quarta-feira, 4 de maio de 2016

Viver para contar. A autobiografia de Gabriel Garcia Marquez.

Na contracapa do livro Viver para contar existe uma indicação importante. "Neste apaixonante relato, o Prêmio Nobel colombiano oferece a memória de seus anos de infância e juventude, aqueles em que  se funda o imaginário de suas narrativas e romances, clássicos do século XX em língua espanhola". Logo a seguir cita estes livros, como aqueles plasmados em sua infância e juventude: Cem anos de solidão; O amor nos tempos de cólera; Ninguém escreve ao coronel e Crônica de uma morte anunciada.

Esta autobiografia foi lançada em 2002 e como fiz questão de contar, já no primeiro parágrafo, estas memórias abrangem a infância e a juventude. Estas memórias alcançam até o ano de 1954, ano em que foi designado pelo El Universal, de Bogotá para cobrir a Conferência dos quatro grandes em Genebra. Não se sabe ao certo se foi efetivamente para cobrir a Conferência ou para retirá-lo de circulação das ruas de Bogotá, da violência da permanente ebulição social em seu país natal, pela eterna rivalidade entre liberais e conservadores, nas quais a sua família sempre esteve envolvida. Como Gabriel Garcia Marques nasceu em Aracataca, em 1927, contava nesta época com seus 27 anos de idade e sem ter feito nada de grandioso. Estava começando a ser bem sucedido no jornalismo, na arte das reportagens. Por isso, ao final, eu queria mais, muito mais, eu queria continuidade.
Para localizar as cidades por onde Gabo andou.

O que mais senti falta no livro foi de um bom mapa político da Colômbia, pois todo esse período de sua vida ele a passou perambulando por sua terra natal. Aracataca, Barranquilla, Cartagena, Sincé, Sucre e a capital, Bogotá. Esta na altitude e as de sua infância no litoral e no Caribe colombiano. O livro é estruturado em oito capítulos, mais ou menos de acordo com as suas passagens pelas diferentes cidades em que viveu, ou sozinho, ou com a sua numerosa família. A mãe era uma matriarca de onze filhos. Onze filhos órfãos.

Ao final da leitura, na penúltima página, ou seja, a de 473 o porteiro do "Arranha-céus" o encontra na rodoviária de Cartagena e lhe lança um pergunta, que conforme Gabo "me bateu na alma". " - O que eu não entendo, dom Gabriel, é por que o senhor nunca me disse quem era". A resposta foi genial: " - Ah!, meu caro Lácides - respondi, mais dolorido que ele -, eu não podia dizer porque até hoje nem eu mesmo sei quem sou". Na mesma página conta ainda que lançou um olhar para a casa de Mercedes Barcha, que há cinco anos fazia parte de sua vida. Conto isso para dizer, que mesmo após a leitura de Viver para contar, Gabriel Garcia Marquez continua sendo para mim um enigma.
Neste livro está retratada a infância e a juventude de Gabriel Garcia Marquez

Gabo sempre teve problemas com a escola. Já de saída, logo no início, conta citando Bernard Shaw: "Desde pequeno tive que interromper a minha educação para ir à escola". Ao que consta só foi razoavelmente bem nos tempos de Liceu, nos estudos equivalentes ao ensino médio. Na Universidade, no curso de Direito, em Bogotá e depois em Barranquilla, nunca foi um bom aluno. E para desgosto de pai e mãe, o interrompeu e nunca mais a ele voltou. Sua paixão era outra. A escrita. Apesar dos erros de ortografia. Trabalhou em vários jornais mas, nesses tempos, nunca ganhou o suficiente para viver. A vida financeira de sua família sempre foi atribulada. O pai, com curso de medicina interrompido, ganhou a vida fazendo consultas de homeopatia e se dedicando a uma farmácia, melhor, a várias, sem nunca precisar se esforçar para fali-las.

O avô é muito lembrado. Era um típico coronel nos tempos das bananas da United Fruit Company. O massacre de 1828 também ganha importância. Com a retirada da Companhia as coisas pioraram ainda mais. Sofre com a quase permanente guerra civil colombiana, entre conservadores e liberais. Ele e a sua família. De sua Aracataca natal e arredores sai a paisagem perfeita de Macondo. 

Sempre tenho uma curiosidade particular quando eu leio biografias. O que eles leram e como estas leituras influenciaram em sua formação. Anotei apenas um nome - o de William Faulkner. Não anotei mais, não porque ele não lesse outros, mas simplesmente porque ele leu tudo e todos. Leu desde os clássicos gregos e todos os seus contemporâneos. Os livros chegavam à Colômbia pelas editoras de Buenos Aires, mais mesmo do que das de Madri, envolvida com a Guerra Civil Espanhola. Russos, ingleses, americanos e todos os de língua espanhola. A Montanha Mágica também não faltou. Sempre esteve rodeado de amigos leitores e escritores. Passava o seu tempo entre as livrarias e os jornais. Nas horas vagas bebiam e fumavam. Porres espetaculares.
Gabriel Garcia Marquez, o Nobel de literatura de 1982.

Os lampejos de escritor apareciam em seus artigos de jornal. Se destacava na escrita de editoriais, que muito contribuíram em sua formação política, crítica de cinema e a reportagem. Estas o consagraram. Cobriu a rebelião de El Chocó, contou a história de um sobrevivente de um naufrágio e a história do tesouro de Simon Bolívar, quando foi chamado para a cobertura da Conferência dos Quatro em Genebra. 

No livro também nos dá algumas pistas sobre os seus livros como Cem Anos de Solidão, escrito entre 1965/6 na cidade do México, sobre O amor em tempos do cólera, especialmente estes. Ao final da leitura, confesso que eu queria mais. Pois Gabo ainda teria muita história para contar, do tempo posterior aos seus 27 anos. Afinal ele chegou aos quase noventa anos. Daria, no mínimo, mais dois - iguais ao Viver para contar. Quanto a mim, já retirei da estante, para atenta releitura Cem Anos de Solidão.

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