quinta-feira, 21 de março de 2013

Confesso que Vivi. Pablo Neruda.

O que mais me impressionou na leitura do Confesso que Vivi, de Pablo Neruda, foi a abundância das palavras e a riqueza de detalhes da descrição. Tudo bem, afinal de contas ele é um poeta. Mas ficou a pergunta: qual é a origem de tanta abundância? Só tenho uma resposta. A viva interação do poeta com a natureza, diante da qual está em constante contemplação. É o detalhe da pequena planta até o gigantismo das árvores. É a pequena e tranquila água do menor dos lagos até o mar agitado de ondas revoltas em tempestades. E assim ocorre com os animais, dos pequeninos pássaros aos elefantes gigantes. O mesmo ocorre com os odores, as cores e os sabores. Toda essa abundância e riqueza de detalhes observados só poderia confluir na grandiosidade do poeta.
O belo livro de memórias de Pablo Neruda. Confesso que Vivi. Pela Bertrand Brasil.

Pablo Neruda (para esconder a poesia de seu pai) nasce Neftali Ricardo Reyes Basoalto, em Parral, ao sul do Chile. Seus primeiros passos maiores se darão em Temuco, onde faz os seus estudos básicos, completados depois em Santiago. De Santiago ganha o mundo, levado em primeiro lugar pela sua vida de diplomata, nos lugares mais recônditos do mundo (Rangoon, Colombo, Batávia, Cingapura) e depois levado  aos centros mais cosmopolitas, pela leveza e grandiosidade de sua poesia. Divide anos de longínqua solidão com a sua iniciação à poesia.

Uma passagem marcante de sua vida é o encontro com Federico Garcia Lorca, já trabalhando em Buenos Aires. O poeta lhe abre as portas para a Espanha, onde irá trabalhar, em Barcelona. O encontro com o poeta se deu em 1933 e a sua ida para a Espanha, ocorrerá já no ano seguinte. Possivelmente a Espanha deixou em Neruda as suas marcas mais profundas. Aí viveu os horrores da mais sangrenta Guerra Civil, a Guerra Civil espanhola. Um milhão de mortos e um milhão de exilados.

Neruda conta como esta guerra chegou a ele. Tinha marcado com Lorca, assistir uma luta de catch-as catch-can, convencido pela insistência de um convite de um empresário chileno do ramo. Garcia Lorca, no entanto, faltou ao encontro. Neruda nos dá os detalhes: "Federico faltou ao encontro marcado. Já estava a caminho da morte. Nunca mais nos vimos. Seu encontro era com outros estranguladores. E, desse modo, a guerra da Espanha, que mudou minha poesia, começou para mim com o desaparecimento de um poeta". Lorca havia sido assassinado em Granada.
Outra foto do poeta, que está em seu livro Confesso que Vivi.

Neruda definia Garcia Lorca como um multiplicador de beleza: "No palco e no silêncio, na multidão e na intimidade, era um multiplicador de beleza". O desaparecimento do poeta se deu por assassinato, pois ninguém poderia imaginar que a Espanha mataria um dia, "o mais amado, o mais querido e o mais semelhante a um menino pela sua alegria maravilhosa" de seus poetas. Sentiu profundamente a sua morte e qualificou  este crime como "o acontecimento mais doloroso de uma longa luta". Diante do laboratório de testes do nazismo que foi a ação de Franco na Guerra Civil, o poeta escreveu o livro España en el Corazón.

Mais adiante descreve a escolha de seu caminho como militante político: "Embora eu tenha me tornado militante muito mais tarde no Chile, quando ingressei oficialmente no partido, creio ter me definido como um comunista diante de mim mesmo durante a guerra da Espanha. Muitas coisas contribuíram para a minha profunda convicção". Neruda nunca teve dúvidas quanto a esta sua escolha. Passou por inúmeras tormentas, como as denúncias contra Stalin, no XX Congresso do Partido, mas isso jamais abalou a convicção com que fizera a sua escolha. Considerava que fora devolvida ao Partido a sua capacidade de autocrítica e de análise.
Outra das mais emocionantes passagens do livro é a sua perseguição, na fuga que empreende do Chile, vítima de perseguição do governo anti-comunista ali instalado. A travessia da Cordilheira dos Andes não é coisa para amadores. Mas escapa ileso, chegando ao lado argentino, de onde será levado a Paris. É deste tempo de adversidades que examina a natureza dos governos da América Latina e mais violentamente denuncia a ação dos governos imperialistas, do chamado "mundo livre", que compõe o seu Canto General, possivelmente o seu livro mais conhecido e famoso. 

O livro só vai terminar um pouco antes de sua morte em Santiago em setembro de 1973, alguns dias depois do golpe que derruba o governo da Unidade Popular, de Salvador Allende. O golpe se deu no dia 11 e a sua morte no dia 23. Certamente de amargura por não poder ver os seus ideais de justiça e liberdade se consolidarem no poder. Os autoproclamadores do "mundo livre" tinham aplicado o golpe.

Leio agora, que o corpo de Pablo Neruda será exumado, pois pairam no ar as suspeitas de que teria sido assassinado pelas forças golpistas em seu país, que não precisavam ser necessariamente chilenas. As suspeitas que pairam é de que houve envenenamento como causa de sua morte. Um assassinato, portanto.

Ao final do livro publica uma espécie de poema, - aliás, todo o seu Confesso que Vivi não deixa de ser um belo poema, - intitulado Os Comunistas, que encerra como uma espécie de proclamação de fé e de conclamação em torno de ideais de mudança: "[...] Enquanto isso sobem os homens pelo Sistema Solar... Deixam pegadas de sapatos na Lua... Tudo luta por mudanças, menos os velhos sistemas... A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais... teias de aranha mais duras do que os ferros das máquinas... No entanto, há gente que acredita numa mudança, que tem posto em prática a mudança, que tem feito triunfar a mudança, que tem feito florescer a mudança... Caramba!... A primavera é inexorável"!


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