sábado, 5 de março de 2016

Sepé Tiaraju. Romance dos Sete Povos das Missões.

Em nossa viagem pela região missioneira, por terras paraguaias, argentinas e gaúchas, já em Posadas, capital da província de Missiones, procurei uma livraria, atrás de bibliografia sobre uma das mais bem sucedidas e épicas utopias da história da humanidade. Encontrei apenas dois títulos, que por serem muito específicos, não me chamaram maior atenção. Já em São Miguel, numa banca de artesanato me deparei com cerca de 20 títulos referentes ao tema. Um deles foi o clássico do padre peruano, Antonio Ruiz de Montoya, A Conquista Espiritual.
O romance histórico de Alcy Cheuiche, em oitava edição, pela editora AGE. Sepé Tiaraju.

Minha atenção também se voltou para um outro título. Sepé Tiaraju - Romance dos Sete Povos das Missões, de Alcy Cheuche. Hoje pela manhã terminei de lê-lo. Um belo romance, com um primoroso prefácio. Este é de autoria do padre suíço Clóvis Lugon, autor de A República  Comunista Cristã dos Guaranis, que já estou providenciando na Estante Virtual. O romance histórico se divide em três partes: Livro primeiro: A gênese de um jesuíta; livro segundo: As missões do rio Uruguai e, livro terceiro: O Tratado de Madrid.

O romance histórico é muito bem construído, com todas as liberdades concedidas ao romancista. O narrador é o padre Miguel, se exercitando, num extremo esforço de memória, para reconstruir sua trajetória de vida, e a de Sepé, num crescendo extraordinário. A primeira parte do livro nos remete a Amsterdã, onde encontramos o jovem Michael, às turras com a violência familiar, praticada pelo tosco de seu pai, que confundia as letras com o ser maricas. Junto com uma pessoa amiga estabelece a sua rota de fuga, na qual encontra um marinheiro, Ben Ami, que se torna seu protetor e amigo. Entram também em cena as primeiras reminiscências sobre Sepé.
O livro de Cheuiche tem um prefácio memorável escrito pelo autor deste livro, Clovis Lugon.


A primeira parte termina num lamentável incidente na Ilha de Páscoa. Michael resolve permanecer no Peru, mesmo se separando de Ben Ami. A companhia com os padres jesuítas o leva a ser um sacerdote da companhia, com destaque todo especial para o padre Cattaneo. Agora será o padre Miguel e este rumará para o território das Missões, após conhecer o espanhol, o guarani e conhecimentos de medicina. Se fixará na Missão de São Miguel. Lá atende um menino com escarlate. Lhe salva a vida, mas não a de seus pais, que lhe lançam um apelo final. Tomar sob seus cuidados o menino. O menino é o próprio Sepé, filho dos caciques Tiaraju. Nesta parte do livro são feitas as mais belas descrições sobre o que foi este grandioso e utópico projeto, um projeto socialista e cristão. Todas as diferentes Missões atuavam interligadamente, com muita autonomia. Os jesuítas apenas supervisionavam o trabalho. Após os conflitos iniciais com os bandeirantes, derrotados na batalha de Mbororé, conhecem os seus cem anos de prosperidade.

Na descrição aparece com muito destaque a chegada do irmão Prímoli, o mais notável arquiteto da Companhia de Jesus, oriundo da Itália. Trazia consigo um monte de papéis cheios de desenhos. Estes começaram a ganhar forma, ao longo de dez anos de trabalho. É a catedral de São Miguel, aquela que sobrou em ruínas, que são hoje as mais visitadas. Foi avaliada em um milhão de pesos, pelo engenheiro chefe das tropas espanholas, conforme nos conta o padre Clovis no prefácio do livro. Conta também que chamava a atenção um candelabro de prata maciça, com trinta ramificações guarnecidas em ouro, suspenso na nave central da igreja, por uma corrente também de prata. As grandes riquezas foram a erva mate, o couro e o algodão. Não havia exclusão social nas Reduções. Do ponto de vista do conhecimento histórico, do que foram as Missões, é o capítulo mais interessante. O capítulo termina com a eleição de Sepé como o corregedor geral da Missão de São Miguel. O seu discurso de posse é um monumento à democracia.
A bela igreja de São Miguel, do italiano, irmão Prímoli, o maior arquiteto da Companhia.


Os cem anos de tranquilidade do projeto chegam ao seu final com a realização do Tratado de Madrid em 1750. O padre Miguel o conhecerá com a chegada do padre Balda, que lhe traz, de Roma uma carta do padre Cattaneo. Em suas memórias o padre Miguel destaca as seguintes cláusulas: "Artigo XIV. Sua Majestade Católica, em seu nome e de seus Herdeiros e Sucessores, cede para sempre à Coroa de Portugal todas e quaisquer povoações e estabelecimentos que se tenham feito por parte da Espanha no ângulo de terras compreendido entre a margem setentrional do rio Ibicuí e a oriental do Uruguai".

"Artigo XVI. Das Povoações ou Aldeias que cede sua Majestade Católica na margem oriental do Uruguai sairão os missionários com todos os móveis e efeitos, levando consigo os índios para aldear em outras terras de Espanha; e os referidos índios poderão levar também todos os seus móveis e semoventes, e as Armas, Pólvora e Munições que tiverem; em cuja forma se entregarão à Coroa de Portugal, com todas as suas Casas, Igrejas e Edifícios e a propriedade e posse do terreno".

"Artigo XXII. Determinar-se-á entre as duas Majestades o dia em que se hão de fazer as mútuas entregas da Colônia do Sacramento com o território adjacente, e das terras e Povoações compreendidas na cessão que faz sua Majestade Católica na margem oriental do rio Uruguai; o que não passará do ano, depois de se firmar o Tratado".

Sepé organizou o povo também militarmente e resistiu bravamente. Foi ao encontro de portugueses e espanhóis, unidos na destruição do projeto cristão e socialista. Só não venceu porque muitos padres mantiveram-se fiéis ao voto de obediência aos seus superiores e aceitaram a humilhação da capitulação. Uma dúzia de jesuítas, no entanto, permaneceu obediente a Deus e coerente com o projeto de evangelização e humanização e permaneceram ao lado dos caciques indígenas, como o vinham fazendo ao longo mais de cento e cinquenta anos.
O romancista gaúcho Alcy Cheuiche.


Sepé foi o primeiro a tombar. A derrota final abateu também o seu herdeiro, o novo comandante Nhenguiru, no conhecido massacre de Caiboaté. Finalmente os índios se retiraram para o outro lado do Uruguai, no refúgio em terras argentinas. Pouco depois, em 1767 os jesuítas também foram expulsos dos territórios espanhóis e em 1773 a Companhia de jesus foi extinta pelo papa. Em 1814 houve a refundação, quando o projeto socialista e cristão já não mais ameaçava os alicerces da cultura ocidental, cada vez mais individualista sob os princípios do liberalismo. O latifúndio desquerenciou os guaranis.

Sepé foi semeado em cova rasa e, rapidamente floresce o mito e todo o simbolismo de amor à terra, às causas abraçadas e de lealdade de princípios, princípios estes, herdados com a fantástica experiência da República Comunista Cristã dos Guaranis. Embora não canonizado, Sepé virou santo e a cidade com o seu nome, além de toda a força da fé popular, é a sua prova decisiva. Que o diga o povo da cidade gaúcha de São Sepé. Um romance simplesmente extraordinário, que está em 8ª edição e com edição em espanhol e em alemão. Esta experiência também chamou a atenção de toda a Europa erudita do século XVIII, de sábios como Voltaire, Montesquieu e d'Alembert, nos conta Lugon em seu prefácio ao belo romance histórico.




quinta-feira, 3 de março de 2016

O Regresso. Alejandro G. Iñárrítu.

O Regresso me fez lembrar de outro filme, que no ano de 2014 recebeu 10 indicações ao Oscar. Trata-se de Gravidade, filme em que Sandra Bullock, se fosse na vida real, teria morrido um milhão de vezes. A lembrança deste filme se deve a situação idêntica, que ocorre com Leonardo DiCaprio, que vive, em 90% do filme, nos limites entre a vida e a morte. Em condições reais não teria, nem sequer, sobrevivido ao ataque do urso.


Outra interrogação que também me fiz, ao longo de todo o filme, foi sobre a intenção do mesmo. Quais seriam as reais intenções para a realização deste filme? Apenas na parte final aparece com clareza que se trata de mostrar a vingança de Hug Glass (Leonardo DiCaprio) sobre John Fitzgerald (Tom Hardy), por este haver matado traiçoeiramente o seu filho. Muita luta e muita ação e, sempre no limite dos personagens.

Seguramente não é este o tipo de filme que eu gosto. Eu gosto de dramas psicológicos íntimos, de diálogos que reflitam sobre o drama vivido pelos personagens e não de filmes de ação e de luta. No entanto, não questiono a atuação de Leonardo DiCaprio, que por esta sua atuação recebeu o prêmio de melhor ator e, muito menos, os méritos de Alejandro Gonzáles Iñárrítu, bicampeão do Oscar de melhor diretor. Destacaria as belas paisagens como um dos grandes méritos do filme. Vales de rios, tempestades de neve e belos amanheceres. Por outro lado, muito sangue. Destacaria ainda a bela mensagem junto ao índio enforcado: "Somos todos selvagens".


