domingo, 30 de junho de 2019

História das lutas sociais no Brasil. Everardo Dias.

Lendo A classe média no espelho, de Jessé Souza, encontro a referência ao livro História das lutas sociais no Brasil, de Everardo Dias. outra grande referência apontada pelo Jessé, neste mesmo livro foi Homens livres na ordem escravocrata, de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Jessé Souza, além de ele próprio ser uma grande referência, sempre nos remete a outras. O livro de Everardo Dias foi publicado originalmente em 1962. Já o que eu li, é da Editora Alfa-Omega, de 1977. É óbvio, que o título me provocou a busca do livro.
Da Alfa-Omega, de 1977.

O livro, escrito em 1961, é obra de um militante, um gráfico, que trabalhava no jornal Estado de S. Paulo. Esteve, assim, em contato com a mais alta intelectualidade deste país e com os comunistas, de modo particular, de acordo com as suas convicções, história de vida e de lutas. Everardo nasceu em Pontevedra na Espanha, em 1883 (1886 - no livro) e morreu em São Paulo, no ano de 1966. O foco maior de seu livro são os anos da virada do século XIX para o XX e as primeiras três décadas deste. Everardo é o narrador de seus sonhos, desejos e, especialmente, de suas lutas. Sempre protagonista.

Seu livro tem 330 páginas que estão divididas entre - Dados biográficos do autor, uma introdução e três partes, com os seguintes títulos: O Socialismo no Brasil; Organização Trabalhista e Lutas Sindicais e Primeiras Ideias Socialistas no Brasil. A primeira parte consta de 13 capítulos, a segunda, de três e a terceira, de apenas um. Nenhum dos capítulos leva título.

Na primeira parte temos a República e as primeiras frustrações com ela, o que só lhe fazia aumentar o desejo por justiça. São também tempos de forte imigração. Europeus vem, alguns com o sonho burguês do enriquecimento, e outros, com os ideais de justiça, de um socialismo já consolidado. Na organização sindical prevalece o anarco-sindicalismo. Embora as organizações ainda fossem fracas a repressão policial, ao contrário, já era extremamente forte e violenta. Em 1917 surge o grande alento, com a primeira greve geral. Acordos são celebrados. Mas bastou a volta ao trabalho para a violência ser redobrada. Os anos 1920 foram passados sob constante Estado de Sítio, mas também foram anos de muita movimentação. Alento enorme veio junto com a revolução bolchevique na Rússia, de 1917 e com a fundação do PCB no Brasil, em 1922. Chega também o trabalhismo, com a ascensão de Vargas. São estas as principais pinceladas da primeira parte.

Na segunda parte voltam as discussões em torno do marxismo, do socialismo reformista e, ainda, a doutrina dos anarquistas. Como novidade, chegam as ideias trabalhistas e a nomeação do primeiro ministro do trabalho do Brasil. Era Lindolfo Collor, que nada tinha a ver com os trabalhadores. O autor reconhece as conquistas da era Vargas, lembra de muitos aproveitadores e reconhece que a vida das lideranças dos movimentos teve melhoras, tudo se complicando, mais uma vez, com o Estado Novo. Também o cenário internacional merece suas análises. Aí seguem setenta páginas sob forma de enciclopédia, com a narrativa das principais lutas, desde 1798, quando da execução dos quatro líderes da revolta dos alfaiates na Bahia e chegando até 1934. São anotações que sobreviveram a todas as investigações a que o autor sempre esteve submetido. Uma bela narrativa.

Na terceira parte entram em cena os índios e os negros, até aqui ausentes em sua narrativa. Vejamos sobre o indígena: "O elemento proletário indígena, em sua imensa maioria analfabeto e inferiorizado, empregava-se em ocupações secundárias, não se lhe reconhecia valor mesmo que fosse um artista ou perito em algum mister. Podiam, quando muito, achar que era 'habilidoso'". E agora sobre o negro: "Quanto ao negro, saído poucos anos antes da escravidão, tinha apenas a missão de trabalho rude e pesado, tanto na lavoura como nas cidades, era um ser desprezível e humilhado" E arremata: "Esse o panorama do País, por essa década de 90 a 900". Ou seja, de 1890 a 1900.

Vejamos ainda a contra capa do livro: "Everardo Dias, é um dos raros sobreviventes daquela geração que, nas primeiras décadas do século, contribuiu para organizar e dar uma consciência de classe ao jovem proletariado brasileiro que então se formava no país.

Operário ele mesmo, participou da criação de muitas organizações sindicais e políticas do operariado, dirigiu greves, editou jornais e revistas de caráter classista e esteve integrado em todas as lutas políticas e sociais que se verificaram no Brasil, principalmente entre os agitados anos de 1910 e 1930.

Seu nome está hoje profundamente ligado à história das lutas sociais em nosso país. E este livro é a rememoração, aliás, bem documentada, dessas lutas, de que foi testemunha e quase sempre ator de primeira linha.

Preso inúmeras vezes, sempre ligado às massas operárias e consciente de sua posição social e seus deveres de membro da classe operária, ele acumulou um experiência valiosa para as novas gerações.

Autor de vários livros, e dono de um estilo claro e conciso, este seu último trabalho confirma suas qualidades de escritor popular que possui uma vivência e uma mensagem que deve ser acolhida com especial atenção, como valiosa contribuição para o conhecimento da história pátria".




segunda-feira, 24 de junho de 2019

Homens livres na ordem escravocrata. Maria Sylvia de Carvalho Franco.

Ao ler o livro A classe média no espelho, de Jessé Souza, deparo com uma citação de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Verificando, nas referências bibliográficas, constatei que se tratava de Homens livres na ordem escravocrata. De imediato o livro me interessou, devido ao tema. Sempre quis aprofundar a questão de como os negros se inseriram na "sociedade livre", após a escravidão. Embora não seja este o tema - e sim, a constituição ou a formação mais geral da sociedade brasileira após a abolição, fiquei muito satisfeito com a sua leitura. Da mesma forma, o livro não se dedica especificamente à questão da imigração, pelos mesmos motivos.
Edição de 1997, da UNESP. A primeira edição foi de 1969.

A vontade da leitura do livro cresceu, ao ver que se tratava originalmente da defesa de tese de doutoramento na USP, no ano de 1964. O livro foi publicado primeiramente pela editora da USP em 1969, passando depois para outras editoras. A edição por mim lida é da UNESP, datada do ano de 1997. O primeiro relato que me impressionou fortemente foi a banca presente na defesa da tese: Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda,  Antônio Cândido de Mello e Souza, Francisco Iglesias e Octávio Ianni. Tremi só de imaginar. Todos intelectuais de primeira linha.

Confesso que não tenho grande afeição pela leitura de teses, em virtude da linguagem acadêmica, que não considero muito agradável devido a muitas amarras, mas a leitura fluiu  e os temas abordados são realmente interessantes. A própria autora situa o teor do seu trabalho: "A pesquisa refere-se à velha civilização do café que, no século XIX, floresceu nas áreas do Rio de Janeiro e de São Paulo pertencentes ao Vale do Paraíba". O foco maior da pesquisa é a cidade de Guaratinguetá. Ela revirou mundos em sua pesquisa. Documentos de cartórios, de câmaras municipais, relatos dos escritores viajantes e por aí vai. 

O livro consta de uma introdução, quatro capítulos, conclusões e uma valiosa preciosidade de referências bibliográficas. A historiografia agradece. Os capítulos tem os seguintes títulos: I. O código do sertão; II. A dominação pessoal; III. O homem comum, a administração e o Estado e IV. O fazendeiro e o seu mundo. Dou também os subtítulos de cada capítulo.

Em O código do sertão temos: 1. Vizinhança: a violência costumeira. 2. Trabalho e lazer: a violência institucionalizada. 3. Parentesco: a violência necessária. 4. Pobreza e individualização: a violência como moralidade. Impressiona como a violência fazia parte do cotidiano e se dava, sempre por motivos fúteis e banais. Os homens livres e pobres eram violentos e valentes. A valentia era o grande valor moral de uma sociedade hierarquizada em todas as suas possibilidades.

Em A dominação pessoal temos: 1. Tropeiros e vendeiros: a abertura do sistema social. 2 Sitiantes: os fundamentos da dominação pessoal. 3. Agregados e camaradas: necessidade e contingência da dominação pessoal. Trata das possibilidades de ascensão social às margens da lavoura cafeeira, como a dos tropeiros, negociadores de cavalos e as famosas vendas que surgiam à beira das estradas, que enriqueciam os seus donos. O foco maior está nas relações sociais que passaram a se estabelecer. Tanto os sitiantes, quanto os agregados e os camaradas vivam na dependência do fazendeiro e as relações teriam de ser "cordiais", senão a violência imperava.

Em O homem comum, a administração e o Estado temos: 1. A herança da pobreza. 2. Patrimônio estatal e propriedade privada. 3. Autoridade oficial e influência pessoal. 4. A construção do futuro e 5. As peias do passado. O público e o privado se confundiam. O poder emanava do proprietário, dono do latifúndio e as relações eram de pura e simples dominação. As condições de vida eram marcadas pela penúria e a alimentação se restringia ao feijão, à farinha, ao toucinho e à carne salgada. A frágil estrutura do Estado estava presente na infraestrutura e o seu poder se confundia com o do latifúndio. Também intervinha nas desavenças, quase sempre marcadas pelos conflitos de terras.

Em O fazendeiro e seu mundo temos: 1. A visão do antepassado. 2. Negócios: padrões costumeiros e práticas capitalistas. 3. Estilo de vida: produção e dispêndio. 4. Diferenciação social e participação na cultura e 5. Declínio. Predominou, neste período, o orgulho herdado dos bandeirantes, marcados pela intrepidez, brutalidade, ganância e impiedade. A truculência e a violência imperavam no cenário. As relações eram estabelecidas entre os fazendeiros, os comissários, os ensacadores e os exportadores. Quase todos os trabalhos de mediação eram feitos pelos comissários. A cultura era extensiva e pouco se ligava para a produtividade. Quem enriquecia permanecia um ser tosco, sem nenhum refinamento, apesar de títulos nobiliárquicos, que começavam a perder o significado. As terras se exauriram e as fronteiras agrícolas atingiram o fértil oeste paulista.

