sábado, 8 de agosto de 2020

Sargento Getúlio. João Ubaldo Ribeiro.

No ano de 2003 o grupo editorial Folha lançou a coleção Biblioteca Folha, num total de 30 volumes, misturando literatura universal e brasileira. Como na época eu estava em sala de aula, não li todos. Retomei alguns, agora. Entre eles, Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro. Sargento Getúlio é um dos maiores representantes da literatura regional brasileira. O livro é uma viagem de Paulo Afonso até Aracaju junto com o sargento, que de lá traz um preso. A história é bem simples.
Edição da biblioteca Folha. 2003.

Antes de falar do romance vamos falar um pouco do João Ubaldo. Ele nasceu na sua amada ilha de Itaparica em 1941 e veio a falecer no Rio de Janeiro no ano de 2014. Em Salvador formou-se em Direito, onde também, por um breve tempo, foi professor. Era um professor extremamente rigoroso. A sua vida foi dedicada à literatura e ao jornalismo. Passou alguns anos de sua infância e juventude no estado de Sergipe, onde seu pai fora chefe da polícia. Desse período, Moacyr Scliar, na contracapa do livro, nos conta o seguinte episódio:

"Sargento Getúlio, de 1971, é inspirado num episódio real: um homem conhecido como sargento Cavalcanti, gravemente ferido a tiros num atentado em Paulo Afonso, foi resgatado pelo pai de João Ubaldo, que então chefiava a polícia de Sergipe, e trazido com vida para Aracaju". Com a facilidade de narrar, João Ubaldo usou esse episódio como mote para o seu segundo grande romance. Nele o sargento Getúlio, de uma fidelidade mais do que canina, percorre o mesmo caminho, só que trazendo um preso, ajudado pelo seu amigo Amaro. Em meio ao caminho ele recebe ordem para não mais trazer o preso. Mas, como empenhara a palavra, ele cumpre a sua missão. A sua valentia resiste a todos os obstáculos, inclusive as tropas da polícia.

Creio que o romance cumpre dois grandes objetivos. O primeiro é o de traçar um perfil do homem nordestino desses anos anteriores a 1971, retrocedendo bastante no tempo, até os tempos do cangaço. A linguagem é toda ela impregnada de regionalismos, o que joão Ubaldo faz com rara maestria. O segundo objetivo é o de mostrar, que esse homem, acostumado à cega obediência, também é capaz de tomar consciência dos fatos e agir perante eles com plena autonomia. É o romance.

O romance é também uma viagem, tanto geográfica, quanto antropológica, pelo sertão nordestino, de Paulo Afonso até a cidade de Aracaju. Essa região fora fortemente influenciada pelo cangaço, tendo sido, inclusive, a região em que Lampião morreu numa emboscada. O sargento Getúlio, até lamenta o fato de não mais haver cangaço, pois, se ainda o houvesse, a ele se incorporaria. É um longo caminho percorrido, passando por hábitos regionais, comidas, vestimentas, padre, polícia e, acima de tudo, por seres humanos. Seres que não suportam desaforos. Getúlio, chamado de corno, provoca o decepar de uma cabeça com toda a normalidade e naturalidade.

Chegado em Aracaju entrega o serviço prestado e deixa recado: "É isso que eu quero fazer, e quero botar as vistas bem dentro das dele que é para ele dizer na minha cara que não mandou buscar e aí eu digo a ele: quem o senhor mandou em Paulo Afonso, que eu me lembro, aqui mesmo nessa sala, quem o senhor mandou em Paulo Afonso, numa noite, aqui nessa sala mesmo, eu, Getúlio Santos Bezerra, tomando um vermute vermelho aqui, quem o senhor mandou para Paulo Afonso para buscar esse criaturo, não foi nem eu. Possa ser que ele diga oxente Getúlio, mas você não recebeu o meu recado, que é isso, Getúlio, vá sentando aí e vamos resolver esse assunto, você é meus pecados, seu Getúlio. Uma coisa dessas. Eu digo: o senhor não entendeu o que eu falei. Eu falei que o homem que o senhor mandou em Paulo Afonso - me diga logo, mandou ou não mandou?". Um pouco mais adiante reflete sobre a sua missão e a sua vida:

"Tinha a minha missão, isso tinha. E fiz. Tinha minha vida, isso também, e vivi, e se me perguntasse quer viver uma vida comprida amofinado ou quer viver uma vida curta de macho, o que era que eu respondia? Eu respondia: quero viver uma vida curta de macho, sendo eu e mais eu e respeitado nesse mundo e quando eu morrer se alembrem de mim assim: morreu o Dragão. Que trouxe mortandade para os inimigos, que não traiu nem amunhecou, que não teve melhor do que ele e sangrou quem quis sangrar. Agora eu sei quem eu sou".

O livro se desenvolve ao longo de nove capítulos, acompanhando a viagem, cheia de percalços, pelo sertão. De Paulo Afonso até Aracaju. Da obra de Moacyr Scliar ainda tomo uma parte: "Na lacônica introdução a Sargento Getúlio, diz João Ubaldo: "'Nessa história, o Sargento Getúlio leva um preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros. É uma história de aretê'. A primeira frase contrasta com a segunda. A história não se restringe a esse modesto resumo; é muito mais do que isto, como está implícito na segunda frase. 'Aretê' é o termo grego para excelência, virtude. É está bem empregado, porque o que temos nesta sintética obra é uma tragédia grega transposta para o sertão nordestino".
Com o João Ubaldo Ribeiro, no Teatro Paiol.

Conheci João Ubaldo, num encontro realizado no Teatro Paiol, com direito a fotografia e tudo o mais. Um espaço pequeno em que, mesmo assim, sobraram alguns poucos lugares. Um mês depois, na FLIP, muita gente se acotovelou para vê-lo. É a força do glamour. João Ubaldo era maravilhoso. A sua fala era tão fácil e fluente quanto a sua escrita. Grande escritor e grande jornalista. Muito honrou o campo das letras, da democracia, do humor, da alegria e do humanismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.