No Adoro Cinema, que costuma publicar a melhor e a pior avaliação de seus leitores, coube ao leitor que fez a pior avaliação conferir ao filme a nota de 0,5, afirmando que o filme é ruim e cansativo. Quanto ao cansativo, pode até ser, mas ruim, não. Afirma ainda que Leonardo DiCaprio quase não fala. Isso me fez perguntar pelo merecimento de prêmio como melhor ator. Será que todas as suas potencialidades de interpretação puderam ser avaliadas, ou o prêmio teria sido conferido pelo conjunto de sua obra, de interpretações sempre significativas do ator? Por fim este leitor recomenda: "Não percam o seu tempo e dinheiro". Jamais eu chegaria a tanto.

Se não me atrevo a criticar a atuação de DiCaprio e de Iñárrítu, admitiria, no entanto, contestar a sua indicação como candidato ao Oscar de melhor filme. Como podem ter observado, não gostei muito deste filme. É o quinto filme com indicação de melhor filme que vejo e, por enquanto, eu lhe atribuiria o quinto lugar. Volto a destacar. Não é o gênero de filme que eu gosto. Facilmente eu o substituiria pelo Oito Odiados ou pelo A Grande Aposta.


Mas do que mais gostei foi o posicionamento de DiCaprio ao receber o seu troféu. Um comentário duro e certeiro sobre a questão da preservação ambiental, sem romantismos: Transcrevo na íntegra: "O Regresso foi sobre a relação do homem com a natureza, um mundo que teve em 2015 o ano mais quente já registrado. Nossa produção teve que se mudar para a parte mais ao sul do planeta só para achar neve. A mudança climática é real. Está acontecendo agora".

E acrescentou: "É a ameaça mais urgente à nossa espécie, e precisamos trabalhar coletivamente e parar de procrastinar. Precisamos apoiar os líderes do mundo todo que não falam pelos grandes poluidores e grandes corporações, mas que falam por toda a humanidade, pelos povos indígenas do mundo, pelos bilhões e bilhões de pessoas desamparadas que serão as mais afetadas por isso, pelos nossos netos, e por essas pessoas que tiveram suas vozes afogadas pela ganância política". 

Acabo de ler a crônica de meio de semana que Veríssimo publica nos jornais. Ele fala de DiCaprio. Vejamos: "Não entendi o Oscar para o Leonardo DiCaprio, que, no filme, passa tanto tempo sofrendo que não tem tempo para atuar (deveriam ter dado o prêmio para a ursa)".

quarta-feira, 2 de março de 2016

Brooklyn. John Crowley.

Mais uma história da católica Irlanda. Só que desta vez uma história muito positiva, em que o padre Flood, o padre irlandês que atende em Nova York, no Brooklyn, aos imigrantes irlandeses. No filme será ele que arrumou o emprego para Eilis Lacey (Saoirse Ronan) para que ela pudesse fazer a sua vida na terra das oportunidades. Além disso o padre promovia bailes e atividades beneficentes para os irlandeses que, depois de muito trabalharem, eram jogados na miséria.

A história inicia na pequena cidade de Enniscothy, onde vivia a família Lacey. Ela era composta por três mulheres. A narrativa se centra em Eilis, a menina protagonista da história, sua mãe, que enviuvara recentemente, e sua irmã Rose. A falta de oportunidades faz com que Eilis, ajudada pela irmã se mude para os Estados Unidos, mais precisamente para o Brooklyn, em Nova York. Em Enniscorthy ela conseguira apenas um emprego de duas horas, aos domingos pela manhã, após a missa, com uma rabugenta senhora, dona, digamos de uma padaria/mercearia.

Eilis é toda ingenuidade e absolutamente despreparada para a vida e para o mundo. A viagem é um desastre. Comida ruim, banheiro, vômitos e gente incompreensível. Finalmente uma ajuda. Uma outra passageira lhe dá algumas dicas. A adaptação no Brooklyn é difícil. A modesta pensão, a futilidade das colegas, a timidez no trabalho e, especialmente, as infinitas saudades de tudo o que deixara na Irlanda, a mãe e a irmã.



De bom, a ajuda do padre. Este, que já lhe tinha arrumado o emprego numa loja de departamentos, agora a convida para os bailes que organiza para os imigrantes e a integração nos trabalhos de assistência social e integração humana que a paróquia promovia. Também lhe proporciona a oportunidade de frequentar a Universidade de Brooklyn, onde estudará contabilidade. Os contatos com a Irlanda se faziam por meio de cartas. Ah! as cartas. Me lembro das cartas que também eu, apartado da família, trocava regularmente com a minha mãe. Vale dizer que o filme se reporta a 1952, o ano da viagem de Eilis para a América. Um maravilhoso retorno aos anos 1950. Muita nostalgia. Época de respeito e compromisso com valores.

A adaptação mesmo, veio através do namoro. Nos bailes da paróquia irlandesa houve a intromissão de um encanador italiano. O amor rompe os laços de timidez e o namoro acontece e transforma a sua vida. Eilis se torna alegre e a sua alegria é contagiosa em todos os ambientes que frequenta, no trabalho, na pensão e na paróquia. Só faz por merecer elogios. Aí vem a notícia triste. A morte de Rose, a irmã. Precisaria voltar para a Irlanda. Quem não se conforma é Tonny Fiorello, o namorado italiano. Após juras de amor, resolvem consumar o casamento, após muita insistência de Tonny. Seriam presságios?

Na volta para a Irlanda, lá também tudo se transforma. Oportunidade de emprego e um rapaz apaixonado. O coração de Eilis se perturba. O namorado versus o marido e a natal Irlanda versus sua nova pátria americana. Uma intervenção sutil, talvez a ajude a definir seus rumos. A rabugenta senhora, Miss Kelly, aquela que fora a sua patroa nas manhãs de domingo e dada a fofocar sobre a vida alheia, descobre a sua condição de casada em Nova York. Se Eilis tinha qualquer dúvida, esta imediatamente desapareceu, diante do provincianismo daquela cena.



Apesar de, na sua volta, a Irlanda também ter se transformado numa terra de oportunidades, com possibilidades para o amor e o emprego, com o total beneplácito e companhia da mãe, a opção recaiu pela volta imediata para o marido e para o Brooklyn. Na viagem de volta, ainda orienta uma outra jovem, que tinha todas as semelhanças com a Eilis, em sua primeira viagem. Não deixou de lhe dar as valiosas dicas que recebera em sua primeira viagem.

O filme é uma coprodução irlandesa, canadense e britânica. Recebeu duas indicações a Oscar. A de melhor filme e Eilis (Saoirse Ronan) recebeu a indicação para a melhor atriz. Ficou nisso, sem prêmios. A direção é de John Crowley e o roteiro é uma adaptação de Nick Hornby, do livro de Colm Tóibin. Os personagens masculinos são Emory Cohen, o namorado/marido italiano e Jim Farrel, o meio namorado irlandês. Uma bela história contada com muita ternura e focada em muitos valores e, muito saudosismo. A indicação ao Oscar de melhor filme foi inteiramente merecida.

terça-feira, 1 de março de 2016

Aula Magna. Curso de Direito da UFPR. Com Jessé Souza.

Ainda estou meio perplexo de admiração com a maravilhosa aula do Dr. Jessé Souza, hoje pela manhã (29 de fevereiro 2016), na Faculdade de Direito da UFPR. Foi a Aula Magna, com a qual foi aberto o ano letivo de 2016, desta prestigiada instituição de ensino. O Dr. Jessé é formado pelo mundo afora e neste mundo também já foi professor, com destaque para Alemanha e Estados Unidos. Hoje é professor de Ciência Política na UFF e presidente do IPEA. Agradeço ao convite para esta fala aos professores Dr. Rocha e Dr. Manoel Caetano, da UFPR.
O corajoso livro de Jessé Souza. Um crítica às interpretações de Brasil.


Se para um palestrante já é difícil fazer os recortes para uma palestra, imagina a dificuldade de elaborar um post de síntese desta palestra. Vou fazer o esforço, mas desde já recomendo a leitura do livro de Jessé, A Tolice da Inteligência Brasileira - ou como o país se deixa manipular pela elite. O livro se constitui numa vigorosa crítica às teorias de interpretação do Brasil, responsáveis por inúmeros erros e que revestiram o senso comum com uma capa de ciência, que é a grande responsável pelo complexo de inferioridade que temos com relação aos Estados Unidos e, na questão interna, da camuflagem ou ocultamento da luta de classes.

A palestra teve início com a afirmação da insuficiência teórica nas interpretações de Brasil, marcadas pela formação do conservadorismo cultural das interpretações à direita e, pelo reducionismo economicista das visões à esquerda. Isso faz com que compreendamos mal o Brasil, especialmente, a crise pela qual estamos passando, em que o Estado é demonizado e  o mercado sacralizado. O Estado corrupto, e não a concentração de rendas, é visto como o único e grave problema brasileiro.
 O professor e presidente do IPEA, proferindo a sua Aula Magna.

Na sequência o conferencista abordou a questão de fundo do atual momento brasileiro: O apoderar-se do Estado. Quando às ideias se somam aos interesses é que se dá a luta pela conquista do Estado, isto é, de seus aparelhos. No Brasil existe uma elite, formada por menos de 1% de sua população, com interesses absolutamente inconfessáveis. Os seus privilégios são inúmeros. Estes privilégios não podem ser vistos assim pela população. Por isso existe todo um esforço para que sejam vistos como direitos. Para isso se torna necessária uma forte construção ideológica, para que esta fraude não seja percebida. Assim, a  injusta concentração de rendas não é percebida como um problema, sendo este transferido para o Estado corrupto. A classe média é usada para a construção desta ideologia.

