terça-feira, 13 de setembro de 2016

Uma história natural da curiosidade. Alberto Manguel.

Se tivéssemos que escolher uma frase que simbolizasse e sintetizasse  o livro Uma história natural da curiosidade, de Alberto Manguel, certamente a frase seria esta: "Desde que comecei a ler, sei que penso por meio de citações e que escrevo com aquilo que outros escreveram, e que não posso ter outra ambição senão a de reestruturar e reorganizar" (pág. 364). Alberto Manguel faz literatura com a própria literatura. É uma característica sua. Neste livro, em particular, ele faz uma devassa pelos livros que exploraram as grandes angústias e aflições humanas, tornadas vivas pelos grandes escritores e dá para os seus leitores um raro brinde. Sempre aprendi que a grande literatura é aquela que melhor expressa a condição humana.
A capa, com o quadro - Partida para a grande viagem.

O livro tem uma data. Mondion, 5 de maio de 2.014. A data de sua conclusão. Foi editado em inglês em 2015 e lançado no Brasil em agosto de 2016. O título original é Curisity, que foi traduzido, na edição brasileira, como Uma história natural da curiosidade. A capa é uma xilogravura de Salvador Dalí, Partida para uma grande viagem, que se encontra no Museu de arte de Dallas. A imagem de uma partida, com todos os significados e simbologias da palavra é o que o move.

Já que avocamos a imagem de partida, começamos com a de Dante: "No meio do caminho em nossa vida, eu me encontrei por uma selva escura". A Divina Comédia é o grande guia para toda a história natural da curiosidade. Já no primeiro capítulo o autor questiona o que teria levado Dante a escrever a sua obra e o que ele teria lido para poder escrevê-la. Dante não inicia sozinho a sua partida. Ele tem vários guias, sendo Virgílio o principal. Virgílio vivera uma aventura semelhante. Isso pressupõe que Dante conhecia toda a literatura clássica. E como conhecia! Manguel nos faz reviver um encontro com Homero e com as aventuras profundamente humanas de Ulisses, que não voltou à Ítaca por uma linha reta, para expor ao longo de seu trajeto, toda as condições do profundamente humano. Sempre ouvi, que a Odisseia é o primeiro grande livro em que está exposta a condição humana.

Manguel também nos remete aos filósofos gregos. Afinal de contas, não foi Sócrates que nos ensinou o parto das ideias e o instrumental deste parto não era a pergunta? Manguel promove belíssimos encontros também com os sofistas, com Platão e com Aristóteles, sempre com provocações muito instigantes e vivas. Evidentemente que também não falta a mitologia.
A Divina Comédia . A grande inspiração para a escrita deste livro.

O autor passa também pela Bíblia, onde busca os inícios da linguagem, passando também, com a mesma finalidade, por Hesíodo. As angústias, incertezas e aflições humanas também estão fortemente presentes, através das Confissões de Santo Agostinho. Também Tomás de Aquino comparece com a sua Suma  Teológica. Pensadores depois de Dante também estão presentes. Os principais são Shakespeare, Goethe e Kafka, com grande destaque para este último. Dos brasileiros, está presente Sebastião Salgado com a suas fotografias e da América Latina, Garcilaso de la Vega, com o qual procura decifrar os quipos e também José Hernandes e o seu Martin Fierro.

Os grandes temas são os que afligiram a humanidade ao longo de todos os tempos e que a fizeram lançar as grandes interrogações e a buscar respostas que, no entanto, nunca satisfazem plenamente. Afinal de contas, o que é a verdade, questão trabalhada no último capítulo. Origens e destinos, comunicação e convivência, justiças e injustiças, limites e finitudes, fraquezas e forças, morte e transcendência, partidas e chegadas são as grandes questões humanas trabalhadas. Mas como a maior inspiração é Dante, também os pecados capitais estão sempre presentes. Vamos, objetivamente, especificar melhor o teor do livro, apresentando os títulos dos 17 capítulos, todos com um ponto de interrogação.

1. O que é curiosidade? 2. O que queremos saber? 3. Como raciocinamos? 4. Como podemos ver o que pensamos? 5. Como nós perguntamos? 6 O que é linguagem? 7. Quem sou eu? 8. O que estamos fazendo aqui? 9. Qual é o nosso lugar? 10. Em que somos diferentes? 11. O que é um animal? 12. Quais são as consequências de nossas ações? 13 O que podemos possuir? 14. Como podemos pôr as coisas em ordem? 15. O que vem em seguida? 16. Por que as coisas acontecem? 17. O que é verdade? Estes capítulos são antecedidos por uma introdução.


Os capítulos que mais me impressionaram foram: o primeiro, em que procura responder o porquê de  Dante ter escrito a sua obra e o que ele leu para poder escrevê-la; o terceiro, em que existe uma bela discussão sobre Sócrates e a visão dos sofistas, se ocupando bastante destes; o oitavo, em que mostra as preocupações com a ecologia e as maldições de Dante para aqueles que não preservaram a natureza, fazendo-os caminhar eternamente sobre areias quentes; o nono em que existe toda uma escalada para o humano; o décimo em que faz uma bela abordagem sobre o feminismo; o treze, em que trata de um tema muito atual, a avareza e o dezesseis, em que introduz Primo Levi em Auschwitz, quando o soldado alemão lhe diz hier ist kein warum. Aqui não se pergunta Porquê. Possivelmente eu tenha cometido pecados por omissão, nestas preferências. Escolhas são sempre complicadas.

