.
Mais de cem autores, que em mais de 300 páginas, dão o testemunho em favor das políticas públicas dos governos de Lula.

Cleusa tem muitos méritos em seu trabalho. Por alguns vínculos pessoais e, muitos mais, pelo facebook, interagiu com mais de cem autores, muitos deles escrevendo pela primeira vez. Como resultado obteve um livro de elevada qualidade. As crônicas estão revestidas, acima de tudo, de muita sinceridade e de uma enorme vontade de exaltar e propagar os feitos de um governo marcado por políticas públicas de inclusão e de construção de cidadania num país tão marcado pelas injustiças sociais construídas por uma elite branca, que tem na falta de sensibilidade a sua grande característica. Uma herança bandeirante e escravocrata.

O livro tem dedicatória para Lula e Marisa Letícia. Para Marisa Letícia  são dadas as primeiras palavras: "No início, muitos políticos diziam: Lula, para que criar outro partido, basta entrar num dos que já existem. Mas ele respondia: quero criar um partido diferente de todos, um partido dos trabalhadores".

Segue o prefácio. Raduan Nassar. Cleusa é uma editora atrevida. Nassar pouco, mas muito, escreveu. Estava absolutamente recluso. No prefácio, mais uma vez, pouco, mas muito, escreveu e concluiu: "É preciso dizer mais"? E o que ele escreveu? Depois de constatar que um governo de exceção se apossou do Brasil, "posto e amparado pelo Ministério Público e pelo Supremo Tribunal Federal, um e outro politizados", ele traz dois testemunhos para corroborar a sua afirmação. A primeira é do professor Moniz Bandeira: "Um país com judiciário politizado acabou". E continua:

"O que importa, não é a prova, não é a lei, mas a 'convicção' do juiz. A lava Jato configura uma guerra jurídica assimétrica, mediante o uso ilegítimo da Justiça, a manipulação da lei e dos processos judiciais com fins políticos. [...] O juiz Sérgio Moro e o procurador-geral Rodrigo Janot atacam o Brasil por dentro de suas entranhas ao destruir as grandes empresas nacionais, privadas e públicas, que concorrem no mercado exterior. Causam imensurável dano à economia, maior do que a corrupção que dizem combater".

A segunda testemunha é o físico da Unicamp, Rogério Cesar Cerqueira Leite, que mira certeiramente no juiz Sérgio Moro: "O juiz da Lava Jato é absolutamente parcial e está a serviço das classes dominantes. Daí é que segue a sua conclusão: "É preciso dizer mais"? Mas antes ainda dá as razões do partidarismo do judiciário: "Todo esse partidarismo do Judiciário é para impedir o retorno de Lula ao governo". Para mim, este prefácio já seria o suficiente para o livro.

Na apresentação do livro é apresentado o projeto da editora (ComPactos), desde os livros das crônicas de resistência e, em particular deste, dando voz ao legado de Lula. Legado que muitos tentam destruir, uma vez que se sentiram e se sentem ameaçados em seus privilégios pelas políticas públicas em favor da cidadania. Por esta razão mais de cem autores contam "uma história humilde, porém ambiciosa. Pacífica, mas revolucionária".

Por serem muitos os autores, não vou falar deles. Apenas destaco uma das frases do texto da professora Regina Reinert, de quem recebi o livro e uma bela dedicatória. Uma leitura de esperança. Mas vamos à frase, a frase final, para que ela continue ecoando: "Estamos na defesa inexorável da cidadania contra aqueles que querem manter as coisas como sempre foram, reprimindo projetos populares e ainda culpar o povo. Daqueles que querem mudar para permanecer, porque seus objetivos nunca foram a nação, mas a classe. Somos agentes da mudança. Nossa luta nunca foi e nunca será fácil. A luta de classe, como todo o pensamento de transformação social, é sempre tensa".

O livro está aí e quer ser lido. Um livro para a história. Para a Cleusa, que com uma pitada de orgulho e satisfação, aproveito para dizer que foi minha aluna, os nossos parabéns. Deixo ainda o contato da editora. www.editoracompactos.com.br




quarta-feira, 31 de maio de 2017

maisquememória. Marcelo Backes.

Conheci Marcelo Backes pelos seus trabalhos com a filosofia, mais precisamente com o seu trabalho de tradução e organização do livro A Ideologia alemã de Marx e Engels. Também tinha visto algo de seu trabalho com a literatura. O reencontrei agora, com uma ida ao Shopping, onde havia uma pequena feira de livros de ponta de estoque. Entre os livros estava o quasememória. Como aprecio o gênero, o de memórias e o preço estava mais do que em conta, não tive dúvidas. A compra foi imediata.
O livro de muitas memórias por cidades alemãs e europeias.