Na sequência apontou Getúlio Vargas como o construtor do Estado/Nação do Brasil, na sua parte material (industrialização, legislação trabalhista, bens de capital, organização do Estado, educação e previdência) e Gilberto Freyre como o seu construtor imaterial, simbólico. Com Casa Grande&Senzala (1933) se construiu o mito da integração racial e, não do conflito, como ocorreu nos Estados Unidos. A identidade brasileira tem assim, a sua origem, não no conflito, mas na conciliação. Cria-se assim o grande mito brasileiro. O mito é uma aventura do espírito que não precisa ser verdadeira. Assim a nossa primeira grande interpretação, o nosso primeiro grande mito foi um conto de fadas para adultos em que se acreditou piamente. Uma interpretação ambígua que empurrou o conflito para os Estados Unidos, enquanto que, aqui se celebraria a conciliação.
O salão nobre da faculdade de direito totalmente lotado, assim como, mais duas salas com telão.


A esta teoria se somou Sérgio Buarque de Holanda. O teórico do homem cordial. O senso comum, na condição de mito, foi elevado à condição de interpretação científica. O homem cordial é incapaz de percepção das classes, de suas lutas e dos direitos de cidadania. Evocou o espírito binário da cultura ocidental para encontrar explicações. O espírito binário é uma longa construção histórica, a partir de Platão e de Santo Agostinho, da separação entre o bem e o mal, do espírito ser a sede do bem e o corpo do mal, para afirmar a existência de países guiados pela razão e de outros, pelo corpo e pelos males de sua sensualidade e paixão. O homem cordial, é corpo e não espírito. Aí fez uma pequena digressão, mas deu um tiro, absolutamente certeiro, na origem da cultura machista, apontando o homem como o domínio da razão e a mulher, do corpo. Esta cultura, obviamente, é complementada pelas teorias da hierarquização.

Também Faoro foi citado, pela origem portuguesa na formação da cultura brasileira. O Brasil sempre foi um país escravista, o que não existia em Portugal. Os outros intérpretes, por questão de tempo não foram abordados, mas o livro passa pelos economicistas e por pesadas críticas a autores mais contemporâneos, especialmente, Roberto DaMatta. Nestes autores, a pouca reflexão teórica provoca a intelectualização do senso comum.
Aproveitando para pedir autógrafo e cartão para possíveis contatos.


A partir deste ponto, a fala foi encaminhada para as conclusões. A primeira e mais contundente foi a de que o Estado é uma apropriação de classe. Esta apropriação se dá no mundo inteiro. É um fenômeno universal, mas que não pode ser visto assim e, muito menos, percebida como tal. Para isso existem as construções ideológicas, pelas quais se oculta o real e, outras causas passam a ser exaustivamente pregadas, como verdades absolutas e incontestáveis. Estes mitos são assimilados pela cultura popular.

Enquanto a corrupção é um fenômeno universal, inerente ao mercado e legalizado pelo Lobby e complementado pelos paraísos fiscais, aqui apenas o Estado é corrupto e a sua elite é inatingível (Veja-se o caso Aécio). Assim o Brasil, é o paraíso do mercado mundial, com as mais altas taxas de lucro e de juros, que vão parar no bolso dos 1% mais ricos, não é visto como problema. Para tornar este mito, esta aventura do espírito, este conto de fadas para adultos, imperceptível, a classe média é usada como o grande meio propagador e difusor. A classe média formada pela mídia, pelos homens que comandam as instituições ou os aparelhos do Estado, como o poder judiciário e as instituições de ensino, são usadas para a imbecilização do povo e, assim se consegue que ele lute e aja contra os seus próprios interesses.
Autógrafo ganho. Assim o meu Tolice da Inteligência Brasileira está mais valorizado.


Esta elite, com interesses inconfessáveis compra os congressistas, desde a sua eleição, compram a mídia e por isso não a regulam no interesse do público e o poder judiciário passa a ser usado, em substituição aos militares, para perpetrar o golpe de Estado, para que os aparelhos do Estado sejam totalmente ocupados de acordo com os interesses do 1% da elite dominante. Nenhuma reforma que se volte para a cidadania e condições de vida digna é tolerada.

E, como conclusão, uma definição de democracia. Democracia não se limita ao voto, mas sim, ao voto consciente e este só é possível, quando as fontes de informação do povo possam permitir a percepção das verdadeiras e grandes contradições da sociedade. Em que a percepção das verdadeiras causas de nossos males seja efetivamente percebida para que não aconteça o enunciado no título e subtítulo do livro de Jessé, A Tolice da Inteligência Brasileira ou como o país se deixa manipular pela elite.

Agora, conclusões minhas: O que seria a Tolice da Inteligência Brasileira? Quais seriam os meios pelos quais o país se deixa manipular pela elite? Para mim, as tolices seriam a intelectualização do senso comum, de sua transformação em mitos, em favor de uma elite extremamente perversa, para negar, embora pregando meritocracia, qualquer possibilidade de acesso aos meios que proporcionam os direitos ligados à cidadania. E, por isso, sempre que ocorram governos que, ainda que, silenciosa e minimamente, promovam medidas de inclusão social, que movimentam as bases da sociedade, paira no ar a perspectiva de golpe para se apoderarem do Estado e canalizar todas as políticas de Estado em favor de seus inconfessáveis interesses. Lembrando que vivemos numa sociedade dividida em classes.






domingo, 28 de fevereiro de 2016

"Francisco é um Jesuíta Paraguaio", afirmou Umberto Eco.


Recentemente tivemos a oportunidade de visitar as missões jesuíticas em terras paraguaias, argentinas e no Rio Grande do Sul. O nosso grupo foi formado pelo meu amigo Valdemar, o seu cunhado Adilson e eu. Simplesmente ficamos maravilhados diante do que vimos. Houve total superação de todas as expectativas que tínhamos. Particularmente chamou a atenção a organização que os padres jesuítas deram às suas 'reduções'.
Adilson, Valdemar e eu na redução jesuítica de Trinidad, no Paraguai.


Romina foi a nossa guia no Paraguai, em Trinidad. Ela é uma menina maravilhosa, que põe paixão no trabalho que realiza. Ao falar dos jesuítas, ela meio que titubeava, temendo não conseguir esclarecer de maneira suficiente a grandeza do trabalho destes jesuítas, mas sem hesitação nenhuma, manifestava ódio total aos bandeirantes. Os bandeirantes foram talvez a razão principal deste aldeamento, como método geral deste projeto de 'conquista espiritual'.

Já de volta e, sabedores da morte de Umberto Eco, Valdemar me contou que o escritor também havia escrito sobre os jesuítas no Paraguai. Facilmente localizei o texto no portal do Instituto Humanitas, da Unisinos, uma universidade jesuítica. O texto fazia referência a visita do papa Francisco ao Paraguai, mesmo antes até, de sua visita à sua natal Argentina. O texto tinha por título Cinco razões pelas quais o papa escolheu visitar o Paraguai. A primeira delas era esta afirmação de Umberto Eco de que Francisco era um jesuíta paraguaio. Eco se refere às missões como um "Santo Experimento".
A grandeza da igreja da redução de Trinidad.


A referência que Eco fez a estas missões se deveu a visita do Papa Francisco ao Paraguai em julho de 2015. Bem antes, certamente por ocasião do anúncio desta visita, Eco escreveu para o The new York Times em setembro de 2013 sobre o significado desta visita. Na época ela causava estranheza, uma vez que o papa argentino preferiu visitar o Paraguai, antes mesmo, do que a sua terra natal. O Instituto Humanitas, UNISINOS - comenta o artigo e encontra a seguinte explicação: "É um erro considerá-lo um jesuíta argentino. Talvez deveríamos considerá-lo um jesuíta paraguaio", afirmava Eco em seu artigo. Quais seriam as razões para tal.

O texto do Instituto Humanitas interpreta dessa maneira o artigo do escritor e semiólogo italiano. Vou reproduzi-lo ipsis literis para melhor identificar as citações:  - Neste texto, o autor de O Nome da Rosa sugere que a educação religiosa do primeiro pontífice latino-americano "foi influenciado pelo 'Santo Experimeto' dos jesuítas no Paraguai", referindo-se às experiências das famosas missões jesuíticas guaranis que foram fundadas a partir do século XVII, em territórios que hoje compreendem parte do Paraguai, Argentina e Brasil".
A cátedra da catedral de Trinidad.

O texto continua citando Eco. "Os missionários jesuítas decidiram reconhecer os direitos dos indígenas (especialmente dos guaranis que viviam principalmente no Paraguai em condições praticamente pré-históricas) e os organizaram em 'reduções', que eram comunidades autossustentáveis. Os jesuítas os ensinaram a se organizar por si mesmos, em total comunhão com os bens que produziam, embora com o objetivo de 'civilizá-los', ou seja, de convertê-los. Para alguns dos nativos também ensinaram arquitetura, agricultura, o alfabeto, música e artes; desse espaço, saíram alguns escritores e artistas de talento", relata Umberto Eco.