Em suma, na conclusão, a doutora nos apresenta a lavoura cafeeira como uma monocultura associada ao latifúndio e ao autoritarismo, que se tornou possível, primeiro por causa da escravidão e, depois pelo fato de ser uma cultura extensiva, marcada pelo latifúndio e pelas relações de trabalho sempre sob o domínio do poderoso senhor. O único critério de toda esta atividade era o enriquecimento, mesmo sem usufruir dos benefícios por ele trazidos, não impactando sobre o bem estar social e cultural. Permaneciam rudes e toscos. Com o declínio da lavoura cafeeira no vale do Paraíba, outra cultura extensiva tomou conta das terras já exauridas. O gado.

Deixo ainda um comentário, que creio ser próprio como uma conclusão estendida deste trabalho de 1964. É de Jessé Souza que, em seu livro A classe média no espelho afirma ter sido a lavoura cafeeira a cultura embrionária do agronegócio dos dias de hoje. As características das relações sociais permanecem praticamente inalteradas.



segunda-feira, 17 de junho de 2019

A formação escolar e acadêmica das pessoas que integram o "sistema" Justiça.

Como estamos trabalhando, junto a um grupo de educadores, com histórias de vida, privilegiando a percepção de como se formaram para serem profissionais comprometidos e com consciência clara para quem devem ser direcionados os os esforços de seu trabalho, me deparo, em minhas leituras, com um texto maravilhoso do notável jurista Rafael Valim, professor de Direito na PUC de São Paulo. O texto tem por título "O discurso jurídico brasileiro: da farsa ao cinismo. Ele integra o livro Resgatar o Brasil, coordenado por Jessé Souza e Rafael Valim e editado pela Contracorrente e Boitempo. O texto apresenta os passos da formação dos integrantes do sistema Justiça.  Simplesmente apresento o autor como um jurista, em meio a um mundo de operadores do Direito.
A prioridade número um. Um projeto para o país e para o seu povo.

O quadro é de uma ironia profunda, não deixando de constituir também uma bela peça de humor. Ao terminar a apresentação da "formatação" dos membros do sistema, faz as seguintes considerações: "A leitura deste retrato irônico, porém real, de parcela dos integrantes do sistema Justiça brasileiro aponta para a resposta que estamos buscando: é a mediocridade que levou estas pessoas a destruir os direitos fundamentais, a democracia e o patrimônio nacional. Neles não habita qualquer sentimento constitucional". Mas vamos ao "retrato", ressaltando que se trata de uma "parcela":

"... A esta altura muitos devem estar se questionando: o que motivou esta parcela do Judiciário a destruir, a um só tempo, a democracia, os direitos fundamentais e o patrimônio nacional? A resposta a esta pergunta passa por uma rápida descrição, ainda que caricatural, do padrão das pessoas que ocupam os cargos públicos no âmbito da Justiça brasileira.

Branco, nasce no seio da classe média. Os pais, trabalhadores, acreditam piamente na meritocracia, julgam que a pobreza é fruto da preguiça e que política é coisa de bandido. A referência familiar de cultura é o tio que lê todos os dias os jornalões e nos almoços de domingo regurgita, com ar professoral, alguma mentira publicada.

Desde a mais tenra idade, frequenta escolas particulares e logo irrompe o desejo de ir à Disney. Quando chega à "América", constata a superioridade moral do povo estadunidense. Não há corrupção nem pobreza, prevalecem os direitos humanos, os "serviços públicos" funcionam e há armas à vontade. Um paraíso!

Na adolescência, continua a frequentar escolas privadas onde, naturalmente, só convive com pessoas brancas e da mesma classe social. O oceânico conhecimento que passa a amealhar vem das apostilas e de resumos de alguns clássicos da literatura que nele não despertam o mínimo interesse. Já a tocante sensibilidade social começa a aflorar em "projetos" de distribuição de presentes no dia das crianças ou de entrega de cobertores à moradores de rua quando durante o inverno.

Logo se depara com o vestibular. Intensifica-se o uso das apostilas para ingressar, de preferência, em universidade com boa reputação. Não se pode, naturalmente, descartar os temas atuais, também exigidos nas provas, e, por isso, começa a ler uma revista semanal de grande circulação. Um novo mundo se descortina pelas mãos de notáveis jornalistas isentos e comprometidos com a democracia.

Ingressa na Faculdade de Direito. Entre uma festa e outra, começa a ter contato com professores extraordinários, cujas aulas se assemelham às apostilas que liam no Colégio. Uma didática exemplar e nenhuma crítica: uma maravilha! Professores de filosofia ou sociologia são evitados. Para aprofundar os estudos, adquire livros caríssimos em cujos títulos há presença obrigatória de expressões como "esquematizado", "descomplicado", "sistematizado", "resumido". Ora para que complicar?

É também durante a Faculdade de Direito que toma contato com o mercado de trabalho! Afinal, meritocracia é isso: só começar a trabalhar, ainda que como estagiário, aos 21 anos de idade.

No final do curso é confrontado com a realidade do concurso público. Coitado, terá de sofrer novamente agruras que remontam ao período tenebroso do vestibular. Para superar este desafio, matricula-se prontamente em um curso preparatório que oferece técnicas "ninja" de estudos. Dedica-se a memorizar Códigos e devorar, uma vez mais, apostilas com conteúdos sintetizados e questões de múltipla escolha.

O nosso herói não tem vida fácil. Para comprovar a experiência profissional exigida nos concursos públicos, insere o nome nas procurações outorgadas a uma tia que é sócia de um escritório de advocacia. Desta maneira pode, às expensas dos pais, dedicar-se integralmente aos estudos por vários anos até, finalmente, conquistar o tão sonhado cargo público na Justiça brasileira.

Após alguns anos de exercício do cargo, recebe em sua caixa de correio um convite para participar de um curso de formação em uma renomada Universidade estadunidense. Honrado, quase aos prantos, recorda-se dos dias na Disney e da indiscutível superioridade do gênio norte-americano. Apressa-se em aceitar o convite e, na sequência, matricula-se em uma escola de inglês onde poderá não só aprender a língua inglesa, por meio de maravilhosas apostilas, como também fazer uma "imersão" na cultura norte-americana.

Para arrematar esta história de sucesso, um belo dia recebe uma solicitação de entrevista de um jornalista que, coincidentemente havia sido seu "guru" no período de vestibular. Dias depois vê sua foto estampada na capa da revista semanal que outrora lhe servira de guia em matéria de "atualidades". É a consagração!

Deduções e conclusões por sua conta.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Resgatar o Brasil. Jessé Souza e Rafael Valim (coordenadores).

Ao ler o livro de Jessé Souza, A classe média no espelho - sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade, deparei com uma citação de Maria Lúcia Fatorelli. A citação se refere a um texto seu, sob o título de "Sistema da dívida pública: entenda como você é roubado". O texto está inserido no livro organizado por Jessé Souza e Rafael Valim, Resgatar o Brasil. Ela é a Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívida. Como há muito eu queria ler algo dela, comprei o livro. O tema é explosivo. Segundo Jessé é ela o grande instrumento da corrupção brasileira e é praticada dentro do Banco Central. A corrupção denunciada pela Lava Jato, é por ele considerada como a "corrupção dos tolos", de centavos, perto da real corrupção existente.
A força do pensamento de sete intelectuais brasileiros.
O livro é maravilhoso. Ele pensa o Brasil por inteiro, como um projeto de Nação, com inclusão social e cidadania, através de políticas públicas, para superar nossa perversa formação histórica, oriunda do sistema da escravidão, não superado.Trata fundamentalmente de política, passando necessariamente pela economia. Vários intelectuais brasileiros escreveram os textos, organizados por Jessé Souza e Rafael Valim. Ele foi editado pela Contracorrente e Boitempo em 2018.

Os textos são os seguintes, pela ordem: O engodo do combate à corrupção: ou como imbecilizar pessoas que nasceram inteligentes? de Jessé Souza; Viralatismo em marcha: golpe visa redefinir lugar do Brasil no mundo, de Gilberto Maringoni; O fim da farsa: o fluxo financeiro integrado, de Ladislau Dowbor; Sistema da dívida pública: entenda como você é roubado, de Maria Lucia Fatorelli; Imposto é coisa de pobre, de André Horta; Os grandes negócios que nasceram da cartelização da mídia, de Luis Nassif e O discurso jurídico brasileiro: Da farsa ao cinismo, de Rafael Valim. A maioria dos autores são bem conhecidos de quem, mesmo minimamente, vive informado.

O texto de Jessé retoma os seus livros, A tolice da inteligência brasileira, A elite do atraso e A classe média no espelho.  Vou traçar dois pontos: Somos guiados por ideias e, como estas ideias guia entram em nossas cabeças. O texto responde a estas questões, aplicando-as para o caso brasileiro. Ele parte de um pressuposto que eu sempre defendi, de que é impossível não aprender. Ele diz isto da seguinte forma: "Como sempre, o principal  desafio do conhecimento não é cognitivo. A grande maioria das pessoas pode compreender qualquer coisa dita de modo direto e sem floreios desnecessários. A grande dificuldade humana para aprender qualquer coisa  nova é emocional". O apego por quem colocou estas ideias em nossa cabeça. Me fez lembrar o texto de Kant O que é o esclarecimento? As pessoas não querem aprender. É cômodo ser de menor. Aí ele entra na formação histórica brasileira e nos apresenta a Santíssima Trindade do pensamento viralata conservador, fundado na escravidão: Sérgio Buarque de Holanda é o seu filósofo, Raimundo Faoro, o seu historiador e FHC o seu realizador. Genial, como sempre.

O texto de Gilberto Maringoni se centra no golpe midiático, jurídico e parlamentar de 2016 e, como o seu título enuncia, ele trata das consequências do golpe e da nova inserção do Brasil no mercado global. Esta inserção representa enorme atraso, fazendo o país voltar aos projetos da antiga UDN, de um país submisso e genuflexo na ordem internacional. Relembra a frase de Magalhães Pinto: "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Do texto anotei uma frase inicial: "Em dois anos de golpe e quatro da Operação Lava Jato, foram destruídos ou estão em processo de desnacionalização os setores de construção civil, estaleiros, carne e derivados, energia elétrica, petróleo e indústria da aviação". Mais claro é impossível. É apagar a memória de Vargas, como queria a terceira pessoa da  nada Santa Trindade, apontada pelo Jessé. Outra meta do golpe é a destruição dos direitos garantidos na CLT e na Constituição de 1988. Em outro post eu citava os quatro pilares da frágil cidadania brasileira: a CLT, o nosso sistema educacional, mesmo com toda a sua precariedade e a questão da Seguridade Social, implantada pelo SUS e pela Previdência, na Constituição de 1988. Tudo isso está sendo desmontado. São os temas de Maringoni.

