quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O jovem Törless. Robert Musil.

Continuo na leitura dos romances da Biblioteca Folha, de 2003. O livro da vez foi O jovem Törless, do escritor austríaco Robert Musil. A escolha, obviamente, foi por causa do escritor e o seu livro famoso, que ainda não li O homem sem qualidades, uma trilogia, publicada entre os anos de 1933 e 1945. Observem bem, por favor, o local e a data. Viena entre os anos de 1933 e 1945. Ascensão do nazismo e a anexação da Áustria. É de arrepiar.
O jovem Törless, 2003. Biblioteca Folha. Tradução de Lya Luft.

O jovem Törless é de 1906 e é autobiográfico. Narra os episódios ocorridos num internato, em escola militar destinada aos filhos das elites burguesas da Áustria. Dá dó dos meninos, de todos eles. Sob esse aspecto pode ser considerado um romance de formação, embora a relação entre professores e alunos e o processo de aprendizagem seja pouco enfocado. Esse recai mais sobre a relação entre os alunos e os impactos que essas relações têm sobre a formação do indivíduo. Trata-se de um tema extraordinário e complexo.

Creio que uma passagem, já da parte final do livro, retrata bem a situação vivida pelo jovem Törless, que teve uma percepção bem particular dos fenômenos ocorridos, embora todos fossem jovens com mais ou menos a mesma idade: "De vez em quando tinha, porém, de pensar: e então assaltava-o uma profunda desesperança, uma vergonha fatigada e triste.

Mas também sobre essas coisas ele não pretendia prestar contas.

O motivo residia nas peculiares condições de vida no Internato. Com forças jovens e impetuosas retidas por trás de muros cinzentos, a fantasia multiplicava imagens sensuais que punham muitos dos rapazes fora de si.

Certo grau de devassidão passava até por ser uma qualidade viril e ousada; era como se conquistassem os prazeres proibidos. Especialmente quando se comparavam com a aparência melancolicamente respeitável de certos professores, a palavra 'moral' assumia uma conotação ridícula, ligada a ombros estreitos, barriguinha abaulada e pernas finas, por trás dos óculos uns inofensivos olhos de carneiro, como se a vida não passasse de um edificante prado florido.

Enfim, no Internato, Törless ainda não sabia da vida, com todos os seus grandes graus de perversidade e devassidão, de morbidez e grotesco, e que deixam os adultos repugnados quando se fala no assunto". 

Reiting e Banenberg, dois dos jovens protagonistas do romance ganham adjetivos como "perversos, grosseiros e vulgares". A sua vítima será outro jovem, Basini, inicialmente envolvido em pequenos furtos e depois, transformado em objeto sexual deles e também de Törless. Törless acompanha os fatos, meio distanciado, se envolvendo apenas parcialmente. Os graus de tortura infligidos ao jovem fogem até dos limites do imaginário. Torturas psicológicas e físicas, no limite da suportabilidade. Não as aguentando, busca ajuda, inicialmente com Törless e depois com a direção do Internato.

Esses quatro jovens são os protagonistas do romance. Basini é de constituição muito frágil, tanto física, quanto psicológica. Não consegue afirmar sua autonomia em momento algum. Reiting e Banenberg são mentes pervertidas e Törless vai para muito além dos problemas emergentes da idade como a sexualidade e a busca por solução de questões abstratas, ligadas à matemática e à vida. O seu professor de matemática o coloca frente a frente com Kant, apresentado como o filósofo que trata "dos fundamentos da nossa ação". Um falso moralismo perpassa todos os momentos da formação desses pobres jovens. Vida de internato e colégio militarizado é tudo o que deve ser evitado. Disciplina por disciplina só gera ódio e distanciamento.

Na contracapa do livro lemos o seguinte comentário, assinado pelo editor da Folha/Domingo: "As perturbações do aluno Törless é o título original da primeira obra do escritor, lançada em 1906. Traz a história de um rapazola da alta burguesia austríaca que é colocado num internato para que dê prosseguimento a sua educação, como ocorria nas melhores famílias. Longe da casa paterna, Törless será obrigado a amadurecer no meio de dois mundos aparentemente distintos. Na superfície, o internato expressa o puritanismo, a ordenação racional e a educação de feitio militarista da sociedade austro-húngara. Enquanto isso, nos sótãos e escurinhos da escola, Törless se defrontará pela primeira vez com a potência do sexo, da crueldade e do irracionalismo.

Seguimos a trajetória existencial do jovem com enorme interesse, pelo que traz  de descoberta das camadas mais escuras da psique. A escrita de Musil é sombria e envolvente, tanto mais precisa quanto mais profundo mergulha no interior do personagem. Os temas se acumulam, expressando as diferentes perturbações que acometem Törless - desde as dúvidas teológicas até os traumas da diferenciação sexual. Musil escreve numa época que acabara de decretar 'a morte de Deus' (Nietzsche) e descobrir o inconsciente (Freud).

Pode-se ler O jovem Törless também como um conto moral: o personagem encara sua temporada no inferno como aprendizado e superação de si. O enfrentamento solitário e a auto-compreensão do lado obscuro do desejo e da vida são uma espécie de garantia para que a parte irracional do indivíduo não se irradie em regra política coletiva, como viria a ocorrer no nazismo". Tempos de crise, tempos de monstros. O livro não é longo, tem 157 páginas e não tem divisão em capítulos.


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