O texto do Instituto continua: - O semiólogo acredita que esta experiência, que considera "utópica", ainda que "paternalista", influenciou em grande medida no caráter e, sobretudo, na formação religiosa do atual Pontífice. "Agora, se decidirmos avaliar as ações de Francisco a partir deste ponto de vista, devemos considerar o fato de que se passaram quatro séculos desde esse 'Santo Experimento"; que agora se reconhece amplamente a noção de liberdade democrática, inclusive entre os fundamentalistas católicos; que o Papa atual, certamente, não tem a intenção de realizar nenhum experimento desse tipo na ilha de Lampedusa; e que o melhor que poderia conseguir é eliminar gradualmente o Instituto para as obras de religião, o chamado banco do Vaticano", destaca Eco.
A redução jesuítica de Jesus de Tavarangue, no Paraguai.

O texto do Instituto termina esta primeira razão da preferência da visita ao Paraguai, afirmando que  - nesta influência histórica dos jesuítas estaria um dos primeiros elementos que aproximam afetivamente o atual papa Francisco ao universo cultural do Paraguai.

Em outros posts já descrevi a nossa visita, inclusive sobre as razões do final deste "Santo Experimento". A experiência utópico religiosa socialista deveria ser extinta para eliminar esta experiência de economia coletiva tão bem sucedida, para nestas terras implantar o latifúndio e novamente reduzir os índios guaranis ao seu estágio de condições pré históricas. O latifúndio os desquerenciou, mas não conseguiu apagar nestes descendentes guaranis a grandeza da herança que lhes foi deixada pelo "Santo experimento". Destacaria, do Rio Grande do Sul, o canto dos "Troncos Missioneiros", que em tudo aquilo que cantam, eles ainda ecoam a voz das missões.



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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O Quarto de Jack. Lenny Abrahamson.

Quando algum filme recebe a indicação ao Oscar de melhor filme, pode ter certeza que ele tem méritos por ter recebido esta indicação. Isso ocorre com O Quarto de Jack. É um filme muito lindo e que mexe profundamente com o emocional. Não concorre apenas ao Oscar de melhor filme, mas também aos de melhor roteiro adaptado, de melhor atriz para Joy (Brie Larson) e de melhor diretor para Lenny Abrahamson.

O roteiro é adaptado do romance Room da irlandesa canadense Emma Danoghue, escrito em 2010. Alguns afirmam que ela teria se inspirado no caso do austríaco que manteve presa a sua filha por 20 anos e com ela ela teve sete filhos, em um caso que se tornou famoso. Mas isso são coisas da imaginação. A adaptação do romance mereceu a indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado e foi escrito pela própria autora do livro.

Vamos a alguns elementos do filme. A primeira parte passa-se no quarto, O quarto de Jack. Jack é um inteligente menino de cinco anos. O quarto é dividido com a sua mãe, Joy. Ele é um minúsculo esconderijo onde Joy foi aprisionada pelo Nick, que a mantém prisioneira com o filho. A relação entre a mãe e o filho é extremamente afetuosa, mas que não esconde também momentos de profunda tensão, especialmente quando das visitas de Nick. A situação se complica quando Joy percebe que Nick está desempregado e os mantimentos básicos começam a faltar. Essa situação poderia redundar em morte, jamais em libertação. 


Joy estabelece um plano, envolvendo o pequeno Jack. Ele simula uma doença. Nick não se comove para levá-lo a um médico. Então o plano passa pela morte. Jack é enrolado num tapete e Nick o leva e o abandonaria num bosque, mas instruído pela mãe, numa diminuição da velocidade do carro, o pequeno e esperto menino salta e é acudido. Nick, desesperado, empreende fuga. A polícia facilmente desvenda o caso e libertam também Joy. Os dois recebem tratamento de adaptação. Não sei porque, mas me lembrei da Alegoria da Caverna.

A adaptação ao mundo, fora do quarto, não é fácil. A relação de Joy com o seu pai é complicada e o fato ganha a mídia. A entrevista toma rumos complicados e Joy entra em pânico, tentando o suicídio. O pequeno Jack sente a falta da mãe, que está em recuperação. Nesse momento ocorre a cena mais emocionante do filme. A cena do corte do cabelo de Jack. Nele estava, simbolicamente, na imaginação do menino, a força para viver. A música sempre acompanha devidamente o volume das emoções. Outra cena marcante é quando Jack fala que sente saudades do quarto e aponta o motivo para tal. Ali a mãe esteve sempre presente. Nunca lhe faltou.

Entre as dificuldades de adaptação ao mundo real, existe uma volta ao quarto. O filme insinua que a adaptação ao mundo real já estava completa. Jack com muita naturalidade se despede dos poucos objetos que havia no quarto, dando adeus à cozinha, à banheira, ao guarda-roupa, à cama e ao aparelho de televisão, com a qual dividira o seu mundo entre a imaginação e o real. O teor do filme é um tema muito sensível e extremamente ao gosto do povo americano e como está revestido de muita beleza e ternura é candidatíssimo ao Oscar. Um, mas que não está em jogo, ele já ganhou. Aquele que proporcionou ao público as maiores emoções.

Ponto alto do filme é a interpretação da mãe e do menino. O menino é encantador, de uma inteligência cativante. Joy, a mãe, interpretada por Brie Larson tem a indicação para a melhor atriz, sendo apontada como franca favorita para receber o prêmio. São atuações impecáveis. As indicações ao Oscar são em quesitos de substância, como melhor filme, direção, roteiro adaptado e melhor atriz.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

São Borja. A Cidade dos Presidentes.

Sempre tive grande vontade de conhecer a cidade de São Borja. Dois fatos me davam maior motivação. A terra dos presidentes e os sete povos das missões. São Borja é uma cidade relativamente pequena para ter tanta importância histórica e ter fornecido ao país dois de seus presidentes, e, diga-se e registre-se, dois presidentes muito queridos. Getúlio Vargas e João Goulart (Jango). Considero Getúlio Vargas como o fundador do Estado/Nação e Jango como o presidente mais bondoso e generoso que este país já teve.
Entardecer em São Borja, tendo por fundo o rio Uruguai.

A cidade foi fundada pelos padres jesuítas, através de seu projeto de conquista espiritual, das reduções ou missões, no ano de 1682, sendo o primeiro dos chamados sete povos. Creio que o termo 'reduções merece uma explicitação. A busco em Eduardo Neumann, em seu livro O Trabalho Guarani Missioneiro no rio da Prata Colonial 1640 - 1750. Nas páginas 49 e 50 encontramos o seguinte: "A palavra redução cujos significados mais frequentes - reduzir, diminuir - ou ainda no sentido missionário de reconduzir a um local era facilmente compreendida de modo pejorativo. Sem dúvida o princípio geral da redução foi o de congregar em povoados várias parcialidades indígenas".
 São Borja, em frente a casa de João Goulart.

Além do projeto da Conquista Espiritual, título de um livro clássico sobre o tema, escrito pelo jesuíta peruano Antonio Ruiz de Montoya, a proteção aos índios guaranis para defendê-los das incursões dos bandeirantes eram a outra grande finalidade. O objetivo dos bandeirantes era o aprisionamento para fins de escravidão. Uma história de muita perversidade. As reduções foram um projeto utópico, entre os maiores que já existiu e era uma utopia religiosa socialista. É inimaginável a grandeza do alcance desse projeto. Em tempos em que Buenos Aires contava com cinco mil habitantes, cada redução contava entre três e sete mil guaranis aldeados.
São Borja. Em frente a casa de Getúlio Vargas.

São Borja é uma cidade da fronteira, situada no oeste do Rio Grande do Sul, na região do pampa.  seu desenvolvimento econômico está ligado à agro pecuária explorada em latifúndios. O destaque todo especial vai para a cultura do arroz, responsável por cerca da metade do PIB do município. Turismo, comércio e indústria completam as atividades econômicas. Sua população é formada por cerca de 63.000 habitantes. No ensino superior destaca-se um campus da  Universidade Federal do Pampa. Do outro lado da fronteira, na cidade de santo Tomé, existe uma faculdade de medicina destinada a estudantes brasileiros. O problema está na validação do diploma para ele ser legal no Brasil.
Junto ao mausoléu de Getúlio Vargas, na praça central de São Borja.

Chegamos à cidade ao final da tarde de sábado de carnaval. Depois de passar pelo porto, onde se preparava a noite de carnaval, nos hospedamos para proceder as visitas turísticas no domingo. Uma grande decepção. As casas de memória de Getúlio e de Jango estavam fechadas. Na porta de ambas havia o comunicado de um plantão com o número de telefone e o nome da pessoa a ser contactada, mas não tivemos retorno. Nós não fomos os únicos a querer fazer a visita. Era domingo de carnaval, está certo, mas também é o tempo em que existe a folga para viajar. Os presidentes merecem uma atenção maior. Menos mal, pois, os dois presidentes tem boas biografias. Destacaria os três volumes da biografia de Getúlio, escritos por Lira Neto e a da Jango, de Jorge Ferreira.
O jazigo da família do presidente Getúlio Vargas, no cemitério de São Borja.

Fomos à igreja matriz. Em frente, na praça da cidade, está o mausoléu em homenagem a Getúlio Vargas, onde também estão os seus restos mortais. A carta testamento tem destaque todo especial. A última visita foi a cemitério da cidade. Lá estão os jazigos das famílias de Vargas e de Goulart. No jazigo da família de João Goulart também está enterrado o governador Leonel de Moura Brizola, uma vez que pertence à família. Foi casado com a irmã do presidente, Neusa Goulart Brizola. Chama a atenção a simplicidade destes jazigos.
Jazigo da família Goulart, onde estão enterrados Jango e Brizola.

