segunda-feira, 14 de junho de 2021

Os Subterrâneos do Vaticano. André Gide. Nobel de Literatura - 1947.

Continuo na empreitada de ler os romances da coleção Os Imortais da Literatura Universal, da Abril Cultural, publicada ao longo os anos 1971-1972, anos em que eu iniciava as minhas atividades na profissão de professor. Na verdade, formado em filosofia no ano de 1968, em Viamão - RS, vim ao Paraná, para a cidade de Umuarama, onde iniciei os meus trabalhos no magistério, no ano de 1969. O dinheiro sempre fora escasso, mas não me impediu a compra desta maravilhosa coleção. Lia os livros, na medida das possibilidades do tempo. Sobraram muitos.

Os Subterrâneos do Vaticano. Abril. 1971. Tradução: Miroel Silveira e Isa Leal.

Agora foi a vez de ler André Gide, Nobel de Literatura, do ano de 1947. O livro foi Os Subterrâneos do Vaticano. O livro é interessante e mostra um narrador que te prende a atenção, mas, não creio que este livro esteja entre as principais obras do escritor. Ele é do ano de 1914. André Gide nasceu em Paris no ano de 1869 e, morreu, na mesma cidade, no ano de 1951. A sua vida foi sempre de angústias profundas e ela, a sua biografia, esta sim, daria uma bela obra prima. Em seu diário confessava: "Foi minha infância solitária e mal humorada que me fez o que sou". Mãe protestante e autoritária se complementaram com um colégio, igualmente protestante e autoritário. Ah! Os rigores da moral. Hipocrisia à vista.

Aos nove anos, lemos no livro de biografias que acompanha a coleção, foi flagrado num ato de masturbação e, mãe e educandário zelosos, lhe buscavam a "cura". Passou, continuamos lendo, pela experiência do casamento, com direito à impotência na noite de núpcias e, também, por experiências homossexuais. Temia o mesmo julgamento de Oscar Wilde. No mesmo livro ainda lemos: "Voltado pra si próprio, como Narciso, nascia um escritor". Ao final de sua vida, escritor já consagrado e laureado, partiu do individual para o social e do psicológico para o campo político. Foi então movido por preocupações existenciais e com um mundo de injustiças, provocadas pelo colonialismo francês.

O romance tem uma estrutura complexa e pouco linear na narrativa. Quem se dispuser a lê-lo pela temática apontada no título, Os subterrâneos do Vaticano, pode desistir. Quanto ao Vaticano e à temática religiosa, encontraremos uma quadrilha de "mil patas" que explora a boa fé de católicos fervorosos, empenhados na salvação do verdadeiro papa, que se encontraria preso no Vaticano, ou no Castelo Sant'Ângelo, construções que estariam interligados subterraneamente. Daí, provavelmente, o título. A quadrilha extorquia dinheiro dos fiéis para o empreendimento de uma cruzada libertadora do verdadeiro papa. Dá para perceber que se trata de uma obra de ficção. As intrigas teriam se dado entre os maçons e os padres jesuítas. Famílias nobres (Baraglioul) e um filho bastardo (Lafcádio) fazem parte da trama. Aliás, Lafcádio Wluiki, o filho bastardo do conde de Baraglioul, é o personagem principal do romance.

Da Wikipédia tomo uma síntese da trama: "Este livro, deliberadamente caótico cruza e opõe intrigas e personagens. Há desde o início as discussões de Julius de Baraglioul, ultra católico, e de seu cunhado, Anthime-Armand Dubois, pensador liberal, que sofrem uma cruzada, antes de retomar subitamente as suas opções originais. Há o grupo de terroristas, com seu chefe, o assustador Protos, que espalha o rumor segundo o qual o papa havia sido sequestrado e era mantido nos subterrâneos do Vaticano. E, sobretudo, há o jovem Lafcádio o qual, prisioneiro de sua mística do ato gratuito, com a mesma indiferença salva num dia a vida de uma jovem criança e, num outro, mata o pobre Amédée Fleurissoire sem qualquer motivo. Esta farsa satírica ilustra a loucura de alguns enfoques intelectuais, e o remorso final de Lafcádio, torturado pela  consciência de seu crime, mostra as consequências de seu ato".

No livro de biografias lemos o seguinte sobre este livro: "Lafcádio Wluiki é a personagem central de um novo Gide, cansado de um eterno vaivém dos sentimentos e angústias pessoais que até então marcara sua obra. Antítese dos indivíduos 'condicionados' pelo meio e pela educação, Lafcádio é completamente livre, desvinculado de laços familiares ou sociais. Filho bastardo de um conde diplomata e de uma prostituta, ele é um nobre entre os plebeus e um plebeu entre os nobres. A herança de seu pai garante-lhe uma vida sem profissão e sem classe. Lafcádio não tem religião, nem moral, nem compromisso definitivo com qualquer um dos sexos. Pode permitir-se aquilo que poucos - ou ninguém - ousariam levar a cabo: o ato gratuito. Assim sem motivo e sem interessar-se pelos efeitos, ele salva vidas, ele mata.

Por trás de uma elaborada intriga romanesca, o autor procura mostrar as possíveis consequências, na vida prática, de certos ideais sumários de liberdade. O 'ato gratuito', seja ele realizado sobre um indivíduo ou contra a autoridade constituída não leva à nada.

Num gênero literário que o próprio Gide classifica de sotie (relato satírico medieval), as personagens são loucas, ilógicas ou 'livres', segundo se queira. A Igreja católica e a Franco-Maçonaria aparecem envolvidas em fantásticas conspirações, onde predominam a imaginação e a ironia. Não se trata de uma crítica severa. O estilo é leve, despreocupado, quase casual, como a estória".

Outros livros do autor mereceriam certamente maior atenção, como A Sinfonia Pastoral, que relata a amizade entre o pedagogo e seu aluno, um relato biográfico e Teseu, uma obra impregnada pelo existencialismo. Por essas obras ele é mais reconhecido e, inclusive, laureado com um Nobel de Literatura..

domingo, 6 de junho de 2021

Textos de Literatura. Aulas de filosofia. II. Servidão Humana. W. Somerset Maugham.

Continuo hoje com a apresentação de textos de literatura para aulas de Filosofia. Continuo com o escritor francês/inglês W. Somerset Maugham e o livro Servidão Humana. Hoje apresento o capítulo LIII. Nele iremos encontrar Philip, o personagem central da obra, com algo em torno de 22 anos, refletindo sobre os rumos a tomar em sua vida, após dois anos vividos em Paris e após a decisão de não prosseguir os seus estudos de pintura, para a qual, descobrira, não ter os suficientes dotes e a devida vocação.

Philip retorna para a casa de seus tios, para "iniciar a vida pela terceira vez". Ele, desde cedo, se tornara órfão, tanto de pai, quanto de mãe. A sua educação fora confiada ao seu tio, um pastor da Igreja Anglicana. Decide-se pelos estudos de medicina. Dúvidas existenciais o acometem. No texto número 1, encontramos este mesmo Philip, na cidade de Heidelberg, aos 20 anos, para aprender a língua alemã. Segue o post com o texto. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/06/textos-de-literatura-aulas-de-filosofia.html

Servidão Humana. W. Somerset MaughamAbril. 1971. A 1ª publicação é de 1946.



XXXXXXX

CAPÍTULO LIII. 

O Sr. Carey retirou-se para o gabinete, levando o jornal. Philip passou para a cadeira do tio (era a única confortável da sala) e olhou pela janela para a chuva que caía.  Mesmo com aquele tempo tristonho, havia qualquer coisa de repousante nos campos verdes que se estendiam para o horizonte. Havia na paisagem um encanto íntimo que ele não se lembrava ter notado antes. Dois anos de França tinham-lhe aberto os olhos para a beleza daquela região.

Pensava com um sorriso na observação do tio. Era uma sorte que o seu espírito tendesse para a volubilidade. Começara a dar-se conta da grande perda que havia sofrido com a morte do pai e da mãe. Esse era um dos motivos que, na vida, o haviam impedido de ver as coisas da mesma maneira que os outros. O amor dos pais pelos filhos é o único sentimento perfeitamente desinteressado. Crescera entre estranhos conforme pudera, mas raramente tinha sido tratado com paciência e indulgência. Orgulhava-se do domínio que tinha sobre si mesmo. Fora-lhe inculcado pela zombaria dos seus companheiros. Depois, chamaram-no de cínico e insensível. Adquirira um aspecto calmo e alheio e, as mais das vezes, uma máscara impassível, de maneira que agora já não podia mostrar os seus sentimentos. Diziam-no despido de emoções, mas ele sabia que estava à mercê delas: uma bondade inesperada comovia-o tanto que às vezes não se aventurava a falar para que não lhe notassem a insegurança da voz. Lembrava-se da amargura de sua vida na escola, da humilhação que havia sofrido, dos gracejos que lhe haviam incutido um terror mórbido do ridículo. Recordava-se também do seu sentimento de solidão depois que, posto em face do mundo, medira a distância que separava as suas quimeras da realidade. Mas, apesar de tudo, podia observar-se como se fosse um outro e sorrir divertido.

'Palavra que, se eu não fosse volúvel, me enforcaria', refletiu alegremente.

Tornou a pensar na resposta que havia dado ao tio quando este lhe perguntara o que tinha aprendido em Paris. Tinha aprendido muito mais do que dissera. Certa palestra com Cronshaw lhe ficara gravada na memória e uma frase por ele empregada, frase assaz comum, lhe fizera trabalhar o cérebro.

- Meu caro rapaz - tinha dito Cronshaw -, a moral abstrata não existe.

Quando Philip deixou de crer no cristianismo, sentiu que um grande peso lhe era tirado dos ombros; despojando-se da responsabilidade que sobrecarregava cada ato, quando cada ato era de infinita importância para a salvação de sua alma imortal, experimentou uma viva sensação de liberdade. Mas agora sabia que isso fora uma ilusão. Ao abandonar a fé em que tinha sido criado, mantivera intata a moral que era sua parte integrante. Resolveu, então, pensar por si mesmo sobre as coisas e não se deixar influenciar por preconceitos. Descartou-se de vícios e virtudes e rejeitou as leis assentes do bem e do mal, com a ideia de encontrar por si a sua própria norma de vida. Afinal, nem sabia se era mesmo necessário possuir tal norma. Essa era uma das coisas que desejava descobrir. Sem dúvida,, muito do que parecia válido assim se afigurava porque lhe fora ensinado desde a primeira infância. Lera inúmeros livros, mas eles não o ajudaram muito, pois baseavam-se na moral cristã; e mesmo os autores que proclamavam não acreditar no cristianismo nunca se davam por satisfeitos senão quando organizavam um sistema de moral de acordo com o Sermão da Montanha. Não valia a pena ler um longo volume para aprender que nos devemos conduzir exatamente como os outros. Philip desejava saber como devia proceder, e julgava-se capaz de fugir à influência do ambiente. Ao mesmo tempo, porém, era necessário continuar vivendo e, enquanto não formava uma teoria de conduta, traçou para si mesmo uma regra provisória:

'Segue as tuas inclinações levando na devida conta o guarda  da esquina'.