O livro também vem acompanhado de belas gravuras, retiradas de museus e da Biblioteca Beinecke de Livros e Manuscritos Raros da Universidade de Yale. São verdadeiras preciosidades. Como viram, o livro é um verdadeiro brinde para o leitor, mas para um leitor exigente, muito exigente. Por ele você também pode fazer um testagem sobre as suas próprias leituras. Você ficará sabendo se elas foram realmente significativas ou se você precisa começar a ler agora.

Na contracapa do livro lemos, à guisa de apresentação: "A curiosidade tem sido vista ao longo dos séculos como o impulso que leva adiante o conhecimento. Ao mesmo tempo, muitas tradições a julgam como a tentação que leva a territórios perigosos e desconhecidos". Me permitam ainda duas belas frases: "Se um homem começar com certezas, ele acabará com dúvidas; mas se ele se contentar em começar com dúvidas, acabará com certezas." Francis Bacon. Página 123 e "Homens temem que mulheres riam deles. Mulheres temem que homens as matem". Margareth Atwood. Página 247.

Li este livro em função da parceria do blog com a Companhia das Letras. Por isso dou as referências do livro. MANGUEL, Alberto. Uma história natural da curiosidade. Companhia das Letras. São Paulo: 2016. 486 páginas. Preço sugerido: R$ 74,90. Ideal para presentear, mas com cuidado. É um livro com rara erudição.



terça-feira, 6 de setembro de 2016

A cidade e as serras. Eça de Queirós. Vestibular da USP.

A minha chegada a este livro também se deu pela indicação dos livros para o vestibular da USP. Afinal de contas, a indicação de um livro para o vestibular da maior universidade brasileira sempre deve ser uma boa recomendação. E não teve erro. Para essa indicação também concorre todo o nome de Eça, conquistado pelos seus outros romances e a posição que ele ocupa dentro da literatura portuguesa.
Li esta edição. SESI-SP. Poderia ter uma contextualização melhor.

A cidade e as serras é o último livro do escritor. Eça nasceu em 1834 e morreu em 1900. O livro foi editado postumamente em 1901. Não contou com a sua acurada revisão, ao menos a sua parte final. A estrutura do romance é simples e já no título a sua temática é anunciada. A cidade e as serras. A cidade é Paris e as serras são as do norte de Portugal, as de Guiães, de Tormes, Tormes também dá o nome ao principal personagem da obra: Jacinto de Tormes. A obra se ocupa, pois, do contraste entre a cidade e o campo, a técnica e a natureza.

A cidade é Paris e em Paris há um endereço. Campos Elísios nº 202. A Champs Élysées  não é meramente a principal avenida de Paris. É uma das mais importantes avenidas do mundo. Paris é a civilização. O romance é ali ambientado e o tempo descrito é o da segunda metade do século XIX, um tempo de triunfo das ciências, da impregnação das ideias do positivismo e a ideia do progresso irreversível. Também é o tempo de ácidas e fulminantes críticas. Eh! Que maçada! Eh! que maçada! Sofrer é inseparável do viver! O tédio é uma lei universal! Esta será a sensação vivida por Jacinto, um rico herdeiro, cuja família remonta ao século XIV.
A famosa  Champs Élysée. O nº 202 desta avenida é o principal cenário da obra.

A primeira parte do livro, após situar os personagens, é toda dedicada a vida que Jacinto leva no fausto do 202 da famosa avenida. Vive num palácio, com todos os encantos e confortos da civilização, como a eletricidade, a água encanada, inclusive a água quente, elevador e telefone e uma biblioteca com trinta mil exemplares. Nem sempre tudo funciona a contento, especialmente, quando isso é mais esperado. Os hábitos são os mais refinados, as companhias as mais ilustres e os vinhos os mais rebuscados. O resultado, no entanto, é sempre e invariavelmente o tédio. De Salomão a Schopenhauer.

A crítica, embora não seja tão áspera como em obras anteriores, continua bem viva. Vou destacar uma, feita à burguesia e à religião. Ela é feita pelos dois grandes personagens, Jacinto e Zé Fernandes, no alto da igreja do Sagrado Coração, nas proximidades de Montmartre, uma das vistas mais impressionantes da cidade. A crítica primeiramente se dirige para a burguesia em ascensão: "O burguês triunfa, muito forte, todo endurecido no pecado - e contra ele são impotentes os prantos dos Humanitários, os raciocínios dos Lógicos, as bombas dos Anarquistas. Para amolecer tão duro granito só uma doçura divina". Depois sobra para a religião:
No alto, numa vista fantástica, junto a igreja do Sagrado Coração, um diálogo entre Zé Fernandes e Jacinto.

"Eis pois esperança da terra novamente posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Céus; e, para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela porta de um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um meigo sermão numa montanha, ao fim duma tarde meiga; uma repreensão moderada aos Fariseus que então redigiam o Boulevard; algumas vergastadas nos Efrains vendilhões; e logo, através da porta da morte, a fuga radiosa para o Paraíso! Esse adorável filho de Deus teve demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai!". Na sequência, o emo tom.

Já quase ao final da obra, quando Zé Fernandes retorna momentaneamente a Paris, cita os dois grandes apetites da cidade: "encher a bolsa - saciar a carne".