Deixamos a cidade no rumo de São Miguel das Missões, a única missão dos setes povos que integra o Patrimônio da Humanidade. De São Borja levamos uma pequena decepção pelo fato de não termos tido a oportunidade de vermos as casas de memória dos dois grandes presidentes, que por sinal tem as suas casas na mesma rua, distantes uma da outra, por apenas duas quadras. Mas, valeu a visita de caráter cívico patriótico.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Missões Jesuíticas no Brasil. São Miguel Arcanjo.


As atividades missionárias dos padres jesuítas foram chamadas de reduções ou missões. A redução, segundo Eduardo Neumann, em seu livro O Trabalho Guarani Missioneiro no Rio da Prata Colonial, tem o significado de "reduzir, diminuir - ou ainda no sentido missionário de reconduzir a um local era facilmente compreendida de modo pejorativo. Sem dúvida o princípio geral da redução foi o de congregar em povoados várias parcialidades indígenas. A redução foi a maneira (método) de empreender a Missão". Estes 'aldeamentos' ou 'redutos' tinham em média, entre três e sete mil habitantes.
Um por de sol em São Borja, a primeira redução dos sete povos das missões.

Na redução se formavam os chamados cabildos, que nos dão a ideia atual do município. Sua organização era a mais autônoma possível. Dois ou três padres orientavam e supervisionavam os trabalhos. As missões representaram um salto cultural e organizacional extraordinário. Além da conquista espiritual a defesa contra o ataque dos bandeirantes era o outro grande motivo deste empreendimento que somou fé, socialismo e utopia. Pode-se dizer que havia respeito às diferenças culturais, o que proporcionou grande enriquecimento cultural. Os guaranis eram muito habilidosos e dotados de extrema musicalidade. A região, ainda hoje é terra de músicos.
As imponentes ruína de São Miguel. Patrimônio da Humanidade.

No Brasil, e especificamente no Rio Grande do Sul, houve sete povos, ou sete reduções. A saber: São Nicolau do Piratini, São Francisco de Borja, São Luiz Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio. Ruínas conservadas existem apenas em São Miguel. Elas integram o Patrimônio da Humanidade. São Miguel é também a que tem melhor infraestrutura turística, entre todas as missões, incluindo as do Paraguai e da Argentina.

A preocupação com a preservação começou nos anos 1940 e contou com os trabalhos do arquiteto Lúcio Costa. Na entrada você é convidado a assistir um vídeo que foi muito bem produzido. Logo na entrada da praça está o museu que tem um belo acervo de imagens barrocas, extremamente bem conservadas, como também diferentes utensílios, que nos dão uma mostra da habilidade dos artesãos guaranis. A praça e a igreja são enormes e impressionam. Encontramos aí também o campanário mais bem conservado. Chama atenção a sua imponência. À noite é oferecido um espetáculo de som e de luzes. Não permanecemos para assisti-lo.
A cruz de Lorena. Dois braços. Fé em dobro.

Também chama a atenção, tanto em São Miguel, quanto em toda a região missioneira a existência da cruz de Lorena, que tem como principal característica os seus dois braços, que simbolizam a fé em dobro. Existem lojas de artesanato, retratando as ruínas e a famosa cruz. Numa das lojas existe também uma livraria temática, que creio eu, possui para a venda algo em torno de 20 diferentes títulos. Você encontra aí livros que dificilmente são encontrados nas livrarias tradicionais. Também os descendentes guaranis estão por aí para vender o seu artesanato. E para revigorar os ânimos, você também encontra a Seiva Missioneira, uma cachaça produzida na cidade que leva o nome da maior das batalhas da guerra guaranítica, Caibaté.
Ainda a imponência das ruínas de São Miguel.


O sonho foi grande. Um dos maiores já sonhados. Mas veio a decadência. Vários são os fatores. Aqui no Brasil o grande motivo foi o Tratado de Madri de 1750, quando se trocou a portuguesa colônia do Sacramento pelos espanhois sete povos das missões. As populações guaranis se rebelaram, originando as guerras guaraníticas com direito a heroi e meio santo, Sepé Tiaraju, ou simplesmente São Sepé. No caso das missões na Argentina e no Paraguai, o principal fator foi a expulsão dos jesuítas. Eles e as suas experiências foram como que amaldiçoadas por todos. Os jesuítas foram expulsos dos territórios portugueses em 1759 e dos espanhois em 1767. Em 1773 a ordem foi extinta pelo papa e refundada em 1814. Muita história a ser investigada. teria sido em função de um projeto socialista de poder?

O projeto de economia coletiva e de relativa autonomia política foi destruído. Franciscanos e beneditinos substituíram os jesuítas. A lógica da dominação colonialista total foi restabelecida e os índios não se submeteram. O avanço do latifúndio os desquerenciou. Foram trabalhar como peões e por meio de cantos e pajeadas lamentam o seu triste, porém, altivo destino. O orgulho guarani missioneiro persiste. As desventuras da posse da terra e da exclusão social estão nos cantos de Cenair Maicá e de Noel Guarany e nas pajeadas de Jayme Caetano Braun, que já se foram e presentes também, nas vozes que ainda ecoam fortes, e que, em tudo o que cantam ecoam as vozes das missões, como as de Pedro Ortaça e de Jorge Guedes.
Pedro Ortaça. De guerreiro guarani a payador missioneiro.


O canto é um lamento daquilo que já existiu e que poderia continuar existindo, mas o ser humano continua um especialista em provocar sofrimentos para todos, indistintamente. Termino com uma frase do meu amigo Valdemar: Com as reduções ampliamos os nossos conhecimentos. Acrescentaria que também aumentou o desejo de uma maior justiça social e de maior sentimento de humanidade. Ainda aproveito para registrar o agradecimento ao Adilson e ao Valdemar, grandes companheiros desta magnífica empreitada. A sede de saber foi a melhor companhia que tivemos nesta viagem.

Deixo ainda a mensagem de um folheto do Ministério do Turismo: "Conheça a Rota das Missões. Aqui você encontra o local da realização da utopia do Cristianismo - A Terra sem Males. São atrativos ligados a história, a religião, a antropologia, a arqueologia, a culinária, aos espetáculos, as caminhadas e muito mais. Tudo em perfeita harmonia com a natureza e a cultura dos diversos povos que compõe o espaço, como os Guarani, os alemães, os poloneses e italianos compondo o tradicional gaúcho missioneiro". Segue o link da música missioneira de Pedro Ortaça.

https://www.youtube.com/watch?v=DnLtgOcBxIU





segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Missões Jesuíticas na Argentina. San Ignacio Miní e Nuestra Señora de Loreto.

O nosso dia começou, ainda na cidade de Encarnacion. Embora a agitação do dia anterior, já cedo rumamos em direção ao centro da cidade de Posadas. A travessia, mais uma vez foi tranquila. A ponte estaiada que une as duas cidades recebe o nome do padre Roque Gonzales, um dos três mártires rio-grandenses. O fluxo de turistas argentinos para as praias do rio Paraná, no lado paraguaio, eram enormes.
A catedral da cidade de Posadas.


No centro de Posadas, a capital da província de Missiones, visitamos a catedral e a Plaza de Armas, além de uma livraria, em busca de literatura missioneira. Soube por diversas consultas que à noite é possível jantar ao som de um chamamé. Mas nós seguimos em busca da Ruta 12, pela qual  se chega, depois de uns 70 quilômetros andados, às quatro missões argentinas que integram o Patrimônio da Humanidade. San Ignacio Miní, Nuestra Senora de Loreto, Santa Ana e Santa Maria La Mayor. Loreto mereceu a nossa primeira das visitas.

Loreto nos remete a Guaíra. Certamente muitos lembram da pequena igrejinha existente nesta cidade paranaense. A conheci nos tempos em que morava em Umuarama, quando ainda existiam as Sete Quedas. Pois bem, perseguidos pelos bandeirantes, os jesuítas transferiram a missão. Levaram em torno de um mês descendo as águas do rio Paraná. A redução ocupa uma área de 75 hectares  e se dedica hoje, especialmente, à preservação florestal, de mata atlântica.. Um guia acompanha a visita. A mata tomou conta de quase tudo. Este trabalho da natureza foi muito facilitado pelo uso do adobe, as casas construídas com o uso do barro.
Uma coluna da ruína de Loreto.


As tempestades neste local são muito frequentes. Os ventos são muito fortes e derrubam muitas árvores.  O trabalho de sua remoção é uma das tarefas maiores dos funcionários do local. Muitas escavações ainda precisam ser feitas, pois são visíveis apenas pequenas partes das ruínas. Mas dá para ter uma noção perfeita do que foi a redução. Para variar, em meio a visita, um temporal irrompeu. Chuva da pesada. Conseguimos abrigo mas como a demora foi grande, enfrentamos a chuva na sua primeira amenizada. Na espera, fomos conversando com o guia. Um dado que creio ser mais ou menos geral. O interesse pela restauração destas reduções data dos anos 1940.