Ladislau Dowbor nos dá a mais óbvia lição de economia, ao falar de seu círculo virtuoso, citando o New Deal e o Brasil de 2003-2013, como exemplos. Este círculo virtuoso também aumenta a arrecadação dos impostos, o que permite a melhora dos salários indiretos, representados pelos serviços públicos. Com esta lição visa combater o chamado nanny state, expressão que, confesso, não conhecia. Mas conheço muito bem os seus malefícios, as políticas de austeridade. Depois passa para análises econômicas, centrando suas críticas às estratosféricas taxas de juros que inviabilizam a nossa economia. Quando Dilma diminuiu a taxa de juros, o sistema financeiro patrocinou o golpe. Como alternativa ao modelo do nanny state, apresenta os modelos da economia alemã, da China e do Canadá. Aqui os créditos chegam a ser 1200% mais caros do que nos países da OCDE..

O texto de Maria Lucia Fatorelli é praticamente uma continuidade do de Dowbor, abordando a questão da dívida pública, paga pelo Estado, e que consome praticamente a metade de todos os impostos arrecadados. A dívida pública é o "veículo do roubo". Em meio ao seu texto aparece uma tabela em que compara a distribuição do arrecadado com uma pizza, cortada em pedaços. A pizza é desproporcionalmente cortada. A dívida pública ganha um pedação, que se destina ao improdutivo sistema financeiro. Não sobra para os serviços públicos. E como a economia se apropriou da categoria moral da palavra dívida, o seu pagamento ganha o caráter religioso de salvação. O Banco Central administra os pagamentos em nome do combate à inflação. Termina mostrando a fundamental contradição brasileira, de tanta pobreza em meio a tanta riqueza.

Com o sugestivo título de que imposto é coisa de pobre, André Horta nos mostra o nosso injusto sistema tributário, ao não aplicar um sistema de progressividade, em que os ricos pagariam mais do que os pobres. Aqui pagamos por igual. Os diferentes em riquezas pagam tributos por igual. A partir daí o texto converge com o de Dowbor, sobre o círculo virtuoso da economia, destacando que o bem estar social é a grande base para impulsionar o crescimento econômico. Algo elementar, que a nossa elite teima em não compreender. Com o sistema tributário progressivo seria possível fazer a revolução social silenciosa, lembrando, para terminar, que os privilégios é que foram a grande causa da Revolução Francesa. E esta, nada silenciosa.

O texto de Luís Nassif, sobre a mídia brasileira, mostra a sua concentração e, ao mesmo tempo, aponta para o surgimento de novas mídias. Como é um texto datado, por óbvio, não entrou na questão que hoje faz ferver o caldeirão político, com as revelações do The Intercept. Cita que hoje o Google já é dono da segunda receita publicitária brasileira. Mas o coração do texto é a concentração, ou a cartelização da mídia, num termo mais apropriado. Todos os meios estão nas mesmas e poucas mãos. Dá um belo panorama histórico do combate à cartelização nos Estados Unidos e apresenta outra perversa característica da mídia brasileira, que é a possibilidade de um mesmo grupo atuar em todos os sistemas de mídia, quando TV, jornais, revistas, rádio e sites atuam entrelaçados. Esta atuação permite a total manipulação da Opinião Pública, criando mitos como os da Petrobras quebrada, da Eletrobras quebrada e tantos outros, como também o maior de todos, de que a corrupção é o principal dos nossos problemas. Tudo motes para a privatização.

Confesso que sou fã incondicional do autor do último texto do livro, de Rafael Valim. Ele ganhou esta sua condição por força de um único artigo seu, que eu li no livro de entrevistas do Lula, A verdade vencerá. O texto tem por título, "O caso Lula e o fracasso da Justiça brasileira". Um jurista notável. Deixo o link. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/05/o-caso-lula-e-o-fracasso-da-justica.html Em seu texto nos apresenta uma retrospectiva histórica do Poder Judiciário, comprometido com as elites, uma classificação dos juízes e, uma ironia terrível de como ocorre a formação jurídica de quem integra o sistema Judiciário. Vou fazer um post em separado sobre esta formação, mas não resisto em apresenta a sua classificação. Com ela ele abre seu texto, antecedido de uma advertência:


"Sejamos francos, pois o momento não admite meias palavras.
Atualmente, a comunidade jurídica brasileira está dividida em certos grupos: os que integram o sistema de Justiça e, estão às expensas do povo, cometendo arbitrariedades inomináveis; os que tentam se aproveitar das circunstâncias para obter vantagens; os que, embora compreendam o grave estado de coisas atual, preferem se calar; os que, por um grave déficit cognitivo ou por uma cegueira ideológica incurável, julgam que está tudo em ordem e que o Brasil logo extirpará o 'lamaçal da corrupção'; e finalmente, os que, apesar do macarthismo implacável, não abdicaram do compromisso histórico de enfrentar o arbítrio, ainda que togado".

Creio que todos perceberam que se trata de mais um livro necessário. E eu, diante de tanta burrice, hoje cultivada, fico cá comigo, tentando metabolizar esta frase do Jessé: "Como sempre, o principal  desafio do conhecimento não é cognitivo. A grande maioria das pessoas pode compreender qualquer coisa dita de modo direto e sem floreios desnecessários. A grande dificuldade humana para aprender qualquer coisa  nova é emocional".







quarta-feira, 12 de junho de 2019

A Internacional. A oração leiga dos revolucionários de todo o planeta.

O hino - a Internacional - tem a sua origem na Segunda Internacional, reunida em Paris no ano de 1889, já sem a presença dos anarquistas. A letra é uma composição de Eugène Potier, em 1871. O poema ganhou a sua música em 1888, através do operário anarquista Pierre De Geyter, sob a inspiração da Marselhesa. Em 1889 passou a ser o hino dos trabalhadores de todos os povos e, por um certo tempo, o hino da União Soviética. Vejam o contexto da Segunda Internacional.

O motivo que me levou a este post foi a leitura de A greve de 1917 - Os trabalhadores entram em cena, de José Luiz del Roio. No quarto capítulo de seu livro, sob o título "Suada vitória" ele, num subtítulo fala  de uma determinada "oração leiga". Era o hino da Internacional, apresentado como "a oração leiga dos revolucionários de todo o planeta". Esta canção era cantada pelos grevistas em comemoração às conquistas da primeira grande greve geral havida no Brasil. Transcrevo na íntegra, o que vai pelas páginas 82 a 85.
Um livrinho simplesmente maravilhoso. A greve de 1917.

"A Internacional, canto dos trabalhadores de todo o mundo, traduzido em inúmeros países, tem letra do francês Eugène Pottier (1816-1887), que havia combatido na Comuna de Paris em 1871, e música do belga Pierre De Geyter (1848-1932). Adotada como hino pela Internacional Socialista, era usada também pelos anarquistas. Com a criação da Internacional Comunista, passou a ser também seu hino oficial.

As muitas traduções apresentam algumas variações. Em nosso caso, a versão mais conhecida é a do anarquista português Neno Vasco (1878-1923), de 1909. Ele viveu no Brasil de 1901 a 1910 e atuou decididamente na imprensa anarquista. Como alguns termos da letra são de difícil compreensão, pensou-se em algo mais leve e moderno. Porém, todas as tentativas falharam e seguimos com os versos de Neno Vasco há mais de um século. É sempre muito emocionante. Seguem seus versos:

De pé, ó vítimas da fome
De pé, famélicos da terra
Da ideia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra
Cortai o mal bem pelo fundo
De pé, de pé, não mais senhores
Se nada somos em tal mundo
Sejamos tudo, ó produtores

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Senhores, Patrões, chefes supremos
Nada esperamos de nenhum 
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre e comum
Para não ter protestos vãos
Para sair desse antro estreito
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que nos diz respeito

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

O crime do rico, a lei o cobre
O Estado esmaga o oprimido
Não há direitos para o pobre
Ao rico tudo é permitido
À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Abomináveis na grandeza
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha
Todo o produto de quem sua
A corja rica o recolheu
Querendo que ela o restitua
O povo só quer o que é seu

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Nós fomos de fumo embriagados
Paz entre nós, guerra aos senhores
Façamos greve de soldados
Somos irmãos trabalhadores
Se a raça vil, cheia de galas
Nos quer à força canibais
Logo verás que as nossas balas
São para os nossos generais.

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Pois somos do povo os ativos
Trabalhador forte e fecundo
Pertence a terra aos produtivos
Ó parasitas deixai o mundo´
Ó parasitas que te nutres
Do nosso sangue a gotejar
Se nos faltarem os abutres
Não deixa o sol de fulgurar

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Durante décadas, inúmeros foram os mártires que a cantaram nas masmorras, nas salas de tortura e no patíbulo. Com a voz alta quando as forças permitiram ou apenas murmurando, num último fio de voz. Com força e ira marchando ao combate ou numa explosão de alegria nas vitórias. É a oração leiga dos revolucionários de todo o planeta".






segunda-feira, 10 de junho de 2019

A greve de 1917 - Os trabalhadores entram em cena. José Luiz Del Roio.

Ao ler o livro de Jessé Souza, A classe média no espelho, deparo com a indicação do livro A greve de 1917 - Os trabalhadores entram em cena, de José Luiz del Roio. Sempre alimentei o desejo de ler algo de maior profundidade a respeito e por isso comprei o livro. Na introdução o autor compara este movimento com a Comuna de Paris, tal a sua importância. São Paulo praticamente parou nestes meses de junho e julho de 1917. Os livros oficiais de história do Brasil não são nada generosos em mostrar esta realidade ao povo brasileiro. Esta greve foi fruto do chamado sindicalismo revolucionário, influenciado por anarquistas e comunistas, estes inspirados pelo 1917 da Rússia.
Simplesmente um livro necessário.