Jacinto, depois de uma carta de seu feitor, contando de uma grande enchente em Guiães, que destroçara a capela onde estavam os restos mortais de seus familiares, decide fazer a restauração e estar pessoalmente presente na solenidade da translação dos ossos. Inicialmente se decide por levar a civilização a Tormes, por caixas e mais caixas de suas maravilhas. Estas, no entanto, se perdem pelo caminho. A não ser nos primeiros dias, já não mais lhes sente a falta
Eça de Queirós (1834- 1900). Um dos maiores escritores da literatura portuguesa.

A mesma paixão com que Jacinto se dedicara à civilização ele agora dedica a vida simples do campo. Passa a ser tocado por um impulso de remorso social e dá vida confortável a todos ao seu redor, construindo casas confortáveis, melhorando os soldos e construindo escola para as crianças. Jacinto passa a ser confundido com D. Sebastião, em sua triunfante e generosa volta. Descobre a beleza das serras, o encanto dos pássaros, o barulho das cachoeiras e os sabores do campo.

Jacinto que previra ser o último dos Jacintos, o seu ponto final se enlaça com uma bela menina, Joaninha, uma prima de Zé Fernandes e logo passa a ter um casal de filhos. Nem sequer volta a Paris, tarefa que ficará a cargo do narrador-personagem, Zé Fernandes. E o livro encerra com um belo parágrafo todo dedicado a uma volta ao romantismo, na pena de Zé Fernandes:

"Eu na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da natureza campestre e mansa - o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes de sua abençoada tribo, e eu - tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente subíamos - para o Castelo do Grã-Ventura".

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O Cortiço. Aluísio Azevedo. Vestibular USP.

Aprendi um truque, para não passar vergonha, ao não ter lido um livro. A gente diz que está relendo ou que precisa reler. Mas este, eu de fato tenho que dizer que não o tinha lido. A indicação me veio através dos livros da lista do vestibular da USP, - FUVEST 2017. Trata-se de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, um escritor da corrente do naturalismo, um grupo mais extremado dentro do realismo. O romance foi publicado em 1890, mas retrocede um pouco no tempo, aos fins do império.
Uma bela edição de O Cortiço, da Moderna. Muito ilustrativa.

O romance é ambientado no Rio de Janeiro, no bairro de Botafogo, que é até onde o Rio da época chegava, na sua expansão para a zona sul. O Cortiço está em meio a palacetes. O cortiço específico do romance é, inclusive, vizinho de um palacete e seus moradores são, como os do cortiço, os personagens do livro. No palacete mora a família Miranda, Miranda e Estela, mais a filha Alzira e um adendo familiar chamado Botelho, um aproveitador sem escrúpulos.. O cortiço é de propriedade de um português, João Romão, que tudo faz para enriquecer. Os demais personagens do romance são os moradores do cortiço, quase todos desafortunados. Também há um outro cortiço na vizinhança, o Cabeça de Gato.

Miranda casou-se com Estela por causa de um rico dote. Tinha comércio na rua mais chique do Rio de Janeiro, a rua do Ouvidor. Estela não lhe era fiel, mas a vida de Miranda tinha que continuar. Os negócios prosperavam e era isso o que importava. A prosperidade e o crescimento da filha o levaram a morar no palacete, vizinho ao cortiço de João Romão.
Contraponto entre os palacetes e os cortiços. Uma imagem do Rio de Janeiro.

João Romão no começo tinha apenas uma casa comercial mas já acalentava o sonho da construção de quartos para alugar. Assim se formou o cortiço. João não tinha escrúpulos para realizar o sonho do enriquecimento, da prosperidade, seja na balança ou no troco. Aliou-se a Bertoleza, uma negra absolutamente ignorante, mas boa de trabalho. Assim ela atendia aos seus interesses. Economia, sovinice e trabalho era o resumo de suas vidas. Quanto mais dinheiro conseguia ajuntar, mais avarento ficava. Tinha também uma pedreira.

No cortiço desfilam os mais diferentes personagens. Os de maior destaque serão Jerônimo e Piedade, um casal de portugueses dados ao trabalho duro e a hábitos simples. O máximo que faziam era se entregar ao fado, num domingo pela tarde, Tinham uma menina, mas esta estava interna em um colégio. Jerônimo foi trabalhar na pedreira de João Romão. Piedade era uma das tantas lavadeiras e passadeiras do cortiço. A vida do cortiço sofreu grande mudança com a chegada de Rita Baiana. Ela logo enfeitiçou Jerônimo. Pombinha também ganhou grande destaque. Pelas cartas que escrevia soube da vida dos casais. O seu casamento mal e mal durou dois anos. Foi fazer companhia a Léonie na prostituição.

Léonie foi a protagonista de uma das primeiras cenas de lesbianismo na literatura brasileira, com a ainda púbere Pombinha, sem o consentimento desta. Quanto ao mais, o livro faz a descrição minuciosa do cotidiano do cortiço. Fofocas, arruaças, confrontos com a turma do Cabeça de Gato, incêndios, loucuras, casamentos feitos, desfeitos e refeitos. Também solidariedade e ajuda mútua entre os moradores. Outro personagem bem caracterizado é o sovina do Libório, um mendigo, que acumulara uma fortuna, da qual o João Romão se apropriou.
Aluísio Azevedo, um escritor que perdemos para o mundo da diplomacia.