Um almoço nos separou de San Ignacio Miní. San Ignácio está muito bem conservada e pode ser vista em muitos detalhes. É outra das reduções que nos fornecem uma ideia completa do que era o projeto. A nossa visita foi inteiramente prejudicada pela chuva. Visitamos e fotografamos, mas não estivemos acompanhados de guia. Mas são perceptíveis a grande praça, a igreja, o colégio, as oficinas e as casas dos indígenas. Esta redução também oferece o espetáculo de som e de luzes. Saímos do local, simplesmente encharcados. Foi uma pena.
San Ignacio Miní, a mais preservada das reduções na Argentina.


Uma dica importante. Procure se hospedar nas proximidades dessas reduções. Não visitamos Santa Maria La Mayor, nem Santa Ana, mas elas também ficam nas proximidades. Fazer o ponto em Posadas fica bastante distante, uns setenta quilômetros. Num dia normal, isto é, sem chuvas dá para visitar as quatro. Encontramos uma dificuldade em localizar a Ruta 14, que dá destino para Santo Tome e São Borja,  sem voltar para Posadas, mas, depois de alguns quilômetros a mais, nos localizamos. Em Santo Tome, damos uma volta pela cidade, mas não nos animamos muito. Nem tentamos ver uma loja de vinhos e, assim, fizemos todo o caminho argentino, sem ao menos trazer uma única garrafa em nossa bagagem. O câmbio não está favorável. Também não trouxemos nenhum artesanato, que sinceramente, não vimos à venda.
Mais uma vista de santo Ignacio Miní.


Em Santo Tome me lembrei muito dos momentos tensos que envolveram o enterro do presidente João Goulart, que morreu exilado na Argentina. A ditadura militar não o queria no Brasil, nem mesmo depois de morto. Este foi um dos episódios mais lamentáveis em nossa história. Coisas somente possíveis em ditaduras.
Entardecer no rio Uruguai, no porto de São Borja.


Antes da travessia, a aduana e o serviço de imigração. Sem problemas, a não ser o pedágio mais caro que já vi em toda a minha vida. R$ 54,00 para voltar ao Brasil. Compensou todos os pedágios não pagos ao longo das rodovias. Se não me engano foram apenas dois. Imbuídos de um profundo sentimento cívico, entramos em São Borja, a pequena cidade que deu ao Brasil dois de seus queridos presidentes. Getúlio Vargas, o grande estadista construtor do Brasil como uma Nação e João Goulart, que na minha visão, foi o mais generoso e bondoso de nossos presidentes. Mais um dia pleno, tendo a lamentar, apenas, as fortes chuvas.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Missões Jesuíticas no Paraguai. Trinidad e Jesus de Tavarangüe

Este post tem um objetivo específico. Situar as missões ou reduções jesuíticas no Paraguai e, se possível, orientar outros turistas peregrinos em viagem para este projeto utópico, um dos maiores de toda a história da humanidade. Não quero estabelecer juízos de valor, embora tenha crescido a minha admiração pelos jesuítas e ter reformulado o meu conceito a respeito da grandeza dos índios guaranis. Eles formavam uma grande e bela civilização.
A enorme igreja da redução de Trinidad.

No livro O Trabalho Guarani Missioneiro no Rio da Prata Colonial - 1640-1750, de Eduardo Neumann, encontramos o significado da palavra redução: "A palavra redução cujos significados mais frequentes - reduzir, diminuir - ou ainda no sentido missionário de reconduzir a um local era facilmente compreendida de modo pejorativo. Sem dúvida o princípio geral da redução foi o de congregar em povoados várias parcialidades indígenas. A redução foi a maneira (método) de empreender a Missão; em suma 'Missão por redução' que é o projeto global de catequização espanhola".

Assim houve trinta reduções jesuíticas em terras espanholas, das quais oito se situaram no atual território do Paraguai, quinze na Argentina e sete no Rio Grande do Sul. O território 'reduzido' se situava  nas regiões banhadas pelos rios Paraná e Uruguai. Elas surgiram, além do projeto da conquista espiritual, como um ato de defesa dos índios guaranis por parte dos jesuítas, contra o aprisionamento e a escravização empreendida pelos bandeirantes. Algumas datas ajudam a nos situar no tempo. A primeira década do século XVII teria marcado o seu início. Já a data do Tratado de Madri (1750) marca o início do declínio. Algumas datas relativas aos jesuítas também são interessantes. A Companhia de Jesus foi fundada em 1540. A expulsão dos territórios portugueses ocorreu em 1759 e dos espanhois em 1767. Em 1773 a ordem foi extinta e restaurada em 1814. Quanto a números, estes variavam entre três e oito mil índios reduzidos. Um dado interessante nos foi dado pelo guia argentino em San Ignacio Miní. Nesta época Buenos Aires contava com algo em torno de cinco mil habitantes.
As belas colunas romanas na missão de Trinidad.

Entre as oito reduções paraguaias, três são regularmente visitadas. As de Trinidad e de Jesus de Tavarangüe são Patrimônio da Humanidade e se situam a uns trinta quilômetros da cidade de Encarnación. Na de San Cosme Y San Damian existe um observatório astronômico, que tem origem naquele que foi o maior centro astronômico da América do Sul e que conserva até hoje um relógio solar da época. Por ficar mais distante de Encarnación (70 quilômetros) é menos visitada. Não é Patrimônio da Humanidade por ter sofrido modernizações. 

A melhor visita que fizemos foi a da santíssima Trindade. Na recepção, além da venda do ingresso (que serve paras as três reduções) existe uma sala, onde é passado um vídeo, uma pequena exposição com dados referenciais, para então começar a visita. Creio que quem quer ter uma noção geral de como era o projeto, este é o local ideal, o mais perfeito. "Trinidad conta com uma imponente praça, uma grande igreja maior, o colégio, as oficinas, as casas dos indígenas, o cemitério, a horta e um museu", diz o folheto "Roteiro jesuítico", distribuído na entrada. É a melhor conservada, quanto ao seu todo. Existem guias à disposição, com preço de acordo com a tua generosidade e avaliação. A nossa guia foi a Romina, uma descendente dos guaranis.
Adilson, a guia Romina e o corintiano Valdemar, já nas informações finais.

Romina é uma apaixonada pela causa. O seu encanto pelos jesuítas só não é maior em função de seu vínculo com o povo guarani. Em compensação, ela meio que tremia e alterava a voz quando o assunto eram os bandeirantes. Ela nos forneceu dados interessantíssimos. Em torno de 14.000 padres se inscreveram para o projeto das missões. 81 foram os escolhidos para realizar a tarefa. Alguns tinham até cinco títulos acadêmicos. A autonomia dos indígenas era quase total. Apenas três brancos permaneciam na redução, com ausências constantes, em função de viagens. Caciques e pajés tomavam conta. A economia era auto suficiente e geravam grandes riquezas excedentes para pagar o Império espanhol, a Companhia de Jesus e a igreja de Roma e, ainda, para as grandes construções, projetadas por renomados arquitetos europeus. Erva mate e gado eram as riquezas maiores.

Os guaranis eram extremamente habilidosos na aprendizagem dos vários ofícios e eram dotados de grande musicalidade. Eram extremamente devotados à comunidade e os espaços reservados para prisões eram de dimensões muito pequenas. Romina se encantava quando falava do encontro das culturas. É um dos poucos exemplos em que houve incorporação e metabolização de culturas. Embora os princípios religiosos estivessem acima de tudo, não houve o espírito de destruição. O outro - era tido em conta e era ouvido. Assim, as duas culturas se enriqueceram. Romina também se emocionou quando falou do quarto voto dos jesuítas. Os três tradicionais, de castidade, pobreza e obediência e o quarto, que era o da obediência, de novo, mas com uma significação reforçada pelo compromisso de pertencimento ao grupo.
Na entrada de Trinidad, um café turístico que vale uma visita.

Voltamos ao local à noite para o espetáculo de som e de luzes. Música barroca e um projeto altamente profissional de iluminação. Um local  de profunda religiosidade e de perfeito transcender (ascender - se elevar através). Enquanto esperávamos o início do espetáculo fizemos um lanche, num pequeno café turístico, na entrada do parque. A qualidade da recepção, marcada pela refinada educação de sua sócia gerente, Marizza e de sua jovem filha, linda flor em botão, foram a maior unanimidade entre nós três, Valdemar, Adilson e eu, ao longo de toda a viagem. Evidentemente que isto é uma recomendação. Ali são servidos, inclusive, pratos típicos da cozinha paraguaia.
Na redução de Jesus de Tavarangüe, a influência árabe na arquitetura.

Jesus de Tavarangüe foi a última das reduções a ser povoada e, por isso mesmo, ficou inconclusa. Hoje existe apenas a igreja e o colégio. O estilo arquitetônico já é bem diferente do de Trinidad, onde prevalece o românico. Aqui já se nota uma profunda influência árabe. É uma das maiores igrejas de todas as reduções. A palavra Tavarangüe indica para a cidade do futuro. Uma palavra final sobre a decadência do projeto missioneiro. Com a expulsão dos jesuítas do império espanhol em 1767, os indígenas, ao não aceitarem as imposições dos dominicanos e franciscanos, preferiram a dispersão ao aldeamento. Questões de altivez e de insubordinação. Este foi mais um dia de raros privilégios. Quanta riqueza histórica e cultural.






sábado, 13 de fevereiro de 2016

Viajando pelas terras missioneiras. Paraguai - Argentina e Brasil.