A completa liberdade de espírito, julgava ele, era o que de melhor havia adquirido em Paris. Afinal, sentia-se absolutamente livre. Lera sem método inúmeras obras filosóficas, e, agora, aguardava com delícia o lazer dos próximos meses. Começou a ler a esmo. Atacava cada novo sistema com um pequeno prurido de emoção, esperando encontrar nele alguma orientação para a sua conduta. Sentia-se como um viajante em país desconhecido e, à medida que avançava, era fascinado pela empresa. Lia comovidamente, como os outros leem pura literatura, e o coração lhe batia com força quando descobria, em palavras nobres, alguma coisa que já havia sentido de modo obscuro. Tinha o espírito concreto e movia-se com dificuldade nas regiões abstratas, mas, ainda quando não podia seguir o raciocínio, experimentava um curioso prazer em acompanhar os pensamentos tortuosos que desfilavam agilmente nos limites do incompreensível. Por vezes parecia que grandes filósofos nada lhe tinham para dizer, ao passo que, em outros, reconhecia um espírito congênere ao seu. Era como o explorador da África Central que depara subitamente com um vasto planalto onde os prados são pontilhados de árvores, de modo que é fácil imaginar-se num parque inglês. Deliciava-se com o robusto bom senso de Thomas Hobbes. Espinosa enchia-o de respeito: nunca entrara em contato com um espírito tão nobre, tão inacessível e austero, lembrava-lhe a estátua de Rodin, L'Age d'Airain, que admirava apaixonadamente. Vinha depois Hume. O ceticismo desse filósofo encantador fazia vibrar em Philip uma corda simpática, e, ao sabor daquele estilo translúcido que expunha ideias intrincadas em palavras simples, medidas e musicais, lia-o como leria uma novela: com um sorriso de prazer nos lábios. Mas em nenhum pode encontrar exatamente o que desejava. Haja lido nalguma parte que todo homem nasce platônico, aristotélico, estoico ou epicurista; e a história de George Henry Lewis (além de dizer que a filosofia é pura fantasmagoria) lá estava para demonstrar que o pensamento de cada filósofo se achava inseparavelmente ligado ao homem que ele fora. Conhecendo-se-lhe a vida, era fácil imaginar em grande parte a filosofia que escrevera. Dir-se-ia que não agimos de certa maneira por pensar assim, mas antes pensamos de certa maneira por assim termos sido feitos. A verdade nada tem que ver com isso. Não existe a verdade. Cada homem é o seu próprio filósofo, e os primorosos sistemas que os grandes homens do passado construíram só foram válidos para os seus autores.

O importante, pois, é descobrir o que somos e o nosso sistema filosófico se construirá por si mesmo.  Parecia a Philip haver três coisas a encontrar: a relação do homem com o mundo em que vive, sua relação com os homens entre os quais vive e, finalmente, a relação do homem consigo próprio. Traçou um plano pormenorizado de estudo.

A vantagem de viver no estrangeiro é que, entrando-se em contato com os usos e costumes do povo entre o qual se vive, aqueles são observados de fora e percebe-se que não resultam da necessidade, como julgam os que os praticam. Não se pode deixar de descobrir que as crenças para nós indiscutíveis são, para o estrangeiro, absurdas. O ano passado na Alemanha e a longa permanência em Paris tinham preparado Philip para receber os ensinamentos céticos que agora lhe chegavam com tamanha sensação de alívio. Viu que nada era bom e nada era mau: as coisas simplesmente se adaptavam a um fim. leu a Origem das Espécies. O livro parecia oferecer a explicação de muitos pontos que o inquietavam. Era, agora, como o explorador que infere a existência de certos acidentes naturais e, batendo as margens de um largo rio, depara aqui com o afluente que previa, ali com as planícies férteis e povoadas e, mais além, com as montanhas.  Quando se faz uma grande descoberta, o mundo se surpreende ao depois de que ela não tenha sido aceita imediatamente, e mesmo nos que lhe reconhecem a verdade o efeito é sem importância. Os primeiros leitores da Origem das Espécies aceitaram-na com a inteligência, mas as suas emoções, que são a base da conduta, ficaram intatas.

Nascido uma geração após o aparecimento desse grande livro, e depois de já haver passado a fazer parte das ideias usuais muita coisa que escandalizara os contemporâneos da obra, Philip pode aceitá-la de coração jubiloso. A grandeza da luta pela vida lhe parecia emocionante e a regra moral que ela sugeria concordava com as suas predisposições. Dizia para si mesmo que a força era o direito. De um lado está a sociedade, um organismo com as suas leis de desenvolvimento e autopreservação e, do outro, o indivíduo. A sociedade classifica de virtuosas as ações que redundam em seu proveito, e de viciosas as que a prejudicam. Bem e mal não significam mais do que isso. O pecado é um preconceito de que o homem livre se deve desembaraçar. Na luta com o indivíduo, a sociedade dispõe de três armas: a lei, a opinião pública e a consciência. As duas primeiras podem ser combatidas pela astúcia, única arma do fraco contra o forte - o vulgo exprime isso muito bem quando diz que pecado é ser apanhado nele -, mas a consciência é o traidor dentro dos muros, lutando na alma de cada um em prol da sociedade e levando o indivíduo a imolar-se, num sacrifício irrefletido, à prosperidade do inimigo. Sim, porque é evidente que o Estado e o indivíduo consciente de si mesmo são irreconciliáveis. Aquele se serve do indivíduo para fins próprios, espezinhando-o se é contrariado, recompensando-o com medalhas, honras e pensões se é fielmente servido; este, forte somente na sua independência, move-se no seio do Estado, pagando (por conveniência) certos benefícios recebidos, em dinheiro ou serviços, mas sem sentir a menor obrigação; indiferente às recompensas, pede apenas que o deixem em paz. É um viajante independente que faz uso dos bilhetes Cook porque lhe  poupam incômodos, mas olha com um desprezo bem-humorado para os grupos que se entregam ao guia. O homem livre não pode agir mal. Faz tudo o que deseja... quando pode. Sua força é o único estalão de sua moral. Reconhece as leis do Estado e pode infringi-las sem se sentir em falta, mas, quando punido, aceita o castigo sem rancor.

A força está com a sociedade.

Mas, se para o indivíduo não existe bem nem mal, a consciência - parecia a Philip - perde o seu poder. E foi com um grito de triunfo que, segurando a velhaca, expulsou-a de si. Isso, entretanto, não o aproximou do sentido da vida. Por que o mundo fora criado e para que nasciam os homens? Essa questão continuava tão insolúvel como sempre. Seguramente devia haver alguma razão. Pensou em Cronshaw e na sua parábola do tapete persa. Ele a oferecia como uma solução do enigma, declarando misteriosamente  que a resposta só tinha valor quando encontrada por quem a procurasse.

- Que diabo queria dizer? - murmurou sorrindo.

E assim, no último dia de setembro, desejoso de por em prática todas essas novas teorias sobre a vida, Philip, com 1.600 libras e o seu pé equino, tornou a partir para Londres a fim de iniciar a vida pela terceira vez. MAUGHAM. W. Somerset. Servidão Humana. Abril. 1971. Páginas 240 - 243. Capítulo 53.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Textos de literatura. Aulas de filosofia. I. Servidão Humana. Somerset Maugham.

Vou iniciar uma nova empreitada. Ao ler Servidão Humana, com toda a certeza, um grande romance de formação, separei dois textos, que seriam perfeitas aulas de filosofia. Não vou fazer um trabalho sistemático, de busca de textos de literatura para aulas de filosofia, mas ao longo de minhas leituras, deixo-os em separado, para fazer posts sobre eles. Vou fazer isso ao longo de novas leituras, bem como retomar outras.

Hoje inicio com o capítulo XXIII do livro de William Somerset Maugham, Servidão Humana. Neste capítulo vamos encontrar o jovem PHILIP, com algo em torno de 18 anos, saindo de escolas religiosas da Inglaterra, onde, órfão de pai e de mãe, tivera uma educação religiosa extremamente severa sob a tutela de um tio seu, que era pastor. Ele vai para a Alemanha, para Heidelberg, a fim de estudar alemão. Lá entre em contato com outros jovens, com diferentes visões de mundo. Sua mente, movida por certezas absolutas, provindas do Absoluto, se abrem para a dúvida. Aí encontraremos um novo ser humano em formação. Rompe então com a formação familiar e se defronta com as interrogações fundamentais da vida.

Servidão Humana.  W. Somerset Maugham. Abril. 1971.

XXXXXXX

 CAPÍTULO XXIII.

Nem Hayward nem Weeks imaginavam que essas conversas em que se entretinham durante as noites de ócio eram depois esmiuçadas pelo cérebro ativo de Philip. Nunca lhe ocorrera, antes, ser a religião um assunto que comportasse discussão. Para ele a religião se resumia a Igreja Anglicana, e não acreditar nos seus ensinamentos era um sinal de capricho e teimosa que não podia deixar de receber o merecido castigo, neste mundo ou no outro. Alimentava, contudo, certas dúvidas quanto ao gênero de castigo que sofreriam os incrédulos. Podia ser que um juiz misericordioso, reservando as chamas do inferno para os pagãos - maometanos, budistas, etc. -, poupasse, no entanto, os dissidentes e os católicos romanos (embora viessem a sofrer horrível humilhação, mais tarde, ao reconhecerem o erro em que haviam caído!); era também possível que Ele se mostrasse condescendente para com aqueles que não tivessem tido ensejo de conhecer a verdade - se bem que o número de tais criaturas devesse ser muito reduzido, dado as atividades missionárias. Se tivessem tido esse ensejo, porém, e o tivessem desprezado - categoria essa em que estavam incluídos, é claro, os católicos romanos e os dissidentes -, o castigo seria inevitável e bem merecido. Era evidente que o incrédulo encontrava-se num estado perigoso. Talvez não lho houvessem dito ípsis verbis, mas o certo é que deram a Philip a impressão de que só os adeptos da Igreja Anglicana podiam aspirar a felicidade eterna.

Uma das afirmações categóricas que lhe fizeram foi a de que o descrente é um homem perverso e viciado. Weeks, entretanto, embora não depositasse fé em nada do que Philip acreditava, levava uma vida de pureza cristã. Philip raras vezes encontrara quem se mostrasse bondoso para com ele, e por isso o comovia o desejo que tinha o americano de auxiliá-lo. Certa vez, durante um resfriado que o prendeu na cama por mais de três dias, Weeks o tratou como o faria uma mãe. Não havia nele vício nem maldade: havia apenas sinceridade e amor ao próximo. Era possível, por conseguinte, ser-se virtuoso e descrente ao mesmo tempo.