A fortuna acumulada por João Romão o fez mudar de hábitos. Aburguesou-se. Começou a se interessar por Zulmira, a vizinha rica. Botelho, por dinheiro, fez a mediação. João Romão precisava agora se livrar de Bertoleza. A remeteu de volta à escravidão, de novo com a mediação de Botelho, mas ela não o permitiu. Preferiu uma saída mais honrosa, rasgando o seu ventre.

A obra de Aluísio Azevedo precisa ser lida dentro da escola do naturalismo. A sua tese central é o determinismo, marcado pelo meio ambiente social, pela raça, pelo momento e circunstâncias  vividas. É um livro cheio de preconceitos. É a arrogância do mundo das ciências. O seu valor é notório por ser uma crônica fiel deste período de grandes transições em nossa história. Imigração, pobreza, vida urbana incipiente, degradação moral de ricos e pobres. Os ricos se perdem na ânsia da ascensão econômica e social e os pobres pela total degradação do meio em que vivem. Outra questão muito forte é a total ausência e omissão do Estado com relação aos cortiços, focos de falta de higiene e de transmissão de doenças, que tanto afetaram o Rio de Janeiro da época.
O Cortiço também foi levado para o cinema.


Também entre os cortiços havia a hierarquia social. Assim o cortiço de João Romão virou um cortiço chique, de pessoas melhor empregadas, enquanto que o Cabeça de Gato recolhia toda a espécie de excluídos deste tempo e os que se perderam na inexorabilidade das fatalidades das misturas de raças e da contaminação dos ambientes sociais, os principais preconceitos que o autor faz desfilar na obra.

Para se ter uma ideia do que efetivamente era um cortiço, deixo a descrição do Cabeça de Gato, já quase ao final da obra. "E a mísera (Piedade - ex de Jerônimo), sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no Cabeça de Gato que, à proporção que o São Romão se engrandecia, mais e mais ia se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava, como se todo o seu ideal fosse conservar inalterável para sempre, o verdadeiro tipo da estalagem fluminense, a legítima, a legendária; aquela em que há um samba e um rolo por noite; aquela em que se matam homens sem a polícia descobrir os assassinos; viveiro de larvas sensuais em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma cama; paraíso de vermes; brejo de todo quente e fumegante, donde brota a vida brutalmente, como de uma podridão". Possivelmente a passagem mais significativa do livro.

Li a edição da editora Moderna, da coleção Travessias. Um primor. Notas explicativas e uma bela caracterização do naturalismo, fundamental para entender a obra. Um crônica fiel deste tempo histórico. A carreira diplomática encerrou com a carreira deste brilhante escritor, preconceitos a parte. Também o autor é um ser situado e datado.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A Radiografia do Golpe. Jessé Souza.

Já são vários os livros sobre o golpe que está prestes a ser consumado. Até participei de um deles, As crônicas da resistência, organizado por Cleusa Slaviero e com mais de 80 indignados autores. Tenho ainda em mãos, Por que gritamos golpe, também uma coletânea de artigos. Mas, assim que vi, anunciado em pré venda, o livro de Jessé Souza, o encomendei e assim que chegou, o li de um fôlego só. O livro tem por título A Radiografia do Golpe e como subtítulo Entenda como e por que você foi enganado. A editora é a Leya.
O livro de Jessé Souza, A radiografia do golpe.

Tenho enorme apreço por Jessé. Li o seu A Tolice da Inteligência Brasileira ou como o país se deixa manipular pela elite, e guardo dentro dele os apontamentos de uma palestra sua na Universidade Federal do Paraná, na aula inaugural do ano letivo de 2016, no curso de Direito. Jessé ocupou a direção do IPEA no governo da Presidente Dilma. Foi imediatamente defenestrado, assim que o interino golpista assumiu.

O apreço que tenho por Jessé é por sua interpretação de Brasil e pelo sonho que ele alimenta em transformá-lo numa grande nação, a partir das possibilidades que se originam de suas interpretações. Muitos dos temas abordados no livro da Tolice reaparecem agora na Radiografia. Interpretações necessárias, para entender o modo de pensar o país, especialmente, pelas lentes de sua elite escravocrata, sempre em busca de lucros absurdos, sem compromissos com a construção de uma nação próspera e generosa para com os seus filhos.
Jessé Souza autografando o meu exemplar de A Tolice da Inteligência Brasileira.


Não pretendo fazer uma síntese de sua obra, mas sim, uma resenha que seja um chamado para a leitura. O livro é composto por um prefácio, onde explana o projeto do livro e anuncia os seus três capítulos que, na verdade, são dois, mais a conclusão. Não poderia também deixar passar em branco a frase escolhida como epígrafe para o livro. É de Cazuza: "Transformam o país num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro".

O capítulo 1 tem como título o seguinte: Os golpes sempre foram por mais dinheiro para poucos, e nunca para combater a corrupção. Ele tem os seguintes subtítulos: A construção da corrupção como "direito contra o inimigo" de classe e a ciência a serviço do dinheiro; Nosso berço é a escravidão (e não Portugal), e a nossa elite é a da rapina de curto prazo, e não do projeto nacional; Para compreender a luta de classes no Brasil: da sociedade de indignos à classe média indignada. É uma radiografia da sociedade brasileira. É a parte mais longa do livro. Uma reconstituição histórica.

