quarta-feira, 8 de julho de 2015

Três tipos de razão? A razão intelectual, a razão cordial e a razão espiritual.

Construo este texto a partir de algumas frases de um parágrafo retirado do livro do teólogo Leonardo Boff, Francisco de Assis e Francisco de Roma - Uma nova primavera na Igreja. Estas frases dizem o seguinte: "Será essa aliança de paz e de sinergia entre ser humano e natureza, entre tecnociência e Mãe Terra que permitirá o surgimento de um novo modo de habitar a única Casa Comum que temos, a Terra. Será o triunfo do paradigma do cuidado em oposição ao paradigma da dominação, a vitória do coração sensível sobre a mente fria e conquistadora. Precisamos das três inteligências: a intelectual, a cordial e a espiritual, para vivermos como humanos. Juntas, poderão nos devolver a sensatez e o amor indispensável para com tudo o que existe e vive" (página 75-6). Me permitirei uma liberdade, igualando o sentido das palavras razão e inteligência, fazendo a adequação ao título.
O livro do teólogo Leonardo Boff que deu origem a este post.


O teólogo dá algumas explicitações. Na página 99 lemos o seguinte: "Estamos todos impregnados pela razão intelectual, funcional, analítica e eficientista". A partir desta síntese admirável se perfilou em minha mente toda a construção da modernidade. Descartes, David Hume, Kant e, ainda, Lutero. Também os construtores das suas instituições,  Maquiavel, John Locke, Voltaire, Adam Smith, Bentham, Hegel e Marx. É o mundo do Renascimento, do Iluminismo e de suas benéficas consequências políticas e científicas e para a autonomia do indivíduo ou do sujeito, e a desconstrução de um mundo de mitos e dogmas. Kant que o diga, em sua apologia à ilustração.

Mas também me lembrei de Pascal, ainda nos alvores da construção desta modernidade. "O coração tem razões que a própria razão desconhece". Depois rememorei as marcas de sua fragilidade com Schopenhauer e Nietzsche, com a sua insuficiência em Freud e o inconsciente e  as violentas críticas de Adorno, da racionalidade técnica e instrumental, em sua Dialética do Esclarecimento. Mas também lembrei do mundo do nihilismo e do indivíduo, como o fim do sujeito, e da concepção de sociedade como uma mera soma de indivíduos. Sem antes ter passado por uma profunda crise existencial.
Para o teólogo, o homem em sua totalidade precisa somar as razões intelectual, cordial e espiritual.

O teólogo continua, na página 111. "Hoje entendemos que precisamos resgatar, urgentemente, a razão cordial e sensível para enriquecer a razão intelectual. Só com a razão intelectual, sem a razão cordial, não vamos sentir o grito dos pobres, da Terra, das florestas e das águas. Sem a razão cordial não nos movemos para ir ao encontro dos que gritam e sofrem para socorrê-los, oferecer-lhes um ombro e salvá-los. Da razão cordial nasce a ética, aquele conjunto de valores que orientam nossa vida". Antes já nos fazia a advertência:

"Toda modernidade se construiu quase que exclusivamente sobre a inteligência intelectual; ela nos trouxe incontáveis comodidades. Mas não nos fez mais integrados e felizes porque colocou em segundo plano ou até recalcou a inteligência emocional ou cordial e negou cidadania à inteligência espiritual" (página 74-5). Por inteligência espiritual creio que poderíamos incluir tudo aquilo que nos relaciona com a transcendência.
 A contracapa do livro que traça o paralelo entre os Franciscos, o de Assis e o bispo de Roma.

Este texto é o que eu chamaria de um texto aberto, um texto para a provocação, para a abertura do diálogo, diálogo este, sempre na sua bela perspectiva de busca e não na afirmação de certezas e verdades. O teólogo faz uma referência sobre a abertura para o diálogo, na página 154. "O relevante mesmo é a capacidade de ambos (portadores de diferentes doutrinas) estarem abertos à escuta mútua. Para dizê-lo na linguagem do grande poeta espanhol Antonio Machado: 'Não a tua verdade. A verdade. Venha comigo buscá-la. A tua guarde-a para ti.' Mais importante que saber é nunca perder a capacidade de aprender. este é o sentido do diálogo". Que o digam Sócrates e Paulo Freire, ou ainda, Guimarães Rosa.

Qual é o contexto em que estou elaborando este texto? O da perspectiva do livro de Leonardo Boff, de que, ao inverno, sucede a primavera. Que o papa Francisco rompeu com a Igreja imperial, medieval e autoritária, inspirada no direito divino e na infalibilidade, para uma visão de busca de saídas sob a inspiração direta de Cristo e não na tradição da Igreja em ruínas, que o outro Francisco, o de Assis, recebera por revelação divina. "Francisco, vai e reconstroi a minha Igreja que está em ruínas".

Para encerrar quero ainda deixar registrada a posição dogmática do Papa João Paulo II, na crítica ao mundo moderno na sua mais importante encíclica Memória e identidade. (Editora Objetiva, 2005) Já no capítulo 2 ele fala das ideologias do mal, buscando as suas origens e as apontando como responsáveis pelo nazismo e comunismo, mas não pelas mazelas do capitalismo. Descartes é apontado como o grande culpado. É um dos textos mais explícitos e herméticos que eu conheço e que, por isso mesmo, estava levando a Igreja para o passado e não apontado para o futuro. Vejamos:
A encíclica de João Paulo II. Memória e Identidade.

"A fim de ilustrar melhor este fenômeno, é preciso remontar ao período anterior ao Iluminismo, sobretudo à revolução operada no pensamento filosófico por Descartes. Aquele seu "cogito, ergo sum, - penso logo existo" desencadeou uma reviravolta no modo de fazer filosofia: no período pré-cartesiano, a filosofia - e por conseguinte o cogito ou melhor, o cognosco - estava subordinada ao esse, era visto como primordial. Aos olhos de Descartes, por sua vez o esse aparecia secundário, enquanto ele considerava primordial, o cogito; deste modo realizava-se não só uma mudança de direção no filosofar, mas decididamente abandonava-se o que tinha sido até então a filosofia e, mais concretamente, a filosofia de Santo Tomás de Aquino: a filosofia do esse. Antes, tudo era interpretado na perspectiva do esse e procurava-se uma explicação de tudo dentro desta ótica: Deus, Ser plenamente auto-suficiente (Ens subsistens), era considerado o suporte indispensável para todo o ens non subsistens, ens participatum, isto é, para todos os seres criados e, por conseguinte, também para o homem. O cogito, ergo sum implicava uma ruptura com essa linha de pensamento: agora tornava-se primordial o ens cogitans, depois de Descartes, a filosofia torna-se uma ciência puramente de pensamento: tudo o que for esse - tanto o mundo criado como o Criador - permanece no campo do cogito como conteúdo do conhecimento humano. A filosofia ocupa-se dos seres enquanto conteúdos do conhecimento, e não como existentes fora dele" (página 19).

Que lamento! Lamento de perda de poder e de autoridade, mas acima de tudo, situa a importância de Descartes na construção do pensamento e do mundo moderno, que na voz de João Paulo II, depois de Descartes, tudo virou relativismo. Creio que este texto também nos mostra o porquê de tantos católicos conservadores  se apegarem tanto a esta concepção de fonte de autoridade.  Encerro por aí, citando ainda, Leonardo Boff  quando este fala da receptividade de Francisco como o bispo de Roma: "Já se fazem ouvir vozes dos mais radicais que pedem, para o 'bem da Igreja (a deles obviamente) orações nesse teor: 'Senhor, ilumine-o ou elimine-o'". E,como falamos de relativismo, parece que o Espírito Santo, efetivamente, ilumina de diferentes maneiras.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Francisco de Assis e Francisco de Roma. Leonardo Boff.