Haviam dado a entender a Philip, igualmente, que as pessoas se faziam adeptas de outros credos apenas por obstinação ou interesse pessoal. Intimamente, todas tinham consciência da falsidade deles, procurando por todos os meios iludir os outros. Visando aperfeiçoar o seu alemão, Philip formara o hábito de assistir todos os domingos ao ofício luterano, mas com a chegada de Hayward passou a acompanhá-lo à missa. Observou que, enquanto a Igreja protestante se apresentava quase vazia e a congregação parecia desatenta, o templo dos jesuítas estava sempre apinhado de fiéis, que se entregavam com todo fervor às suas orações. Não tinham aparência de hipócritas. Esse contraste o surpreendeu bastante, pois sabia que os luteranos, cuja fé se assemelhava mais à da Igreja Anglicana, estavam, por essa razão, mais próximos da verdade que os católicos romanos. A maioria dos homens - a congregação era quase totalmente masculina - compunha-se de alemães do sul, e Philip pensava consigo que, se tivesse nascido no sul da Alemanha, seria naturalmente católico romano. Por outro lado, tanto podia ter nascido numa nação católica, como na Inglaterra. Na própria Inglaterra, tanto podia pertencer a uma família wesleyana, batista ou metodista, como à sua que felizmente professava a religião oficial. Sentia-se atemorizado ante o perigo que correra. Philip fizera amizade com o chinês que se sentava à mesa com ele, duas vezes por dia. Chamava-se Sung. Mostrava-se sempre sorridente, afável e polido. Era estranho que estivesse condenado a arder no inferno pelo simples fato de ser chinês. Mas se a salvação fosse possível independentemente da fé que o homem alimentasse, não haveria nenhuma vantagem especial em pertencer à Igreja Anglicana.

Cheio de perplexidade, Philip resolveu sondar Weeks. Teve de usar de cautela, pois era muito sensível ao ridículo e o humor acre com que o americano se referia à Igreja da Inglaterra o desconcertava sobremodo. Weeks confundiu-o ainda mais. Fez Philip reconhecer que aqueles alemães da Igreja dos jesuítas estavam tão firmemente convencidos da verdade do Catolicismo Romano quanto ele estava com relação à Igreja Anglicana, e daí levou-o a admitir que os maometanos e budistas estavam também convencidos da verdade de suas respectivas religiões. Dir-se-ia que a consciência da verdade nada significava: todos tinham a certeza de estarem com a razão. Weeks não pretendia destruir a crença do rapaz, mas sentia grande interesse pela religião e considerava-a um assunto absorvente. Descrevera acertadamente o seu ponto de vista quando afirmara não acreditar em nada daquilo que constituía a crença dos outros. De uma feita Philip fez-lhe uma pergunta que ouvira de seu tio, no vicariato, por ocasião de uma conversa sobre certa obra moderadamente racionalista que andava provocando discussões pelos jornais.

- Mas por que razão haverias tu de estar com a verdade, enquanto estariam erradas criaturas como Santo Anselmo e Santo Agostinho?

- Queres dizer que eles foram homens inteligentes e cultos, ao passo que alimentas grandes dúvidas quanto aos predicados intelectuais, não é assim?

- É - respondeu Philip num tom de incerteza, pois pela feita daquela forma sua pergunta pareia impertinente.

- Santo Agostinho acreditava que a terra fosse chata e que o sol girasse em torno dela.

- Não vejo o que isso possa provar.

- Ora, prova que cada um tem as crenças de sua geração. Teus santos viveram numa era de fé, quando era praticamente impossível deixar de acreditar em coisas que hoje nos parecem positivamente inacreditáveis.

- Então, como sabes que agora estamos com a verdade?

- Mas eu não  o sei!

Philip refletiu um instante e volveu:

- Não vejo razão para que as coisas em que acreditamos presentemente não sejam tão errôneas como aquelas em que acreditavam no passado.

- Nem eu.

- Então como podes acreditar no que quer que seja?

- Não sei dizer.

Philip perguntou a Weeks o que achava da religião de Hayward.

- Os homens sempre imaginaram os deuses segundo sua própria imagem - disse Weeks. - Hayward acreditava no pitoresco.

Após pequena pausa, Philip observou:

- Afinal, não compreendo por que se deva acreditar em Deus.

Mal as palavras lhe haviam saído da boca, concluiu que não mais tinha fé. Perdeu o fôlego de repente, como se houvesse mergulhado em água fria. Voltou-se para Weeks, com olhos espantados, e de súbito teve medo. Na primeira oportunidade despediu-se do amigo. Queria estar sozinho. Era a coisa mais extraordinária que já lhe tinha acontecido. Tentou refletir; aquilo era emocionante, uma vez que o caso parecia interessar toda sua vida (julgava que qualquer decisão nesse terreno alteraria profundamente o curso de sua existência) e um erro poderia conduzir à condenação eterna. Quanto mais refletia, porém, mais reforçava a sua convicção, e embora durante as semanas que se seguiram devorasse livros de tendências céticas, não o fez senão para confirmar aquilo que sentia instintivamente. O fato é que cessara de acreditar não por esta ou aquela razão, mas porque lhe faltava o temperamento religioso. A fé lhe fora incutida do exterior. Era uma questão de ambiente e de exemplo. Novo ambiente e novo exemplo proporcionavam-lhe, agora, a oportunidade de encontrar-se a si próprio. Descartava-se facilmente da crena que alimentara em criança, como uma capa de que não mais necessitasse. A princípio a vida lhe pareceu estranha e solitária sem a fé que, embora nunca o tivesse percebido, representava um apoio infalível. Sentia-se como um homem que, acostumado a andar apoiado ao bastão, fosse de repente compelido a dispensá-lo. Parecia, realmente, que os dias eram mais frios e as noites mais tristonhas. A novidade da sensação animava-o, entretanto, pareia transformar-lhe a vida numa aventura emocionante. Em pouco tempo o bastão que jogara longe e a capa que lhe caíra dos ombros assemelhava-se a um fardo insuportável de que tivesse sido aliviado. As práticas religiosas que durante tantos anos lhe foram impostas afiguravam-se-lhe partes integrantes da própria religião. Lembrou-se das coletas e epístolas que fora obrigado a decorar, e dos prolongados ofícios na catedral, a que assistia sentado, com as pernas e os braços a ansiar por movimento. Lembrou-se das caminhadas à noite, através de estradas lamacentas, em demanda da matriz da Blackstable, austero e desolado edifício. Oh! como aquilo tudo entusiasmava! Seu coração saltava de alegria ao ver que agora estava livre daquelas maçadas.

Admirava-se de se ter desvencilhado da crença com tanta facilidade, e, ignorando que tudo tivera origem nos processos sutis de sua natureza íntima, atribuía à sua própria faculdade de raciocínio a convicção inabalável a que chegara. Experimentava grande contentamento. Com a falta de simpatia que a mocidade revela por atitudes diferentes da sua, Philip desprezava Weeks e Hayward por se contentarem com a vaga emoção a que davam o nome de Deus, sem coragem de darem o passo final que a ele parecia tão simples. Certo dia subiu, sozinho, a uma colina para descortinar uma vida que, não sabia por que razão, sempre o inundava de sensações eufóricas. Era então outono, mas os dias ainda se apresentavam quase sempre sem nuvens e o céu parecia com mais esplendor. Dir-se-ia que a natureza procurava aumentar a magnificência dos últimos dias de bom tempo. Olhou para a planície, lá embaixo, reverberando ao sol numa extensão infinita; a distância viam-se os telhados de Mannheim e muito além os contornos mal delineados de Worms. Aqui e ali o Reno cintilava num reflexo penetrante. Toda aquela vastidão estava impregnada de pura luz dourada. Com o coração a bater de alegria, Philip lembrou-se de como Satanás mostrara a Jesus, do alto de um monte, os reinos da terra. Inebriado pela beleza do cenário, parecia-lhe que o mundo inteiro se estendia diante dele; estava ansioso por descer e desfrutá-lo. Sentia-se livre de temores degradantes, livre de preconceitos. Poderia seguir o seu caminho sem o insuportável medo aos fogos do inferno. De súbito verificou haver-se também descartado daquela responsabilidade que transformava todas as ações de sua vida em questões de premente importância. Respirava mais livremente numa atmosfera menos carregada. Só a si mesmo tinha que dar satisfação do que fizesse. Liberdade! Era afinal, senhor de si próprio. Obedecendo ao velho hábito, agradeceu inconscientemente a Deus por não mais acreditar nele.

Embriagado de orgulho ante sua inteligência e destemor, Philip iniciou nova vida cheia de entusiasmo. Mas a perda da fé ocasionou, em sua conduta, uma mudança menor do que esperava. Embora tivesse repelido os dogmas cristãos, nunca lhe ocorreu criticar a ética cristã;  aceitava as virtudes cristãs e na verdade achava louvável praticá-las desinteressadamente, sem aspirar a recompensa ou castigo. Na casa de Frau Erlin havia pouca oportunidade para demonstrações de heroísmo, mas Philip tornou-se um pouco mais verídico do que costumava ser, mostrando-se, por outro lado, atencioso com as senhoras idosas e insípidas que às vezes travavam conversa com ele. Desprezava agora os adjetivos violentos e as imprecações eufemísticas que caracterizavam o idioma inglês e que ele cultivara antes como símbolo de masculinidade.

Após resolver satisfatoriamente a questão, procurou apagá-la da memória, o que não foi muito fácil, entretanto. Não podia esquivar-se às saudades nem sufocar as apreensões que por veze o atormentavam. Era tão jovem, e tinha tão poucos amigos, que a imortalidade não lhe parecia muito atraente, e por isso deixou também de acreditar nela. Havia, porém, uma coisa que o martirizava. Dizia consigo mesmo não estar sendo razoável e procurava afastar aquele estado de alma olhando-o pelo lado cômico. Mas as lágrimas rolavam-lhe dos olhos ao pensar que nunca mas veria sua linda mãe, cujo amor por ele, após a sua morte, se tornava mais precioso à medida que os anos corriam. Às vezes, como se sofresse inconscientemente a influência de inúmeros antepassados devotos, deixava-se tomar de grande pânico, receoso de que tudo fosse, afinal, verdadeiro e existisse mesmo lá em cima, por trás do céu azul, um Deus ciumento que punisse os ateus com as chamas eternas. Nessas ocasiões a razão não lhe vinha em socorro. Imaginava a angústia de um tormento físico interminável, sentia-se transido de medo e o suor brotava-lhe por todos os poros. Por fim, desesperado, exclamava consigo mesmo:

- Afinal de contas, não tenho culpa alguma. Não posso obrigar-me a crer. Se existe mesmo um Deus que queira punir-me pela falta de fé, paciência. Que hei de fazer? W. SOMERSET MAUGHAM. Servidão Humana. São Paulo. Abril Cultural. 1971. Capítulo XXIII. Páginas 106 - 111.


domingo, 30 de maio de 2021

Servidão Humana. Somerset Maugham.