O autor, um gaúcho missioneiro, tem uma história de vida de semelhanças com a minha, porém com um grau de intensidade muito maior, em todos os sentidos. Sempre fui mais bem comportado. Também é de uma geração bem posterior à minha. A nossa identificação se deve ao início de nossas atividades estudantis. Logo após as primeiras letras, o seminário foi o nosso destino. Também nos identifica o fato de ali não termos permanecido. Marcelo foi fundo em sua vida de estudante, atingindo um pico onde poucos chegam. Um doutorado na Alemanha.

Na Alemanha permaneceu por seis anos, fundado na cidade de Friburgo. As suas aventuras na Alemanha e países vizinhos são tema de seu livro quasememória. Estas começam por Göttingen, uma cidade eminentemente universitária, que tem em suas glórias o registro de 42 Nobeis. Nesta cidade, no Goethe Institut, Marcelo aperfeiçoou o seu alemão, que como eu, recebeu de presente de seus pais, que tudo fizeram para preservar a tradição e a língua.

Em 19 capítulos Marcelo conta as suas aventuras e também as desventuras com o desvencilhar-se das fortes doses de moralina católica recebidas ao longo de sua infância. Estas lhe renderam intensos prazeres mas também choros, desesperos e momentos de depressão e que, ao final, culminaram em um divórcio nada amigável. Acompanhar as suas viagens foi uma tarefa muito agradável.

Na Alemanha as principais cidades visitadas foram Hanôver, Friburgo, onde fixaria residência e fez os estudos de seu doutorado, Frankfurt, Heidelberg, Kassel, Colônia, Leipzig, Dresden, Stuttgart, Munique e Berlim, e outras menores. Toda a descrição tem gosto de quero mais, isto é, obter mais informações. Os focos são as diferenças regionais, os costumes, a culinária, os vinhos, a pãodurice e outros hábitos enraizados entre os alemães. O Caixa dois de Schröder e a feiura de Ângela Merkel também estão sempre presentes.

O autor também se aventurou em excursões pelos países vizinhos. A França que está mais próxima recebe as suas primeiras considerações, começando por Estrasburgo, que tantas vezes mudou de mão e pelos caminhos do vinho da Alsácia, de apenas 170 quilômetros de paraíso terrestre. Também chegou a Paris, para visitar o Louvre numa terça feira, dia em que ele está de portas fechadas.

Suas viagens também atingiram outros vizinhos como Luxemburgo, Bélgica e a Holanda e, do outro lado, a Áustria, a Suíça e a República Tcheca, com passagem pelas suas principais cidades. O mesmo também ocorreu com a Itália, recebendo visitas as cidades de Turim, Milão, Verona e Veneza. O trotear é sempre o mesmo. Questões culturais, as universidades, dados históricos, os seus monumentos e atrações turísticas e muitos diálogos com pintores e escritores, com ênfase nestes, nos pintores por paixão e nos escritores, como seu campo de estudos. 

Quando está praticamente se despedindo da Europa também recebe uma carta de despedida de Dona Alda, uma carta de despedida do casamento, que pelo jeito, muitos dissabores lhe causou, embora as suas renovadas promessas de se livrar das doses nada homeopáticas de moralina sexual de sua infância. Alda queria uma família constituída e estruturada e um filho. Já Marcelo se inclinava mais para ser um potro solto pelas coxilhas do mundo, uma referência à sua origem missioneira.

Quem acompanha o autor em todas as suas viagens é o pintor Oskar Kokoschka (1886-1980), de quem visita os quadros nos museus das cidades e os interpreta. Até adquire um de seus quadros, o que está devidamente registrado na carta de Dona Alda. Ao final Dona Alda volta para a sua Porto Alegre e ele se perderá pelas e nas belezas do Rio de Janeiro, com um pedido para que jamais seja enterrado em Porto Alegre.

domingo, 28 de maio de 2017

A esposa, a prostituta e o fim da CLT. A partir do filme - Queimada.