O livro é um primor, chamando a atenção o belo português do autor, bem como a sua exposição, extremamente didática. Poderíamos qualificá-lo como um pequeno grande livro. Possui apenas 129 páginas, com bons espaços e direito a fotos da época relacionadas ao triste evento. O livro tem um prefácio, escrito por Gilberto Moringoni, em que conta a história, tanto do livro quanto a de seu autor, lembrando também o esforço em reconstituir a memória desta greve. Os acervos de 1917.

O livro divide-se em introdução, cinco capítulos, indicação bibliográfica e 17 páginas de fotografias. Os capítulos tem os seguintes títulos: 1. Onde tudo começou; 2. Eles, os trabalhadores; 3. Braços cruzados; 4. Vitória suada e 5. O legado da greve. A publicação é de 2017, ano do centenário, pela editora Alameda e pela Fundação Lauro Campos.

Na introdução o autor nos brinda com uma bela contextualização da época, mostrando o Brasil do final do século XIX e início do XX, com acento nas transformações ocorridas na formação econômica e social brasileira, pelos fatores internos e externos. Sobra espaço, ainda, para a apresentação do sindicalismo revolucionário, de raiz anarquista.

No primeiro capítulo, Onde tudo começou, o autor aprofunda o tema da introdução, mostrando a incompatibilidade entre o trabalho escravo e a sociedade capitalista, mostrando a abolição da escravidão (mas não a de sua obra, lembrando Joaquim Nabuco), e a substituição pela "mão de obra" imigrante. Isso também fazia parte do branqueamento da raça, uma vez que teorias higienistas conspiravam contra a presença maciça de negros. Os negros foram, praticamente, empurrados para fora da economia brasileira. Apresenta também a característica dos imigrantes, italianos e católicos, obedientes e submissos, de preferência. A lavoura cafeeira se expandia e a elite se inspirava na vida burguesa de Paris e de Londres.

O segundo capítulo, Eles, os trabalhadores mostra que a incipiente industrialização brasileira já necessitava de trabalhadores mais especializados. Estes, como inconveniente, trouxeram também as bases de sua formação na "luta de classes". Surgiram os primeiros bairros industriais/operários em São Paulo, como o Brás, a Mooca e o Belenzinho. O patronato continuava absolutamente escravista e, agora, com o adendo de colonizados. São Paulo contava em 1890 com 65.000 habitantes, número que saltou para 500.000 em 1917. Surgem as primeiras associações das "classes laboriosas". Mostra a forte presença dos anarquistas, inclusive, os seus princípios educacionais das doutrinas de Francisco Ferrer. Mostra também a entrada do mundo na I Guerra Mundial, a revolução de 1917 na Rússia e a presença, no Brasil, do anarco sindicalismo.

No terceiro capítulo, Braços cruzados, o autor entra em cheio no tema do livro. Conta, em rápidos traços, a história da família Crespi, o seu envolvimento com o fascismo italiano e os seus métodos de trabalho aterrorizante em São Paulo. A sua fábrica de tecidos tinha mais de dois mil funcionários e  o trabalho era ininterrupto. A jornada de trabalho atingia 12 horas diárias para todos, homens, mulheres e crianças, acompanhadas de um forte esquema de vigilância e punições. Foi nesta fábrica, que em junho, a greve teve início. A narrativa da sua expansão, das passeatas, das mortes é de extraordinário vigor e constituem as páginas mais significativas do livro. O nome das lideranças ganha certo destaque, em especial o alemão Edgar Leunroth, além de Theodoro Monicelli, Gigi Damiani, Francesco Cianci, Antônio Candeias Duarte e  Rodolfo Felippe. Embora ele não cite nenhuma mulher, elas foram decisivas. A indústria têxtil sempre empregou muitas mulheres. Em julho São Paulo, literalmente parou. Surgem as mediações, sendo os Street a favor da mediação e os Crespi contra. Obviamente que os Street foram chamados de comunistas, apesar, também, de toda a sua dureza para com os trabalhadores. Elabora-se uma pauta mínima e forma-se um Comitê de Imprensa para a mediação.

No quarto capítulo, Vitória suada, mostra os trabalhadores em festa cantando "a oração leiga dos revolucionários de todo o planeta", a Internacional. Depois da pacificação vem a vindita patronal. Mortes, demissões e deportações. Todos os mecanismos de controle são reforçados em todo O Brasil. Pouco depois o anátema que se dirigia contra os anarquistas ganha o endereço dos comunistas. Em 1924 foi criado o DOPS.

No quinto capítulo, O legado da greve, são mostrados os limites do sindicalismo revolucionário e a crítica à sua recusa de participação política, além da não preocupação com a formação de um projeto para a nação brasileira. Mostra ainda a formação de um sindicalismo mais burocrático, com sedes e organização por categorias de trabalho, a partir da fundação do PCB, em 1922, na cidade de Niterói, sob a liderança de Astrogildo Pereira. Para combater a carestia são criadas as feiras populares livres.

As indicações bibliográficas são valiosas e as 17 páginas de fotografias se constituem numa rara preciosidade. Eu, numa fala de Paulo Freire, ouvi dele mais ou menos o seguinte: Conheço todas as elites do mundo. De longe, a elite brasileira é a mais perversa. Com a leitura, agora entendo melhor a afirmação de Paulo Freire. Ela não contém nenhum tipo de exagero. A elite é escravocrata e colonizada. Leitura necessária, inclusive, para entender o atual momento brasileiro, às vésperas de uma greve geral contra a destruição da previdência e da seguridade social.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Agosto. Rubem Fonseca. O romance da nossa desesperança.

Primeiramente quero expressar toda a minha satisfação com a leitura deste livro, Agosto, de Rubem Fonseca. Superou todas as minhas expectativas. Muito tinha ouvido falar do romance, especialmente, porque o mesmo foi transformado em minissérie pela Rede Globo de Televisão. As 366 páginas do livro foram transformadas em 16 capítulos televisivos. No livro são 26. Os três personagens centrais do livro foram interpretados por José Mayer, no papel do Comissário Mattos, sendo que as duas mulheres de sua vida, Salete e Alice receberam a interpretação de Letícia Sabatella e Vera Fischer, respectivamente. Mas quem me fez mesmo ler o livro, foi a insistente recomendação do meu amigo Sebastião Donizete Santarosa.
A história do Brasil resumida pelo mês de agosto de 1954.

Bem, creio que já entramos na resenha do livro ao enunciar o primeiro trio de personagens. Vamos começar pelos já citados. O Comissário ou delegado de polícia Mattos é uma figura que já não existe mais no serviço público. Ele era honesto e absoluto cumpridor da lei. No curso de direito sempre fora um aluno dedicado. Para conhecê-lo melhor, transcrevo um diálogo mantido junto a Paiva, um outro comissário:

"'O que você quer saber'? Pergunta Mattos para Paiva.

'Moralmente somos obrigados a sacrificar a própria vida, se necessário, para cumprir o nosso dever, que é impedir que se cometam crimes. Não é verdade? Por que não podemos, também para cumprir o nosso dever, matar um bandido para impedi-lo de cometer um crime?'

'Vou responder de maneira bem simples à sua pergunta simplória. Porque a lei não nos dá esse direito. E a lei é feita para todos, principalmente para pessoas que têm alguma forma de poder, como nós. Um policial pode morrer no exercício de seu dever, mas não pode desobedecer a lei'". Página 298-9.

Mattos investigava crimes pesados de toda a ordem. O romance começa exatamente com o assassinato de um empresário de nome Paulo Gomes Machado de Aguiar, o crime do edifício Deauville. O crime é de natureza político-econômica, com favorecimentos governamentais mediados por políticos. Esta investigação ocupa uma das linhas narrativas do romance. As sub tramas nos levam a uma crônica policial do Rio de Janeiro deste agosto de 1954. O comissário Mattos sofria de problemas estomacais, tomando muito leite e estava sempre acompanhado de cápsulas de Pepsamar, um anti ácido, que, por sinal, ainda existe nos dias atuais. As duas meninas do delegado são complicadíssimas e em muito agravavam os seus problemas estomacais.

Mas o mote principal do livro, que lhe dá, inclusive, o título de Agosto, é o suicídio do presidente Vargas, no dia 24 de agosto de 1954. O romance se ocupa exatamente desses dias que antecederam este suicídio. Aí aparece uma outra série de personagens, que são bem conhecidos para os que minimamente conhecem a nossa história. Carlos Lacerda e os políticos da UDN, que junto com os coronéis da aeronáutica tramam pela queda do presidente, políticos do PTB e PSD, a base de apoio do presidente, com destaque para o senador pernambucano Freitas, metido em todas as maracutaias da corrupção governamental. E obviamente o Gregório, o anjo negro de Getúlio, chefe da guarda presidencial. Esta linha de narrativa tornou o romance um romance histórico. É a parte real. A do comissário é a parte da ficção. 

Os destaques desta parte vão para o atentado da rua Tonelero, que era para ter vitimado Carlos Lacerda, o virulento jornalista que tirava o sossego do presidente. Mattos, inclusive, terá participação nos desvendamentos do crime. A outra parte vai para os movimentos finais que antecedem o suicídio. Os momentos da trama palaciana em que as forças militares, a partir da aeronáutica, abandonam o presidente. Não falta também a comoção popular pós suicídio.

Nunca tinha lido uma obra do escritor, por isso mesmo, me impressionou a sua extraordinária capacidade narrativa. Não tem como parar de ler. Várias tramas de investigação correm sempre paralelas e sempre em meio a muita ironia e extremado senso de humor. As frases são curtas e certeiras. Muitos diálogos entre os personagens tornam a leitura muito fluente. Um escritor de muitos méritos. É também um passeio, especialmente, pelas ruas centrais da cidade do Rio de Janeiro. Em suma, teremos três importantes assassinatos e o suicídio do presidente. Apenas para instigar a leitura.


