segunda-feira, 4 de março de 2013

As Mulheres e a Academia Brasileira de Letras.

Como estamos na semana em que se comemora o dia Internacional da Mulher, não poderíamos deixar de fazer uma referência a elas. Creio ser até desnecessário dizer do caráter machista da cultura ocidental, mas aproveito para dar uma palavrinha para Paulo Freire, para falar de sua luta pessoal contra a cultura macha em que estamos inseridos. O contexto da fala é sobre ética: "[...] Mas o que é preciso, é acabar com isso e, obviamente, com humildade. Eu não digo a ninguém que eu estou em processo de briga contra o meu machismo e, eu estou com setenta anos. Eu estou brigando para acabar com as marcas da herança, sobretudo eu, do nordeste, para acabar com isso. Eu tenho superado um bando de coisas, um bando. A linguagem está totalmente modificada. Não é mais linguagem macha, de jeito nenhum, de jeito nenhum".

Mas o que eu quero registrar mesmo é a luta das mulheres para que elas pudessem entrar na Academia Brasileira de Letras. Quem nos conta é um de seus acadêmicos, Jorge Amado. O seu relato está contido no Navegação de Cabotagem, sob um título do ano de 1977, O Robe de Ouro. O ano de 1977 e a referência ao robe remete à data em que a primeira mulher entrou para a Academia Brasileira de Letras. Foram oitenta anos de clube do bolinha. Jorge Amado culpa diretamente a Machado de Assis, o seu fundador, pela situação:
Jorge Amado nos conta neste seu livro, sobre a dificuldade que foi a entrada das mulheres na ABL.

"Essa história de exclusão das mulheres dos quadros acadêmicos foi uma das salafrarices cometidas por Machado de Assis quando fundou a chamada Ilustre Companhia, não foi a única, sujeitinho mais salafrário nosso venerado mestre do romance. Custou-lhe esforço chegar a branco e a expoente das classes dominantes, mas tendo lá chegado não abriu mão de nada a que tinha direito". Vejam o Jorge Amado. Sempre tão elegante. Afirma ainda que Machado impôs dois vetos: "Nem boêmios - Emílio de Menezes só pôde ser eleito após a morte de machado - nem mulheres.

Jorge ainda conta que havia na época uma escritora, que se não fosse colocada entre os quarenta ilustres e se ela reclamasse, o escândalo estaria feito. Trata-se de Júlia Lopes de Almeida, cujos livros Jorge recomenda. Machado tirou a questão de letra. Nomeou o marido no lugar dela, isto devidamente, combinado com ela. Do marido se conheciam apenas livros de louvor e homenagem. Jorge também nos conta outro detalhe interessante: "Também vem de Machado a tradição das cadeiras reservadas aos candidatos das diversas categorias do poder, cadeiras cativas do Exército, da Igreja, do Judiciário, das letras médicas: a tradição dos expoentes perdura ainda hoje".

Conta ainda um detalhe dos debates em torno da nomeação da primeira mulher. Ele abre o voto do companheiro Hermes Lima (Foi primeiro ministro de Jango) de quem ele jamais esperava o voto contrário: "Voto contra". E se justificou: "Isso aqui não passa de um clube de homens, Jorge, no dia em que entrar uma mulher nem isso mais será: nossa paz se terminará, a fofoca substituirá a convivência". Que horror! E isso porque o homem era progressista.

Antes Jorge já havia defendido a poetisa Gilka Machado e, justifica: "Poetou sobre o desejo da mulher, a tesão pelo homem, o amor sem peias quando as outras reservavam o coito para os confessionários das igrejas: ousou quando a ousadia significava discriminação, repulsa, abjeção"

Rachel de Queiroz, a primeira mulher a entrar na ABL, depois de oitenta anos de instituição, em 1977.

Mas enfim, no ano de 1977, depois dos oitenta anos da instituição, a primeira mulher recebeu o fardão, ou o robe, como brinca Jorge. Trata-se de Rachel de Queiroz. Depois entraram também Dinah Silveira de Queiroz (1980), Lígia Fagundes Telles (1985), Nélida Piñon (1989), Zélia Gattay (2001) e Ana Maria Machado (2003). Me consta ainda, que também Cleonice Bernardelli a integra. A única mulher que a presidiu foi Nélida Piñon
                                             
Nélida Piñon, a única mulher que já presidiu a Academia Brasileira de Letras.

Salvo engano, o placar da Academia registra hoje a presença de 37 homens e de apenas três mulheres. Não resta dúvida de que este espaço ainda está aberto para a luta e para a conquista.

Como estamos em tempo de sucessão papal, que tal, - se esta instituição, em sua hierarquia, também se abrisse para a presença feminina. Ou será esta uma trincheira inexpugnável?

4 comentários:

  1. Assim que liberarem a vaga,sou candidata. A Papa, evidentemente. Possuo pendores e atributos talhados na medida pra função.

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  2. Boa noite, professor!

    Espero que o senhor leia esse meu comentário, mas apenas gostaria de parabenizar o seu empenho com o blog.
    Sou estudante de jornalismo e estava fazendo um trabalho sobre machismo na ABL e principalmente, Julia Lopes de Almeida. Esta postagem realmente me ajudou com o meu trabalho (e obviamente coloquei as devidas referências no final), muito obrigada e que continue com o seu trabalho.

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  3. Oi Victória. Agradeço muito o seu generoso comentário. Que bom que o blog te ajudou. E está aí uma bela fonte, o Jorge Amado contando. Adoro ler biografias e livros de memória e este do Jorge é fantástico. Escolheste um belo curso para fazer, embora em tempos tão difíceis. Fui professor do curso, ao longo de 12 anos, na Universidade Positivo, em Curitiba. Abraço.

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