 Queimada é um poderoso filme político italiano (1969) que tem Gillo Pontecorvo como diretor e Marlon Brando como ator principal, no papel de um agente inglês que chega a ilha de Queimada e a ajuda a se tornar independente de Portugal, após a abolição da escravidão. Inicia assim o processo de dominação econômica dos ingleses, com o  domínio do comércio do açúcar na bela ilha caribenha. São retratos dos meados do século XIX, na transição do colonialismo para o imperialismo.
O monumental filme de Gillo Pontecorvo com a magnífica atuação de Marlon Brando.

Como é sabido, os ingleses já estavam em um estágio mais avançado de sua economia, pela via da industrialização, que não mais comportava mão de obra escrava. Por isso eram abolicionistas. Numa cena muito hilária, William Walker, o agente inglês, tenta explicar para a elite branca escravagista e outros fidalgos portugueses, as vantagens de substituir o trabalho escravo pela mão de obra assalariada. O exemplo que usa é de raro cinismo. Destaquei o diálogo e o reproduzo, ipsis litteris.

Sir William Walker: Senhores, deixe-me fazer uma pergunta. Minha metáfora poderá parecer um pouco impertinente.... mas acredito que é exata.
O que preferem.... ou devo dizer, o que acham mais conveniente? Uma esposa ou uma dessas mulatas? - se referindo às mulheres semi-nuas do harém (Em cena aparece uma mulata - meio Chica da Silva. Esta Chica da Silva já saiu do meu imaginário). Não me interpretem mal. Falo estritamente em termos econômicos.
Qual é o custo do produto? O que o produto propicia? O produto no caso, sendo o amor. Amor puramente físico... já que, obviamente, sentimentos não têm um papel econômico. Praticamente. Uma esposa precisa de um lar... com comida, roupas, cuidados médicos, etc. É necessário mantê-la a vida toda... mesmo depois que envelhecer e se tornar improdutiva.
E se tiverem o azar de viverem mais do que ela, terão de pagar o enterro. Em meio às risadas ele continua - Não, não. É verdade. Senhores, sei que parece divertido, mas são os fatos, não são? Por outro lado, com uma prostituta... o assunto é diferente, não é? Não há a necessidade de abrigá-la ou alimentá-la e certamente nem de vesti-la ou enterrá-la. Graças a Deus.
Ela é sua só quando precisam. Pagam-na somente por esse serviço... e pagam por hora. O que, senhores, é mais importante... e mais conveniente? Um escravo ou um trabalhador assalariado?

É muito cinismo. Termos estritamente econômicos... Os sentimentos não contam... O utilitarismo levado às últimas consequências. Não quero aqui retomar toda a história das conquistas dos trabalhadores, através de suas muitas lutas coletivas, que redundaram em direitos e que, minimamente, nos permitem chamar a evolução histórica de processo civilizatório. Hoje o imperativo econômico, através do neoliberalismo, ordena a destruição desta história.

Em 2016 assistimos no Brasil um processo que culminou com o golpe de Estado de 31 de agosto. Interesses inconfessáveis motivaram os golpistas. Estes não tardaram em aparecer. Uma das primeiras reformas propostas, em consonância com os comandantes dos mercados, foi a modernização da legislação trabalhista, com supressão de vínculos, de direitos. Vejam os jogos semânticos na tentativa de provocar ilusões. Reforma e modernização. Estas duas palavras implicitamente apontam para melhoras. No entanto, no caso destas reformas modernizantes o objetivo é a eliminação de todo e qualquer direito legal, com o famoso princípio da prevalência do acordado sobre o legislado. Tudo isso  é feito de forma muito generosa, é feito para restaurar e manter empregos. Haja cinismo.

Este princípio elimina laços e vínculos e institui o ser descartável. É o uso por hora, o uso para determinados serviços e gozos e que, pela consagração da mediação, sob o moderno nome de terceirização, consagra a figura do gigolô, do cafetão, sempre desprovido de sentimentos e  escrúpulos, ávido em tirar o máximo proveito.

Com certeza, a metáfora é forte. Mas observem sua procedência. Ela provém do agente inglês William Walker. É uma metáfora inglesa, o país protagonista das excelências do mercado, desde os tempos liberais até os neoliberais. É uma metáfora oriunda do mercado e, nele não cabem sentimentos, nem humanidades. No mercado se encontram competidores, que pautam e moldam suas vidas aos seus princípios. Nele o dinheiro é eleito como o valor supremo e absoluto, ao qual tudo é subordinado. E a partir desta compreensão, nada mais é estranho, a não ser o respeito à dignidade do ser humano.