O capítulo 2 tem por título - O golpe "legal" e a construção da farsa e dois subtítulos: O primeiro, O ovo da serpente: as manifestações de junho de 2013 e a construção da "base popular" do golpe. Este subtítulo apresenta dois itens: o casamento entre mídia e classe média conservadora e a imprensa como partido político. O segundo, desigualdade versus moralidade, ou Lula versus Sérgio Moro: enfim a direita ganha um discurso e um líder para chamar de seu. Este é o ponto alto do livro. As análises são absolutamente originais. Souza defende a tese de que o golpe começou em 2013, nas manifestações de junho, fazendo uma análise do comportamento diário do Jornal Nacional e a transformação de uma pauta municipal em nacional, para minar a eleição presidencial de 2014. Como não deu certo, entrou em cena o aparato jurídico policial consorciado com o congresso vendido pelo expediente do financiamento de campanhas, com Eduardo Cunha no comando.
A senadora Katia Abreu tem mãos um exemplar de Crônicas da Resistência 2016.


O capítulo três é a conclusão: ameaças e oportunidades à democracia. São menos de dez páginas que vão do extremo pessimismo a um otimismo possível, nada infantil. O pessimismo se dá em função do tripé que articulou o golpe em favor dos 1% mais ricos do país, os representantes do capitalismo financeiro, que com o seu dinheiro compram todos os espaços de poder. Vejam uma síntese: "E a articulação destes três elementos principais - mídia venal, Congresso reacionário e comprado e a fração mais corporativa e moralista de ocasião da casta jurídica - que municiou e municia constantemente o golpe. Esses três atores trocam vazamentos ilegais e todo tipo de ilegalidade antidemocrática com tanta habilidade como o time do Barcelona troca passes". Para que? "Vender as riquezas brasileiras, o petróleo à frente, cortar os gastos sociais, posto que o que vale agora é apenas o interesse do 1% mais rico, e fazer a festa da turma da "privataria".
A próxima leitura. Autores consagrados.

A reversão da expectativa vem com a sua experiência na Alemanha dos anos 1980, quando ali estudou. "Foi apenas por assumir a herança do nazismo como algo a ser criticado, e não como algo a ser negado patologicamente pelo resto da vida, que a Alemanha se tornou tão ou mais democrática que seus vizinhos". E mais, "não se esquece um dia na Alemanha a ferida do nazismo e de seus crimes inomináveis. Não se aprende esquecendo, mas sim lembrando".
Ricardo III e a tortura da consciência.


Agora a minha parte: Desejo aos senadores golpistas o remorso de Ricardo III. "Ó, covarde consciência, como me afliges!... A luz irradia resplendores azulados!... É hora da meia-noite mortal!... Um suor frio encharca minhas carnes trêmulas!... Como! tenho medo de mim mesmo? Aqui não há ninguém... Ricardo ama Ricardo... É isso; eu sou eu... Há aqui algum assassino?... Não ... Sim!... Eu!... Fujamos, então!... Como! De mim mesmo?... Excelente razão!... Por quê? Do medo da vingança! Como! De mim mesmo contra mim mesmo? Ai! Eu me amo! Por quê? Pelo escasso bem que fiz a mim mesmo? Ah, não! Ai de mim!... Antes deveria odiar-me pelas infames ações que cometi! Sou um miserável! Mas minto: isso não é verdade... Louco, fala bem de ti! Louco, não te adules! Minha consciência tem milhares de línguas, e cada língua repete sua história particular, e cada história me condena como um miserável! O perjúrio, o perjúrio no mais alto grau! O assassinato até o mais feroz extremo! Todos os crimes diversos, todos cometidos sob todas as formas, acodem para me acusar, gritando todos: Culpado! Culpado!... Desesperar-me-ei! Não há criatura humana que me ame! Se eu morrer, nenhuma alma terá pena de mim!... E por que haveria de ter? Se eu mesmo não tive piedade de mim!" Pelo crime praticado, o estupro contra a jovem democracia e pelas suas consequências, ainda acho pouco!


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Ética para Meu Filho. Fernando Savater.

Se o livro de Márcia Tiburi, Filosofia Prática - ética, vida cotidiana, vida virtual é extremamente sofisticado, o livro de Fernando Savater, Ética para meu filho é extremamente simples. A exemplo de Aristóteles com o seu Ética a Nicômaco, Savater também escreveu seu livro para o seu filho, para o Amador. Amador está na adolescência. Por isso, para que ele tenha a devida compreensão, a linguagem foi bem adequada à idade.
Ética para meu filho. Editora Martins Fontes. 1998.

Como vou fazer uma fala sobre o tema, retomei o livro de 1998. Muito o utilizei nas aulas de filosofia e ética. A linguagem é simples, mas não houve nenhuma simplificação nos conceitos trabalhados, todos essenciais para bem compreender o que é efetivamente a ética. Conceitos como indivíduo, liberdade, formação humana, relação com o outro e o conceito que dele tem, o respeito que deve fundamentar esta relação e os direitos que se originam a partir desta relação. Afinal de contas, o viver humano se estabelece na convivência. Viver é conviver.