"Francisco, vai e reconstroi a minha Igreja que está em ruínas". Esta frase teria sido a grande marca da virada do modo de vida do "sol de Assis", denominação que foi dada a São Francisco de Assis, por Dante Alighieri. Esta teria sido a ordem recebida diretamente de Deus, pelo então jovem Francisco, filho de um rico comerciante. Francisco realmente conhecia uma pequena igreja em ruínas e passou a reformá-la. Bem depois entendeu que a sua missão era de outra natureza e de dificílima realização. Era a Igreja como instituição que estava em ruínas, sob o pontificado de Inocêncio III, apesar de todo o esplendor temporal deste papado.
A perspectiva de uma primavera na Igreja  com o Papa Francisco.

Francisco de Assis e Francisco de Roma - Uma nova primavera na Igreja (Editora Mardeideias) é o livro que o teólogo Leonardo Boff escreveu, quando da visita de Francisco, bispo de Roma, ao Rio de Janeiro por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, em julho de 2013. A segunda edição foi revista e atualizada. O grande objetivo do livro está anunciado em seu prefácio. "Com o papa Francisco tudo indica que o inverno eclesial de muitos anos chegou ao seu fim, para dar lugar a uma ridente e esperançada primavera". Ou ainda, de uma forma mais explícita, na dedicatória."Para aqueles que de dentro do inverno acreditaram na primavera".

O livro está estruturado em três partes com os seguintes títulos: Primeira parte: O Papa Francisco: rupturas e inauguração do novo. Segunda parte: Francisco de Assis e Francisco de Roma: afinidades e analogias. Terceira parte: A reforma do papado por Francisco, bispo de Roma e papa da Igreja universal. A tese fundamental do livro é a de que, pela escolha simbólica do nome de Francisco, também Bergoglio teria entendido a mensagem divina "Francisco, vai e reconstroi a minha Igreja que está em ruínas".
Leonardo Boff entusiasmado com as perspectivas de Francisco, já a partir da simbólica escolha do nome

Assim, a primeira parte é a descrição da Igreja que está em ruínas. Como os subtítulos são praticamente autoexplicativos passo a enunciá-los: A Igreja: de fortaleza à casa aberta; que tipo de Igreja estava em crise?; a formação do poder monárquico-absolutista dos papas; a Igreja como "casta meretrix"; a Igreja tem salvação?; Dois modelos de Igreja: testemunho versus diálogo e que tipo de Igreja queremos e seu futuro. Como perceberam é um capítulo escrito, especialmente, sob a perspectiva da construção histórica da Igreja. As ruínas teriam sido causadas pelo seu encastelamento doutrinário medieval, pelos escândalos financeiros na cúpula da cúria romana, bem como a prostituição homossexual nesta mesma corte e, ainda, os escândalos de pedofilia e, o que é pior, o seu acobertamento, para evitar julgamentos e condenações pelo poder secular dos estados. O principal motivo da renúncia de Bento XVI teria sido o de não mais reunir forças para combater as ruínas que estavam desmoronando dentro da cúria romana.
As basílicas do santo em sua cidade de Assis.


Vejamos os subtítulos da segunda parte: Francisco de Assis e Francisco de Roma; os dois Franciscos chamados a restaurar a Igreja; o espírito de São Francisco, inspiração para o Papa Francisco; um Papa que presidirá na caridade; o Papa que paga as próprias contas; Francisco de Assis se desnuda para cobrir a nudez do Papa Inocêncio III; a ecologia de Francisco de Assis; promotor da consciência ecológica?; o Papa Francisco inaugura a Igreja do terceiro milênio?; a "tentação" de Francisco de Assis e a "tentação" de Francisco de Roma; ser radicalmente pobre para ser plenamente irmão; o papa da liberdade de espírito e da razão cordial; o que trouxe de novo o Papa Francisco; o legado que nos deixou o Papa Francisco (Rio 2013); mensagem de São Francisco aos jovens de hoje.
Os Francisquinhos da Foz do rio São Francisco. Um dos maiores santos da devoção popular.


A reconstituição da biografia de São Francisco é muito bonita e são dadas também indicações bibliográficas. A de autoria de Tomás de Celano é considerada a melhor (É possível encontrá-la na estante virtual). O que mais chama a atenção dos dois Francisco é a simplicidade, a ternura, o cuidado e a radicalidade na opção pelos pobres. O livro inteiro é perpassado por uma crítica à afirmação de autoridade, seja a que é oriunda do dogmatismo imperial da Igreja doutrinária ou da racionalidade intelectual oriunda do iluminismo e do cientificismo, que impedem a visão humanitária, oriunda das outras dimensões da razão, a razão cordial e a razão espiritual. Somente a radicalidade das escolhas de Francisco é que irão permitir esta visão humanizada de Igreja  e que possibilitará o encontro das "saídas", um das palavras preferidas pelo Francisco de Roma.
Contracapa do livro do teólogo Leonardo Boff.


Na terceira parte os subtítulos nos anunciam: a volta da prática de Jesus salvará a igreja; o que o papa Francisco não é; o que o papa Francisco é; um desafio para o papa Francisco: assumir plenamente a humanidade; a tradição de Jesus e a religião cristã; a despaganização do papado; o terceiro mundo entrou no Vaticano; a economia política da exclusão; Papa Francisco fala com um não crente de homem para homem; a cúria romana é reformável?; o papa Francisco e a reforma da Igreja; uma assembleia ou Concílio de toda a cristandade e o Papa da Igreja como lar espiritual.

Mais uma vez é muito forte a perspectiva histórica mas também já entra em cena a análise de seus princípios orientadores, como o Documento de Aparecida (Quinta conferência do Episcopado Latino Americano e Caribenho - 2007), do qual teria dito: "Se quiserem saber o que penso, leiam este texto", o discurso de Lampedusa, na ilha de Córsega, dirigido a refugiados africanos, em que condenou a "incapacidade de chorar" da nossa cultura dominante, diante da desgraça de tantos irmãos e, especialmente, a entrevista a La Civilità Cattolica, de setembro de 2013. Outro documento largamente citado, como uma espécie de carta de princípios, é a exortação evangélica Evangelii Gaudium.
Da planície se vê a basílica de São Francisco de Assis.


Também perpassa o livro inteiro a questão que diferencia da Igreja de Jesus e a Igreja instituição e poder, poder e pompa, copiada aos imperadores romanos. É belíssima a interpretação do "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja". Ela será construída sobre a fé de Pedro e não sobre a sua pessoa. Enfim, uma voz dissonante, com relação a igreja imperial e medievalmente encastelada, hierarquia de fiscais de alfândega da fé e eternos anunciadores da quaresma sem a perspectiva da Ressurreição. E... com a perspectiva de que com o Francisco, bispo de Roma, possamos acreditar, festejar e celebrar os encantos da primavera.

E um alerta. Como Francisco é visto por esta Igreja em ruínas? O teólogo nos conta: " Já se fazem ouvir vozes dos mais radicais que pedem para o 'bem da Igreja' (a deles obviamente) orações nesse teor: 'Senhor, ilumine-o ou elimine-o'" (página 145).


sábado, 4 de julho de 2015

Dom Casmurro. Machado de Assis.

"Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. [...] Se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca. E bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve". (Capítulo CXLVIII, o final).
Dom Casmurro, possivelmente seja a obra prima de Machado de Assis.

Raras vezes tive tamanho prazer com a releitura de um livro, como com Dom Casmurro. A sua intensidade dramática, especialmente, em sua parte final, eleva o escritor brasileiro aos patamares mais elevados da literatura mundial. A descrição dos sentimentos de Bentinho, as suas oscilações entre o querer bem e mal, são uma das mais vivas descrições da psique de um ser humano. "E era inocente, vinha eu dizendo rua abaixo; que faria o público, se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção..." (CXXXC). Estas são como que constatações finais e definitivas de Bentinho, a respeito de sua amada e de sua possível traição, ou dos seus ciúmes injustificados, ao sair da ópera Otelo, de Shakespeare.

Seria  Dom Casmurro uma continuidade da descrição dos sentimentos humanos em torno do amor e da traição, ou apenas da dúvida da traição, tão vivamente agitados pelo vil Iago, com relação ao amor entre Otelo e Desdêmona e agora estendidos até Bentinho e Capitu? Quem sofrera mais? Otelo ou Bentinho, ou então, pelo lado feminino, Capitu ou Desdêmona? Seria o ciúme o mais intolerável e incontrolável dos sentimentos humanos? Afinal de contas, Houve a traição de Capitu, ou este sentimento era uma mera imaginação de uma mente doentia?
Mais uma vez recorri a minha velha coleção de Os Imortais da literatura universal.

Se Machado com a sua obra quis provocar a ambiguidade, ele a conseguiu. Há mais de um século, a obra foi lançada em 1890, o mundo se debruça sobre esta questão e, a ambiguidade permanece. As discussões são acaloradas. Existem as provas da traição? Duas, em particular são apontadas como mais explícitas. A primeira e a maior é uma prova da natureza, a imensa semelhança física, de Ezequiel, o filho do pai duvidoso. "Ao entrar na sala, dei com um rapaz, de costas, mirando o busto de Massinissa, pintado na parede. Vim cauteloso, e não fiz rumor. Não obstante, ouviu-me os passos, e voltou-se depressa. Conheceu-me pelos retratos e correu para mim. Não me mexi; era nem mais nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário de São José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo. [...] Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai" (CXLIV). Assim Bentinho marca o reencontro com Ezequiel, o seu filho, ou dele, após seu retorno da Europa. O nome Ezequiel era uma homenagem ao Escobar, o Ezequiel Escobar.

A segunda prova, já não tão explícita, seria o comportamento de Capitu ante o cadáver de Escobar. Um comportamento contido, como quem deve dominar a situação e a emoção. Não obstante, algumas lágrimas ficaram incontidas. Da desconfiança de Bentinho para consigo próprio também poderia sair outro indício. Os casais Bentinho e Capitu e Escobar e Sancha se tinham aproximado muito, tanto assim, que até morar foram, bem próximos.  Um envergonhado Bentinho narra que teve desejos com relação a Sancha. Será que o mesmo não poderia ter ocorrido também com Escobar, com relação a Capitu? E, convenhamos, Escobar era mais audacioso. Tomava iniciativas.
Edição da LPM, série ouro. Assim que eu gosto. Apresentações e notas explicativas.

Mas a sutileza maior acompanha a obra já desde a sua primeira página, ou melhor, desde o título. Por que Bentinho, o narrador de suas memórias e, principal protagonista, virara casmurro? Quem era ele, afinal de contas? Quem era Capitu, ou Capitolina? Apesar de um nome nada bonito, ela, pela descrição do narrador, deveria ser a menina dos sonhos de qualquer rapaz de sua idade. Quem primeiro chama a atenção sobre a moça foi o José Dias, o agregado que gostava de superlativos. "Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada" (XXV). Um pouco mais adiante o narrador lhe dedica um capítulo inteiro, o XXXI, onde se lê:

"Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda  o não disse, aí fica. Se disse fica também. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição. Era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Eram de vária espécie, explicáveis e inexplicáveis, algumas úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas, gostava de saber tudo". E, mais adiante, no mesmo capítulo: "Lia os nossos romances, folheava os nossos livros de gravuras, querendo saber das ruínas, das pessoas, das campanhas, o nome, a história, o lugar". Me fez lembrar certa semelhança com a menina Ema, a futura Madame Bovary, também muito curiosa, esperta e voraz leitora e, a leitura, a provocar a imaginação...
Depois dos principais romances, os contos machadianos.

E a insinuação de José Dias sobre os olhos de Capitu, o acompanhavam, tanto assim que quis constatar pessoalmente se eram "oblíquos e dissimulados", mesmo não sabendo, ainda, o significado de dissimulação. Nesta constatação lhe arranca o primeiro e inesquecível beijo, por iniciativa dela. Efetivamente Capitu era mais mulher, que Bentinho homem. Já que falamos de Capitu vamos também falar um pouco de Bentinho, o prometido.

Dona Maria da Glória tivera um primeiro filho que morrera. Se tivesse um segundo, este seria consagrado a Deus, ou ao seu ofício. Seria padre, por força do destino, com ou sem vocação. Dona Maria da Glória cedo ficara viúva, uma viúva rica, herdeira de casas e fazendas. Em sua casa, no Engenho Novo, vivia também tio Cosme e a prima Justina. O mais que faziam era deixar o tempo correr. Ninguém tomava grandes iniciativas e também não havia grandes preocupações. Por estas influências talvez, Capitu era mais mulher do que Bentinho homem.

Vamos ainda marcar um terceiro personagem. Ezequiel de Sousa Escobar, ou o Escobar. Era o melhor amigo de Bentinho no seminário. Ambos não tinham vocação. O motivo de Bentinho, já o sabemos, era Capitu. A vocação de Escobar era o comércio (In hoc signo vinces). Pelo jeito gostava de dinheiro. Aproximou-se de Dona Glória, e esta lhe financiou os empreendimentos comerciais. Houve insinuações de outras aproximações. Hoje diríamos que era um homem imbuído de um espírito empreendedor.
Neste long play existe uma explicação para "olhos oblíquos e dissimulados".

Tenho aqui em casa uma preciosidade rara. Trata-se de um long-play de um grupo folclórico gaúcho, há muito desfeito, Os Muripás. Nele existe a declamação de um poema sob o título de Pealo de Cucharra, de autoria de J. M. Leal e Jesus Almeida. Neste poema existe um verso que diz assim: "China com brilho no olhar, tem fogo no recavém". Acho que este verso explica bem o que são os "olhos oblíquos e dissimulados". Mas sem estes olhos... voltemos ao capítulo final..., parece não haver sedução. Me permitam uma divagação, ou melhor, uma digressão. Eu tenho um amigo, o Giovani, que mora em Dourados, que declama de cor e salteado este poema. A sua maior proeza foi tê-lo declamado para o grande educador Paulo Freire. Desculpem se fui chulo ou ajudei a propagar uma frase machista, usando a palavra recavém, mas é mais uma constatação de que o ser humano é atemporal e universal. E... Dom Casmurro..., mais uma obra do realismo machadiano.

Além das dúvidas deixadas pela ambiguidade intencional do narrador, deixo três tarefas para os meus poucos leitores. Ir ao dicionário, afinal, é um belo hábito, para procurar o significado de Casmurro, de comborço e de recavém, esta última, necessitando de um dicionário do regionalismo gaúcho.