Lembro, para encerrar, uma percepção de Giambatista Vico, nos alvores da restauração da primazia dos mercados sobre os ditames medievais, devidamente anotada  por Adorno. Ela trata da origem dos conceitos que se entranharam na cultura ocidental: "Estes conceitos provêm da praça do mercado de Atenas". Platão e Aristóteles nada mais fizeram, senão transformá-los em princípios universais.

O texto já está um tanto longo, mas acabo de ler, na revista CULT, nº 223, um trecho selecionado do livro de Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, escrito em 1845: "A relação entre o industrial e o operário não é uma relação humana: é uma relação puramente econômica - o industrial é o 'capital', o operário é o 'trabalho'. E quando o operário se recusa a enquadrar-se nessa abstração, quando afirma que não é apenas 'trabalho', mas um homem que, entre outras faculdades, dispõe da capacidade de trabalhar, quando se convence que não deve ser comprado e vendido enquanto trabalho como qualquer outra mercadoria no mercado, então o burguês se assombra. Ele não pode conceber uma relação com o operário que não seja a da compra-venda; não vê no operário  um homem, vê mãos (hands), qualificação que lhe atribui sistematicamente.

O burguês, para retomar a expressão de Carlyle, só reconhece um vínculo entre os homens: o pagamento à vista. Até mesmo a relação entre ele e sua mulher é, em 99% dos casos, a do pagamento à vista"...











quinta-feira, 25 de maio de 2017

Queimada. O homem que vende guerras.

Observando os fatos que estão ocorrendo no Brasil após a ruptura democrática de 2016, me deu vontade de rever o filme QUEIMADA. Ele é uma obra prima do cinema político e uma das mais perfeitas amostras da transição  do colonialismo para o imperialismo e da abolição da escravidão, que veio em seu bojo. Queimada é uma ilha fictícia das Antilhas, de colonização portuguesa, e que tem na monocultura canavieira a sua riqueza. Um misto de História do Brasil, de Cuba e também do Haiti, ou em termos mais amplos, da colonização portuguesa e espanhola. Ele esteve proibido no Brasil, ao longo da ditadura militar.
Foto do meu DVD  do filme Queimada, com destaque para o nome de Marlon Brando.

O filme reúne gente de primeira qualidade do cinema mundial. A produção italiana, do ano de 1969, tem a direção de Gillo Pontecorvo, assinatura do roteiro de Franco Solinas e Giórgio Arlório e a música é de, ninguém mais e ninguém menos, que Ennio Morricone. O papel principal, o do colonizador inglês William Walker é de Marlon Brando, em magnífica interpretação. O cenário é paradisíaco e os fatos ocorrem em meados do século XIX. O nome do filme no original é Burn.

Primeiramente dou a resenha da contracapa do DVD: "Uma ilha do Caribe na metade do século XIX. A natureza fez um paraíso aqui; o homem o transformou em inferno. Escravos de vastas plantações de açúcar dos portugueses estão prontos para transformar sua miséria em revolta - e os britânicos estão prontos para despejar a última gota d'água. Eles enviam o agente William Walker (Marlon Brando) em uma missão tripla e desonesta: convencer os escravos a se rebelarem, tomar o comércio de açúcar para a Inglaterra... e restabelecer o regime de escravidão. Os temas do colonialismo e da insurreição são explorados no épico QUEIMADA! Com visual e narrativa impressionantes. QUEIMADA tem o brilho de um diretor genial. A genialidade também é evidente na interpretação complexa e inteligente que Marlon Brando faz de um homem que é, ao mesmo tempo, um cavaleiro e um patife, revolucionário e colonialista. E a música de Ennio Morricone é o acompanhamento perfeito de um roteiro tão forte".

O filme começa com a chegada do agente inglês à ilha. Um negro, imediatamente, lhe oferece ajuda para carregar a sua mala. Estão aí, em cena, os dois principais personagens, William Walker e o negro José Dolores. José Dolores será acompanhado de perto pelo inglês, que fará dele o líder das insurreições. O ensina praticando, - roubos e assassinatos por necessidade, - para se habituar com a ideia e não fraquejar, quando dos acontecimentos. José Dolores passa pelas condições de heroi da independência e de vilão execrado, já sob o imperialismo inglês.

O inglês fomenta a rebelião. Assiste aos festejos da independência e se retira do cenário, voltando à cena, dez anos depois. A ilha já está sob os grilhões dos ingleses que manipulam por completo o comércio do açúcar. Os preços logo estarão abaixo dos custos de produção, levando o país, sob o comando de José Dolores, à uma situação de extrema miséria. José Dolores, já na condição de guerrilheiro, lutará bravamente até a resistência final.