Uma das ideias mais felizes do autor é que, ao final de cada capítulo, cita frases de autores que trabalharam o tema, para estabelecer com eles uma interação. Uma de suas preferências recai sobre Erich Fromm, ao retirar de seu livro Ética e psicanálise várias frases. Também é notável o uso de personagens conhecidas, a título de ilustração, como o bíblico Esaú que, por precipitação, vendeu a sua primogenitura por um prato de lentilhas para o seu irmão, bem esperto por sinal, o cidadão Kane, que com todo o seu poder e fortuna, vivia triste em seu palácio de espelhos, espelhos estes, que apenas refletiam a sua solidão e Ricardo III., que chega a uma triste conclusão sobre o seu estado clínico patológico: "Lançar-me-ei com sombrio desespero contra minha alma e acabarei transformado em inimigo de mim mesmo".

O livro começa, à guisa de introdução, com uma advertência antipedagógica do autor: "Não creio que a ética sirva para solucionar nenhum debate, embora seu ofício seja colaborar para iniciar todos eles..." e, ainda, que "a pobre ética não veio ao mundo para dedicar-se a escorar ou a substituir catecismos". E, junto com a nota antipedagógica, vem também uma advertência: Ela, a ética "é uma parte essencial de qualquer educação digna desse nome". O prólogo vai também, mais ou menos, na mesma direção, da necessidade de abrir a cabeça. O meio é a reflexão.
Para ter uma ideia dos temas, indico o título dos diferentes capítulos: I. O que é a ética?; II. Ordens, costumes e caprichos; III. Faça o que quiser; IV. Dê a si mesmo uma boa vida; V. Vamos, acorde!; VI. Surge o grilo sábio; VII. Ponha-se no lugar do outro; VIII. Muito prazer; IX. Eleições gerais. Com o epílogo vem a última recomendação: "Cabe a você pensar".

O livro é extremamente bem humorado, longe de ser chato, com recomendações, conselhos ou moralismos, bastante comuns, especialmente em livros com viés religioso. Também não há fórmulas para êxitos financeiros ou sucesso nos negócios, como tantos inescrupulosos, com muita falácia o fazem. Muitos autores também confundem a moral com a ética. Savater usa indistintamente os dois termos mas faz a advertência de que são bem distintos. Muitas vezes se situam em campos opostos. A ética jamais terá mandamentos e receituários. Ela sempre brotará da interação entre a reflexão, ação, reflexão.
Fernando Savater. Sempre preocupado com a ética e a educação.

Creio que seja fácil ver a abordagem temática nos capítulos: Fundamentos da ética no primeiro, moral e costumes no segundo, liberdade no terceiro, busca da felicidade e o seu significado, no quarto, a formação da consciência, no quinto e no sexto, alteridade no sétimo, os prazeres da vida, em oposição com o medo da morte, no oitavo, onde também a questão da sexualidade tem uma bela abordagem. No nono é vista a relação entre a ética e a política e no epílogo faz uma bela recomendação: "Escolha o que o abra: para os outros, para novas experiências, para diversas alegrias. Evite o que o feche e o enterre". O autor não esconde que o sétimo capítulo é o mais longo e o de maior importância.

Na orelha do livro encontramos algo sobre o autor e para quem a obra seria destinada: "Como falar de ética a adolescentes sem cair na simples crônica das ideias morais ou na doutrinação casuística sobre questões práticas? Este livro não pretende resolver este problema nem ser um manual escolar de moralidade. Procura contribuir, filosófica e literariamente, para colocar da melhor forma essa preocupação. Dirige-se especialmente aos leitores entre quatorze e dezesseis anos e nem tanto aos professores deles.  O autor é catedrático de ética do país basco (Espanha)". Da minha parte, porém, eu digo, deve ser  lido também pelos professores. Um livro para estes tempos em que se procura vender a ética e a felicidade como se fossem commoditys.




segunda-feira, 22 de agosto de 2016

"Escola sem Partido". Um golpe contra a educação, contra a autonomia e a liberdade.

Como na sexta feira, dia 19 de agosto de 2016, tivemos um debate sobre o Projeto "Escola sem Partido", julgo oportuno também entrar neste debate. O evento teve lugar no anfiteatro 100 da UFPR e foi patrocinado pelo grupo da APP-Sindicato - Independente, núcleos Curitiba Norte e Metropolitana Sul O palestrante foi o professor Dr. Fernando Penna da UFF. e o debatedor foi o professor Doutor Geraldo Balduíno Horn da UFPR.
 O professor Fernando Penna, uma referência nacional no combate a este projeto fascista.

A fala do professor Fernando Penna foi riquíssima. Ele já está bem traquejado no tema, uma vez que se transformou na grande referência nacional no combate ao projeto, participando de debates na mídia, nos parlamentos, nas audiências públicas, nos sindicatos e em todos os espaços possíveis, onde haja oportunidade para se contrapor a este amordaçador projeto, de inspiração claramente fascista. Por fascismo se entende, em primeiro lugar, a total interdição do diálogo. Também creio ser facilmente visível o grau de inibição e de autocensura que o projeto irá causar.

O professor relatou as origens do projeto. Um tal de Nagib, um advogado paulista, fundou o movimento após ouvir de sua filha, que o professor de história fizera, em sala de aula, uma comparação entre Che Guevara e São Francisco de Assis. Isso em 2004. Nagib é advogado e ganhou notoriedade pelas suas andanças em defesa do projeto. Ele participa de debates na mídia e se evidencia pela truculência de sua verborreia, sempre procurando a desqualificação de quem se contrapõe ao projeto. O principal mote do grupo é o mito da neutralidade e o de que professor não educa, apenas ensina. Um aplicador de aulas, sem identidade e sem consciência. Um robot. Tem raízes mais profundas, nos movimentos conservadores internacionais. A truculência pode ser vista nos sites do movimento.