Entusiasmado com a leitura de O Fio da Navalha, de imediato emendei com a leitura de Servidão Humana, livros do escritor francês/inglês Somerset Maugham. Não consigo conter meu entusiasmo diante deste escritor, especialmente, pela sua qualidade de narrador. Maugham nasceu em 1874, em Paris e morreu em Nice, em 1965. O Fio da Navalha é do ano de 1944 e Servidão Humana, de 1946. Os dois livros são bastante autobiográficos.

Servidão Humana. Coleção: Imortais da Literatura Universal. Abril. 1971. Tradução: António Barata.

Maugham ficou órfão de pai e de mãe muito cedo e a sua educação foi confiada a um tio, que seguia a carreira religiosa. A exemplo do pai, Somerset também se tornou médico, mas não seguiu a carreira, dedicando-se integralmente à literatura. Philip Carey, o personagem principal de Servidão Humana, também muito cedo se tornou órfão de pai e de mãe e a sua educação foi confiada ao seu tio, que respondia pelo vicariato de Blackstable. Philip, por intercessão de sua tia, consegue fazer estudos de alemão em Heidelberg, voltando depois para a Inglaterra e, mais uma vez, por intermédio da tia bondosa e compreensiva, consegue ir a Paris para se dedicar à pintura, depois de uma passagem por estudos de contabilidade. Dois anos após, sente-se um fracassado e retorna para a casa dos tios.

Preocupado com os rumos de sua vida, resolve seguir os passos de seu pai e se dedicar ao curso de medicina. Quando se formou e se encaminhou profissionalmente termina a narrativa do romance. Em síntese, este é o enredo deste romance de 122 pequenos capítulos, que ocupam 563 páginas de letra miudinha, de Servidão Humana, da coleção Os Imortais da literatura Universal, da  qual ocupa o volume de número 19. A sua leitura me ocupou por mais de uma semana. É fácil perceber que se trata de um romance de formação. E é nisso que está todo o seu valor.

Cada diferente personagem é um novo mundo que se descortina. O tio e a tia Carey. Ele, em contradição com a sua vida de pregação e a tia cheia de dedicação, bondade e generosidade. Os amigos estudantes, cada um com a diversidade de seus mundos e interesses. Os estudantes de pintura de Paris e os de medicina de Londres. A simplicidade da família Athelny, que o cativam profundamente, a sabedoria de Cronshaw, que se deixa consumir em sua sabedoria e pela bebida. Mas tem também Mildred, a personagem mais emblemática e perversa do romance, por quem Philiph arde em incompreensíveis paixões, que tantos sofrimentos lhe causam. Sally, a filha dos Athelny, merece uma atenção toda especial. Além disso muitos projetos de vida e interrogações em torno da mesma. A busca pelo sentido da vida está sempre presente na obra do escritor.

Esta é a história, junto com outros personagens que vão se cruzando na vida do jovem, perdido em suas buscas. Mildred é uma personagem feminina de Maugham. Sobre elas lemos, na biografia que acompanha a coleção: "As personagens femininas, de modo geral cruéis e interesseiras, na maioria das vezes nutrem profundo desprezo pelos homens que as amam e se comprazem em vê-los degradar-se". E como Mildred é perversa. A paixão incontida de Philiph por essa megera, para dizer pouco, é irritante. E lá está ele, novamente a acudi-la, de novo e mais uma vez.

O livro de biografias, ao se deter na análise de Servidão Humana, traça o seguinte perfil de Philip: "...Philip, que recusara Deus por não lhe haver curado o pé, despreza as explicações religiosas e prefere ver na vida apenas um sentido estético. Compara-a a um tapete persa: 'Assim como o tecelão elabora o tapete sem outro cuidado senão o prazer estético, um homem pode viver a sua vida... Nada impede que se considere a vida como um desenho', composto de 'acontecimentos, ideias'. Nessa elaboração, pouca importância tem a dor ou a felicidade, simples detalhes do desenho final'. Ao morrer, cada homem deixará a sua trama, e ela sempre será pessoal e bela, mesmo que ninguém venha a conhecê-la". Mas haja sofrimento, penúria e servidão. O que seria a tal da servidão humana?

Ele lida muito com a falta de dinheiro e conhece bem os estragos por ele provocados. No livro encontramos passagens que refletem bem a questão, como esta: "(Philip) Achava delicioso ter o coração livre e o bolso suficientemente cheio para prover às suas necessidades. Ouvira outros falar com desprezo do dinheiro. Teriam experimentado um dia viver sem ele? Sabia que a falta de dinheiro torna o homem mesquinho, vil e avarento; deforma-lhe o caráter e o faz olhar o mundo por um prisma vulgar. Quando se tem de levar em conta cada vintém, o dinheiro assume uma importância grotesca. É preciso que estejamos numa situação desafogada para atribuir-lhe o seu valor real" (Página 531).

No livro de biografias encontramos a descrição de sua relação com o tio, responsável por sua educação, baseada nos relatos de Servidão Humana. O tio Henry Carey é descrito como "um homem sumamente egoísta, mesquinho e provinciano. A casa do pastor era severa e fria, ausente de crianças, cheia de livros e quadros religiosos. A noção de pecado era recordada a cada instante, o menino vivia em sobressalto. Tia Sofia, uma aristocrata alemã, procurava atenuar a dureza do marido e compensar a ausência dos pais no coração do sobrinho, apesar de sua sincera afeição".

Interessante também é observar um pequeno defeito no pé (Talipes ou pé torto), que o personagem Philip carregava. Era uma fonte permanente de preconceitos e até de xingamentos de "seu aleijão". Um dos mais belos capítulos do livro é o de número 113, onde Philip, fazendo seus últimos estágios para a sua formação em medicina, entra diretamente em contato com a realidade econômica e social do povo, dependente dos serviços médicos de um obstetra. Realiza 63 partos, geralmente de crianças indesejadas, vindas ao mundo, acompanhadas pelo desespero dos pais.

Por tratar-se de um romance de formação, separei duas passagens para posts especiais. Eu os qualificaria como textos retirados da literatura para aulas de filosofia. O primeiro é quando vai para Heidelberb, e um novo mundo de relações lhe amplia a visão de mundo e promove a sua ruptura com a religião herdada e o segundo, quando já está em Paris, e lhe são lançadas as questões fundamentais perante a vida. E uma recomendação final. Leiam e recomendem William Somerset Maugham.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

O Fio da Navalha. William Somerset Maugham.

Buscando em minha biblioteca livros ainda não lidos, deparei com O Fio da Navalha, do escritor francês/inglês W. Somerset Maugham. O livro integra a coleção da Biblioteca Folha, fato que explica o não tê-lo lido logo após a compra. Livros que integram uma coleção... Nunca tinha lido nada desse escritor maravilhoso. A sua forma simples e direta de narrar me surpreendeu agradavelmente. Depois li no livro de biografias que acompanha a coleção Os imortais da literatura universal, que O Fio da Navalha é uma de suas melhores obras e que o personagem Larry reflete as suas próprias preocupações diante da vida.

O Fio da Navalha. Biblioteca Folha. 2003. Tradução: Lígia Junqueira Smith.


W. Somerest Maugham nasceu em Paris, em 1874. Terá uma longa vida, vindo a morrer em Nice no ano de 1965, depois de percorrer o mundo inteiro. Os seus relatos biográficos o apontam, acima de tudo, como um grande contador de histórias. No caso de O Fio da navalha ele próprio toma parte da história contada, sendo ele o Mr. Maugham. O romance foi escrito no ano de 1944. A primeira guerra mundial e a depressão econômica de 1929 e as ruínas econômicas por ela provocada fazem parte da história. 

O romance começa  com Mr. Maugham empreendendo uma viagem ao oriente, no ano de 1919. Em meio a viagem, se detém em Chicago por três semanas, atendendo convite de seu amigo Elliot Templeton, um americano radicado em Paris, com gosto pela vida social, nobreza e obras de arte. Sua vida é uma festa. Dessa estadia, surgem os personagens do romance. Nas recepções Mr. Maugham conhece Isabel, filha de Louisa Bradley e sobrinha de Templeton, namorada de Laurence Darrell, ou simplesmente Larry, o personagem central do romance. Ainda é personagem de destaque Gray Maturin, filho de um rico corretor de títulos na cidade e um eterno apaixonado pela bela Isabel. Bem, esses são os personagens. O cenário mais frequente será a cidade de Paris, junto com a Riviera francesa. A história, por óbvio, eu não vou contar. Existem alguns outros personagens, também dignos de notas. Você os encontrará: Sophie, Suzzanne, o industrial Achille...

Dou, no entanto, uma visão do romance, a partir da orelha do livro da edição da Biblioteca Folha: "O século 20 produziu uma quantidade enorme de histórias sobre ex combatentes de guerra que, ao voltarem para casa, não se reconhecem mais naquilo que veem e precisam  de algum modo reencontrar o fio da meada. No entanto poucas obras literárias se tornaram tão emblemáticas dessa situação quanto esse romance de W. Somerset Maugham.

Depois de ver seu melhor amigo morrer nos campos de batalha da Primeira Guerra, o jovem norte-americano Larry Darrell retorna aos Estados Unidos completamente transformado. Em pouco tempo, decide deixar a vida burguesa de Chicago e adiar seu casamento com a bela Isabel. Como muitos jovens de sua geração, Darrell vai passar uma temporada de aprendizado existencial em Paris, onde perambula pelos cafés e começa a ler livros sobre a Índia e o Nepal.

Entusiasmado com as descobertas e a possibilidade de um mundo radicalmente novo, Darrell viaja para esses países em busca de iluminação espiritual - assim como o próprio autor fez na década de 30. Anos mais tarde, de volta a Paris, Darrell reencontra Isabel e vários amigos americanos que haviam deixado os EUA depois da crise financeira de 1929".

A história, com o narrador participante, se desenvolve ao longo de sete capítulos, sendo o de número seis todo dedicado a Larry e seu encontro com os sábios do budismo na Índia e no Nepal. Larry é um personagem ímpar e imprevisível. Traz a marca profunda de sua participação na Primeira Guerra, quando um amigo seu morre para salvar-lhe a vida. Daí a busca para dar à sua vida um significado e um sentido. Será incompreendido por todos, menos pelo narrador, que passara por questões semelhantes.

Do livro de biografias, anotei algumas passagens marcantes sobre o escritor e os seus personagens, passando antes por algumas marcas nessa sua biografia, como a precoce orfandade de mãe e pai, passando pela presença meio nefasta de um tio padre, pela sua formação no curso de medicina em Londres e o seu abandono para se dedicar inteiramente a literatura. Pelo fato de Isabel ser a personagem feminina mais importante, uma nota sobre as mulheres em seus livros: "As personagens femininas, de modo geral cruéis e interesseiras, na maioria das vezes nutrem profundo desprezo pelos homens que as amam e se comprazem em vê-los degradar-se. Amor é ilusão, diz Maugham ao longo de sua obra: amor provoca mais sofrimento que felicidade e, quando se restringe à mera atração física, é uma fonte de contínua tortura e servidão".