Está aí o triplo papel do agente inglês, do qual fala a resenha. Transformar os negros em rebeldes revolucionários a proclamar a independência e abolir a escravidão, decretando assim, o fim da era colonial; transferir o comando para os ingleses, não mais sob o domínio político direto, mas pelo total e implacável domínio econômico, fato que denominamos de imperialismo, e a terceira missão, que será a da restauração da escravidão, sob uma nova forma, também indireta, que é a do trabalho livre assalariado.

Quero dar destaque especial a duas cenas. A primeira, em que  William Walker tenta convencer  os líderes locais sobre as vantagens da abolição da escravidão. Usa para isso uma comparação da mulher no casamento e da mulher como prostituta. No casamento se assume a mulher pelo resto da vida e, como acréscimo, também os seus custos. Já com a mulher prostituta, paga-se apenas pelos serviços eventualmente prestados, sem nenhuma consequência a mais. Assim também é a escravidão. Com a abolição, paga-se apenas por serviços prestados, sem o ônus da doença, da alimentação e da velhice.

A outra cena, é a do final do filme. A discussão que se estabelece em torno do que  deve ser feito com o líder José Dolores. Como tornou-se absolutamente insubmisso, não haverá fórmula para enquadrá-lo e formatá-lo, como se fazia antes. Se o matam, ele se transforma em heroi e o heroi se torna mito e servirá de exemplo para milhares de outros, que o seguirão cegamente (Seria uma imagem do cubano José Martí?). Ao final, os ingleses induzem o novo governo da ilha a matá-lo, à moda inglesa, por enforcamento. O inglês ainda fará uma última tentativa para deixá-lo vivo. É o momento em que José Dolores, mais uma vez se oferece para carregar a sua mala, aproveitando o momento para apunhalá-lo mortalmente.

O fato de querer rever o filme se deveu fundamentalmente a dois motivos. Ver a questão do líder popular, do seu papel messiânico junto ao povo, e do outro lado, a implacável perseguição que lhe será devotada pelos que se sentiram incomodados em sua confortável situação. O outro motivo foi a questão do imperialismo, que aqui no Brasil, sempre encontrou uma burguesia consular. Eu explico. Aqui sempre existiram chefes políticos locais a entregar as nossas riquezas, para que os interesses imperialistas não encontrassem qualquer tipo de resistência.

 É o que vemos ocorrendo no Brasil, neste momento, com a supressão dos direitos trabalhistas e previdenciários. Como os trabalhadores assalariados, ao longo da história foram adquirindo direitos, aproveita-se agora o momento da crise, para suprimi-los por completo. Seus direitos cessam ao final do trabalho realizado, tal qual o exemplo da prostituta, citado no filme. Ambos recebem o soldo ao final dos serviços prestados. Me acompanha a certeza de que, o respeito devotado pelo colonialista, imperialista ou burguês, ao trabalhador e à prostituta é o mesmo, ou seja, nenhum. Segue o link do filme. https://www.youtube.com/watch?v=tQBHr8pjGXI

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Oswald de Andrade e a Academia Brasileira de Letras.

A Academia Brasileira de Letras nunca foi uma unanimidade. Em Navegação de Cabotagem Jorge Amado nos conta algumas de suas peripécias. Entre elas está a de que Machado de Assis, um de seus fundadores, impunha dois vetos incondicionais para quem dela quisesse participar. Dela estariam sistematicamente afastados os boêmios e as mulheres. Fundada em 1897, Rachel de Queiroz ingressou nela apenas em 1977. Foi a pioneira. Foram 80 anos à espera de uma presença feminina.
Irreverente e sarcástico. Marcos do homem do modernismo brasileiro.


Agora, lendo a bela biografia de Oswald de Andrade, de autoria de Maria Augusta Fonseca, encontro mais curiosidades que merecem registro. O homem do modernismo brasileiro, por duas vezes tentou ingressar no mais elevado círculo dos homens de Letras desse país, mais por deboche, do que por efetiva vontade. São tentativas cheias de humor e ironia, tão características de Oswald.