Um adendo que se impõe.  24 de agosto de 2023. Também é sobre o olhar. Quem fala é João Ubaldo Ribeiro, em Viva o povo brasileiro. É um diálogo entre Stalin José e o livreiro falido Acúrcio Bastos. Os tempos são os da ditadura militar. Stalin José conta de suas desventuras:

"Eu sei como é Dom Casmurro - dissera de repente, e o velho fez uma cara de quem não entendeu. - Não, essa cena, essa cena que a gente estava comentando, essa cena com Escobar morto e o olhar de Capitu para ele. Eu sei como é esse olhar, eu senti isso. Eu vi o olhar de minha mulher para outro homem, não existe nada mais terrível do que isso, não existe nada pior do que esse olhar que a mulher que a gente ama lança a outro homem, porque é a coisa mais verdadeira, a mais involuntária, a mais inegável, a mais indiscutível e, no entanto, a mais intangível. Porque é só um instante, às vezes uma fração de segundo, nada pode ser provado, nada pode ser discutido e aquilo que existiu tão visivelmente, tão poderosamente, passa como um relâmpago no meio de uma conversa e é sujeito a toda dúvida, menos a dúvida da dona do olhar e a de quem ele feriu" (Páginas 633-634).

Contextualizando: Stalin José conta de seu amor por Jandira, até o dia em que teve seu maxilar rachado e uma prisão de sete meses. Coisas da ditadura militar. Ao sair, imaginou uma vida de herói. Mas... "Até que houve o primeiro olhar"... Depois desse... houve compaixão, não mais amor. A descrição só é possível com toda a sensibilidade própria de João Ubaldo Ribeiro. 

Um novo adendo, de outra perspectiva. Este adendo é retirado do livro - Bandeirantes e pioneiros, de Viana Moog. É sobre José Dias: "Quereis agora o tipo capaz de personificar a legião de malandros que o Império legou à República? Temos um estupendo, como nunca mais haverá outro igual. É o agregado José Dias, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Na prodigiosa criação de Machado de Assis vamos encontrar, de corpo inteiro, ainda no Império, em vésperas da Abolição, o primeiro símbolo histórico completo da malandragem nacional. Apenas isto? Não, muito mais do que isto, porque, em verdade, José Dias é também o único símbolo integral, irrefutável e acabado de nossa cultura. Símbolo caricatural e rabelaisiano, se quiserem, mas símbolo em todo caso.

Para começar, lá está o desejo de riqueza rápida e, naturalmente, o desamor a toda espécie de trabalho orgânico. Não será um desejo de riqueza devorador como a dos séculos anteriores, a fome sagrada dos bandeirantes, mas ainda é, de qualquer forma, desejo de encontrar uma mina, ou então, à falta da mina, acertar um golpe que lhe permita não fazer nada. Realmente, José Dias, quando aparece em Itaguaí, lugar por onde outrora se passava em busca do ouro das minas, anda evidentemente à cata de aventura. Um esforço de febres assolava a região. José Dias, que levava consigo um manual e uma botica, vendendo-se por médico homeopata, cura o feitor de uma fazenda e uma escrava e não quer nenhuma remuneração. O golpe deu certo. O patriarca, agradecido, propôs-lhe então ficar ali vivendo, com pequeno ordenado.

'José Dias recusou, dizendo que era justo levar a saúde a casa de sapé do pobre.

- Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser, mas fique morando conosco.

- Voltarei daqui a três meses.

Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro estipêndio, salvo o que quisessem dar por festas'.

Pronto, José Dias tinha encontrado o seu tesouro. Não era muito. Mas, à falta da mina - as minas andavam desde muito escassas - servia. Pelo menos já não precisava atribular-se com o ganha-pão, mas apenas defender sua situação na casa, sem trabalhar'.

Os fatos correm à feição de José Dias. Quando o patriarca, dono de escravos, talvez pressentindo a abolição, é eleito deputado e vem para o Rio de Janeiro com a família, deixando a fazenda entregue aos cuidados do feitor (sempre com a riqueza, a volta à Europa ou ao litoral), José Dias tem o seu quarto ao fundo da chácara. Um dia, reinando outro andaço de febres em Itaguaí, o patriarca diz-lhe que vá à fazenda ver a escravatura. José Dias deixa-se estar calado, suspira e termina confessando não ser médico"... (Páginas 244-245)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Memórias Póstumas de Brás Cubas. Machado de Assis.

Recebi uma recomendação de que valeria muito a pena dedicar parte do meu tempo livre à leitura de Machado de Assis. Topei o desafio. Não posso dizer que sou um leigo absoluto no autor. Além de minimamente estudá-lo, passei ao menos por dois livros seus. Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Quis começar pela leitura de uma boa biografia, mas enquanto a busco, iniciei a leitura da obra, exatamente por onde eu já passara.  Como considero essencial situar e datar o autor para contextualizá-lo, digo que Machado de Assis nasceu, mulato e pobre, em 1839 e morreu, reconhecido e bem, em 1908. O livro das memórias de Brás Cubas apareceu como folhetim, em 1880 e, como livro em 1881.
Primeira edição, em livro, de Brás Cubas. 1881. Em 1880 fora publicado sob forma de folhetim.

Para melhor situar Memórias Póstumas de Brás Cubas, vemos que se situa ao final do império, num período de grande instabilidade política, de uma espécie de monarquia parlamentar, que gravitava em torno da formação e dissolução dos ministérios. A questão que mais assombrava era a da abolição. Estes dois temas estão presentes na obra, mais a política, menos a abolição. Em compensação, em poucas linhas retrata a miséria que se apropria do ser humano, na formação do seu caráter, mostrando a pessoa rude do seu cunhado Cotrim, dedicado ao ofício, e do espírito de vingança de seu ex escravo Prudêncio, com os escravos por ele adquiridos.

Brás Cubas é o narrador do romance. A sua voz é muito especial, primeiro por ser um defunto narrador e, segundo por interagir diretamente com o leitor, lhe fazendo embaraçosas provocações. O caráter de defunto o livra de todos os possíveis constrangimentos, tanto da opinião pública, quanto da crítica. As mazelas sociais de sua época ganham uma viva coloração, a começar pelo próprio narrador que vive a pior das fadigas, aquela que não provém do trabalho.
Machado de Assis. 1839-1908. De mulato e pobre a reconhecido escritor.

Se entre a vida e a morte há uma curta ponte (CXXXIV), como afirma o narrador, o que há entre o começo e o fim do romance? Diga-se que o mesmo começa e termina com frases de muito efeito. No começo diz, numa espécie de dedicatória. "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas". Ao final depois de constatar todos os fracassos de sua existência, de que não ficara célebre com o emplasto, que não fora ministro nem califa, nem conhecera o casamento, mas que, em compensação, comera o pão sem o suor do rosto, constata, já do outro lado do mistério, a derradeira negativa de sua existência: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".

Este último capítulo (CLX), que trata das negativas nos dá pistas sobre o enredo. O emplasto que inventaria o tornaria um cientista famoso e rico e que livraria a humanidade da hipocondria, mas não o inventou. O ministro que não foi, mas poderia ter sido, ocupa a maior parte do enredo, pois tivera berço de nascimento e amigos influentes, como Lobo Neves, casado com Virgília, de quem fora amante por um longo tempo e que lhe perturbou a consciência, esta também perturbada pelos medos e pela repercussão do caso na opinião pública. Chegara porém ao parlamento em que fez belo discurso, vazio porém, de significado. Não foi califa, na qualidade de discípulo da doutrina do humanitismo, inventada pelo amigo de infância, Quincas Borba.
As obras completas de Machado precisam de reedição.