Quanto a Suzzanne, uma das personagens femininas de O Fio da Navalha, que se casa, possivelmente por interesse, ela mesma afirma: "Creia-me, amigo, os outros podem dizer o que quiserem, mas o casamento continua sendo a melhor profissão para uma mulher".

Mas a tese central do livro é a busca de um sentido para a vida, assim expresso em Larry, numa das respostas a Mr. Maugham, quando este lhe pergunta se a América é o melhor lugar para por em prática a filosofia de vida que aprendera em sua viagem para a índia: "Não sei por que não. Vocês europeus, nada conhecem da América. Pelo fato de amontoarmos grandes fortunas, acham que é só dinheiro que nos interessa. Pouco ligamos a ele; assim que o possuímos tratamos logo de gastá-lo, às veze bem, às vezes mal, mas em todo caso o gastamos. Dinheiro nada significa para nós; é apenas o símbolo do sucesso. Somos os maiores idealistas do mundo; só que, no meu modo de pensar, pusemos o nosso ideal onde não devia estar; acho que o maior ideal que um homem possa ter é o seu próprio aperfeiçoamento". Com essa busca pelo "próprio aperfeiçoamento", concluo o post, para que essa imagem seja a que continue ocupando o espaço em nossa mente.

Mas antes vamos lembrar que Maugham também fez muito sucesso com a adaptação de sua obra para o cinema. Com meia dúzia de clicks você localiza O Fio da Navalha. No cinema essa obra ganha maior dramaticidade. Lembrando que o romance teve a sua primeira publicação no ano de 1944, dado fundamental para entender o espírito da obra.


terça-feira, 11 de maio de 2021

Vita Brevis. A carta de Flória Emília para Aurélio Agostinho. Jostein Gaarder.

Creio que todas a pessoas, que minimamente conhecem a formação da cultura ocidental, concordam que um dos livros mais importantes em sua gênese é  Confissões, o livro de memórias de Santo Agostinho, o Aurélio Agostinho (354-430), bispo de Hipona, no norte da África, atual Argélia. O livro é autobiográfico, um relato de sua vida até os anos de sua conversão por influência de Santa Mônica, sua mãe. Pelas Confissões, o convertido lamenta o seu passado de volúpia e concupiscência da carne, pois vivera em concubinato com uma mulher, da qual tivera um filho, de nome Adeodato, dádiva de Deus.

Confissões, como vimos, é um dos mais influentes livros na formação da cultura ocidental. Ele representa uma transição da cultura clássica (especialmente Platão) para o cristianismo, que busca se transformar em uma religião universal. Assim ele é um dos livros mais impactantes de todos os tempos e se transformou num livro de leitura obrigatória. Se Confissões tem toda essa importância, imagina então, a sua primeira contestação, que Agostinho teria recebido ainda em vida. Esta contestação é Vita brevis - a carta de Flória Emília para Aurélio Agostinho, um manuscrito, conta Jostein Gaarder, o famoso autor de O mundo de Sofia, do qual ele teria encontrado uma cópia num sebo da cidade de Buenos Aires, onde havia participado de uma Feira de Livro.

Vita Brevis. Jostein Gaarder. Companhia das Letras. 2003. Tradução: Pedro Maia Soares.


No prefácio do livro de Gaarder está a história do encontro da cópia deste manuscrito e de sua compra e as possíveis hipóteses sobre a existência do original e da cópia, cópia esta, datada do final do século XVI. Gaarder ainda relata que levou esta cópia ao Vaticano, que veementemente negou a sua existência. O livro de Jostein Gaarder é a transcrição desta carta que Flória, a concubina de Aurel, a ele escreve. O livro de Gaarder data do ano de 1996.

A carta, de dez capítulos, teria consumido quase todas as economias de Flória, na compra dos pergaminhos. A carta é belíssima, profundamente humana e reflexiva. Reflexões sobre a religião, a qual Agostinho se convertera, mudando completamente os rumos de sua vida, que antes compartilhava com Floria. Depois de sua conversão, abomina esta vida, passando a considerar o próprio filho Adeodato como um "fruto do pecado", da lascívia de sua paixões. Transcrevo a orelha do livro para dele dar uma visão sem a minha interferência. Depois destaco algumas passagens que sublinhei ao longo da leitura.

"O Aurélio Agostinho do título deste livro é nada mais, nada menos que Santo Agostinho, um dos pilares do pensamento cristão e da Igreja católica. Em suas famosas Confissões, Agostinho relata a própria trajetória atormentada de jovem inquieto, amante dos prazeres sensuais, até a conversão plena ao cristianismo, que para ele significou renunciar totalmente aos bens terrenos e às paixões do mundo e levar uma vida de rigorosa continência sexual. Entre as coisas (? - interrogação minha) a que renuncia, está a mulher que foi sua concubina durante doze anos (era costume na época os homens terem concubinas antes de casar), a quem se diz afeiçoadíssimo e com quem teve um filho aos vinte anos. Apesar dessa longa convivência e dos protestos de amor, ela não merece mais que duas frases das caudalosas confissões e nem mesmo tem seu nome mencionado.

É do teor desse parágrafo que parte Gaarder, recriando aqui a história desse amor interrompido sob o pretexto de que Agostinho iria casar com menina nobre, cuja família exigia o fim da relação. Mas o ponto de vista que o autor adota é o da mulher abandonada, questionando severamente o comportamento e as ideias de Agostinho. Aquilo que para o futuro santo é busca de salvação da alma, libertação dos baixos instintos e aproximação de Deus, para ela representa traição, negação da mais alta forma de amor, desrespeito pela pessoa humana, afastamento de Deus. Influenciado pelo neoplatonismo, Agostinho aceita uma divisão radical entre corpo - fonte dos pecados - e alma - espiritualidade pura -, enquanto Flória Emília defende o espírito encarnado e a dignidade do corpo, também criação divina.

Escrito na forma de longa carta, o texto que Gaarder atribui à concubina de Agostinho mescla os sentimentos mais pungentes à reflexão madura, a linguagem coloquial e afetiva à erudição refinada, tal como fez o próprio Agostinho, mestre do virtuosismo literário, que combinava em seus textos o estilo elevado clássico com o sermo humilis, o estilo simples da cristandade".

Na contracapa o texto é mais incisivo: "Flória Emília amou profundamente Aurel, entregando-se a ele  e aos prazeres sensuais em que ele era mestre. Foi sua companheira fiel nas horas difíceis e dele gerou um filho. Doze anos coabitou com ele, embora pertencesse a uma casta inferior e, por isso, fosse malvista pela família de Aurel, sobretudo por sua mãe. Então, foi abandonada, expulsa de repente, sem nem poder dizer adeus ao amado filho, que nunca mais veria. Mesmo assim, jurou fidelidade eterna a Aurel, a ele que se tornaria exemplo cristão, bispo de Hipona, Padre da Igreja católica, e por fim santo. Santo Agostinho. E agora, Flória Emília escreve-lhe esta carta".

Que forma criativa de escrever um livro. O leitor fica na dúvida - se o que está lendo é realmente obra de Flória ou do sábio narrador. Destaco três passagens do último capítulo, que considero absolutamente relevantes. São falas de Flória: "Deixaste de amar, Aurel. Assim como deixaste de apreciar a comida, de cheirar as flores,  [...] Oxalá tais atrativos não me acorrentem a alma. Que ela seja somente possuída por aquele Deus que criou essas coisas tão boas".

Vamos a segunda. Nela Flória pede uma volta: "Acho que deves estar exausto depois de tudo o que passaste, realmente exaurido, nem escondes isso. Se pudesses  ao menos me dar agora - e, portanto, ao mundo físico - umas poucas horas a mais de tua vida na terra. Vai para a rua, Aurel! Sai e deita-te sob a figueira. Abre teus sentidos, nem que seja pela última vez. Por mim, Aurel, e por tudo o que demos um ao outro. Aspira o ar, escuta o canto dos pássaros, olha para a abóbada celeste e chama todos os odores para ti. É isso que é o mundo, Aurel, e está aqui agora. Aqui agora. Estiveste no labirinto dos teólogos e dos platônicos. Mas não mais, agora voltaste para o mundo, para nosso lar humano".

A terceira é uma grave advertência. Envolve a questão da mulher: "Sou assediada pelo medo, Aurel. Tenho medo daquilo que os homens da Igreja possam um dia fazer a mulheres como eu. Não apenas porque somos mulheres - pois Deus criou-nos mulheres. Mas porque tentamos a vocês, que são homens - pois Deus criou-os homens. Achas que Deus ama os eunucos e castrados acima daqueles homens que amam uma mulher. Então cuida como louvas a obra de Deus, pois ele não criou o homem para se castrar".

Na questão referente a mulheres, no que diz respeito à igualdade, Agostinho não é nenhum exemplo. Pelo contrário, certamente, tem forte influência no machismo que impera na cultura ocidental. No livro IX, 9, sob o título Mônica - esposa modelar, Agostinho fala do padrão de esposa, sobre a sua submissão ao marido. Deve ser submissa, conformada e tudo suportar. Vejamos um post específico sobre o tema: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/07/confissoes-livro-ix-9-monica-esposa.html.

De Agostinho também trago na memória uma oração sua, contida nas Confissões, Livro IX, 10, oração essa, que Flória também lhe lembra. Ela diz assim: "Dá-me a castidade e a continência, mas que não seja para já".  Enfim, um livro maravilhoso, escrito com muita humanidade e bons sentimentos. E, pela importância que o santo exerce na formação da cultura ocidental, esta leitura como uma crítica, se torna leitura absolutamente imprescindível. Um grande livro.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

A Metamorfose. O Veredicto. Franz Kafka.

Depois de ler o magnífico Franz Kafka & Praga, de  Harald Salfellner, decidi avançar nas leituras desse grande e emblemático escritor. O livro/biografia é um passeio pelos locais de formação, de trabalho e de seus escritos. Pode servir até de guia para quem alimenta o desejo de visitar essa fantástica capital europeia, que nos tempos de Kafka, nada devia em efervescência cultural a capitais como Paris, Viena e Berlim. Além disso, o livro também envereda pela vida familiar complicada, embora de leve, especialmente a relação com o seu pai, um comerciante de origem judaica. Os negócios marcaram a vida do pai. Ele era unidimensional. Não havia espaço para atenção e afeto.

A obra de Kafka precisa ser lida com muita atenção. Não é leitura de entretenimento. Recentemente eu reli O Processo e agora retomei A metamorfose, "a mais conhecida, a mais citada, a mais estudada de suas obras", conforme nos conta Marcelo Backes em Prefácio ao livro, na edição da L&PM. Dele, Kafka se ocupou ao longo de 20 dias, entre os meses de novembro e dezembro de 1912. Na mesma edição temos uma pequena resenha biográfica do escritor. Vejamos o que se lê sobre o ano de 1912:

A Metamorfose. Franz Kafka. L&PM. Tradução e notas de Marcelo Backes.