A primeira tentativa ocorreu em 1925, depois, portanto, da passagem do furacão da Semana de Arte Moderna de 1922, ocasião em que Oswald foi estrondosamente vaiado. A primeira a saber da sua intenção foi Tarsila do Amaral, a quem comunicou sua intenção através de uma carta com os seguintes dizeres: "Prezada artista, a 1ª da capital [...] Aqui todos vão bem e eu vou apresentar minha candidatura na ilustre Academia Brasileira. Conto ser vencido, porém, com glória. [...] Oswald phd 1º homem do Brasil!"

Não chegou a ser considerado inscrito, mas pleiteou a vaga em carta aberta, endereçada aos imortais. Depois de uma estocada num dos concorrentes, ele apresenta as suas qualidades. "O Senador Antônio Azeredo - todos vós o sabeis - erra ainda em gramática, erra em estilo, erra em colocação de pronomes. Só acerta em política. Eu não erro porque não acredito em nada disso. Sou escritor e poeta todos os dias, há quinze anos no mínimo. Uso quando quero do estilo convincente (esta carta!), ando às vezes de guarda chuva, já falei na Sorbonne e tenho sido repetidamente elogiado pelo Sr. Tristão de Athayde. Indiquei, queiram ou não queiram, o roteiro brasileiro à minha geração - ao contrário da vossa - quase toda genial. Publiquei diversos volumes de originalíssima  realização - como sobejamente o provam a hostilidade e o espanto do nobre professor Oiticica".

Promete mudar a Academia em quase tudo. Promete "meter o bedelho nos negócios administrativos da Academia, promovendo medidas de alta justiça que não compreendo como até agora escaparam à visão imortal" e continua alfinetando "a Academia desmente o espírito com que foi fundada e insulta a inteligência brasileira a cada nova eleição" e arremata.

"Dos vossos nobre escrutínios só pode sair a derrota de uma pretensão que não entra no meu feitio - todos sabem. Eu de farda - (eu e mais do que eu, qualquer dos modernistas brasileiros solidários com a mocidade heroica de Graça Aranha) - é um anacronismo tão grave como Osório Duque Estrada de bicicleta. A minha candidatura  ficará sendo o altifalante de uma queixa - a dos milhares de intelectuais de minha terra, escarnecidos pela cavação da expoência, quando não pela expoência cavação".

Quinze anos após, em 1940 tenta novamente, na vaga deixada por Luís Guimarães. Disputa com Manuel Bandeira, Martins de Oliveira, Berilo Neves, Basílio de Magalhães, Júlio Nogueira e Menotti del Picchia, que desiste em favor de Manuel Bandeira, que será o vencedor, com 21 votos. Adivinhem quantos votos foram para o Oswald? Apenas um, o de Cassiano Ricardo.

A sua candidatura, mais uma vez, tinha a finalidade de levantar polêmica mas, desta vez, se inscreve formalmente por meio de uma carta-inscrição. Veja os termos: "Senhor acadêmico: Será V.S. uma das raras inteligências deste Grêmio que compreendem a atual situação do mundo (Segunda Guerra), e portanto, a da própria Academia? Ou será V.S. um dos membros da quinta-coluna, que camuflados no fardão, sabotam aí dentro, as magras conquistas do espírito brasileiro.

Passará pela cabeça de V.S. alertada pelos bombardeios contemporâneos, que o fim dos quarenta imortais que nas últimas décadas adormecem o espírito francês sous la coupole, pode ser um campo de concentração? Ou será V.S. daquelas teimosas velhas de Botafogo que ainda acreditam no pavoneio dos títulos literários, roubados aos verdadeiros trabalhadores da cultura? Neste caso quererá V.S. que a Academia Brasileira de Letras seja um espelho Luís XV de um grupo de arrivistas coloniais e suspeitos pretendendo explorar uma multidão de analfabetos? Ou quererá V.S. realmente que o nosso povo se emancipe, participando afinal da vida intelectual do país, como da sua vida econômica, jurídica e social? Todas essas interrogações vêm na dobra da minha candidatura a um fauteuil nessa casa. Sobre ela decidirá V.S. com a mentalidade que representa. O futuro julgará essa eleição mais do que a eleição me julgará. Protocolarmente sou candidato ao voto de V. S. e com prazer me subscrevo".

Também deu muitas declarações à imprensa, como esta, comparando-se a um paraquedista."paraquedista que se lança sobre uma formação inimiga, cujo destino único é ser estraçalhado". Dá bem uma ideia do espírito polêmico, irrequieto e provocador do homem do modernismo brasileiro. A Academia Brasileira de Letras bem que merecia estas finas ironias e continua merecendo, especialmente quando sabemos que o global Merval Pereira é um de seus componentes.