Num belo dia estávamos em um churrasco numa chácara em Campo Magro. Comentei com o meu amigo Valdemar Reinert que eu iria visitar a cidade de Diamantina, em Minas Gerais. Verificamos o voo e fomos juntos. Em Diamantina combinamos a próxima viagem - que seria para as terras missioneiras da América do Sul, onde se encontram sete patrimônios culturais da humanidade. Dois no Paraguai, quatro na Argentina e um no Rio Grande do Sul. Farei abordagens em posts separados. As missões ou as reduções foram um dos projetos mais utópicos de toda a história da humanidade. Uma utopia religiosa e socialista.
Este mapa dá uma boa ideia sobre a localização geográfica dos trinta povos das missões.

Chegou o tempo da partida. À nossa comitiva se somou o Adilson, cunhado do Valdemar, que mora em Florianópolis. O esperamos no modesto aeroporto da progressista cidade de Chapecó. Aí ficamos num dilema sobre o caminho a percorrer. Se entraríamos na Argentina por Santa Catarina, ou pelo Rio Grande do Sul. Optamos para fazer a travessia por Dionísio Cerqueira, em terras catarinenses. Mas para quem sai de Curitiba, a melhor opção é fazer o cruzamento pela cidade de Barracão. A ruta 12 leva para Posadas.

Em São Miguel do Oeste, ao pararmos num bar, para um pequeno lanche e informações mais precisas, ocorre a primeira peripécia da viagem. Foi o primeiro contato com um missionário de uma outra causa, que não era a jesuítica. Era um missionário da causa separatista, O Sul é o meu País. Como a recepção não foi positiva, o assunto puxado foi a ditadura militar, com loas para o general Geisel. Como o assunto também não empolgou, houve uma guinada à esquerda. Brizola e o MST foram a sua nova tentativa. A Encruzilhada Natalino foi dada como a origem do MST.. Outros temas se seguiram mas precisávamos partir. E o homem queria conversar. Propôs até um churrasquinho.
Adilson, Valdemar e eu em Trinidad, a mais conservada das reduções.

O serviço de imigração é tranquilo. Carteira de identidade ou passaporte são necessários. A carteira de identidade deve ser nova, aquela que tem fotografia colorida. O cartão verde de seguros pode ser adquirido com facilidade. O carro precisa de dois triângulos de sinalização. Não fomos parados nenhuma única vez, nem na Argentina, nem no Paraguai. A paisagem é belíssima. Creio que devemos ter passado por reservas florestais. Chegando a Posadas optamos por seguir direto a Encarnación, já no Paraguai e, acertamos em cheio. Uma moderna ponte separa, ou une, as duas cidades. Boas refeições, ótima acolhida e, acima de tudo, uma educação refinada de seu povo. Aí visitamos dois Patrimônios da Humanidade: Santíssima Trinidad e Jesus de Tavarangue.  Ficam a uns 30 quilômetros da cidade. Mais distante está Sán Cosme e Damian, que não visitamos. Ao todo eram oito as reduções jesuíticas no Paraguai.
A igreja e o colégio. É o que sobrou na redução de Jesus de Tavarangüe.

De noite voltamos a Trinidad para o show de som e de luz, um espetáculo imperdível. E, ainda em Encarnación, fomos ao sambódromo da cidade, pois, ali se realiza o mais tradicional dos carnavais do Paraguai, que tem raízes plantados nos idos de 1916. Depois de novamente atravessar a ponte, que leva o nome do padre Roque Gonzales, um dos três mártires rio-grandenses, dos quais eu ouvi falar muito na minha infância passada em Harmonia, damos uma passada no centro de Posadas, a capital da província de Missiones. Ao atravessarmos a ponte deparamos com uma enorme fila de argentinos em busca da Costanera, uma rua litorânea de 27 quilômetros, em Encarnacion, nas margens do rio Paraná. É o maior balneário do Paraguai. Seguramente um investimento com retorno garantido. São 27 quilômetros de aterros. As praias se tornaram possíveis com a construção da hidroelétrica binacional de Yacyretá.

As missões na Argentina eram em número de quinze. Quatro são Patrimônio da Humanidade. A de Sán Ignacio Miní, a de Nuestra Señora de Loreto e as de Santa Ana e Santa Maria La Mayor. Visitamos a de Sán Ignacio e a de Nuestra Señora de Loreto. Fomos surpreendidos por uma forte chuva, que muito prejudicou a nossa visita. Uma observação importante. Essas missões estão a uns setenta quilômetros de distância de Posadas. Elas se situam na Ruta 12. Pelo meio da tarde voltamos ao Brasil. Buscamos a ruta 14, no rumo de São Borja, a cidade brasileira de dois presidentes. São Borja está a apenas 164 quilômetros de distância de Posadas.
Adilson e o guia em Nuestra Señora de Loreto. A preservação florestal é prioridade. As ruínas estão devidamente protegidas.

Em São Borja, ainda no mesmo dia, visitamos o porto, onde estava sendo preparada a noite de carnaval. Um lembrete. Para sair da Argentina, na cidade de San Tomé, paga-se um pedágio de cinquenta e quatro reais. Portanto, não dá para ficar passeando de ida e volta entre Sán Tomé e São Borja. A travessia é feita por ponte sobre o rio Uruguai. Reservamos o domingo para a visita aos museus das casas dos dois presidentes. Elas estão muito próximas e se situam na mesma rua. Apesar de terem plantões anunciados, com números de telefone e nomes de pessoas a serem chamadas, ninguém atendeu. Assim, em domingo de carnaval, não conseguimos fazer a visita. Visitamos ainda a igreja da cidade e, em frente a ela, o mausoléu do presidente Vargas, onde também estão os seus restos mortais. A visita ainda se estendeu ao cemitério, onde se encontram os túmulos das famílias de Vargas e de Jango Goulart. No túmulo da família de Jango também está enterrado o governador Leonel de Moura Brizola, que era casado com Neusa, a irmã do presidente.
Ruínas de São Miguel, a última etapa da viagem missioneira.


De São Borja fomos direto a outro Patrimônio da Humanidade, as ruínas de São Miguel. Percebe-se que é a mais visitada de todas e a que tem melhor infraestrutura turística, com museu e artesanatos e, pasmem..., livros temáticos à venda, inclusive o clássico A Conquista espiritual, do padre Antônio Ruiz de Montoya.  Ainda entramos no centro de Santo Ângelo para ver a sua bela catedral e fomos direto para a parte final da viagem, para dois dias de descanso nas águas termais de Piratuba, que é uma destas muitas maravilhas que deram certo, por esse Brasil afora.
A bela catedral missioneira de Santo Ângelo


Em Florianópolis deixamos o nosso bom companheiro de viagem e voltamos a Curitiba. Percorremos 3.020 quilômetros e na bagagem trouxemos muita história, muita cultura e, na lembrança, as muitas conversas com pessoas que encontramos ao longo da trajetória e, na memória, fica a imagem de grandeza dos povos guaranis e os insondáveis mistérios das utopias socialistas dos padres jesuítas. Lamentamos não termos ouvido nenhum chamamé ao vivo, a mais típica das músicas missioneiras. Em compensação trouxe uma Seiva Missioneira, produzida nas terras onde ocorreu a maior batalha da guerra guaranítica, a de Caibaté.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Trumbo. Lista Negra. Hollywood e o Macarthismo no Cinema.

O Século XX foi o século das grandes guerras. Guerras imperialistas, diga-se logo. Guerras sangrentas, acrescente-se. Capacidade de destruição levada à perfeição com o uso da bomba atômica, quando a guerra já estava definida. Crueldade humana inimaginável e inacreditável nos campos de concentração nazistas. E depois disso, o mundo melhorou?  Sempre lembro e relembro de Adorno em seu clássico texto Educação após Auschwitz: "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação". O que efetivamente aconteceu?


A aliança nazi-fascista protagonizou o impossível. A união entre capitalistas e comunistas para a derrubada de um monstro. Esta união nunca foi assimilada ou metabolizada pela extrema direita americana. No entanto, ela foi extremamente necessária para a derrota de Hitler. Se as chamadas forças ocidentais não estivessem totalmente exauridas a guerra teria tido continuidade, pois, o inimigo maior ainda precisaria ser derrotado: o comunismo soviético.

O fim da guerra marcou o início de outra, talvez pior do que a real; a chamada guerra fria, marcada pela bipolaridade do mundo. Duas potências econômicas dividiriam entre si o mundo e sobre ele manteriam uma vigilância sem precedentes, tanto em seus territórios, quanto sobre os do adversário. Vigilância ou espionagem? Ou intervenções diretas mesmo? Afinal de contas, quem não se lembra dos tempos da Ideologia da Segurança Nacional? Nenhuma ideologia triunfa se não tiver um inimigo forte a combater. 


E na terra das proclamadas liberdades, o que acontecia? Uma verdadeira caça às bruxas. Esta caça às bruxas ganhou um nome. Macarthismo. O Macarthismo via tantos inimigos comunistas, quanto os cristãos veem demônios. No Congresso americano foi criado um Comitê de Atividades Antiamericanas. Este comitê foi um tormento para toda a inteligência do país. Liberdade de criação, imaginação fecunda e o uso da inteligência, eram atividades não toleradas. Toda a efervescência  cultural era suspeita. Universidades, o mundo da literatura e do jornalismo e, em especial, o cinema eram os moinhos propagadores dos ventos da agitação e da subversão comunista. Em Hollywood se formou uma lista negra, a lista que dá título ao filme. Os roteiristas eram os alvos preferidos. Entre eles, um da lista dos dez, era Dalton Trumbo. Chaplin, por ser inglês, foi expulso do país.