Antes de terminar, recorro ao enunciado no título do post. "o romance da nossa desesperança". O comentário é de  Roberto Pompeu de Toledo, em resenha feita para o jornal do Brasil. Eis a sua justificativa: "Tudo somado, a visão que fica de Agosto é a do emparedamento histórico brasileiro". Sérgio Augusto, em comentário final, contido no próprio livro, assim justifica este qualificativo para o romance: "Nem antes, nem durante, nem depois do 24 de agosto de 1954 o país conseguiu romper com o ciclo do atraso e da violência, da corrupção e da injustiça, da miséria e da demagogia. Não estávamos melhor quando o livro foi lançado; muito pelo contrário: em novembro de 1990 o país atravessava uma das fases mais deprimentes de sua história moderna, daí por que Toledo qualificou Agosto de "o romance da nossas desesperança'". 

E o que dizer dos dias de hoje. O Fla-flu entre a UDN e o PTB continua a todo o vapor e, no atual momento, com ampla vantagem para as forças que levaram Vargas ao suicídio. O comissário Mattos continua sendo assassinada diariamente, várias vezes ao dia. E assim vamos nós, com a soma da voracidade econômica do capitalismo financeiro destroçando um mundo de direitos e o obscurantismo cultural que nos remate, de volta, à idade média.

terça-feira, 4 de junho de 2019

A Guerra. A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil.

Cheguei ao livro A Guerra - A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, de Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias, pela revista CULT, nº 244, na qual havia uma entrevista com Bruno Paes Manso, um dos autores do livro. O título da entrevista foi "Como atuam as milícias - suas origens, a infiltração no poder público e o seu modelo de negócios". Não é o tema do livro, mas é uma decorrência da organização do crime organizado no Brasil, a partir de sua organização maior, qual seja, O PCC, o Primeiro Comando da Capital.
Uma radiografia da organização do crime no Brasil, a partir da hegemonia do PCC.

O livro é impressionante e antes de mais nada deixo a autorizada voz de Drauzio Varella para tecer este comentário, que se encontra na contracapa do livro. "A guerra é um daqueles livros que a gente começa a ler e não consegue parar. Nunca vi descrição tão detalhada e análise tão profunda dos acontecimentos que levaram à formação das quadrilhas que hoje disputam a hegemonia no mundo do crime. É um livro essencial para entendermos a violência urbana que nos aflige e as contradições da sociedade brasileira".

O livro foi concluído em julho de 2018, sendo esta, portanto a data limítrofe dos acontecimentos. O livro foi editado no mesmo ano de 2018, pela Todavia. São 342 páginas, divididas em nove capítulos e uma espécie de conclusão sob o nome de Ubuntu, "filosofia sul-africana que em 1994 serviu de base para que Nelson Mandella e o bispo Desmond Tutu costurassem um novo pacto social para a reconstrução do país no pós-apartheid". Ubuntu emite a opinião dos autores sobre como a questão do crime deveria ser tratada e leva em conta também os estudos de Marielle Franco em sua dissertação de mestrado sobre as UPPs.

Antes de entrar nos nove capítulos deixo ainda a nota de Sergio Adorno, também da contracapa do livro. Síntese perfeita da obra: "Enquanto o crime organizado se modernizou, o Estado permaneceu atrelado ao passado. A expansão do PCC além das fronteiras, os rachas entre facções, a dinâmica dos negócios ilegais, a contabilidade dos mortos, as políticas de regulação e controle social - este livro é um retrato do Brasil contemporâneo sob chamas".

Vamos então aos títulos dos nove capítulos: 1. O racha; 2. As rebeliões; 3. O Projeto Paraguai; 4. O sistema; 5. A consciência; 6. A fronteira; 7. A expansão; 8. O novo mundo do crime; 9. Desequilíbrios e a conclusão sob o título de Ubuntu. Também existe uma radiografia do PCC, com mapas indicando posições do crime organizado e um preciosa indicação bibliográfica.

No primeiro capítulo é mostrada a ascensão do PCC à posição hegemônica do crime organizado, as tentativas de aproximação entre o PPC - Primeiro Comando da Capital (SP) e o Comando Vermelho (RJ), os fracassos destas tentativas e a nova organização do crime, a partir do sistema prisional, com a entrada em cena do telefone celular. Ainda ganha atenção o tema da expansão do PCC, para os estados do MS e PR, por suas posições estratégicas junto a fronteira. O segundo capítulo é uma decorrência da não conciliação entre as duas grandes organizações e o consequente surgimento de inúmeras outras facções, especialmente no norte e nordeste do país. As rebeliões carcerárias e as inúmeras mortes mostram as divergências entre estas organizações.

No terceiro capítulo vemos os avanços do PCC em sua estratégia de aumento de lucros com a eliminação de intermediários, nos caminhos entre a produção e o consumo da droga. Isso implica no domínio das fronteiras no Paraguai, na Bolívia e no Peru e em menor escala na fronteira norte do país. É de estarrecer, especialmente, o que é contado do que ocorreu nas cidades limítrofes entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã e entre Coronel Sapucaia e Capitan Bado. O PCC se torna uma organização criminosa internacional. O capítulo de número quatro conta sobre a organização do crime, a partir do PCC, sua origem e organização até a sua internacionalização, inspirados em grupos colombianos e mexicanos.

O quinto capítulo é dedicação a formação da consciência dos participantes e o sentido de grupo, de pertencimento dos integrantes para com a sua organização criminosa. São mostrados os seus códigos de conduta e de ética. Enfatiza muito os conceitos de hierarquia e de obediência. "O crime precisa se unir. O crime fortalece o crime. Os inimigos são as polícias e o sistema". São apontados também os motivos que levam os jovens ao mundo do crime. No sexto capítulo volta a questão das fronteiras, e mais uma vez, de forma mais específica, as fronteiras com o Paraguai. O sétimo capítulo é dedicado à expansão, com os avanços do PCC pelos estados do Nordeste e do Norte. Um interessante paralelo é traçado entre o PCC e as agências reguladoras. O PCC exerce ou procura exercer esta função no mundo do crime. Outro interessante paralelo traçado é o que mostra o PCC como o STF do mundo do crime.

O oitavo capítulo mostra a reorganização do crime com a entrada em cena do Sistema Prisional Federal, na tentativa de desmantelar o crime e também da formação das milícias e o seu confronto com o mundo do crime. É crime contra o crime. "Milícias e policiais engrossaram o caldo da opressão armada, sob o aplauso da população amedrontada, que também tinha raiva e aposta na violência para se proteger. Como se fosse impossível escapar desse ciclo autodestrutivo". O nono capítulo mostra divergências ou desequilíbrios do PCC no exercício do poder, por brigas na disputa pela liderança interna e a generalização da violência quando os grupos entram em conflito. São as inúmeras mortes nas prisões e fora delas.

No Ubantu lemos, na voz de Marielle Franco, em sua dissertação de mestrado: "O mais correto, se estivesse em jogo uma alteração qualitativa na política de Estado e de Segurança Pública, seria nominar as UPPs de Unidades de Políticas Públicas, por se tratarem de uma necessária mudança cultural em territórios nos quais a presença do Estado não ocorre na completude. [...] O que ocorre é uma propaganda geral pela paz, na qual a polícia, e não a política, ocupa lugar central. [...] A abordagem das incursões policiais nas favelas é substituída pela ocupação do território. Mas tal ocupação não é do conjunto do Estado, com direitos, serviços, investimentos, e muito menos com instrumentos de participação. A ocupação policial, com a caracterização militarista que predomina na polícia do Brasil". 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O anjo silencioso. Heinrich Böll. Nobel de literatura 1972.

Lendo Terceiro Reich - Na história e na memória, de Richard J. Evans, me deparo com a indicação do livro de Heinrich Böll, O anjo silencioso, com a anotação de que ele fora um soldado na Segunda Guerra Mundial e que fora agraciado com o Nobel de literatura, no ano de 1972. Me despertou a curiosidade e o adquiri com facilidade. Foi o primeiro de seus livros, mas não publicado por ocasião de sua escrita, em 1950. Foi publicado apenas em 1992, como veremos.
A edição deste livro foi posterior à concessão do Nobel de literatura ao seu autor.

Vamos começar situando o escritor. Ele nasceu em 1917 e morreu em 1985. A católica Colônia era a sua cidade natal. Como vimos, teve participação direta na Segunda Guerra. A narrativa do romance começa no dia 8 de maio de 1945, o dia do término da guerra na sua parte ocidental. Neste exato dia ele retorna para a sua cidade. Dá para imaginar o cenário da guerra? Nada mais era igual ao início do conflito. Tudo era fome, dor e destroços. Destroços físicos e destroços morais. Havia pessoas boas e pessoas que representavam a perpetuação das maldades que provocaram a guerra. Para estes, o espectro de Auschwitz não parecia assustar.

O livro tem seu primeiro momento narrativo forte com a deserção de Hans Schnitzler do exército alemão, já em pândegas. Na hora de sua execução, a sua posição é trocada por iniciativa do sargento Willi Gompertz. Este lhe deixa o seu casaco e, dentro dele, um bilhete dirigido à sua esposa Elizabeth Gompertz. Ele chegará à cidade de Colônia, em busca da viúva, que deixara o hospital em que se encontrava em tratamento. Fornecem-lhe o endereço. Ele a encontra e lhe deixa o bilhete, que tratava da questão da herança deixada deixada.

Hans passa por todas as privações possíveis de serem imaginadas. Por três semanas permanece deitado. Não tem mais identidade, vive de mendicância, de caridade e de furtos. Mas mantém a sua idoneidade moral. Ao ganhar o vale de um pão, explode em felicidade. Ao trocá-lo, o pão acabara e ele tem o seu vale rasgado e o papel se esparrama pelo chão, como em migalhas. A mulher briga com o senhor que destratara o pobre Hans. A mulher era a rica viúva, senhora Gompertz. O homem era o senhor Fischer, conceituado intelectual católico e conselheiro do cardeal e interessadíssimo em receber a herança do sargento Willi. Gente poderosa, mas insensível. Em suas andanças, Hans encontrara Regina, que acabara de perder seu filho. Trocam o que ainda lhes sobrara, afetos de ternura, de carinho de sensibilidade.

Nas andanças, Hans vai aos escombros de uma igreja. Ouve cantos e se comove. Procura o padre. Este o recebe sob a forma da própria humildade e dedicação. Descobre que Hans era antigo paroquiano seu. O acode em suas necessidades do momento e prometem reencontro. Este se deu e Hans pede ao padre para ser ouvido em confissão. O padre o aconselha a casar-se, mas só sob a condição de antes se casarem no civil. Isso é impossível a Hans, simplesmente pela falta de documentos. O padre então corre todos os riscos junto a seus superiores e promete celebrar o casamento. Dá-lhe pão e uma garrafa de vinho. Hans e Regina celebram.