Entre os fracassos também está o fato de nunca ter casado. A morte por febre amarela livrou-o de Nhã Loló, aparentada de Cotrim, o cunhado, casado com a sua irmã Sabina e com quem brigara por questões de herança. Nhã Loló era uma menina muito perspicaz e, sabedora de seus limites, "estudava-se e me estudava" (CXXII), tudo fazia para se adaptar ao narrador que chegou a proclamar "vou arrancar  esta flor a este pântano". Se Brás Cubas não conheceu o casamento, o mesmo não se pode dizer com relação ao amor. Na juventude viveu uma tórrida paixão com Marcela, uma garota de programa, com quem gastara uma fortuna, fato que levou o pai a mandá-lo para Coimbra.

Como vimos, o fato que ocupa a maior parte da narrativa é o caso que o defunto narrador mantém com Virgília, esposa de Lobo Neves, político importante que chegou a presidente de província, querendo levar consigo o amante da esposa, para ser o seu secretário. Não foi, por superstições em relação ao número 13, dia da assinatura de sua nomeação. Lobo Neves não era um homem agressivo, era até manso em suas relações e reações. Brás e Virgília se encontravam numa casinha sob a complacência de Dona Plácida. Quando porém Brás se encontrava com o Lobo Neves parecia que se encontravam o ressentimento deste com o remorso daquele.
Da minha coleção Os Imortais da Literatura Universal.


Uma constatação. Não se faz literatura sem muita leitura. Pela origem de sua condição social, Machado teve apenas formação básica, mas a sua erudição rara. Ele cita e faz trocadilhos com a mitologia grega, passando pela obra de Shakespeare e por toda a literatura clássica. A erudição poderia ter sido uma forma de defesa que encontrou para se afirmar numa sociedade tão elitista e preconceituosa. Da mesma forma também faz uma incursão profunda na psique de seus personagens. Com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado marca a transição ou a passagem de sua fase romântica para a realista. Também uma ironia fina e cheia de humor perpassa toda a obra. E outra constatação. O ser humano efetivamente é atemporal e universal. Um bom começo na minha incursão machadiana.


terça-feira, 30 de junho de 2015

O cuidado de si, do mundo e do outro. Leonardo Boff.

Ao saber que Leonardo Boff faria uma palestra em Curitiba, numa promoção do departamento de pós graduação do curso de psicologia da Universidade Federal do Paraná, imediatamente procedi a minha inscrição. A fala ocorreria no dia 24 de junho. Cheguei cedo, antes mesmo do palestrante, dando assim tempo para ver o profeta, tanto em sua chegada, quanto em seu anúncio pela fala. O tema seria: Cuidado de si, do mundo e do outro. Já tinha lido e utilizado inúmeras vezes em sala de aula o seu livro Saber cuidar.
O profeta chegando. No rosto o sorriso da esperança.

As primeiras palavras fizeram menção ao papa Francisco e a sua primeira encíclica, Laudato si - Louvado seja, - sobre o cuidado da casa comum de todos nós. Louvou a preocupação do papa com a crise sistêmica que a tudo e a todos atinge, desde a vida humana, bem como a do planeta. Elogiou ainda, a incorporação dos princípios da Carta da Terra na encíclica como também o seu convite para um novo começo, diante da angústia profunda em que vive a humanidade, que psicanalista algum consegue curar. Essa angústia é gerada pelo desequilíbrio do sistema planetário, em que se perdeu a referência central do homem como humus, isto é, o homem como terra fértil.

A fala propriamente dita foi dividida em duas partes. Na primeira fez a denúncia e na segunda partiu para o anúncio. Na parte da denúncia fez a crítica ao paradigma existente, que se construiu junto com a modernidade, com uma visão fragmentada de mundo, fruto da ciência e a sua centralidade no homem, como um indivíduo, em prejuízo de uma visão cósmica do universo em que o homem e terra constituem uma grande unidade. No velho paradigma as bondades da terra (designação indígena) atendiam primeiro aos interesses do mercado para, apenas depois, atender as necessidades da vida, da vida dos seres humanos (daí a designação capitalista para as benesses da terra, de recursos naturais).
O profeta anunciando. Os valores de um novo paradigma.


Ainda na fase de denúncia de sua fala, anunciou a fase terminal deste paradigma, que entrou em  fase de agonia com a crise mundial do sistema capitalista em 2008. A crise se dá em função da acumulação ilimitada, em que a exploração ultrapassou todos os seus limites atingindo a fase em que o dinheiro gera dinheiro, ou seja, a fase da exploração financeira do sistema capitalista. É o tempo em que todos os fluxos da economia são controlados e comandados por apenas 723 pessoas, numa acumulação sem precedentes. É o tempo que Marx previu, em seu Miséria da Filosofia, como o tempo da grande corrupção, o tempo em que tudo será mercadoria e, como mercadoria, tudo passará a ter o seu preço. Tempo caracterizado por Karl Polanyi, em seu livro A grande transformação, como aquele tempo em que vivemos, não apenas uma economia de mercado, mas também uma sociedade de mercado, em que todos os valores éticos são por ele pautados.
A confirmação da minha inscrição para a palestra. Cuidado de si, do mundo e do outro.


A denúncia prosseguiu com a afirmação de que a ânsia e a pressa em transformar os recursos naturais, em mercadoria, não dá à terra o seu devido tempo, o seu tempo de recomposição. Os seus elementos vitais, os seus nutrientes básicos já estão mortalmente comprometidos. A base química e física da vida está em destruição e corremos o grave perigo de chegar tarde.

Na segunda parte da fala, o anúncio. O anúncio do novo paradigma, o paradigma do mundo entregue ao CUIDADO, que se expressa pela fuga da visão racional e cientificista de mundo, para contemplar a sua parte subjetiva, a relação amorosa, a carícia essencial, a finesse, a que se referia Pascal, ainda nos primórdios do estabelecimento dos parâmetros da ciência como diretriz de uma visão de mundo. Citou também Heidegger que em seu Ser e Tempo, anuncia o cuidado como a dimensão essencial do ser humano, o cuidado visto como preocupação com o humano. Cuidado que, já nos tempos dos sermões do padre Antônio Vieira adquirira um significado dramático, de que, quem tem o cuidado, quem tem a preocupação no horizonte, não dorme.
O extraordinário livro. Saber cuidar - Ética do humano - compaixão pela terra.



Também a palavra trabalho mereceu uma atenção especial. A ele foi creditado todo o processo civilizatório da humanidade, com ênfase no caráter positivo das relações humanas e que estas jamais devem ser marcadas pelo caráter de destruição. Também elas devem ser submetidas ao imperativo do cuidado. Pelo trabalho devemos construir a organização da casa, como ethos, como morada humana. E a morada humana hoje, é maior do que a casa singular que habitamos, para que ela seja vista em sua dimensão planetária. Como seria a organização das relações nesta casa sob as orientações do Cuidado? Como resposta citou Dalai Lama, quando ele aconselha tratar o outro como uma criança, para lhe oferecer todo o cuidado.
Os Franciscos. Forte simbologia na escolha do nome Francisco pelo bispo de Roma.


