terça-feira, 4 de agosto de 2020

Discurso sobre a servidão voluntária. Étienne de la Boétie.

O que significa ler um livro escrito por um jovem passional, de menos de dezoito anos de idade, que adorava a liberdade, execrava a sujeição e a tirania e dava asas à imaginação para as suas utopias? Isso é ler Discurso sobre a servidão voluntária de Étienne de la Boétie. O livro, ou ensaio, foi escrito entre os anos de 1548 e 1551 e só veio a público em 1576, publicado pelo herdeiro de seus escritos, Michel de Montaigne. O ensaio também foi publicado sob o título O contra um, um título bem sugestivo.
Edição de O discurso sobre a servidão voluntária, da Edipro, 2019.

Para não perder o hábito, vamos para as contextualizações. Étienne de la Boétie teve uma vida muito curta. Nasceu em 1530 e morreu em 1563. Apesar da pouca idade, teve uma vida intelectual intensa, sendo o direito a sua área de estudos. Conhecia profundamente os clássicos gregos e romanos, que lhe serviram como fonte de inspiração. O seu tempo teve a marca das grandes transformações. A liberdade teimava em se afirmar e a servidão insistia em permanecer. Eram tempos do surgimento do Humanismo, do Renascimento e da Reforma Protestante. A liberdade era fortemente cerceada, o que explica que a sua obra foi publicada apenas postumamente e, mesmo assim, com muitos cuidados.

A pergunta básica a que o ensaio pretende responder é o que está contido em seu título: a servidão voluntária. Portanto, mais forte do que a coerção, sob todas as suas formas, existe esse fenômeno em que os seres humanos abrem mão daquilo que é a essência do humano, para, voluntariamente, se submeterem ou se sujeitarem. Vejamos: "Aquele que tanto vos domina não tem senão dois olhos, duas mãos e um corpo, e em nada difere do homem ordinário de nossas grandes e infinitas cidades, exceto pela vantagem que vós lhe concedeis em vos destruir. Donde ele tiraria os tantos olhos com que vos vigia se não consentísseis? Como dispõe de tantas mãos para vos injuriar se não as tomasse de vós? Os pés com que pisa em vossas cidades, donde ele os tira, se não vos pertencem? Como é possível que tenha algum poder sobre vós senão por meio de vosso consentimento? Como ousaria atacar-vos sem vossa cooperação? O que poderia fazer convosco se não fosseis receptores do ladrão que vos rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de si mesmos? Semeais vossos frutos para que ele os destrua; encheis vossas casas de móveis para fornecer objetos às pilhagens; criais vossas filhas para que ele possa saciar sua luxúria..." (Página 42).

Enquanto continua a sua catilinária, ele também oferece a pronta solução: "Sede resolutos em não servir mais, e estareis livres. Não peço que o derrubeis de seu posto, apenas que não o tolereis mais, e o vereis, como um grande colosso do qual se retirou a base, ruir sob o próprio peso" (Página 42).

Qual seria então o grande inimigo dessa inversão, de amor à submissão em detrimento da liberdade, abrindo mão de direitos que lhe são naturais? Ele explica: "Digamos, então, que ao homem todas as coisas parecem naturais, que delas ele se nutre e a elas se acostuma; mas o que é realmente nativo é só aquilo que a natureza simples e inalterada o impele a fazer: assim, o primeiro motivo por trás da servidão voluntária é o costume. Os homens são como os mais leais cavalos, que inicialmente mordem o freio e depois passam a apreciá-lo; que primeiramente escoiceiam e logo exibem altivos o seu arreio, pavoneando-se sob sua barda. Dizem que sempre foram subjugados, que seus pais viviam assim..." (Página 54).

No ensaio o autor também se refere às táticas empregadas pelos tiranos, que se julgam pré escolhidos por Deus. Distribuem benesses, como pão e diversões e o próprio povo inventa mentiras com as quais procuram se auto-convencer. Inventam as crenças e as hierarquias e os favorecidos do entorno. Depois de descrever cenas de ousadia da liberdade, de resistência a tiranos ele faz perguntas intrigantes: "Isso é ser feliz? Chama-se a isso viver? Há algo no mundo mais insuportável? E não digo apenas para um homem honrado, não digo apenas para um homem bem nascido, mas para qualquer um com bom senso ou, ao menos, com aparência de homem. Que condição é mais miserável do que viver assim, sem ter nada que lhe pertença, recebendo de outrem seu conforto, sua liberdade, seu corpo e sua vida"? (Página 72).

O livro que eu li é da Edipro, primeira edição, 1ª reimpressão, 2019. Conta com um prefácio de Leandro Karnal sob o título de A dor da liberdade e o amor da servidão e uma necessária introdução de Paul Bonnefon. O ensaio é relativamente curto. Ele ocupa as páginas 31 a 79 que podem ser lidas e relidas em apenas um dia, com um imenso proveito.

Eu fiquei imaginando as repercussões desse pequeno ensaio. Nele eu vi, sem maiores esforços, John Locke, a Declaração da independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa, Kant, Althusser e também a indústria cultural de Adorno. E para terminar, uma frase de a Montanha Mágica de Thomas Mann, mostrando o dilema entre a ordem e a liberdade. A cena se dá entre Hans Castorp e a encantadora jovem russa madame Chauchat. A russa diz ao alemão, diante de uma aproximação sua:  "Vocês, alemães, amam mais a ordem do que a liberdade. A Europa inteira sabe disso". Fulminante. Mais do que recomendo a leitura.

2 comentários:

  1. Especial em momento de pandemia , pandemônio e abstração .

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    1. Perfeita a observação. Questões sanitárias versus dinheiro, COF contra CNPJ. Agradeço o seu comentário.

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