Elizabeth está novamente internada e o seu estado só piora. Dr. Fischer está rondando em busca do bilhete. Elizabeth morre e o doutor fuça pelo chão poeirento e sujo de sangue, em busca do bilhete. Hans chega e diz que a busca seria inútil, para a fúria do doutor, também entretido com a edição de um jornal católico. O doutor Fischer é o personagem usado pelo escritor para mostrar o lado falso da igreja católica, insensível, culpada e co-protagonista dos males do regime que levou o país à guerra. Em contraposição, o humilde padre da igreja em destroços era a generosidade e a bondade da verdadeira igreja católica. Este tema sempre esteve presente nas obras do consagrado escritor. O anjo é uma escultura encontrada em meio aos escombros, que silenciosa assombra Hans.

Na época da conclusão da obra, ela não foi publicada. As dores do momento de reconstrução saíam das chagas ainda vivas. Ela só foi publicada postumamente, em 1992, quando ele já havia sido laureado com o Nobel de literatura em 1972. São outras obras do autor: A honra perdida de Katharina Blum; Bilhar às nove e meia; mulheres em paisagem de rio e fim de uma viagem.

O livro não é longo. A edição da Estação Liberdade tem 202 páginas, que contém 19 pequenos capítulos e um primoroso prefácio do professor Paulo Soethe. A tradução é de Karola Zimber. Deixo ainda a apresentação do livro, das orelhas do mesmo. "O anjo silencioso, primeiro romance de Heinrich Böll, ambientado na Alemanha da "hora zero", o imediato pós-guerra, foi escrito em 1949-51, mas só publicado recentemente, após ter sido liberado pelo espólio do autor. O que nos é apresentado aqui é, de um lado, um país exaurido e arrasado física e moralmente, e, de outro, o supremo alívio pelo fim das hostilidades, o renascer da vida em todos os sentidos.

O livro começa no dia 8 de maio de 1945, dia da capitulação alemã, e nos conduz a um longo mergulho numa cidade alemã da qual não sobra muito mais do que um enorme amontoado de escombros (na verdade, Colônia, cidade natal do autor). Essa paisagem apocalíptica de uma das mais importantes cidades do país inteiramente destruída era algo indigesto demais para o leitor daquela época, e, depois de um ano de idas-e-vindas, a editora acabou desistindo de publicar a obra.

O manuscrito ficou portanto engavetado e representou para Böll material para longa reflexão e humo para uma carreira que seria brilhante, até sua coroação como Prêmio Nobel em 1972. Um dos temas aqui tratados, a dupla moral católica, passaria a ser recorrente em seu trabalho literário, e colocaria Böll numa trincheira de toda vida contra o establishment religioso (e político) alemão.

Para quem vê a Alemanha de hoje, é um tanto árduo imaginar o que pode ter sido a existência no período da "hora zero", e aí reside o interesse da presente obra. Revelação póstuma, a obra fez furor na Alemanha quando de sua tardia publicação. Em texto de forte conteúdo autobiográfico - Böll foi soldado raso durante a guerra e passou pelo trauma de voltar a sua cidade destruída após a liberação do cativeiro pós-guerra -, um soldado um tanto cínico, que desertou com documentos falsificados, volta à cidade natal destruída pelas bombas, em busca de pão, de um teto e de afeto. Ele encontra ternura, mas também a frieza e a engenhosidade dos mais diversos contrabandos, dos interesses escusos, numa estafante busca da viúva de um colega fuzilado. Preservada, no entanto, mantém-se a brasa do amor, emprestando literalmente esperança a seres humanos para quem ela é a mais imediata necessidade".

Para terminar, uma pequena passagem para mostrar o que era a alegria, a felicidade e a esperança que movia a vida neste tempo da "hora zero": "Ela se ergueu cansada, colocou água no fogão, carregou lenha, e, enquanto a água aquecia, contabilizou os seus tesouros: meia garrafa de vinho, metade de um pão, um pouco de geleia, um teco de margarina, uma xícara inteira de pó de café, que ela havia fechado cuidadosamente com papel manteiga, fumo e papel para enrolar cigarros e dinheiro, dinheiro na gaveta, um pequeno monte de cédulas sujas: quase 1.200 marcos e os cinquenta que Hans lhe havia dado; sua riqueza lhe pareceu grande e consoladora". O cigarro parecia ser gênero de primeira necessidade nesses tempos. Ele está onipresente.

terça-feira, 28 de maio de 2019

O Uraguai. Basílio da Gama. Vestibular. UFPR.

Cheguei a O Uragaui, de Basílio da Gama, pela indicação do livro para o vestibular da UFPR. De início achei a indicação um tanto estranha, mas após a leitura, creio que foi plenamente justificada a sua indicação. Como é uma obra relativamente distante no tempo, ela foi publicada pela primeira vez em 1769, ela precisa ser situada e datada. Vamos então ainda datar o autor, que nasceu na atual Tiradentes, MG. e morreu em Portugal em 1795. Um detalhe interessante é o do nascimento de sua mãe, na cidade de Colônia do Sacramento, fato que certamente o levou ao tema.
A edição que eu recomendo. Facilita a leitura. A forma original era um poema.

Um velho hábito meu de professor é o de afixar bem uma data. Vamos então tomar o ano da publicação do livro como a data referência. 1769. O que aconteceu no entorno da data? Não é difícil ver duas datas importantes, logo adiante, no cenário mundial. 1776, a independência dos Estados Unidos e 1789, a Revolução Francesa. Ambas, frutos do iluminismo. Agora vamos a datas não tão visíveis. 1540, a fundação da Companhia de Jesus, ou a ordem dos padres jesuítas, fundada por Inácio de Loyola. Outra data importante é a de 1750, o ano da realização do Tratado de Madri. Por este Tratado é que se ordenou a destruição da experiência dos padres jesuítas, chamada de Missões ou de Reduções. Pelo Tratado de Madri foi trocada a cidade de Colônia do Sacramento (portuguesa) pela região dos sete povos das Missões (espanhola) e com o trato de que os dois reinos teriam que entregar a área sem a presença da experiência dos jesuítas. O Tratado teve como consequência direta a chamada guerra guaranítica, entre 1754 e 1756, ano em que se deu por concluída a missão da destruição. Esta guerra e os seus heróis são tema do poema. Heróis portugueses e indígenas e os perversos jesuítas. 

A existência da experiência das missões é consequência direta da ação dos bandeirantes em sua ação de captura dos povos indígenas para a escravidão e para a pilhagem de suas riquezas. Os padres jesuítas vieram em sua defesa, os aldearam, chegando inclusive a obter uma autorização do rei espanhol para andarem armados, diante da brutalidade dos bandeirantes. Esta experiência sobreviveu por muitos anos. Os padres, de maneira geral eram jesuítas alemães, o território era paraguaio, ocupando áreas que hoje pertencem ao Paraguai, a Argentina e ao Rio Grande do Sul. Hoje temos nesta região sete patrimônios culturais da humanidade: dois no Paraguai, quatro na Argentina e São Miguel, no Rio Grande do Sul.

As Missões são uma experiência que resistiu ao longo do tempo. Eu costumo apresentar a data de 1641, ano em que ocorreu a batalha de M'bororé, como a data em que elas se consolidaram, pois nesta batalha houve a derrota dos bandeirantes. Mas a experiência já começara muitos anos antes. Os bandeirantes foram tocando os índios para a região onde hoje encontramos as suas ruínas. Foram assim, podemos afirmar sem margens para erro, bem mais de cem anos de uma experiência coletiva bem sucedida, que obviamente foi percebida com preocupação pelos europeus, à luz do nascente liberalismo/individualismo.

Situado o tema, vamos ao autor. O Gama, do sobrenome de Basílio, remonta ao navegador Vasco da Gama. "Sangue bom", portanto, nas veias. Basílio iniciou os seus estudos com os padres jesuítas. Do Rio de Janeiro foi para a Europa, parando em Roma, participando da arcádia literária romana, provavelmente sob o amparo dos jesuítas. Depois se afasta deles para, ao que tudo indica, atender a seus interesses pessoais, junto à Coroa portuguesa, nos tempos do Conde de Oeiras, futuro todo poderoso Marquês de Pombal. Por ocasião do casamento da filha de Pombal lhe presta homenagem, exaltando, não a noiva, mas o próprio pai. Cai nas suas graças. Lembrando que em 1759 Pombal expulsara os jesuítas de Portugal e de suas colônias. Tempos do despotismo esclarecido, frutos do iluminismo, e de combate ao obscurantismo das medievais posições dos jesuítas. A ordem dos jesuítas chegou até a ser, temporariamente, extinta pela igreja católica.

Vamos à obra. Li a edição da LPM Pocket, com organização e apresentação de Luís Augusto Fischer. A edição ajuda a entender a obra, um poema, escrito em tempos em que praticamente ninguém sabia ler. Se escrevia para mostrar habilidade técnica nos versos. Com certeza, Basílio da Gama conseguiu o seu intento. Mas um poema desta época dificulta a sua leitura. O que fez então o organizador desta edição. Nas páginas à direita ele apresenta o poema e as notas do original  e nas páginas à esquerda apresenta a obra em prosa. Não é um poema longo. Ele é apresentado em cinco cantos e 1377 versos. O Uraguai também poderia ser O Uruguai. As duas grafias eram válidas na época. É uma referência ao rio. No primeiro canto o tema é apresentado. Limpar a área da escravidão imposta aos índios guaranis pelos jesuítas. Aparecem os principais personagens.

No canto segundo são apresentados os heróis portugueses e também, pela primeira vez, aparece Sepé, o herói indígena. Mas aparecem também os maldosos jesuítas que queriam, contra os portugueses, construir um império sob sua dominação. Armaram os índios contra os portugueses. O padre Balda e seu filho Baldeta são o objeto de seu ódio maior. Sepé é morto. No terceiro capítulo aparece Cacambo, que incendeia o acampamento português e volta ao acampamento para a sua bela Lindoia. passa a ser vítima das pretensões e ardis do padre Balda. Tanajura, uma velha índia passa a ter visões. Ela tem diante dos olhos e terremoto de Lisboa e a reconstrução da cidade, já livre dos nefastos jesuítas, apresentados como os filhos da ambição.