Para vivenciar este novo paradigma precisamos, socraticamente, nos desentranhar dos velhos paradigmas e permitir que as dimensões mais profundas, que estão dentro nós, possam aflorar. As dimensões de humanidade, de solidariedade, de sensibilidade. Nos deixou ainda duas imagens finais. A primeira negativa. Um palhaço, que de frente para o público, enxergava o incêndio que começou a se propagar pelos fundos do teatro e que não podia ser visto pelo público. Quanto mais o palhaço se esforçava para alertar o público, mais o povo ria e o aplaudia. Podemos chegar atrasados com o cuidado da nossa casa. O incêndio já poderá ter dimensões incontroláveis. A segunda, positiva. A vida não é material nem espiritual, a vida é eterna. Passou a citar o livro da Sabedoria, em que se atribui ao Criador, a criação de todas as coisas e o grande amor à vida. E que este Deus criador, não irá permitir que a sua obra, a humanidade, seja destruída.
Ao final do encontro, uma sessão de autógrafos.


Para terminar reiterou a sua certeza da superação, da superação do velho paradigma e da afirmação do paradigma do CUIDADO, pois daremos a volta por cima e viveremos irradiando e celebrando os desígnios do Criador. Dedico este post aos meus netos, Theo, Mateus e Miguel, que recentemente vieram ao mundo para alegrar as nossas vidas. Que a sua formação se dê sob os princípios do novo paradigma, Que recebam  e distribuam muito cuidado ao longo de suas vidas.



segunda-feira, 22 de junho de 2015

O Guardador de rebanhos. Alberto Caeiro.

Recebi, via e-mail, este poema do Fernando Pessoa, ou seria de Alberto Caeiro, do meu colega e amigo Rodolfo Prates. Isso foi em janeiro. Retomo-o agora, depois de uma incursão na vida do poeta e também prosador. Não é fácil ler Fernando Pessoa. Seu livro Livro do desassossego, são as suas confissões e como ele próprio diz, a sua autobiografia sem fatos. 559 páginas de existencialismo, de pessimismo puro diante da vida.

O presente poema está no livro Poesia completa de Alberto Caeiro. O poema é bem mais longo. O poema que o Rodolfo me mandou, veio trabalhado. Foi elaborada uma síntese, que por sinal foi muito bem feita. Sempre questionamentos profundos. Sem demora, segue o poema, da forma como o recebi.

Poesia completa. Já na capa a alusão ao guardador de rebanhos.

O Guardador de rebanhos.

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem


E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.


Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!


Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz


E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.


Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..........................................................................

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.


A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.


Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.


Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade


Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.


Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
.................................................................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
....................................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?





quinta-feira, 18 de junho de 2015

A meia garrafa de vinho, a fraternidade e Fernando Pessoa - ou Bernardo Soares.

Poucas vezes me atrevi ler Fernando Pessoa. Eu não tive formação para a leitura, para a literatura, e para a poesia então, nem se fala. Agora, administrando o meu tempo livre, faço as escolhas mais difíceis. Passei por um mundo de descobertas, sendo a principal, a de que a literatura é o ser humano em toda a sua complexidade. Poderia citar uma infinidade de autores, mas vou citar apenas os mais recentes. Philip Roth, Raduan Nassar, Gracialiano Ramos, Guimarães Rosa, Kafka... Na minha formação básica, era catequese e latim, exatamente nessa ordem.
Que maravilha. Livro do desassossego. Provocações de tirar o sossego.

Para entrar no mundo de Fernando Pessoa e por achar a compreensão da prosa mais fácil do que a poesia, resolvi começar por aquela, com o Livro do desassossego. Tão difícil quanto, ou mais ainda. E, seguramente, tão poético quanto. É uma espécie de autobiografia. São as suas confissões e que na voz de Bernardo Soares, o narrador, assim o descreve: "Invejo - mas não sei se invejo - aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho a dizer" (12, pág.50). Mas como tem a dizer!.

Aos leitores, do blog, poucos evidentemente, me permito dar uma tarefa. Afinal de contas, conservo o espírito de professor. Procurem o verbete existencialismo. Se você não se satisfez com o encontrado, esqueça Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, ou mesmo Sócrates e leia as 559 paginas do Livro do desassossego, que assim você nunca mais terá dúvidas com relação ao termo. É uma explosão de sentimentos de uma vida...! E de acréscimo, você terá penetrado em todo um mundo de filosofia.
Fernando Pessoa em Lisboa. Trabalhava e morava na Baixa.


Mas a tarefa que hoje me propus é muito simples. Vou me limitar a transcrever o que o organizador do livro (Richard Zenith), colocou como sendo de número 24, à pagina 57. Veja a profundidade de um, digamos, mero devaneio. Tomar uma garrafa de vinho, apenas pela metade. Com isso também pretendo homenagear os meus amigos apreciadores dessa maravilhosa bebida. Mas vejamos a rara sensibilidade e, para além do existencialismo, também o humanismo.
Este é alentejano. Quando o encontrares pela metade, já sabes o que fazer!

"Hoje,como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E como, ao sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio voltou-se para mim e disse: 'Até logo, sr. Soares, e desejo as melhoras'.

Ao toque de clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de nuvens o vento de repente as afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reconhecera, que nestes criados de café e de restaurante, nos barbeiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea, natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo em maior intimidade, impropriamente dita...

A fraternidade tem subtilezas.

Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, um César ou Napoleão, ou Lenine, e o chefe socialista da aldeia - não há diferença de qualidade mas apenas de quantidade. Abaixo estamos nós, os amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, ou o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho".
O meu próximo atrevimento. É nesse livro que está  O guardador de rebanhos.

Ah! Como é possível que exista gente que não goste de ler. Eu tenho para mim, que é porque nunca tentou começar.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Operário em constução. Vinícius de Moraes.

Desde 1956 um poema para formar a consciência. A consciência de classe. O Brasil teve toda uma geração de intelectuais marxistas. O trabalho como práxis.
 O ser humano e a sua construção pelo trabalho. 

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
 

Era ele que erguia casas
onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
ele subia com as casas
que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
de sua grande missão:
não sabia, por exemplo,
que a casa de um homem é um templo,
um templo sem religião.
Como tampouco sabia
que a casa que ele fazia, sendo a sua liberdade,
era a sua escravidão.

De fato, como podia
um operário em construção
compreender por que um tijolo
valia mais que um pão?
Tijolos ele empilhava
com pá, cimento e esquadria.
Quanto ao pão ele comia.
Mas fosse comer tijolo...
E assim o operário ia,
com suor e com cimento,
erguendo uma casa aqui,
adiante um apartamento;
além uma igreja, à frente
um quartel e uma prisão:
prisão de que sofreria
se não fosse eventualmente
um operário em construção.
Vinícius de Moraes (1913- 1980). Bom na poesia, bom na música.


Mas ele desconhecia
esse fato extraordinário:
que o operário faz a coisa
e a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia,
à mesa, ao cortar o pão,
o operário foi tomado
de uma súbita emoção
ao constatar assombrado
que tudo naquela mesa
- garrafa, prato, facão -
era ele quem os fazia!
Ele, um humilde operário,
um operário em construção.

Olhou em torno: gamela,
banco, enxerga, caldeirão,
vidro, parede, janela,
casa, cidade, nação!
Tudo, o que existia
era ele quem fazia!
Ele, um humilde operário
um operário que sabia
exercer a profissão.
Marx, o inspirador.