"O ano capital na vida de Kafka. Viaja com Max Brod (seu maior amigo, confidente e responsável pela internacionalização da obra e a sua não destruição) a Weimar e conhece de perto o ambiente dos grandes clássicos, Goethe e Schiller. [...] Em setembro escreve O veredicto (Das Urteil), sua primeira obra de importância. Em outubro é tomado, conforme pode-se ver nos Diários iniciados quatro anos antes, por pensamentos de suicídio. De 17 de novembro a 7 de dezembro escreve A metamorfose (Die Verwandlung), a mais conhecida de suas obras".

Esta obra inicia com a impactante frase - "Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso". Assim começa a metamorfose do trabalhador Gregor Samsa/Franz Kafka. A transformação do ser humano em animal/coisa. A novela é profundamente autobiográfica. Na exata medida em que se metamorfoseou também lhe vieram cobranças. Devia ter levantado para pegar o trem das cinco horas da madrugada para cumprir a sua jornada de trabalho. Suas frágeis perninhas, perninhas de inseto, não o sustentavam. O mesmo acontecia nos horários seguintes.

Toda a família dependia de Gregor Samsa. O pai havia falido e não mais trabalhava. A irmã Grete era ainda uma mocinha. Com o seu trabalho Gregor mantinha a família no  padrão de classe média, o que implicava pagar também aulas de violino para a irmã. Na medida em que o tempo passava e o quarto não se abria, vinham e aumentavam as cobranças. O pai mandara chamar o serralheiro para arrombar a porta, a mãe mandara chamar um médico, o gerente veio lhe cobrar a ida ao trabalho e lhe fazer cobranças de produtividade. A irmã, junto com a mãe, se preocupavam com o seu estado.

Com o passar do tempo as coisas só foram se agravando. Samsa já não andava, apenas se arrastava. O trabalhador, um caixeiro viajante, não se recuperava. A novela é dividida em três capítulo. O primeiro deles descreve a metamorfose, a coisificação do pobre rapaz, as cobranças e o desespero da família e a incompreensão e a brutalidade do pai. No segundo, Gregor já se adaptara a sua nova situação, já tinha o domínio de si, já vivia a sua coisificação. Seu quarto passa por adaptações para melhor se adaptar a vida de rastejante. Do pai, apenas via o gigantismo de suas botas opressoras a lhe dedicar uma guerra com o jogar nele as frutas existentes na casa. Joga-lhe uma maçã nas costas e ela se aloja nelas. Tudo é profundamente simbólico. A maçã lhe é jogada por trás, nas costas. A maça simbolizando o pecado original do existir e, ainda por cima, pelas costas.

O terceiro capítulo trata da nova situação da vida familiar. O pai trabalha de funcionário num banco, A mãe costura para um empresário e Grete, atrás de um balcão. O aluguel do quarto de Grete para três forasteiros complementa o orçamento da casa. Gregor é mantido no quarto, às escondidas. O pai se desmancha em cuidados com os inquilinos. Estes se assustam quando Gregor consegue dar uma escapada do quarto. A situação se torna insustentável quando Grete reclama que esta "coisa" não pode mais ficar na casa. Quando esta "coisa" percebe a situação, Gregor simplesmente morre. A família muda de casa e assim a vida simplesmente continua.

Uma obra profundamente existencialista, que põe o ser humano frente ao trabalho opressivo, frente ao emprego e o medo de perdê-lo e a coisificação da existência. Kafka chegara a frequentar clubes socialistas. Também o põe em contato com as relações familiares, a convivência entre marido e mulher e filhos e a figura opressora do pai. Kafka sempre tivera graves problemas em suas relações familiares, tanto com o pai (Carta ao pai) quanto com as suas noivas. Vamos em frente, com O Veredicto.

Homenagem a Kafka, na casa de seu nascimento, em Praga.

O veredicto é um conto de apenas 20 páginas, em livro de bolso, escrito num domingo à noite. Foi iniciado as dez horas e, as seis da manhã de segunda, já estava concluído. Ele trata de toda a relação complicada que existe entre pai e filho, a morte da mãe, o noivado do filho que amadurece, de um amigo distante e o veredicto condenatório do pai. Uma obra profundamente emblemática.

sábado, 1 de maio de 2021

Franz Kafka & Praga. Harald Salfellner.

No dia 27 de julho de 2019, num sábado pela manhã, saímos da cidade de Berlim com destino a Praga, numa distância de 350 km. No meio do caminho fizemos uma parada na bela e rica cidade de Dresden, que já havíamos conhecido no tour alemão. Esta cidade chegou até ser a capital da Polônia. Ela fica a  menos de 200 quilômetros de Berlim. Agora, olhando os mapas, percebe-se com facilidade a concentração de importantes cidades num raio de distâncias relativamente curtas. Assim visualizamos Berlim, Praga, Budapest, Bratislava e Viena, muito próximas.

O famoso relógio astronômico de Praga no prédio da prefeitura da cidade velha.

Pela tarde chegamos em Praga. Visitamos o Castelo, a Ponte Carlos e o relógio astronômico (de 1410) no prédio da prefeitura da cidade velha. No dia seguinte fizemos um tour panorâmico, que incluiu os jardins do Palácio Wallenstein, sede atual do senado, a igreja de São Nicolau, a igreja de Nossa Senhora da Vitória, onde se encontra a famosa imagem do Menino Jesus de Praga, fizemos um passeio pelo rio Moldava e outro a pé pelo bairro judaico, terminando mais uma vez no prédio da prefeitura, com o seu famoso relógio. Tivemos ainda, uma tarde inteira ao nosso dispor, para tomar a cerveja tcheca. Deixo aqui o post desses dois dias fantásticos. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/08/europa-2019-8-praga-na-republica-tcheca.html

Kafka na casa em que ele nasceu. Muito próximo do relógio astronômico.

Bem, vamos ao livro. Creio que logo entenderão o motivo pelo qual eu fiz essa abertura. Segundo um escritor tcheco, "Franz Kafka era Praga e Praga era Franz Kafka". Kafka e a cidade estavam umbilicalmente interligados, assim como também com a sua Boêmia, povo que serviu de base para a formação do que é hoje a República Tcheca. Ela foi formada pela Boêmia, Moldávia e Silésia. Com a viagem e, agora com o livro, aprendi muito sobre a região, sempre conturbada, especialmente na primeira metade do século XX, com a passagem por duas guerras mundiais, das quais podemos dizer que ela foi um de seus epicentros. Estou falando do livro Franz Kafka & Praga, de Harald Salfellner.

Com a leitura do livro, além de conhecer Kafka e a sua relação com Praga e outras peripécias da vida do escritor, revivi os meus dois dias em Praga.  O livro, eu o comprei em 2012, certamente numa promoção e só fui lê-lo agora. Ele se alonga por sete capítulos, 361 páginas e a inserção de 269 fotografias de época. Notas, tabela de equivalências (em português, tcheco e alemão - dos principais lugares citados no texto), Referências bibliográficas e dois mapas da cidade complementam o livro.

Franz Kafka & Praga. Harald Salfellner.  Tinta Negra. 2011. Tradução: André Delmonte.

Os sete capítulos tem os seguintes títulos: I. Resumo biográfico; II. A Praga de Franz Kafka; III. Os primórdios da família Kafka em Praga; IV. Itinerário de Kafka em Praga; V. Passear por Praga. VI. Praga e a Boêmia nas obras de Kafka; VII. A Boêmia amada por Kafka. Os mais densos são os de número quatro e sete. Um prefácio, escrito por Hugo Rokyta, apresenta o livro. Nele é mostrada a importância do amigo Max Brod na preservação da obra do amigo; que Kafka escrevia em alemão e que o biógrafo austríaco Harald Salfellner mostra a cidade de Praga como Kafka a enxergava.

Do primeiro capítulo - Resumo biográfico - anotei os seguintes destaques: Nascimento em 1883 e morte por tuberculose em 1924; que era o primogênito da família e que estudou em escolas alemãs; que o seu primeiro encontro com Max Brod aconteceu no ano de 1902 e que em 1906 concluiu o seu doutorado em Direito. Grande destaque é dado ao fato de ter toda uma formação em escolas alemãs, em meio ao nacionalismo tcheco em formação. Antes da primeira guerra a região integrava o império austríaco.

Do segundo capítulo - A Praga de Franz Kafka -, rico em história, economia e geopolítica, nos mostra a cidade de Praga, capital da Boêmia, uma província austríaca dos Habsburgos. Na cidade havia uma efervescência cultural equivalente a Paris, Berlim e Viena. O sentimento nacional tcheco estava em formação e havia forte oposição entre alemães e tchecos. Judeus e alemães eram como que aliados. Os alemães ocupavam as áreas mais nobres da cidade. Ao fim da primeira guerra surge a Tchecoslováquia, enquanto as antigas forças austríacas se esvaíam. A Praga eslava não era a Praga de Kafka.

No terceiro capítulo - Os primórdios da família Kafka em Praga, tomei os seguintes apontamentos: a família chega do interior e se dedica ao mundo dos negócios; as suas queixas constantes de que não havia vida familiar, apenas negócios; as constantes mudanças de endereço da família e o ambiente triste em que viviam.

Já o capítulo quarto, razão principal de ser do livro - Itinerário de Kafka em Praga - é o mais interessante e o mais longo de todos. É o passeio pela cidade. São apresentados 38 lugares que são as marcas de Kafka na cidade, entre eles os pontos históricos da cidade, o local de nascimento, as escolas em que estudou, a praça central da cidade e o seu famoso relógio astronômico, a ponte Carlos e o rio Moldava, o coração da cidade, seus locais de trabalho, terminando pela apresentação do cemitério judaico e pelo monumento em sua homenagem. 

No quinto capítulo -  Passear por Praga - mostra os momentos de lazer do escritor e onde os passava: as ruas, as praças, os parques, os cafés...

No sexto capítulo - Praga e a Boêmia nas obras de Kafka - encontramos os lugares que são descritos ou serviram de inspiração para a sua obra.

O sétimo capítulo - A Boêmia amada  por Kafka - é de novo um capítulo que cresce em importância. Devido aos seus compromissos de trabalho ele viajava pouco ou o fazia a trabalho, no que diríamos hoje, seria no Ministério do Trabalho ou da Previdência Social. Conhecia e adorava as cidades do interior da Boêmia, ricas e fortemente industrializadas. Ao fim de sua vida as conhece em função dos seus tratamentos de saúde, mas a sua tuberculose a cada dia se tornava mais irreversível.

Tomo ainda os três parágrafos da contracapa do Livro: "Você já se imaginou andando pelas ruas de Praga, a capital mais charmosa da Europa, na companhia de Franz Kafka?

Um dos escritores de maior renome do mundo guiará você pelas ruas, cafés, hotéis e monumentos da cidade natal. Franz Kafka & Praga lança um novo olhar sobre a cosmopolita e clássica capital da República Tcheca. Uma viagem à "nova Paris" do início do século XX, ponto de efervescência político-cultural, uma cidade recriada sob a ótica de um de seus habitantes mais ilustres".