No quarto capítulo ocorre a destruição final das missões. A redução é incendiada pelo padre Balda, a começar pela velha Tanajura e o desespero de Caititu, irmão de Lindoia, morta pelo veneno da serpente.  Ocorre a fuga dos indígenas, permitida pela generosidade dos portugueses. No canto quinto, a liberdade é restituída entre os povos indígenas, Portugal viverá tempos de glória, com o confinamento dos jesuítas para a China e para o Japão e o autor passa a viver as glórias da arcádia portuguesa.

Como veem Basílio da Gama toma o partido dos portugueses e procura defenestrar a ordem religiosa que o formou e o protegeu. Dos índios mantém uma visão romântica e lhes exalta a valentia. assim que, livres do jugo dos jesuítas. Em compensação o autor se deu "bem" na vida. São escolhas. Da minha parte eu tenho duas recomendações: a primeira é a de visitar as Missões, de preferência começando pelo Paraguai e vindo pela Argentina para São Miguel, já no Rio Grande do Sul. Foi esta a ordem dos avanços, deste movimento que Umberto Eco chamou de "santo experimento". A segunda recomendação é a leitura do livro do padre jesuíta suíço, Clóvis Lugon, A república comunista cristã dos guaranis. É a mais bela exaltação a este "santo experimento", do qual, mais uma vez, na voz de Umberto Eco, o papa Francisco é um herdeiro. Deixo, finalmente a resenha do livro do padre Lugon.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/05/a-republica-comunista-crista-dos.html 

PS. em 03.05.2025. Retirado de Bandeirantes e pioneiros. Paralelo entre duas culturas (Civilização brasileira. 1969. 9ª edição). "Fato singularmente sintomático: a primeira obra brasileira realmente digna desse nome, o poema O Uruguai, de Basílio da Gama, obra que marca, em meados do século XVII, o primeiro momento de nossa emancipação literária, senão também o primeiro momento da Conjuração Mineira, é livro de exaltação ao bandeirante e de ataque ao jesuíta.

Efetivamente, nesse poema, em que é relatada a guerra de extermínio que, em nome de Portugal e Espanha, os bandeirantes moveram aos Sete Povos das Missões, por não quererem os indígenas, inspirados pelos jesuítas, submeter-se ao Tratado de Madri, assinado em 1750 entre os dois países, o herói é o bandeirante, ficando reservado ao jesuíta o papel de vilão.

Depois de O Uruguai, surgiram, com os grandes sinais de brasilidade, novas contribuições ao processo de promoção a símbolo da imagem do bandeirante. Cláudio Manuel da Costa escrevia o seu poema Vila Rica e, em 1871, Santa Rita Durão, mineiro de Mariana, publica, em estilo camomiano, o Caramuru, movido pelo 'amor da pátria' e por julgar que os 'sucessos do Brasil não mereciam menos um poema que os da Índia'. A pretexto de reconstituir o naufrágio de Diogo Álvares e a sua galante aventura com Paraguaçu, visa o poema, na verdade,, a descrever a terra e as gentes do Brasil e o episódio da conquista". Páginas 192-193. 


sábado, 25 de maio de 2019

A classe média no espelho. Jessé Souza.

Conheci Jessé Souza numa Aula Magna, de abertura de ano letivo, do curso de direito da Universidade Federal do Paraná, em fevereiro de 2016, quando ele ainda era o presidente do IPEA. Foi uma manhã memorável e confesso que fiquei profundamente impressionado diante da grandeza do intelectual convidado. Deixei o Registro. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/03/aula-magna-curso-de-direito-da-ufpr-com.html
No espelho. Um retrato da classe média brasileira. Valores e comportamentos.

Tinha acabado de ler A tolice da inteligência brasileira, que me causou grande impacto pela sua visão singular de todos os grandes intérpretes desse país. Na fala, o tempo todo, ele se referiu às interpretações dadas no livro. Depois li A elite do atraso - da escravidão à lava jato, em que ele penetra nas entranhas da elite brasileira e na criação de mitos em favor de seus interesses a partir dos anos 1930, após as derrotas de 1930 e 1932. A USP foi então fundada para ser o think tank desta "elite atrasada".

Agora terminei de ler A classe média no espelho - sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade. A cada obra, o intelectual vem se superando. Apenas para registrar desde já, neste livro ele nos apresenta a Santíssima Trindade do pensamento da "elite do atraso", forjada a partir de São Paulo, nos anos de 1930 e que atingiu a sua plenitude nos anos de 1990. As três pessoas são; Sérgio Buarque de Holanda, que é apresentado como seu filósofo, Raimundo Faoro como seu historiador e Fernando Henrique Cardoso como seu realizador, em seus dois mandatos presidenciais. O porquê deste laurel está amplamente explicitado nos livros anteriores e também neste. Esta frase é altamente significativa e ajuda na compreensão: "Não há dominação de poucos sobre muitos sem o recurso à mentira e ao engano". Esta frase seria um possível guia para o presente livro.

As mentiras e enganos da elite são mostrados ao longo das 285 páginas do livro. Além de introdução e conclusão, o livro tem dois capítulos e a apresentação de trajetórias de vida e análise destas trajetórias de vida. O primeiro capítulo é sobre a moralidade da classe média e o segundo é sobre a construção histórica da classe média brasileira. As trajetórias de vida passam pela alta classe média  e pela análise destas entrevistas, repetindo-se, depois, entrevistas e interpretações com a massa da classe média.

O primeiro capítulo é precioso, a começar pelo título: A moralidade da classe média. É todo dedicado à construção histórica dos valores morais e tem um profundo cunho filosófico, histórico e até mesmo religioso, uma vez que estamos no campo da moralidade. O capítulo apresenta três tópicos, a saber: a classe média e a construção do homem moderno; a invenção histórica do "ser humano sensível" e o aprendizado moral e justificação de privilégios. Max Weber é a principal referência, mas a questão da constituição histórica dos valores é bem nietzschiana. Estes valores morais, que no mundo antigo diziam respeito à interioridade do sujeito, no mundo moderno passaram a ser exteriores e mediados pelo trabalho útil e suas recompensas. Tudo a ver com o protestantismo, a religião burguesa por excelência. Quem pratica a ética do trabalho útil merece as suas recompensas. Não confundir com o hedonismo! Ou seria o próprio. Tudo a ver também com a hipócrita ideologia da meritocracia, como se os indivíduos fossem abstraídos de suas trajetórias de vida e de seus meios sociais. Um capítulo fabuloso.

O segundo capítulo é destinado especificamente ao Brasil. A construção da classe média brasileira. Este capítulo é mais longo e é apresentado em seis tópicos: A gênese da classe média brasileira;  o campo na cidade; o advento do capitalismo industrial; a construção dos projetos nacionais: um mais inclusivo e o outro excludente; a oposição entre mercado e Estado como expressão da luta de classes - e a classe média como fiel da balança e o golpe de 2016 e suas precondições: o capitalismo financeiro e o papel das classes médias.

Como veem, história e interpretação sociológica. Nos livros anteriores o autor trata à exaustão a questão da escravidão, mostrando que este gene não foi extinto e que continua sendo a característica maior do ódio de classes que persiste ao longo de nossa história. Quando a escravidão foi abolida, para manter os escravos à margem do processo produtivo, abriu-se o país para a imigração. Estes são em grande parte responsáveis pela construção de um país urbano e industrial. Produziram aqui os produtos que antes importavam. Mas nem todos queriam isso e carecemos, até hoje, de um processo pleno de industrialização. As elites e a classe média alta preferiam ostentar produtos importados, até hoje, comprados em Miami, de preferência. Em 1930 dá-se uma ruptura profunda, analisada nos livros anteriores. Duas derrotas da elite paulista. !930 e 1932. Então cria-se a USP, para ser o think tank da elite do atraso. A mídia já existia, constituída na década anterior. E se celebra um pacto entre a elite e a classe média emergente.

A volta aos livros anteriores se dá, pelo que o autor apresenta de forma bem irônica e humorada, pela apresentação da Santíssima Trindade do pensamento liberal conservador da elite brasileira. Sérgio Buarque de Holanda inventa o homem cordial, representado pelo coração e não pelo espírito ou pela razão. Esta, a razão ou o espírito, é uma qualidade superior que apenas o protestante anglo detém. Está criado o conceito de vira lata. Nos autoconsideramos como inferiores. Que os superiores administrem as nossas riquezas. Somos incapazes de geri-las de geri-las de forma privada e empresarial, isto é, com eficiência. Aí entra em cena a segunda pessoa da Trindade. Raimundo Faoro. Este aponta para o patrimonialismo do Estado brasileiro, uma herança portuguesa, que diz que o Estado é absolutamente infestado pela corrupção. Assim faz -se a oposição entre o Estado, espaço da corrupção e o mercado, espaço sagrado do dinamismo, da eficiência onde a corrupção jamais penetra em função do comando do espírito e da razão e uma condução ética dos negócios.

Em meio a isso temos Vargas e Jango. Tivemos as significativas datas ligadas a golpes. 1954 (o golpe foi abortado em função do suicídio),  e 1964. Do outro lado tivemos Lacerda (UDN), os militares e a terceira pessoa da Santíssima Trindade, Fernando Henrique Cardoso, que para abreviar a história, queria simplesmente destruir no país o último grande obstáculo para que a elite governasse de acordo com a sua vontade. Aí surgem Lula e Dilma com políticas de cidadania e inclusão social. Mas a elite e a classe média está devidamente instrumentalizada através da mídia e do poder judiciário, com a justiça seletiva contra as políticas públicas de inclusão e em favor da posse e controle de todo o orçamento do estado em favor dominantes, que não são muitos, uns 800, como diz de seus serviçais no capítulo das entrevistas. Vejam esta outra impressionante afirmativa deste CEO:  "Claro que tudo é justificado como mecanismo de combate à inflação, e não para enriquecer os ricos. Para quem vê isso tudo funcionar a partir de dentro, como no meu caso, é até engraçado", afirma o CEO de um banco, no capítulo de entrevistas. Um capítulo de bastante ousadia.