Ah! homens de pensamento, não sabeis nunca o quanto
aquele humilde operário
soube naquele momento!
Naquela casa vazia
que ele mesmo levantara,
um mundo novo nascia
de que sequer suspeitava.
O operário emocionado
olhou sua própria mão
sua rude mão de operário
de operário em construção.
E olhando bem para ela
 teve um segundo a impressão
de que não havia no mundo
coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
desse instante solitário
que, tal sua construção,
cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo,
em largo e no coração.
E como tudo que cresce,
ele não cresceu em vão.
Pois além do que sabia
- exercer a profissão -
 o operário adquiriu
uma nova dimensão:
a dimensão da poesia.
A famosa frase final do Manifesto, no original. Proletarier allerländer vereinigt euch!

E um fato novo se viu
que a todos admirava:
o que o operário dizia
outro operário escutava.
E foi assim que o operário
do edifício em construção
que sempre dizia sim
começou a dizer NÃO.
E aprendeu a notar coisas
a que não dava atenção:
notou que sua marmita
era o prato do patrão,
que sua cerveja preta
era o uísque do patrão,
que o seu macacão de zuarte
era o terno do patrão,
que o casebre onde morava
era a mansão do patrão,
que seus pés andarilhos
eram as rodas do patrão,
que sua imensa fadiga
era amiga do patrão.
E o operário disse: NÃO!
E o operário fez-se forte
na sua resolução.

Como era de se esperar,
as bocas da delação
começaram a dizer coisas
aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
nenhuma preocupação.
"Convençam-no do contrário"
disse ele sobre o operário.
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
ao sair da construção,
viu-se súbito cercado
dos homens da delação.
E sofreu, por destinado,
sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido,
teve seu braço quebrado,
mas quando foi perguntado
o operário disse: NÃO!
Em 1995, ganhei dos sindicalistas alemães da DGB. esta preciosidade. Uma coleção de cartões sobre o primeiro de maio. O dia mundial da classe trabalhadora.


Em vão sofrera o operário
sua primeira agressão.
Muitas outras se seguiram
muitas outras seguirão.
Porém por imprescindível
ao edifício em construção,
seu trabalho prosseguia
e todo o seu sofrimento
misturava-se ao cimento
da construção que crescia.

Sentindo que a violência
não dobraria o operário,
um dia tentou o patrão
dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
ao alto da construção
e num momento de tempo
mostrou-lhe toda a região.
E apontando-a ao operário
fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
e a sua satisfação
porque a mim me foi entregue
e dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer,
dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
será teu se me adorares.
E, ainda mais, se abandonares
o que te faz dizer não.
Viena, 1890. Um dos primeiros cartões.


Disse, e fitou o operário
que olhava e refletia.
Mas o que via o operário
o patrão nunca veria.
O operário via as casas
e dentro das estruturas
via coisas, objetos,
via tudo o que fazia
o lucro do patrão.
E em cada coisa que via
misteriosamente havia
a marca de sua mão.
E o operário disse: NÃO!
Loucura! gritou o patrão.
Não vês o que te dou eu?
- Mentira disse o operário.
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
um silêncio de prisão
um silêncio povoado
de pedidos de perdão
como o medo em solidão
um silêncio de torturas
e gritos de maldição
um silêncio de fraturas
a se arrastarem no chão.

E o operário ouviu a voz
de todos os seus irmãos.
Os seus irmãos que morreram
por outros que viverão.
Uma esperança sincera
cresceu no seu coração
e dentro da tarde mansa
agigantou-se a razão
de um homem pobre e esquecido.
Razão porém que fizera em operário construído
o operário em construção".



segunda-feira, 15 de junho de 2015

Devassos por natureza. Provocações sobre o sexo e a condição humana. Jesse Bering.

O acesso que eu tive a esse livro ocorreu por dois motivos. Em primeiro lugar, uma promoção da Jorge Zahar, repito, da Zahar, com preços realmente incríveis e, em segundo lugar, fui movido pela curiosidade. O título é extremamente provocativo e aguçador. Adoro a palavra provocação - de pro e vocare, isto é, chamar para... Provocar é uma das palavras fundamentais para o estudo, para a filosofia, para a ciência. Ao lê-lo tive uma rara surpresa e se confirmou uma das frases de sua contracapa: "Um livro acessível, provocador e cheio de vida. Para todos os interessados em saber o que significa ser humano".
O livro de Jesse Bering. Uma visão científica da sexualidade e suas implicações humanas.


O livro é agradabilíssimo de ser lido. Em momento algum ele abre mão do rigor científico. Apenas torna o linguajar mais popular, sem o extremo rigor da pesquisa científica, pesquisa essa presente da primeira à última página do livro, a de número 300. Também está presente o humor, a ironia e a satírica irreverência, já a partir dos títulos ou das perguntas que formula. Em outras partes o livro assume um caráter absolutamente sério e austero, o que ocorre, especialmente, quando trata dos estudos sobre o suicídio. 

Quem é o autor desse Livro. Jesse Bering é apresentado, na orelha do livro, como doutor em psicologia, tendo sido diretor do Instituto de Cognição e Cultura na Universidade Queen's, em Belfast e professor na Universidade de Arkansas. É um cidadão nascido nos Estados Unidos. É assíduo colaborador de revistas científicas, onde comparece com os seus ensaios, dos quais 33 comparecem nesse livro.
Jesse Bering se define como "um cientista psicológico gay, ateu, com uma queda por teorias evolucionárias".


Ele se autodefine como "um cientista psicológico gay, ateu, com uma queda por teorias evolucionárias". Muito provocador. Na orelha do livro temos mais uma informação adicional. "Vive em Ithaca, no estado de Nova York, com seu parceiro, dois terriers hiperativos e um gato com problemas de peso". Isso significa que ele não tem uma visão religiosa de mundo (desculpem a obviedade), ignora a ditadura heteronormativa e em sua visão científica, segue os padrões do evolucionismo darwiniano. Esta visão me foi particularmente interessante.

O livro inicia por um "um convite à impropriedade", à guisa de introdução, seguida de oito partes, cada uma com uns três ou quatro ensaios, num total, como já vimos, de 33. Os temas estão distribuídos nas oito partes, sendo os seguintes: Parte I. "Uma visão darwiniana do que pende", onde aborda questões como o por que de eles (os testículos) estarem pendentes, sobre a autofelação, sobre o formato do pênis, sobre a ejaculação precoce e sobre as propriedades medicinais do sêmen. Como podem ver, temas bem intrigantes.
 Como o livro não traz ilustrações, busquei algumas. Lilith, a anti Eva. A insubmissão feminina.

Na parte II, que tem por título "Corpos generosos" aborda a questão dos pelos pubianos, a história natural do canibalismo e a afecção da pela humana com a acne. Já na parte III, "Mentes indecorosas" os temas tratados se referem ao despudoramento da mente, sobre o como o cérebro adquiriu nádegas, sobre o sonambulismo e as ereções noturnas e sobre a masturbação, que comprova ser muito praticada, e de ser uma exclusividade dos humanos. 

A parte IV, "Estranhos companheiros de cama" os temas abordados são os pedófilos, hebéfilos e efebófilos (não se preocupe, ele explica), a zoofilia, sobre os assexuados, a podofilia e sobre as bonecas de borracha. Já na parte V, "A noite das damas" os temas versam sobre a ejaculação feminina, sobre as fag hags (ele também explica), sobre o orgasmo feminino e a agressividade das adolescentes. 
Um psicólogo com tendências evolucionistas.