O projeto ganhou adeptos nas instâncias parlamentares, desde as câmaras municipais, estaduais e federais, atingindo inclusive o Senado com um projeto de um conhecido senador de um emblemático sobrenome, Malta. Nas outras esferas a família Bolsonaro atua em todos os lugares por eles ocupados. O grupo encontrou forte apoio nas chamadas bancadas evangélicas, as da teologia da prosperidade, com o seu discurso de combate às ideologias de gênero. A sua linguagem é de uma falta absoluta de respeito aos seus interlocutores. É discurso ofensivo, xingamentos, humilhações e desqualificações. Os principais alvos que combatem, imaginem, são Paulo Freire e Gramsci.

Eu tive a felicidade de conhecer e conviver por alguns momentos com Paulo Freire. Não se pode imaginar uma pessoa mais humana do que ele. Toda a sua pedagogia é voltada para a conscientização e para a emancipação do ser humano. Defende uma "Educação como Prática da Liberdade e uma Pedagogia do Oprimido, em favor dos oprimidos. Isso tudo porque vivemos em uma sociedade plena de contradições. A finalidade do movimento "Escola sem Partido"  é a de por viseiras e mordaças para que estas contradições não sejam percebidas por aqueles que são vítimas de suas consequências. Procuram evidenciar, com ares de truculência e alto grau de ameaças, que vivemos numa sociedade harmoniosa, isenta de conflitos, de uma suposta meritocracia dos vencedores. Nisso não há nenhuma ideologia.

O professor Penna mostrou a inconstitucionalidade do projeto, o seu confronto com os artigos 205 a 214 da Constituição e de todo o espírito da LDB, uma lei complementar à Constituição e, portanto, hierarquicamente superior à legislação ordinária. Assim considerando, o projeto não deveria  causar preocupações, mas não podemos ter confiança na judicialização da questão, pois nunca tivemos uma oportunidade tão clara para ver a atuação do Poder Judiciário, como o estamos vendo agora.

O professor Geraldo Balduíno, da UFPR, atuou como debatedor e usou o seu tempo para insistir na organização das instituições da sociedade civil para evitar o avanço do nefasto projeto. Quero ainda destacar duas intervenções do plenário no debate. Uma, de um cidadão que procurou se mostrar simpático, afirmando ser filho de professora da escola pública, de ter se formado em engenharia em uma universidade pública, mas que via com satisfação a chegada de um novo AI-5 para conter os abusos cometidos pelos professores. Depois saiu ameaçando, dizendo ter gravado tudo. Foi uma pequena demonstração do estado de ameaça permanente que pairará sobre a cabeça dos professores, caso aprovado o projeto. Eliminarão da docência a quem eles quiserem. Você consegue antever as primeiras vítimas? O projeto prevê inclusive cadeia para os professores.
O professor Fernando junto com o debatedor, Geraldo Balduíno e organizadores do evento.

A outra intervenção foi de um jovem que se confessou liberal. Disse que, apesar de todas as divergências que tinha com relação a concepções de educação e a sua forma de ofertá-la, se mostrava preocupado com o projeto, que não tem inspiração liberal, mas sim, inspiração fascista. Por que estou trazendo este dado? Se até os liberais estão preocupados, imaginem o quantos nós, de inspiração humanista e emancipatória não devemos estar?

Duas recomendações finais, para além da conclamação feita no evento, para a organização e luta contra a aprovação do projeto: a leitura do texto de Adorno Educação após Auschwitz, encontrado no livro Educação e Emancipação e assistir o filme de Ingmar Bergman, O Ovo da Serpente. É possível a volta de Auschwitz, com proporções ainda mais dramáticas, com a eliminação de um mundo de novos indesejados e, também a serpente já está bem visível através da fina membrana que cobre o seu ovo. No futuro é mais fácil vislumbrarmos distopias do que utopias. Lamentavelmente.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Filosofia Prática. Márcia Tiburi.

Há tempos que acompanho Márcia Tiburi. Primeiramente pela revista Cult, depois pelo seu livro Como conversar com um fascista e ainda, por duas palestras suas aqui em Curitiba, uma na UFPR e outra na APP-Sindicato. Nesta fala, na APP-Sindicato, ela falou bastante de outro livro seu, Filosofia Prática. O livro versa, como consta no subtítulo, sobre ética, vida cotidiana, vida virtual. Como tenho pela frente uma fala sobre ética, optei pela leitura deste livro.
300 páginas que integram a ação - reflexão - ação. Incômodo, como olhar diretamente para a luz.

Saramago nos diz que o pensar que não incomoda não é verdadeiramente um pensar e, se este livro teve o objetivo de realmente fazer pensar, isto é, causar profundos incômodos, ele o cumpriu plenamente. Mas o que seria uma filosofia prática, anunciada no título do livro, e por que ela seria efetivamente necessária? Com o livro você terá 300 páginas pela frente para encontrar a resposta. A filosofia prática nada mais é do que a ética. A ética se traduz na ação humana oriunda da reflexão, uma potencialidade perdida pelas amarras produzidas por um mundo, em que o apocalipse já nos atropela. Somar a cada ação humana a riqueza do pensar, do refletir a ação, é a recuperação da ação ou da experiência efetivamente humana. A filosofia prática é uma busca permanente.