Este capítulo de entrevistas é muito valioso e impressionante, em especial, os da alta classe média. Estes estão grudados na elite e viram em Bolsonaro, tanto o candidato de seus sonhos, quanto o de suas frustrações, pelo medo de verem no retrovisor a chegada dos incluídos pelas políticas públicas de inclusão social. Estes mais no campo da massa da classe média. Também não faltam críticas aos governos do PT., especialmente, por não terem ampliado estas políticas inclusivas e por não ter conseguido, por emissora de comunicação pública, mostrar ao povo a origem destas políticas como advindas de um projeto de Estado. Em suma, uma livro de leitura, diríamos obrigatória.

Apresento ainda a contracapa do livro: "Em seu mais recente e aguardado trabalho, Jessé Souza traz uma reconstrução histórica e social da classe média brasileira que você nunca ouviu nem leu em nenhum outro lugar.

A classe média no espelho  consolida sua posição como uma nova e brilhante voz na sociologia, num texto instigante, fluente, acessível e vibrante.

Com um panorama histórico inédito, você vai conhecer as origens dos seus valores morais e desvendar os mecanismos que há tanto tempo manipulam a classe média e mantém sua docilidade frente à sua exploração pela elite".

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Terceiro Reich. Na história e na memória. Richard J. Evans.

Costumo preparar minuciosamente as minhas viagens. Como estou projetando uma para a Alemanha e para as capitais próximas como Praga, Bratislava, Budapeste e Viena, comecei esta preparação com a leitura de Terceiro Reich - Na história e na memória - Novas perspectivas sobre o nazismo, seu poder político, sua intrincada economia e seus efeitos na Alemanha do pós-guerra. O autor é o londrino Richard J. Evans, com tradução de Renato Marques. A edição original é de 2015 e a brasileira de 2018, pela Crítica.
O ilustrativo livro de Richard J. Evans.

O autor é  um especialista em história da Alemanha e foi professor nas universidades de Colúmbia e de Londres, lecionando hoje na universidade de Cambridge. Ele é o autor de uma trilogia que é considerada como o mais importante estudo sobre o nazismo. Apenas isso! A trilogia tem os seguintes títulos: A chegado do Terceiro Reich; Terceiro Reich no poder e Terceiro Reich em guerra. Para datar o autor, constatamos que ele nasceu em 1948.

A obra é densa, de quem efetivamente conhece o tema. Fiquei agradavelmente surpreso com a qualidade da obra, pela precisão das informações e a sua contextualização. Ele abrange a origem dos fatos históricos, os contextualiza durante a guerra e mostra, e este é objetivo maior da obra, as múltiplas consequências que estes fatos provocaram. A primeira afirmação que posso fazer é de que a minha perspectiva de leitura foi inteiramente alcançada e já estou bem mais apto para empreender a minha viagem. Quem tem poucas oportunidades para viajar tem que aproveitá-las muito bem.

Como atualmente vivemos uma situação extremamente conturbada no Brasil, também estou me dedicando a leituras sobre a questão do fascismo e do nazismo. Tenho duas indicações  prévias a fazer. Uma é do escritor Philip Roth, Complô contra a América, uma memorável ficção sobre os Estados Unidos frente a Segunda Guerra http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/04/complo-contra-america-philip-roth.html e o extraordinário Espelho do ocidente - o nazismo e a civilização ocidental de Jean-Louis Vullierme http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/espelho-do-ocidente-o-nazismo-e.html. Mas vamos ao livro de Richard J. Evans.

Ele tem 495 páginas, distribuídas ao longo de um prefácio e sete capítulos. No prefácio ele apresenta a Alemanha a partir de sua unificação, em 1871. Da unificação à formação de um Império poderia ser o título desta apresentação. Os capítulos tem os seguintes títulos, que especificarei logo em seguida: 1. República e Reich; 2. Por dentro da Alemanha nazista; 3. A economia nazista; 4. Política externa; 5. Vitória e derrota; 6. A política de genocídio e 7. Consequências e desdobramentos.

O primeiro capítulo, República e Reich, tem os seguintes subtítulos: Projeto de genocídio?; imaginando o Império; A derrota de 1918; Walter Rathenau; Berlim na década de 1920 e Forasteiros sociais. As abordagens são de encher os olhos, especialmente, de lágrimas. Projeto de genocídio? Ao que tudo indica, sim. As práticas de extermínio tiveram uma escola de treinamento no colonialismo que a Alemanha impôs ás sua colônias na África, especialmente, na Namíbia. Ali se formou e se forjou o conceito de "raça inferior útil". Ali não houve uma missão civilizadora mas experimentos científicos e práticas de extermínio. Observe-se que isto era uma regra gral do colonialismo. Com este prenúncio não fica difícil imaginar a pretensão da formação de um Império. Todas as nações o queriam. O mais impressionante tópico é, sem dúvida, o último que poderia receber um título como as origens do ódio e da segregação, desde as guildas e o desprezo pelas pessoas que ocupavam as funções inferiores na divisão social do trabalho. Um horror de "processo civilizatório".

O segundo capítulo, Por Dentro da Alemanha nazista, tem os seguintes subtítulos: Coerção e consentimento; A "Comunidade do Povo"; Hitler era doente e Adolf e Eva. Creio ser visível, pelos títulos, a importante questão da adesão ao nazismo e os esforços de propaganda neste sentido. O sentir-se "alemão" e o orgulho da raça ariana foram os conceitos amplamente trabalhados e, com sucesso. E mais dois tópicos de curiosidades que envolvem a vida do Führer.

O terceiro capítulo, A Economia Nazista, é um fenômeno à parte. Tem os seguintes subtítulos: Recuperação econômica; O "Carro do Povo"; As armas da Krupp e o simpatizante. É sabido que Hitler recuperou a economia alemã, domando a alta inflacionária e eliminando o desemprego. A indústria bélica em muito ajudou. A história da estatal Volkswagen é muito interessante, desde a sua concepção, seus usos e a modernização da fábrica. A história da Krupp é de arrepiar. A família Krupp me lembrou muito os novos ricos empresários brasileiros e a sua vontade absoluta de enriquecimento, passando por alto sobre toda a questão da cidadania e dos direitos. Krupp exerceu o que se pode chamar de "escravidão com trabalho remunerado", que se tornou uma prática constante, que culminou com as mortes por exaustão nos futuros campos de concentração. A Krupp se transformou no atual poderoso grupo da Thiessen. O simpatizante é um empresário, absolvido nos tribunais, Alfred Toepfer, que criou uma fundação, sediada em Hamburgo, que financia estudos sobre o nazismo. Uma interessante questão, um tanto particular ao autor. A meu ver faltou o envolvimento da IGFarben neste capítulo.

O quarto capítulo, Política Externa, tem os seguintes subtítulos: O aliado de Hitler; Rumo à guerra e nazistas e diplomatas. É evidente que o grande aliado de Hitler foi Mussolini e que os seus grandes inimigos foram a França, a Inglaterra, a União Soviética e os  Estados Unidos. Estes tópicos contém interessantes revelações sobre a diplomacia deste conturbado período. O autor procura desvendar se o Ministério era, ou não, linha auxiliar do regime nazista. Busca ainda esclarecer sobre este Ministério no pós-guerra.

O quinto capítulo, Vitória e Derrota, apresenta os seguintes temas: Decisões fatídicas; Engenheiros da vitória; O alimento da guerra, Derrota na vitória e Declínio e queda. Muito mais do que decisões que possam ter sido contestadas, a força econômica dos aliados foi o fator que pesou mais forte. O capítulo vale, especialmente, pelo fato de mostrar o intrincado xadrez dos passos da guerra, tanto nos avanços quanto na derrocada nazista e os bastidores destas terríveis decisões. Também é dada a devida importância para a questão dos alimentos, a produção de novas armas e a questão dos combustíveis ao longo da guerra. Estes fatores foram absolutamente determinantes. Ao final a questão da não suspensão da guerra é levantada. Ela se arrastou, mesmo após a derrocada.

O sexto capítulo, A Política de Genocídio, aborda as seguintes questões: Império, raça e guerra; A "Solução Final" foi singular?; Os campos de morte da Europa. Logo no início do regime Hitler pede a seus seguidores fechar o coração para a piedade e convoca os alemães a agir com brutalidade, pois o judeu era o inimigo mundial a ser derrotado. Este era o grande projeto de Hitler, que na juventude se aproximou da ópera de Wagner e dos romances de Karl May, que possivelmente o influenciaram. Quanto a "solução final", ou a ordem de extermínio dos judeus, a morte já era uma prática bastante comum nos regimes de dominação que a Europa impôs nos tempos do colonialismo. Com Hitler se chegou aos extremos, formando par com Stálin. Outra abordagem que acompanha todo o livro é a questão de Hitler com o leste europeu. Aí estava o "Lebensraum" do Império. A expansão dos Estados Unidos, em sua marcha para o oeste, serviu de inspiração.

O sétimo e último capítulo, Consequências e Desdobramentos apresenta estes tópicos: O outro horror; Utopias urbanas e Arte em tempos de guerra. O outro horror foi a viagem de volta dos alemães, do leste europeu para a Alemanha, um tempo pouco estudado no período pós-guerra. As utopias urbanas se relaciona aos projetos urbanos pós destruição, pelos bombardeios aéreos e as cidades sob novas perspectivas urbanísticas. O último tópico fala de roubos. Os mostra ao longo da história e também os saques praticados pelos alemães.

Deixo ainda, a contracapa do livro, junto com a recomendação de leitura e, de um modo todo especial, para os professores e estudiosos da história: "Uma das maiores autoridades mundiais sobre o nazismo, o historiador inglês Richard Evans, autor da trilogia que é a maior referência sobre o assunto, explica neste livro como o nosso entendimento sobre a Alemanha nazista vem se transformando no século XXI. Através de uma série de ensaios e textos, ele aborda diversos pontos que vivem sob o escrutínio. Analisa, por exemplo, a ação global de companhias alemãs criadas na época do nazismo, como a Volkswagen: mostra como os historiadores passaram a enxergar o Holocausto não como um evento histórico único, mas como um genocídio com similaridades aos praticados em outros países e em outros tempos. Cada tópico é discutido em um texto separadamente, facilitando a leitura e a compreensão".