segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A revolução dos bichos. George Orwell.

Continuo com a leitura dos livros da coleção da Biblioteca Folha. São 30 romances divididos entre a literatura brasileira e universal. Dessa vez o meu olhar recaiu sobre uma das mais conhecidas obras, especialmente, em função de ter sido transformada em uma peça publicitária do anticomunismo, nos tempos da chamada "Guerra Fria". Trata-se de A revolução dos bichos, de George Orwell, o pseudônimo de Eric Arthur Blair. A obra é do ano de 1945, o ano em que as forças aliadas derrotam o regime nazista alemão, com grande proeminência da atuação do Exército Vermelho da União Soviética.
A revolução dos bichos. Biblioteca Folha2003. Tradução de Heitor Ferreira.

Alguns dados sobre o autor. George Orwell nasceu em Bengala, em 1903, na Índia, filho de um funcionário do governo britânico, e de mãe francesa. Sua vida tem idas e vindas entre a Inglaterra e a Índia, somados a uma vida de internato na Inglaterra. Chegou a ter aulas com Aldous Huxley. Conheceu a extrema pobreza, beirando a mendicância. Mesmo assim, dividia o seu tempo entre Londres e Paris.

Na condição de socialista convicto, participa da Guerra Civil Espanhola, junto às Brigadas Internacionais. Acompanha muito de perto os movimentos da Segunda Guerra Mundial, na qualidade de correspondente da BBC. Orwell se tornou especialmente famoso por duas obras suas: A revolução dos bichos e 1984. Ambas são obras primas contra a tirania. 1984 é uma distopia, uma previsão sobre a vida sob controle nas tiranias do futuro. A grande pergunta a ser feita seria sobre os motivos que o levaram a escrever essa obra, aparentemente contra o socialismo, que ele livremente professava. Para  responder a essa questão, é fundamental saber que ele era um socialista democrata e o que ele condena e ironiza em sua parábola ou metáfora é o que hoje chamamos de "socialismo real", aquele que realmente existiu na União Soviética, sob o regime stalinista.

Observem a data da publicação da obra. 1945. O ano do fim da Segunda Guerra Mundial. Todos sabem que Berlim foi ocupada pelo Exército Vermelho, fato que deu enorme prestígio ao regime soviético, alimentando a crença de sua superioridade sobre o sistema capitalista. Intelectuais do mundo inteiro apoiavam o sistema, como lemos no belo livro de memórias de Jorge Amado, um prêmio Stálin de Literatura, Navegação de cabotagem. A descrença no regime soviético veio mais tarde, com a realização do XX Congresso do PCUS, em 1956, em que Kruschev denuncia a tirania stalinista.

O que é preciso saber para bem entender a parábola de Orwell. Que no socialismo implantado na Rússia em 1917, após a morte de Lenin, houve uma divisão entre Stálin e Trotski; que todas as dificuldades do regime foram atribuídas a Trotski; que houve violentos expurgos, punidos com julgamentos sumários por parte do stalinismo e que foi montada uma burocracia dirigente, formada por lideranças do partido e de militares. Um forte culto à personalidade do chefe foi instituída, com grandes festas cívico-militares. Depois de amainados os momentos de tensão maior da Guerra Fria, uma "Convivência Pacífica" foi instituída entre as grandes potências.

Pois bem, vamos à parábola, contada ao longo de nove capítulos e em apenas 96 páginas. Na parábola, são os animais que estão cansados da exploração do trabalho feita pelos humanos. Na granja do sr. Jones, isso era particularmente forte, de sorte que foi relativamente fácil fazer-se o processo revolucionário. Os bichos haviam tomado consciência da exploração e alimentavam a crença de que a libertação era possível. Depois da Revolução, uma nova ordem se estabelece, com mandamentos, hino e muita liturgia laica. No meu livro tenho anotados três nomes: Napoleão, Garganta e Bola-De-Neve. São os três porcos do novo comando. Napoleão e Bola-De-Neve não se entendem e Bola-De-Neve é expulso da granja. Garganta é o porta-voz do novo sistema sem exploração. Os comandantes criam um inimigo comum, a quem acusam de traidor e causador de todas as suas dificuldades. Bola-De-Neve. Existe ainda Moisés, um corvo que anuncia uma montanha de açúcar, para depois da vida, para os que tinham comportamentos adequados à nova ordem,

Os trabalhos até aumentaram. Mas o trabalho é por uma causa. As dificuldades enfrentadas tem uma causa, sempre bem explicada por Garganta e compreendida pelos bichos. O cavalo Sansão é o bicho exemplar do sistema. De maneira geral os bichos aceitam o sistema. Não se esforçam por entender as coisas e pouco se dedicam a aprender a ler. São coisas muito difíceis. Aos poucos as coisas mudam.