Na época era muito comum os intelectuais serem comunistas. As guerras imperialistas desgastavam o capitalismo e a participação decisiva do socialismo soviético na derrota de Hitler só fizeram por crescer a convicção de que o comunismo representava uma alternativa para o mundo. As decepções vieram mais tarde, especialmente, a partir de 1956, com a realização do XXº PCUs. Dalton Trumbo era um desses intelectuais. Trumbo era um dos mais renomados roteiristas de Hollywood. Entrou na lista proibida, por não entregar os companheiros para o tal do Comitê do Congresso. Seu crime? Nunca delatou ninguém, além de ser comunista, é óbvio. Dois crimes bárbaros.

As perseguições logo se fizeram sentir. Nenhum diretor poderia contratá-lo. Boicote total. Como só sobraram os roteiristas de segunda linha, o cinema começou a decair. A solução foi contratá-los sob o artifício do uso de nomes falsos. Mas vieram as premiações e o problema da entrega dos troféus. Nessas condições Trumbo recebeu prêmios por A Princesa e o Plebeu e por Arenas Sangrentas. Mas as dificuldades foram crescendo. Dramas familiares, relação com a mulher e os filhos, além da questão financeira e da própria prisão.

Como não há mal que dure para sempre, também os Estados Unidos superaram este seu mundo de trevas, pela atenuação das perseguições e, talvez mais, pela ação decisiva de diretores e produtores em favor do restabelecimento da liberdade de criação no mundo do cinema. Assim Otto Preminger não o escondeu como o roteirista de Exodus, um monumental sucesso de bilheteria. e o mesmo aconteceu com Spartacus, filme que teve a atuação e a produção executiva de Kirk Douglas e a direção de Stanley Kubrick. Kirk Douglas ignorou protestos e proibições e, assim, muito contribuiu para o sepultamento da tal da lista negra..


O filme também dá destaque a uma homenagem que ele recebeu em 1970, do sindicato dos roteiristas, numa espécie de desagravo. Nesta homenagem faz um belo discurso, mostrado ao final do filme, destacando que "Quando você olha para trás, com curiosidade em relação àquele período sombrio, não é bom procurar vilões, herois, santos ou demônios, porque não há; há apenas vítimas". Efetivamente, há apenas vítimas. O grande mérito do filme está, no entanto, em mostrar este período nebuloso e nos fazer ver, que sob o domínio do capital, a liberdade é uma espécie de recreio vigiado das crianças. Se cometerem deslizes, haverá castigo.

O filme também recebeu muitas críticas, entre elas a de ser propaganda comunista. Em tempos de ódios acirrados estas coisas acontecem. Isso pode ser visto, agora, na campanha presidencial dos Estados Unidos. Os republicanos estão na disputa para ver quem é o mais conservador para disputar o posto de presidente da República. Conservador é um termo muito generoso. O mesmo fenômeno de ódio pode ser visto também aqui no Brasil, quando Bolsonaros se transformam em opção eleitoral. Pasmem! A história de ódio está se repetindo. O filme é importante contribuição para que isso não se repita. O filme tem uma indicação a Oscar. Bryan  Cranston concorre ao prêmio de melhor ator. Simplesmente imperdível.






segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Mulheres de Cinzas. Mia Couto.

Mulheres de Cinzas é um romance do escritor moçambicano Mia Couto, lançado em fins de 2015. Embora eu conhecesse mais Mia Couto como contista, desta vez o encontro com ele se dá por um romance, que integra um plano maior. Logo ao abrir o livro, em sua primeira página, já lemos: As areias do imperador. Uma trilogia moçambicana. Estamos, portanto, no primeiro volume. Faço esta resenha, na parceria que o blog mantém com a Companhia das Letras. A Companhia das Letras publica o escritor no Brasil.
"A única saída para uma mulher é passar despercebida, como se fosse feita de sombras ou de cinzas".

Vamos situar o romance, que une "sua prosa lírica característica a uma extensa pesquisa histórica", lemos na orelha da capa. A pesquisa histórica é uma referência à dominação portuguesa sobre Moçambique, a sua terra natal. Vejamos o que o autor nos diz na esclarecedora nota introdutória: "Este é o primeiro livro de uma trilogia sobre os derradeiros dias do chamado Estado de Gaza, o segundo maior império em África dirigido por um africano. Ngungunyane (ou Gungunhame como ficou conhecido pelos portugueses) foi o último dos imperadores que governou toda a metade sul do território de Moçambique. Derrotado em 1895 pelas forças portuguesas comandadas por Mouzinho de Albuquerque, o imperador Ngungunyane foi deportado para os Açores, onde veio a morrer em 1906". (...)

O personagem central do livro é Imane, uma menina nativa de 15 anos, que é a principal narradora da história, tarefa que é intercalada com as cartas do sargento português, Germano de Melo, um degredado por haver participado de rebeliões contra o rei, em Portugal. O local dos acontecimentos é a cidade, ou melhor, o povoado de Nkokoline, mas as cidades de Inhambane e Lourenço Marques (atual Maputo) também são bastante citadas. As cartas do sargento são endereçadas para o Conselheiro José d'Almeida, sediado em Lourenço Marques e datadas do ano de 1884 e se estendem também para o ano seguinte. Nos situamos, portanto, no começo da narrativa.

Onde está a grande riqueza do livro? As virtudes do escritor já são bastante conhecidas. O seu lirismo, a sua poesia, a sua imaginação criativa, a sua magia mítica alcançam neste livro seus pontos culminantes. Destacaria também o imenso amor às tradições de sua terra, através das histórias que conta e da reverência aos seus valores que exalta. Um exemplo é Imani, uma menina cristianizada pelas missões portuguesas, num diálogo com o sargento: - "Mas tu não és católica? - Sou. Mas tenho muitos outros deuses". E estes deuses estão todos presentes nos muitos valores que lhes são transmitidos pelos antepassados. No caso do livro, especialmente pelo avô, pelo pai e pela mãe.

O outro grande tema é o do imperialismo, da dominação e da conquista. O imperialismo é o destroçar de tudo. Das tradições, dos valores, da solidariedade e dos laços familiares, dividindo, inclusive, os membros de uma mesma família. As cartas do sargento são um lamento permanente dos horrores causados pelas guerras e da impotência portuguesa diante das mesmas, por não conseguir o domínio sobre os nativos e por dividi-los com promessas impossíveis de serem cumpridas. São um lamento profundo e uma terapia psicanalítica permanente. Vai contando as suas frustrações, em meio a uma réstia de ternura, que nutre pela menina negra, Imani.
O premiadíssimo escritor moçambicano, nascido em 1955.

Até o escritor Eça de Queiroz é lembrado num desabafo sobre a sua terra: "Portugal acabou". E o lamento do sargento segue: "Ao escrever estas palavras diz ele que lhe vieram as lágrimas aos olhos. É essa a minha e a sua doença: a nossa pátria sem futuro, vazada pela ganância de um punhado, dobrada sob os caprichos da Inglaterra". O pavor do militarismo e do armamentismo também estão sempre sob certeira mira, como nos mostra este diálogo em que a mãe pede para o filho enterrar as armas: "Todas as armas? - perguntou o filho. Todas. As dos portugueses também. - As dos portugueses não podemos, mãe. - Você não entende uma coisa, meu filho. Não é a guerra que pede armas. É o contrário, as armas é que fazem nascer a guerra". E essa sobre o militarismo, posta em epígrafe num dos capítulos: "O soldado ganha a farda; o homem perde a alma."

Deixo ainda uma frase extraordinária sobre a ambição e toda a ganância do imperialismo, retirada do último dos 29 capítulos do livro: "Não sabe a italiana que no princípio de tudo, quando a terra não tinha ainda donos, os rios e as nuvens corriam por debaixo do chão. Chegou o demônio e espetou o dedo na areia. A sua unha comprida esgravatou nas profundezas. procurava pedras que brilhassem à luz do Sol. As nossas mães pediram aos deuses que protegessem as estrelas que haviam escondido debaixo da areia. pediram que o diabo abdicasse de arrancar os brilhantes minerais e que desistisse de os entregar à ganância dos que queriam enriquecer. Mas o diabo não desistiu. Porque ele tinha , entre os poderosos, quem rezasse por ele. E quebraram-se-lhe as unhas e sangraram os seus dedos magros e longos. Pela primeira vez no ventre da Terra se coagulou o contaminado sangue do demônio. As riquezas do subsolo estavam amaldiçoadas. As nuvens e os rios abandonaram o ventre do planeta para escaparem dessa maldição. E tornaram-se as veias e os cabelos da Terra".

A solidão do sargento Germano em Nkokoline me fez lembrar de uma outra solidão em um fim de mundo. O deserto dos Tártaros de Dino Buzzzati. As dores da existência são profundas, especialmente, quando esta carece de significado e, mais ainda, quando isso é percebido. Sobre o imperialismo, ainda uma última frase, posta em epígrafe, no capítulo 21. Ela é do imperador Teodoro II, da Etiópia: "Conheço o jogo dos europeus. Mandam, primeiro, os comerciantes e missionários; depois, os embaixadores; depois os canhões. Bem podiam começar pelos canhões".