domingo, 23 de agosto de 2020

Uma escola para o povo. Maria Teresa Niedelcoff.

Participando de trabalhos de organização de cursos de formação me veio à memória um livro que marcou muito a minha formação e que também utilizei muito em minhas atividades docentes. Falo do livro da educadora argentina Maria Teresa Niedelcoff, sob o título de Uma escola para o povo. Devo ter adquirido o livro no ano de 1982. A obra foi publicada originalmente na Argentina em 1975 e no Brasil em 1978. Foi mais ou menos nessa época que eu também entrei em contato com a obra de Paulo Freire.
Capa do livro Uma escola para o povo.  Tradução João Silvério Trevisan.

Quando eu falo que este livro marcou a minha formação eu me detenho numa interrogação fundamental - a de - como eu me formei como educador? A minha formação original é a de seminário e a minha faculdade de filosofia foi muito ligada a questão da formação religiosa, alguns rudimentos de história da filosofia e de algumas questões de lógica e epistemologia. Já na docência, o livro didático era o grande guia para as aulas. Em alguns livros, lembro, eu interferi bastante. Sempre utilizei também dados da atualidade. Sempre fui assinante de jornais e de revistas. Lembro particularmente de um jornal editado pela PUC de Porto Alegre, Mundo Jovem. Assim, a minha formação foi sendo forjada ao longo do trabalho. A minha atividade sindical também foi o grande elemento da minha formação.

Na contracapa do livro lemos: "Maria Teresa Niedelcoff, educadora argentina, inicia um diálogo com mestres, educadores e professores; coloca e distingue a questão do 'mestre-policial' ou 'mestre-povo' e a polêmica existente entre uma atitude 'policialesca e castradora' de ensino ou uma criativa de 'engajamento' na cultura do educando. É um trabalho consciente das atuais mudanças nos relacionamentos professor/aluno do ensino de primeiro grau (terminologia da época - hoje ensino fundamental) dos setores menos privilegiados. Livro dirigido principalmente àqueles que atuam em favelas, bairros operários e periferia, questiona os métodos de ensino vigentes".

Quando me lembrei desse livro estávamos procurando bibliografia referente a tomada de consciência do educador, de sua identidade de classe e compromissos decorrentes. Identidade, compromissos e coerência de vida na prática docente. O educador precisa ter convicções em seu trabalho. Sempre me acompanha uma afirmação de Jean-Claude Forquin, de seu livro Escola e cultura - as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar de que "ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida a seus próprios olhos". Aliás, o subtítulo do livro de Forquin é mais ou menos o tema do livro da educadora argentina, as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Então vamos ao livro.

Como ficou claro no relato da contracapa - existem fundamentalmente dois tipos de professor: o professor-policial e o professor-povo, ou no original espanhol, "maestro pueblo o maestro gendarme". O professor policial assume o compromisso da manutenção da ordem social existente, atuando em favor de quem domina essa ordem. Já o professor-povo assume as dores de uma ordem social injusta e se engaja na lutra para a transformação das estruturas injustas. Assume um compromisso de classe e a consciência de pertencimento a uma delas. Assim o educador se transforma num parceiro de seus alunos e de seus pais.

Esta é a tônica do livro, apresentada em seus seis capítulos, depois de uma pequena apresentação: 1. Que caminho escolher; 2. Com que objetivos trabalhamos; 3. Conteúdos que são transmitidos na escola; 4. Como trabalhamos; 5. A avaliação e seus problemas; 6. Nossas relações com os pais dos alunos. Segue uma pequena e rica bibliografia, em que são citados os primeiros livros de Paulo Freire (Educação como prática da liberdade e Pedagogia do oprimido), Freinet, Makarenko e o monumental livro dos alunos da escola de Barbiana Cartas a uma professora. Deixo o link desse livro.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/04/carta-uma-professora-pelos-rapazes-da.html


Toda o livro está na diferenciação da perspectiva do professor que assumiu a identidade e compromisso de classe e o professor que repete um ritual burocrático e insosso de atividades engajadas na manutenção de uma escola que não toma partido, numa mecânica de reprodução das estruturas de uma sociedade injusta, sob o manto da neutralidade. O livro é farto de exemplos da realidade argentina, em nada diferente da realidade brasileira e latino americana. Assim são tratadas as atividades de planejamento escolar, as questões curriculares, a metodologia, a avaliação e - tudo permeado pela questão do uso de uma linguagem apropriada.

Como a atividade de formação que preparávamos se destina a formação de quadros dirigentes para a atividade sindical de educadores, deixo a última frase do livro: "No nível do professor sindicalista, ele será professor-povo' na medida em que não se isole nas reivindicações meramente salariais, e não apenas entre educadores; antes dos salários, deve reivindicar a escola do povo e integrar sua ação nas lutas da classe trabalhadora".

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