A parte VI, " a gaia ciência, cada vez mais gay: há algo estranho aqui" trata da dificuldade de orientação espacial dos gays, onde aconselha nunca pedir informações a um gay, sobre a homofobia como desejo reprimido, particularmente interessante, sobre o poliamor, sobre os cientistas bem dotados e se o seu filho é um "pré-homossexual". A parte VII, "Como diz a Bíblia", prova que os cristãos são bons, mas só aos domingos, sobre os coelinhos de deus e sobre as cerimônias fúnebres.

O último capítulo, o VIII, "Rumo às profundezas: trabalho existencial em laboratório", o tema tabu é o suicídio. Nele encontramos dois ensaios sobre o ser suicida, sobre o livre arbítrio e sobre a hilaridade no mundo animal. Por ter lido muito pouco sobre o suicídio, achei muito interessante a abordagem do tema, especialmente o segundo ensaio, no qual descreve as características do suicida. Um mundo de descobertas.

A minha experiência com o livro me diz que não mudei a minha maneira de ser (continuo um judaico cristão ocidental heterossexual), mas que aprendi muito, muito mesmo, e não tenho vergonha de dizer. A vergonha deveria ser exatamente da cultura que tenta ocultar tanto sobre o humano, sobre o demasiadamente humano, e termino reafirmando o escrito na contracapa do livro. "Um livro acessível, provocador e cheio de vida. Para todos os interessados em saber o que significa ser humano".
Outro símbolo que busquei. Símbolos masculinos e femininos juntos.

Um livro especial para quem trabalha a diretriz de número dez do Plano Nacional de Educação, e para os que militam e estudam as relações homoafetivas. Acima de tudo um livro muito sério, apesar do humor, da ironia e da sátira. Quero ainda apresentar dois destaques finais. O primeiro para você ver o quanto você é normal e o segundo é para os homofóbicos, que estão se revelando novamente em plenitude, quando estão sendo elaborados os Planos Municipais e Estaduais de Educação, quando é abordada a questão da diversidade, na diretriz de nº dez. São duas frases.

O primeiro destaque: "...No último incidente (a sua quarta prisão), ele havia matado cruelmente uma égua por ciúmes porque pensava que ela estava dando bola para um certo garanhão. (E você pensava que tinha problemas)". Observem que o entre parêntesis é do autor. O segundo destaque: "Se há uma coisa que aprendi sobre a natureza humana, é que sempre que a sociedade esbraveja sobre um demônio ou outro, ela provavelmente acabou de surpreender uma visão especialmente alarmante de si mesma no espelho". Que os Malafaias e Felicianos  se expliquem.




quinta-feira, 11 de junho de 2015

Um rio chamado tempo - Uma casa chamada terra. Mia Couto.

Ler Mia Couto é sempre desafiador. A sua leitura não é uma tarefa tão simples e exige uma atenção redobrada. A sua literatura, seja no conto, seja no romance vai sempre muito além da narrativa. A sua linguagem é poética, mística e envolvida de mistérios. Cada frase sua é uma provocação, a exigir reflexão. É impressionante a sua capacidade de trabalhar com as palavras e lhes criar significados. Sempre é um grande ato de prazer, a sua leitura.
O espetacular romance Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Mia Couto.

Desta vez a leitura recaiu sobre um romance. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Já no título o significado e as suas vinculações, o rio com o tempo e a terra como a casa ou a moradia. Para lê-lo é fundamental saber que Mia Couto é natural de Moçambique, pois, os temas africanos estão onipresentes em sua obra. Assim ocorre com suas raízes e tradições, lutas e frustrações, bem como as inquietações futuras. É um escritor comprometido com a sua origem tempo/espaço e preocupado com o futuro de seu povo, numa perspectiva coletiva. Hoje é um ativista da questão ambiental. Nada melhor do que o título do livro para explicar a sua militante preocupação.

"Meu neto, 
Agora sabe onde me visitar. Já não necessito de lhe escrever por caligrafada palavra. Falaremos aqui, nesta sombra onde ganho dimensão, corpo renascendo em outro corpo. Você, meu neto, cumpriu o ciclo das visitas. E visitou casa, terra, homem, rio: o mesmo ser, só diferindo em nome. Há um rio que nasce dentro de nós, corre por dentro da casa e desagua não no mar, mas na terra. Esse rio uns chamam de vida". Esse texto explicativo você encontra ao final do livro, quando as páginas já rolaram até o último capítulo, o de número 22. Aí você encontra ainda outras explicações.

"Lhe contei tudo sobre a sua família, desfiei histórias, desfiz o laço da mentira. Agora, já não arrisco ser emboscado por segredo. O caçador lança fogo no capim por onde vai caminhando. Eu faço o mesmo com o passado. O tempo para trás eu o vou matando. Não quero isso atrás de mim, sei de criaturas que se alojam lá, nos tempos já revirados". E um pouco mais adiante, ainda no mesmo capítulo final, o desvendar por completo, junto com o que você já colheu pelo caminho.
Mio Couto, o grande escritor moçambicano.

"Chamo-o assim de "meu neto" mas é uma fraqueza de expressão. Você é meu filho. Meu maior filho pois nasceu de um amor sem medida. Por isso, não o escolhi para cerimoniar a minha passagem para a outra margem. Você se escolheu sozinho, a vida escreveu  no seu nome o meu próprio nome". Efetivamente, o romance gira em torno de dois personagens, ambos chamados de Mariano. O avô e o neto. A ambientação da história se dá na ilha Luar do Chão. O enredo envolve o tempo da família do avô Mariano, a quem o neto, depois de longa ausência da ilha, vem para a realização de seu funeral.
Mia Couto em minha casa.


A história também envolve o seu pai, Fulano Malta e a sua mãe, Mariavilhosa. O pai fora um guerreiro revolucionário. Lutara pela independência e estava decepcionado A mãe se fez água, suicidando-se no rio. Envolve ainda a avó Dulcineusa e os tios Abstinêncio, Ultímio e a tia Admirança. Destaque especial é dado ao tio Ultímio. Uma frase o sintetiza, "uns possuem, outros são possuídos pelo dinheiro". Ou ainda: "Porque esse meu tio, sua mulher e seus filhos se guiavam por pressas e cobiças. Queriam muito e depressa". Ultímio se rendera à ganância. Ao seu redor só grassavam desgraças e desavenças na família. Tudo queria comprar.

A fortuna de Ultímio é envolta em mistério, especialmente a origem de sua fortuna. Um pó branco que envenenara a terra. A terra que se transforma em rocha dura e se fecha como sepultura do avô Mariano. As chuvas também haviam cessado e o Dr. Amílcar Mascarenha, o único médico do local, não lhe prescreve o óbito. O mistério se avoluma com as misteriosas cartas que o dito defunto avô escreve para o neto, que na verdade eram ditadas pelo avô para o neto que as caligrafava. Estas cartas é que vão revelando a verdadeira história. Avô Mariano se recusava a partir antes da mulher de número cem e do desvendar de toda a história, cujo final, em essência, já transcrevemos. O resto está escondido nas curvas do rio e nos cantos da casa.
Frase de epígrafe do último capítulo.


Além da beleza e da provocação de cada frase, o livro é também uma bela história de amor. Esta ganha força, como podemos ver na simbolização de uma relação amorosa entre o neto e Nyembeti, "Não há quente como o da boca. Não há incêndio que chegue à febre dos corpos se amando", e quando descobre que Nyembete era a terra de Luar do Chão, a sua ilha natal. E... na minha linha linha do tempo futuro descortino novos livros e novas leituras de Mia Couto, o grande nome da literatura africana e da língua portuguesa.