Napoleão e outros porcos mudam-se para a casa que pertencia a Jones e passam até a dormir em sua cama. Se alimentam melhor e tomam até bebidas alcoólicas. O progresso exige mais e mais sacrifícios. Napoleão cria uma guarda especial para a defesa, não contra os inimigos externos, sempre orientados por Bola-De-Neve, mas contra os inimigos internos, que começam a perceber os desmandos na nova ordem dos bichos. Cães amestrados formam essa guarda. Também eles serão merecedores de regalias especiais. O camarada Napoleão merece, dizem. Assim o novo regime vai se degradando. Uma reforma da previdência é efetivada e Sansão, depois de esgotado para o trabalho, é vendido para um matadouro de cavalos. Garganta sempre encontra explicações. Todos os vícios humanos são incorporados pelos bichos - sob a máxima de que "Todos os animais são iguais - Mas alguns animais são mais iguais que os outros". Até o vício da jogatina aprendem e na jogatina, também o roubo, além de tentarem andar eretos, sob as patas traseiras.

Na propaganda capitalista a obra foi até transformada em literatura infantil. Imaginem a obra sob o macarthismo dos anos 1950. É importante ressaltar que Orwell não escreveu essa obra para difamar o socialismo, mas para corrigir os erros que ele tomou em sua forma histórica, ao ser instituído. Orwell morre na Inglaterra, em 1950, em consequência de uma tuberculose.

Deixo ainda os três parágrafos da contracapa da Biblioteca Folha, escritos pelo editor Fernando de Barros e Silva: "George Orwell publicou A revolução dos bichos numa época em que, por conivência ou desconhecimento parcial de suas atrocidades, o comunismo soviético ainda gozava de enorme prestígio nos meios progressistas. Impulsionado pela atmosfera da "Guerra Fria" - expressão, aliás, atribuída a Orwell -, o livro fez sucesso instantâneo. Ninguém, depois dele, teria o direito de ainda ser inocente.

Poucas obras seriam tão instrumentalizadas à revelia de seu autor. Crítico precoce do stalinismo, Orwell sempre se definia  como um socialista de convicções profundamente democráticas. Os Estados Unidos transformaram seu livro numa peça de propaganda do anticomunismo e a CIA chegou a providenciar uma versão em desenho animado, distribuída no mundo inteiro, com a cena final adulterada. Morto em 1950, aos 46 anos, Orwell provavelmente teria morrido uma segunda vez, de desgosto, ao ver sua obra desvirtuada pelas engrenagens do macarthismo.

O comunismo, pelo menos na forma que o conhecemos, pertence hoje ao cemitério da história. A revolução dos bichos, porém, sobreviveu à experiência que a tornou possível. A fábula dos animais que se rebelam contra o tirano que os explorava e, em nome de ideais igualitários, constroem uma sociedade ainda mais opressiva, preserva seu interesse e para em pé mesmo sem referência imediata à história. A linguagem quase simplória e as alegorias transparentes fazem do livro uma delícia para crianças. Mas não só. Sua máxima moral, de que 'todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros', talvez nunca traduza, para o bem e para o mal, uma das poucas verdades ancestrais acerca da dominação, da idade do bronze aos dias que correm".

Por fim, uma observação que sempre faço em minhas falas e escritos. O socialismo é tão odiado e temido, não pelo seu passado, mas pelos vislumbres que ele projeta sobre o futuro da humanidade. Uma sociedade mais igualitária e justa, em que os fundamentos da sua organização sejam os da democracia, obviamente, que não os da democracia burguesa.

Não é difícil encontrar semelhanças com outra parábola ou fábula, a de Brecht, que também compara os animais aos seres humanos. Se os tubarões fossem homens. 


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