"Um tesouro incrível dotado de acontecimentos políticos, história cultural e citações de Kafka se abre aos olhos do leitor quando Harald Salfellner começa sua narrativa" Deutsche Welle. Gostei demais e super recomendo a leitura.


domingo, 25 de abril de 2021

O mestre de esgrima. Arturo Pérez-Reverte.

Mais um livro comprado em promoção e não lido logo após a compra. O comprei no ano de 2011 e, como já contei em outro post, nas promoções eu comprava, ou pelo autor, pelo tema, ou pela editora. Este - O mestre de esgrima, de Arturo Pérez-Reverte, certamente foi em função da editora, a Companhia das Letras. Do autor, nunca tinha ouvido falar e nunca me detive sobre o tema da esgrima, nem como arma e nem como esporte. 

O professor de esgrima. Arturo Pérez-Reverte. Companhia das Letras. 2003. 

Não me decepcionei com a leitura. O tema é muito interessante. A disciplina exigida para a prática da esgrima é algo impressionante. Era uma arma da nobreza e exigia total disciplina, concentração e o cumprimento de todo um ritual, até mesmo para eliminar o adversário. Atrás da esgrima havia um rigoroso código de postura e de ética. Quanto ao autor, fiquei surpreso. Ele é lido em mais de vinte países. O livro pode ser enquadrado como um romance policial e histórico e, sob certo aspecto, até romântico amoroso.

O ano dos acontecimentos é o ano de 1868 e o país é a Espanha e a sua monarquia. Isabel II era a rainha, no poder desde 1830. O tema do livro são as insurreições deste ano que a derrubam do poder, mas não derrubaram a monarquia. Essas intrigas são parte integrante do romance, do qual, no entanto, o professor dom Jaime Astarloa, mestre pela Academia de Esgrima de Paris é o protagonista. Os personagens coadjuvantes, às quais o leitor deverá prestar atenção, são Dom Luis de Ayala, o marquês de Alumbres, amigo e aluno do mestre dom Jaime, a bela Adela de Otero, uma mulher estranha que entra na história também como aluna de dom Jaime e o amigo jornalista Agapito Cárceles. 

O romance, desenvolvido ao longo de oito capítulos e 271 páginas, se ocupa da descrição da esgrima e os lamentos do professor, no que diz respeito às armas de fogo e a consequente decadência dessa arte de defesa e ataque em duelos, especialmente, em defesa da honra. Essa decadência também afetava a demanda por alunos, cada dia mais escassos. Contra os princípios de Dom Jaime ele admite Adela de Otero como sua aluna, por quem se apaixona perdidamente. Sempre, no entanto, soube manter a compostura. Já era um senhor de certa idade. Bem, o resto é a trama do enredo, começando a parte policial. A leitura é extremamente agradável e fluente. É daqueles livros que você não quer parar de ler.

Para dar o tom do romance transcrevo um parágrafo em torno da ética e valores da esgrima e sobre a decadência desses mesmos valores, em que Adela de Otero cobra do mestre os ganhos do seu, digamos, estoicismo: "De todos os personagens deste drama, senhor Astarloa, foi o senhor o mais crédulo, o mais querido e o mais digno de dó. - As palavras pareciam gotejar lentamente no silêncio. - Todo mundo, os vivos e os mortos, mandou a consciência às favas. E o senhor, como nas comédias ordinárias, com sua ética ultrapassada e suas tentações vencidas, interpretando o papel de marido enganado, o último a saber. Olhe para o senhor, se for capaz. Pegue um espelho e me diga onde foi parar agora todo o seu orgulho, toda a sua segurança, sua fátua auto complacência. Quem diabo o senhor achava que era? Bem, tudo foi muito enternecedor, está certo. Se desejar, pode se aplaudir mais uma vez, a última, porque já é hora de baixar o pano. O senhor precisa descansar". p. 264. Foi para humilhar!

Deixo a orelha do livro para aguçar a sua curiosidade para a leitura: "Dom Jaime de Astarloa, um homem habituado aos usos da tradição, a honra é mais importante que o sucesso ou o poder político. O sexagenário professor de esgrima permanece fiel aos valores de toda uma vida: a lealdade é um princípio natural e a nobreza significa mais do que títulos adquiridos em ocasião propícia.

Nas ruas de Madri, porém, a agitação crescente - ouvem-se rumores sobre tropas revolucionárias que planejam deixar o exílio e derrubar a casa real dos Bourbon. A esperança republicana toma corpo, mas dom Jaime não se deixa levar pela instabilidade.  Apesar das transformações em curso, tudo é ordem e têmpera para o mestre de esgrima.

O mecanismo de relógio que rege a pacata existência do professor, entretanto, está prestes a ser desregulado.  A misteriosa e sedutora Adela de Otero, de pele acobreada e olhos cor de violeta, acrescenta vertigem à vida do experiente mestre e convence dom Jaime a lhe ensinar os segredos de um golpe fatal, conhecido como a mortífera 'estocada de duzentos escudos'.

À súbita paixão vêm se somar os percalços das intrigas políticas, que chegam aos ouvidos de dom Jaime pelas confissões de um de seus alunos, dom Luis de Ayala, o influente marquês  do los Alumbres. A dom Jaime somente, graças à lealdade do professor, o marquês confia segredos de alcova e documentos lacrados, bem como suas mais secretas opiniões sobre o poder.

Uma investigação policial termina por lançar o mestre de esgrima definitivamente no centro das convulsões políticas e sociais. A perícia de esgrimista terá então de conduzir seus movimentos, e qualquer hesitação poderá custar-lhe a vida. Como afirma o próprio mestre nesta inquietante parábola, 'em esgrima, o simples, é inspiração; o complexo é técnica'. Este parece ser também o norte do estilo do autor: um mínimo de retórica para um máximo de efeitos".

Plenamente recompensado com a leitura do livro e mais do que recomendações para a sua leitura. O autor é espanhol, nascido em 1951. É jornalista de profissão, profissão que abandona em favor da literatura. O mestre de esgrima data do ano de 1988. A edição brasileira é de 2003. A tradução é de Eduardo Brandão.



domingo, 18 de abril de 2021

A misteriosa chama da rainha Loana. Romance ilustrado. Umberto Eco.

É mais um Umberto Eco. Trata-se de A misteriosa chama da rainha Loana. Romance ilustrado. Comprei o livro em 2009 e o li em partes. Fiz até alguns apontamentos. Deles não me lembrava absolutamente nada. Não, não se apavorem. Eu não perdi a memória. Apenas para dizer que o livro trata da perda da memória e da tentativa e dos esforços feitos para recuperá-la. O livro se divide em três partes: Primeira: O acidente; Segunda: Uma memória de papel; Terceira: OI NOZTOI (O Z, na verdade é o Zigma).

A misteriosa chama  da rainha Loana. Umberto Eco. Record. 2005. Tradução: Eliana Aguiar.

Na primeira parte Yambo, o protagonista do romance, sofre um acidente (certamente um AVC) e perde a memória em partes. Não mais lembra quem ele é ou como se chama, mas ainda consegue dirigir, identificar as diferentes cores e não perdeu o sabor (ainda bem - assim pode tomar uma garrafa de vinho, acompanhando as refeições). Relembra a sua profissão de comerciante de livros raros e de sua secretária, a bela (bela até demais - segundo Paola, a esposa) Sibilla. Politicamente, lembra que era um pacifista. São os quatro primeiros capítulos.

Na segunda parte, Yambo busca a recuperação da memória, indo para a pequena cidadezinha de Solara, onde, na casa do avô, volta a ter contato com os anos de sua infância e juventude. É a parte mais longa do livro e grande parte dele se passa no sótão, onde estão encaixotadas as coisas desse tempo. Passa por reencontrar uma enciclopédia, revistas em quadrinhos, um rádio e documentos e recortes de jornais dos anos do Fascismo e da Guerra. A época retratada, os anos de infância e juventude, são os da década de 1930 e 1940. Encontra ainda discos e seus cadernos e livros escolares. Aí está a preciosidade do romance. A reconstituição de uma época, retratada pelos livros oficiais. Como eles vão até depois da guerra, é notável observar a mudança de posição com relação a valores e heróis. Passa oito dias no sótão e a sua pressão se altera, ela sobe.

Quando descobre um livro raro de Shakespeare, que vale uma fortuna, ele não aguenta. Entra em coma. Aí vem recordações enevoadas. As artimanhas de um narrador. É a terceira parte do livro. As contraposições da história oficial se acentuam com as derrotas do nazi-fascismo, mostradas especialmente nas revistas em quadrinhos, onde agora irão aparecer os heróis norte-americanos. O capítulo dezesseis é o mais rico deles. Nele, Yambo estabelece diálogos com Gragnolo, um jovem anarquista, um contestador, qualidade inerente a todo anarquista. Deus, o Bem e o Mal, Fascismo e Livre Arbítrio são alguns temas abordados. Nesta parte do livro ele entra, não sei se é correto dizer, em fluxos de consciência. Relembra os seios nus de Josephine Baker e a homenagem que lhe presta, devidamente confessada ao padre, - mas se fixa mesmo, num amor platônico de sua adolescência, - a menina, LILA, que na história real desaparecera por completo de seus horizontes. Ela viera para o Brasil e dela não se teve mais notícia. Sim, o romance tem a Itália fascista como cenário junto com a eclosão da Segunda Guerra e o seu final. Esse amor seria a misteriosa chama?

Para dar uma ideia mais precisa do livro, transcrevo a sua orelha: "Depois de Baudolino, Umberto Eco lança um romance cheio de calor e lembranças, de suspiros (mitigados) e saudades. Decidiu assumir a paisagem de sua geração e, a partir dessa luz, obteve uma narrativa de fundo biográfico, num vasto painel dos anos 1930 e 1940, do brevíssimo e sobressaltado século XX.

O protagonista, Yambo, é um senhor de meia-idade, provido de grande cultura, que trabalha com livros raros, em Milão. Após salvar-se de uma doença grave, Yambo perde uma parte da memória afetiva ou biográfica. Para tentar recuperá-la, passando um longo período nas montanhas do Piemonte, na casa que fora de seu avô. As lembranças reaparecem - com idas e vindas - quando se depara com um acervo que lhe marcou a infância: jornais, discos, quadrinhos - um imenso parque (ou cemitério) de objetos. Toda uma semiologia que leva aos tempos do Fascismo e às portas da Segunda Grande Guerra.

Desdobra-se o romance no repertório fundamental da primeira e da segunda infâncias de Yambo-Eco, nos sonhos de heróis e distâncias impossíveis: das figurinhas de álbuns famosos aos mais diversos gibis; do suplemento Corrieri dei Piccoli; das obras de Emilio Salgari, em orientes perdidos e suspirados; da canção popular, por onde passam jovens frágeis e inesquecíveis (Signorinella pallida), outras, apaixonadas (C'erevamo tanti amati), ousadas, patriotas ( Le ragazze di Trieste); além dos hinos fascistas, com suas promessas de perenes primavera e juventude (Primavera , Giovinezza),, visando ao fortalecimento moral das fronteiras do Império Italiano. E mais, o rádio de galena, as ondas curtas e a BBC de Londres.

