quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Um inimigo do povo. Henrik Ibsen.

Há muito essa peça, ou esse livro estava no meu radar. Nos meus tempos de professor do curso de jornalismo da universidade Positivo os alunos sempre estavam empenhados nos ensaios, sob a coordenação da professora Marília, da peça Um inimigo do povo, de Henrik Ibsen. Lembro que o então aluno Manolo Ramires interpretava o Doutor Stockmann, o famoso "inimigo do povo". Agora, lendo alguns clássicos do teatro, o incluí em minha lista de leituras.
Um inimigo do povo, da L&PM, reimpressão de 2019. Tradução de Pedro Mantiqueira.

A primeira coisa que eu entendi foi a razão pela qual os alunos do curso de jornalismo se empenhavam na representação da peça. É que o jornalismo e a construção da formação da opinião pública é um dos núcleos centrais da peça. A peça se desenvolve ao longo de cinco atos, num crescendo extraordinário. O doutor Stockmann, rapidamente, passa de herói a inimigo mortal do mesmo povo. É uma ação dos poderes instituídos, a serviço do poder econômico.

Na peça, uma pequena cidade da Noruega conhece grande prosperidade com a sua transformação numa Estação Balneária. É nessa Estação que encontraremos os personagens da trama. O doutor Thomas Stockmann, médico, sua senhora, a filha Petra, professora e os filhos menores Eilif e Morten, o irmão Peter, que é o prefeito e presidente da Estação Balneária, Morten Kiil, dono do curtume e sogro do Dr. Stockmann e o povo do jornal A voz do povo: Hovstad, o editor, Billing, o subeditor e Aslaksen, o impressor. Temos ainda um amigo do doutor, Horster que é comandante de navio.

O primeiro ato se passa na casa do doutor, onde está reunido com o pessoal da Voz do povo, do qual ele também é articulista. O prefeito mostra a preocupação com o irmão, com relação às opiniões que emite em seus artigos. No momento estas preocupações dizem respeito a pesquisas sobre a questão das águas contaminadas do balneário pelos curtumes das proximidades. Os jornalistas consideram o doutor digno de homenagens e como uma espécie de salvador do balneário. 

O segundo ato se desenvolve no mesmo cenário e, inicialmente, no mesmo clima festivo. Esse clima muda com a chegada do dono do curtume e sogro do doutor, que começa a fazer algumas insinuações, insinuações essas que ficam bem claras com a chegada do irmão, o prefeito da cidade. As preocupações com a contaminação das águas arruinariam os planos econômicos do balneário. As mudanças que seriam exigidas com relação ao tratamento da água, além dos custos elevados, retardariam o projeto em, no mínimo, dois anos. Se trava uma luta, como a que estamos assistindo no Brasil, neste ano da pandemia de 2020. A luta entre o CPF e o CNPJ. As questões de saúde se confrontando com os interesses econômicos. As primeiras ameaças complementam o ato.

No terceiro ato o cenário muda para a redação do jornal A voz do povo. Ali os preparativos para a impressão do artigo do doutor Stockmann são interrompidos pela chegada do prefeito e a sua argumentação das implicações econômicas das denúncias contidas no artigo. A mudança de opinião dos jornalistas é rápida e, em vez da publicação do artigo, publicam uma nota de esclarecimento ditada pelo prefeito. O doutor sob protestos afirma que usará a sua voz, numa assembleia com o povo.

Essa assembleia é foco do quarto ato, realizada na casa de Horster, já que outros espaços haviam sido negados. Para dominar a reunião o prefeito faz eleger um presidente para a sessão, na pessoa de Aslasken, o impressor do jornal, o homem da "moderação". Ele impedirá que o doutor faça as denúncias contidas no artigo.Então o doutor, em vez de falar da contaminação das fontes da água passa a falar da contaminação das fontes da moral. Acusa os poderes da cidade na manipulação da maioria, transformada em massa amorfa a ser desenhada pela vontade dos poderosos. As vaias são generalizadas e, por meio de uma votação, Stockmann é declarado inimigo do povo, por unanimidade, com a exceção de um único voto, o voto de um bêbado, que já incomodara várias vezes ao longo da assembleia.

A parte mais sórdida da peça ocorrerá no quinto e último ato. Stockmann vê a sua casa apedrejada, desalojado e demitido de suas funções, assim como Petra, a filha. O prefeito lhe oferece reconciliação se ele se retratar e lhe fala do testamento de Morten Kiil em favor de seus filhos, mas adverte de que ele poderá ser modificado. Por fim chega o senhor Morten, anunciando a compra das ações da Estação Balneária, trama na qual acusaria o doutor de participação. O doutor Stockmann vendo-se só faz a sua proclamação final: "O homem mais poderoso do mundo é o que está mais só".

Vamos as necessárias contextualizações da peça. Ibsen nasceu em Skien, na Noruega em 1828, filho de prósperos comerciantes mas, a família ficou reduzida à pobreza depois do fechamentos da destilaria da família e o menino foi obrigado a trabalhar como assistente farmacêutico. A vida de escritor o acompanhou desde cedo, alçando-o ao mundo da fama. Irá morrer em 1906, na mesma Noruega, em Oslo, após uma série de derrames.

Na contracapa do livro, na edição da L&PM, lemos: "Um inimigo do povo foi publicado em Copenhague em 1882 e estreou no Teatro Nacional em Oslo em 13 de janeiro de 1883. Imediatamente foi traduzido para dezenas de línguas e encenado e publicado em quase toda a Europa, numa repercussão digna dos grandes autores franceses que monopolizavam a dramaturgia da época. A estreia em Paris foi marcada por grandes manifestações no teatro de apoio às ideias anarquistas. A enorme repercussão da peça motivou longos e apaixonados artigos do deputado socialista Jean Jaurès e do deputado esquerdista e grande intelectual de seu tempo Georges Clemenceau. Em 1898, voltou a ser apresentada em Paris em meio ao célebre processo Dreyfus, quando as sessões da peça eram seguidamente interrompidas com aclamações de protesto contra o Estado e de apoio a Ibsen e Zola, que pontificava na época com seu célebre J'accuse em favor de Alfred Dreyfus.

Um inimigo do povo é uma obra-prima sobre as contradições humanas e a falência do indivíduo frente à unanimidade. Mesmo diante  da vontade de praticar o bem comum, o dr. Stockmann entra em choque com os interesses mesquinhos da cidade. Vítima da maioria e da unanimidade, o homem que queria salvar a cidade torna-se o inimigo do povo. Estas ideias de Ibsen aproximavam-se muito das ideias anarquistas que tinham amplo apoio de importantes segmentos intelectuais e políticos da sociedade da época. A peça é uma impiedosa crítica às elites, aos governos, aos partidos e ao pensamento único".

2 comentários:

  1. Importante retorno a Ibsen, reativando a nossa memória quanto ao atualíssimo texto.

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    1. Leni, mais atual é impossível. O lucro é o DNA do capitalismo. Agradeço a sua manifestação, Leni.

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