quinta-feira, 25 de maio de 2023

A Falência. Júlia Lopes de Almeida. Vestibular 2024 - UFPR.

Entre as novidades para o vestibular da UFPR do ano de 2024 está a obra do realismo-naturalismo A falência, de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). A primeira edição do livro surgiu no ano de 1901. Vejamos então alguns fatos que antecederam esta data: 1888 - abolição; 1889 - República. Vejamos ainda os primeiros presidentes: Deodoro da Fonseca - 1889-1891; Floriano Peixoto - 1891-1894 - República da espada; Prudente de Morais - 1894-1898 - Representante da oligarquia cafeeira. Contém a crise econômica. Ocorre o massacre de Canudos; Campos Sales - 1898-1902. Crise econômica e queda internacional dos preços do café. Este é o cenário histórico.

A falência. Júlia Lopes de Almeida. Principis. 2019.

Vejamos mais dados: Vida dos ex escravizados com exclusão social propositada por não haver políticas públicas de inclusão social. A abolição viera rasa, apenas abolição. Ocorrerá aglomeração nas cidades, especialmente no Rio de Janeiro. O domínio da economia cafeeira é absoluto. Fortunas eram construídas da noite para o dia. Na crise, o inverso também ocorria. Fortunas simplesmente se derretiam. A cidade do Rio de Janeiro é o cenário que emoldura o romance. Francisco Teodoro é o comerciante português que aqui fez fortuna. As reformas de embelezamento e saneamento do Rio de Janeiro ainda não tinham ocorrido. As tias ainda moravam no morro do Castelo (Itelvina, a sovina e Joana, a beata). Isso ocorreria no governo seguinte, de Rodrigues Alves (1902-1906).

Neste momento o romance brasileiro já superara o romantismo e enveredara para o realismo e para o naturalismo, movimentos que surgem praticamente de forma simultânea. Machado de Assis será a maior referência do realismo (Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), enquanto que Aluísio Azevedo, maior representante do naturalismo, publicava O mulato (1881), a primeira obra do naturalismo brasileiro e O cortiço (1890), a sua maior obra. O naturalismo acrescentava ao realismo uma visão científica da realidade e a procurava transmitir aos leitores.


Com essa contextualização vamos a obra de Júlia Lopes de Almeida, escritora nascida no Rio de Janeiro e militante da causa feminista. A sua obra é vasta, atingindo em torno de 40 volumes, além da participação assídua nos jornais e periódicos de seu tempo. Participou da formação da Academia Brasileira de Letras, mas quem nela entrou foi o seu marido, Filinto de Oliveira. Ainda não era o momento de tal feito para as mulheres. Em entrevista a João do Rio ele falava que a verdadeira merecedora da cadeira (a de número 3) era ela e não ele.

O spoiler da obra está praticamente dado pelo título - A falência. Mas, ao tomar o livro em mãos e olhar a contracapa você verá mais. É uma passagem do livro, já ao seu final: "O último benefício era-lhe ministrado pela filha, como um sacramento. Nem ele soube quanto tempo durou aquela crise de pranto que o sufocava. Quando Ruth acabou a sua música e ele lhe sentiu os passos leves e apressados na areia, teve ímpetos de chamá-la e cobri-la de beijos. Mais forte, porém, do que o seu amor e a sua ternura, foi o medo de enfraquecer. Ele fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolução. Cada homem é criado para um fim. O dele tinha sido o de ganhar dinheiro; ganhara-o, cumprira o seu destino. Não podendo recomeçar, inutilizado para a ação, devia acabar de uma vez. Toda a energia da sua vida se concentraria num movimento único e decisivo". A decisão estava tomada. Nem Camila, a esposa o pode impedir de executá-la.

Na orelha do livro, mais informações: "A falência, com forte influência realista-naturalista, é um marco na obra de Júlia Lopes de Almeida, que trouxe a discussão de temas como o adultério feminino e a decadência econômica e moral da burguesia após a abolição da escravatura. A exaltação e afirmação de personagens femininas aparecem na autonomia de Camila, Ruth, Noca e Nina, que conseguem resolver seus conflitos sem precisar do auxílio de um homem - uma visão feminista e original para a época, a decadência é associada aos personagens masculinos, que protagonizam a falência e as ações desastrosas presentes no enredo".

Os 25 capítulos mostram a agitação da vida econômica no armazém da Casa Teodoro, sempre cheia de gente e de movimento, como também a vida de fausto levada no palacete em Botafogo, do casamento arranjado com Camila, uma bela mulher Fala também de Mário, de Ruth, das gêmeas e dos agregados da casa, com destaque para Nina. Fala dos problemas com Mário, o primogênito, o oposto do pai. Este nunca tivera tempo para a família. O Dr. Gervásio participava da intimidade da família, e, com Teodoro dividia os amores de Camila, bem como dos problemas decorrentes. E por fim, a crise do café, com a derrubada internacional de seus preços. Havia sido enganado por Inocêncio, que o lançara na aventura da especulação. Mas havia uma culpada. A República.

A personagem central do romance é Camila, uma mulher adúltera, nos fins da década de 1890. Com a falência e a perda do marido e de Gervásio, o único amparo financeiro que lhe sobrara era o Mário, casado com Paquita, filha de uma baronesa. No espólio da família Teodoro ela ficara com as gêmeas. Mas, o romance não terminaria dessa forma. Camila não poderia ser mostrada como uma derrotada. Vejamos as palavras finais, após Camila mandar buscar as gêmeas e ter resolvido enfrentar os problemas da vida com toda a determinação: 

- "Vai - respondeu Camila muito excitada; mas olha, não ofendas a baronesa. Basta dizer... que eu não tenho nada no mundo senão as minhas filhas!                                                                                               - Bem que eu ouvi a senhora chorar toda a santa noite... Até estive quase...                                              -  Basta de palavreado, Noca! - interrompeu Nina; e acrescentou:                                                               - Vá descansada, eu acabarei de borrifar a roupa. E depois, para a tia:                                                         - Faz bem tia Mila. O trabalho distrai".

Ao final do livro - temos ainda - um complemento de leitura -, Texto e contexto.

"A falência é uma obra de clara influência realista-naturalista que, em sintonia com isso, trata de uma temática muito cara aos autores do Realismo e do Naturalismo: o adultério feminino dentro da instituição burguesa do casamento.

Diferentemente, no entanto, do que ocorria às mulheres adúlteras dos romances de Eça de Queirós ou de Gustave Flaubert, por exemplo não haverá a morte como único destino possível a essa mulher, aliás, narra-se com crueza o enredo de uma mulher adúltera em busca de realização, entremeado à derrocada de um exportador de café. Camila, de origem pobre e casada com Francisco Teodoro em virtude da comodidade que a riqueza do marido traz, descobre a paixão tardiamente nos braços do doutor Gervásio. Francisco de nada desconfia, e Camila só terá seu ideal de família perfeita abalado após um mau negócio feito pelo marido que os leva à falência. E neste romance quem estará fadado à morte é o marido, que se mata por causa da falência. Camila terá, aliás, ao fim do romance, o vislumbramento de que não precisa nem de amante, nem de marido, nem de filho, que pode se sustentar a partir da união com outras mulheres, o que se trata já de uma visão muito inovadora e feminina em relação à época".


2 comentários:

  1. Uma ótima leitura professor,um clássico c varios personagens diferentes c problemas raciais morais econômico...recomendo a leitura

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    1. Uma maravilha de obra. E que contextualização de época. Uma grande escolha da nossa UFPR. Agradeço o seu comentário.

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