Que o leitor descubra todo o percurso de Yambo, e que reconheça imagens e canções, que marcaram parte essencial da história da Itália e do Mundo.

Nesse romance pós-moderno, será difícil não evocar as Confissões de Agostinho ou a filogenética, a delicada fronteira do repertório individual e do coletivo, o palácio da memória e a digital da história. Eco nos traz um romance largo e emocionado"

Como pontos altos do livro, destacaria, do capítulo 17 (são 18 ao todo), a discussão entre Yambo e Gragnolo, o seu amigo anarquista, uma discussão sobre o fascismo (p. 341), sobre os males contidos nos dez mandamentos (apenas quatro são bons), ditados por um Deus fascista (p. 342-345), sobre o Bem e o Mal e o Livre Arbítrio. Do Livre Arbítrio tomo a reflexão final: "Você fala como um teólogo, só que todos eles falam de má-fé. Dizem como você que o Mal existe, mas Deus nos deu o mais belo presente do mundo que é o livre-arbítrio. Podemos livremente fazer o que Deus ordena ou o que o diabo sugere, e se depois vamos para o inferno é porque não fomos criados como escravos, mas como homens livres, só que usamos mal a nossa liberdade e isso foi uma decisão nossa". Isso. Isso? Mas quem lhe disse que a liberdade é um presente? p. 349. E aí vem as contestações.

O fato de ser um romance ilustrado nos põem em contato com um rico acervo de capas de livros e de revistas, de manchetes de jornais e artistas em cartaz na época. Coisa bem do campo e do domínio do escritor.  Dois grandes temas em foco. A perda da memória e a memória dos tempos do fascismo.

terça-feira, 13 de abril de 2021

O Cemitério de Praga. Umberto Eco.

É um Umberto Eco. Comprei O Cemitério de Praga em 2011, quando ainda estava em sala de aula. Por esta razão, apenas comecei a sua leitura, sem concluí-la. É um livro volumoso. São 479 páginas. Agora o retomei e o li em uma só sentada. Não é um livro de leitura fácil. São muitos personagens e vários fatos históricos, dos quais você precisa ter algum conhecimento, para que a leitura flua. Ao final do livro, o próprio autor procura facilitar a leitura, através de uma coluna em que alinha o capítulo com o enredo e a história. Ao todo são 27 capítulos e o tempo histórico descrito vai de 1830 até 1898.

O Cemitério de Praga. Record. 2011. Tradução de Joana Angélica d'Avila Melo.

Simone Simonini é o personagem central do livro e, segundo o autor, é o único personagem inventado na história. Todos os outros são personagens reais. Simonini divide o seu protagonismo com o seu alter ego, o padre Della Piccola. Simonini escreve o seu diário de memórias, iniciado em 24 de março de 1897 e o termina em 20 de dezembro de 1898. Ele conta a sua história de vida, desde os anos de sua infância vividos em Turim, a sua participação nas guerras da unificação italiana, o seu exílio em Paris, de onde assiste e participa, nos bastidores, com a elaboração de documentos históricos e falsificações, dos episódios da segunda metade do século XIX. Catolicismo, jesuítas, maçonaria e judeus constituem o núcleo central do livro. 

Ao final do livro, na página 478, temos uma espécie de adendo - Fatos póstumos - que esclarece muitas coisas. Aparecem quatro datas; 1905, quando na Rússia se fala de uma "sinistra conspiração mundial", uma "conspiração maçônica judaica", que pode ser conhecida através  de um manuscrito, sob o título Protocolos dos anciãos de Sião; 1921, quando o London Times estabelece relações entre o livro de Joly (este autor aparece muitas vezes ao longo do romance) e os protocolos e os considera como uma falsificação; 1925, Hitler cita os protocolos no Mein Kampf e 1939, ano em que Henry Rollin considera os protocolos como a obra mais difundida no mundo depois da Bíblia.

Vamos agora procurar elucidar o título do livro - O Cemitério de Praga. É neste cemitério que se reuniam os rabinos para debaterem o seu plano de dominação do mundo. Esse projeto envolvia judeus,  maçons e os jesuítas, que não passam de "maçons vestidos de mulher". p. 22.  Muitas tramas neste romance, que pode ser qualificado como um romance histórico, uma vez que os personagens envolvidos são reais. Uma história de horrores, que viria a desaguar nos acontecimentos da primeira metade do século seguinte. Espionagem e contraespionagem, traições e assassinatos, cadáveres ocultos em cloacas, falsificação de documentos, perfuração de hóstias consagradas em missas de magia negra vão se sucedendo ao longo dos 27 capítulos do livro.

Na resenha vou me ater ao capítulo 26 que leva o título de "A solução final". Nele está revelado o famoso plano de dominação mundial. Assim lemos: "Conferi o que eu já tinha usado para os discursos  precedentes do rabino. Os judeus se propunham apoderar-se das vias férreas, das minas, das florestas, da administração, dos impostos, do latifúndio; visavam à magistratura, à advocacia, à instrução pública; queriam infiltrar-se na filosofia, na política, na ciência, na arte e, sobretudo na medicina, porque um médico entra nas famílias mais facilmente do que um padre. Convinha minar a religião, difundir o livre pensamento, suprimir nos programas escolares as aulas de religião cristã, açambarcar o comércio do álcool e o controle da imprensa. Santo Deus, o que mais eles pretendiam". p.450. Na sequência, são listados os meios para atingirem seus fins. A frase atribuída a Maquiavel aparece explicitamente:

"Para impedir que o povo descubra, por si só, uma nova linha de ação política qualquer, nós o manteremos distraído com várias formas de divertimento: jogos ginásticos, passatempos, paixões de vários gêneros, tabernas, e o convidaremos a participar de competições artísticas e esportivas... Estimularemos o amor pelo luxo desenfreado e aumentaremos os salários, mas isso não trará benefícios ao operário, porque simultaneamente acresceremos o preço das substâncias mais necessárias, sob o pretexto de maus resultados nos trabalhos agrícolas. Minaremos as bases da produção, semeando os germes da anarquia entre os operários e encorajando-os ao abuso de bebidas alcoólicas. Procuraremos dirigir a opinião pública para toda espécie de teoria fantástica que possa parecer progressista ou liberal". p. 451. Também havia um programa de controle dos estudantes:

"Quando estivermos no poder, supriremos dos programas educativos todas as matérias que possam perturbar o espírito dos jovens e os reduziremos a criancinhas obedientes, que amarão seu soberano. Em vez de estudar os clássicos e a história antiga, que contêm mais exemplos ruins que bons, mandaremos que estudem os problemas do futuro. Cancelaremos da memória dos homens a lembrança dos séculos passados, que poderia ser desagradável para nós. Com uma educação metódica, saberemos eliminar os resíduos de independência de pensamento da qual desde há muito nos aproveitamos para nossos fins... Sobre os livros com menos de trezentas páginas, baixaremos uma taxa dupla, e essa medida obrigará os escritores a publicar obras tão longas que terão poucos leitores. Nós, ao contrário, publicaremos obras baratas para educar a mente do público. A taxação determinará uma redução da leitura deleitável e ninguém que deseje atacar-nos com sua pena encontrará um editor". p. 452. Quanto a imprensa também havia um programa:

"Quanto aos jornais, o plano judaico prevê uma liberdade de imprensa fictícia, que sirva para o maior controle das opiniões. Dizem os nossos rabinos que será preciso apoderar-se do maior número de periódicos, de modo que expressem opiniões aparentemente diferentes, a fim de dar a impressão de uma livre circulação de ideias, ao passo que, na realidade, todos refletirão as ideias dos dominadores judeus. Observem que comprar os jornalistas não será difícil, porque eles constituem uma maçonaria e nenhum editor terá coragem de revelar a trama que liga todos à mesma trilha, uma vez que ninguém é admitido ao mundo dos jornais sem ter tomado parte em algum negócio escuso na sua vida privada.... p. 452. E assim por diante...

Como não tenho imagens do cemitério, vai aí um dos símbolos da cidade. O relógio astronômico.

Quero deixar ainda uma frase que, para mim, foi a mais marcante do livro. Ela é dita por um russo, Rachkovsky, que pede a Deus, para que sempre tenham um judeu a quem possam expressar o seu ódio: "É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança. Alguém já disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais costuma se enrolar em uma bandeira, e os bastardos sempre se reportam à pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Muito bem, o senso de identidade se baseia no ódio, no ódio por quem não é idêntico. É preciso cultivar o ódio como paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. É sempre necessário ter alguém para odiar, para sentir-se justificado na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. O amor, sim, é uma situação anômala. Por isso, Cristo foi morto: falava contra a natureza. Não se ama alguém por toda a vida; dessa esperança impossível nascem adultérios, matricídios, traições dos amigos... Ao contrário, porém, pode-se odiar alguém por toda a vida. Desde que esse alguém esteja sempre ali, para reacender nosso ódio. O ódio aquece o coração". Hoje poderíamos dizer, - um inimigo, seja ele quem for, mas um inimigo, nem que ele seja uma construção, uma invencionice. 

Para dar uma ideia mais precisa do livro, transcrevo o primeiro parágrafo da orelha da capa: "Ao longo de todo o século XIX, entre Turim, Palermo e Paris, encontramos uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres no esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo, desaparecido no mar nas proximidades de Stromboli, o falso bordereau de Dreyfus para a embaixada alemã, a disseminação gradual da falsificação conhecida como Protocolos dos sábios de Sião (que serviriam de inspiração a Hitler para os campos de concentração), jesuítas que tramam contra maçons, maçons, carbonários e mazzinianos que estrangulam padres com as tripas das próprias vítimas, um Garibaldi de pernas tortas, os planos dos serviços secretos piemonteses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna em que se comem ratos, golpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que, entre doses de absinto, planejam explosões e revoltas de rua, barbas falsas, falsos notários, testamentos enganosos, irmandades diabólicas e missas negras. Um material perfeito para um romance-folhetim ao estilo oitocentista, ilustrado com os feuilletons daquela época".

Este romance aparece em 2010, trinta anos após o insuperável O nome da rosa. Trata-se de uma antevisão dos horrores do século XX, quando efetivamente todos os ódios implodem ou explodem. Uma obra, para implodir também, toda e qualquer ingenuidade. E, acima de tudo, extremamente atual. "Que Auschwitz não se repita", nos alertava Adorno. Será difícil. E, como diz Primo Levi, um raro sobrevivente de Auschwitz, em frase de epígrafe no livro Fascismo - um alerta, de Madeleine Albright, "Toda era tem o seu próprio fascismo". Infelizmente, o Brasil tem o seu, com uma dose de ódio mais forte do que as doses de absinto que são sorvidas no livro.