Neste sentido a ética não vai ao encontro da moral. pelo contrário, ela é o seu oposto. A moral é feita de códigos prontos que nos são passados pelo discurso, que é a verdadeira morte da linguagem, uma vez que esta se dá pelo diálogo.  A ética implica num encontro do eu consigo mesmo, no encontro deste eu com o outro, encontro que começa pela linguagem e que implica no conviver com o outro. Márcia Tiburi, ao falar da linguagem, lhe acrescenta um adjetivo, a linguagem poética. Num outro livro de ética li, que comer e procriar é muito pouco para uma vida. Seria a ausência do poético.
Márcia Tiburi na UFPR, no curso de direito.

O livro é estruturado em um prefácio, quatro capítulos e um posfácio. O prefácio tem uma espécie de título assim posto, da ética à etico-poética. O primeiro capítulo se ocupa da questão de como me torno quem sou? O segundo capítulo se volta para o outro O que estou fazendo com os outros? O terceiro capítulo versa sobre a interação entre o eu e o tu, do como viver junto? O quarto capítulo versa sobre uma questão extremamente atual, sobre ética e cotidiano virtual.

A própria Márcia fala da temática do livro, quando no quarto capítulo, fala dos problemas que a ética enfrenta no mundo da internet: "A questão de "como" resolver problemas éticos que surjam no mundo da internet depende do reconhecimento do "que" estamos falando e fazendo e, sobretudo, dos processos éticos como processos de recorrente questionamento sobre os modos de subjetivação (como nos tornamos o que somos?), dos modos de relação e ação (o que estamos fazendo uns com os outros?) e dos modos de estar e ser, de existir (como viver junto?). Isto é uma verdadeira pequena síntese do livro.
O mais recente livro de Márcia Tiburi. Lançado num momento muito oportuno.

Quais são os grandes temas apresentados? Norval Baitello Júnior, na orelha do livro, nos dá preciosas indicações: "...mas também apresenta as patologias do nosso tempo. E quantas patologias nos afetam a vida! Enumero apenas algumas, para que o caro futuro leitor tenha uma ideia do amplo espectro do pensamento que aqui se apresenta: 'a banalidade do mal', 'a produção social da ignorância e da burrice', 'o empobrecimento da experiência na comunicação de massa', 'o vazio do pensamento', 'o pseudo lazer do hobby e do consumo', 'o poder de matar o outro por desqualificação e apagamento', (este que motiva tanto a corrupção dos nossos políticos, com sua capacidade de apagar os cidadãos por considerá-los menos espertos, ou também o poder das máquinas de governo de sentenciar a morte de milhões por simples entrega nas mãos do chamado mercado)".

Para mim, particularmente me tocaram alguns conceitos como o da banalidade do mal, analisado sob a luz de Hannah Arendt, em seu Eichmann em Jerusalém. Ali se vê que a prática do mal não está apenas reservado a monstros, mas embutido em todos aqueles que ocupam cargos com mandos burocráticos. Portanto, a prática do mal está bem próxima, está às mãos. Também o conceito de vazio do pensamento me tocou. Ele é analisado sob a luz de Adorno e Horkheimer, mostrado essencialmente a partir das nefastas mágicas produzidas pela indústria cultural, como também pela chamada sociedade do espetáculo.
Um autógrafo e um beijo.

Também são notáveis as incursões no mundo da literatura para a ilustração de muitos dos conceitos trabalhados. Ganham notoriedade Graciliano Ramos e o seu Vidas Secas e Kafka com Metamorfose. Homens esvaziados de linguagem.

Os grandes interlocutores do campo da filosofia são os pensadores da Escola de Frankfurt, Adorno, Horkheimer e Benjamin, além de Hannah Arendt, Wittgenstein, Foucault, Vilém Flusser, entre outros. Um livro fundamental para a recuperação do humano e para dar um significado real a uma vida, em tempos tão tristes e plenos de dessignificação, ou de ausência de significado. Um mundo dominado pelas coisas e pelas mercadorias  e voltado para o consumo. Uma vida pobre e destituída de significado busca saídas desesperadas, todas habilmente exploradas no mercado, como as igrejas e a própria psiquiatrização da vida. Um livro para leitores exigentes. Um livro que seguramente não faz parte dos livros da chamada indústria cultural do livro.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Na cidade do Panamá. Por causa de um overbooking.

A nossa viagem para Cuba foi pela Copa Airlines, com conexão na cidade do Panamá. Não existem voos entre cidades brasileiras e Havana. A Copa é uma empresa panamenha. Quando fizemos o check in em Havana, a nossa passagem não estava com assento numerado. Veio com a sigla do stand by. O embarque seria às 12h30. Não embarcamos. Aí nos comunicaram o fato do overbooking. Embarcaríamos no voo das 18h30 e como compensação receberíamos $10,00 de lanche e $400,00 em voos. Um cala boca, para evitar discussões maiores no aeroporto. Os $10,00 dólares pagariam apenas dois cafezinhos. E os voos ofertados ficariam para as calendas gregas. O Valdemar que é advogado tomará as providências.
O altar dourado da bela igreja na cidade do Panamá.

Muito li sobre as conexões no Panamá. Muitos voos tem conexões com esperas mais longas e as pessoas aproveitam para um tour pela cidade e pelo seu famoso canal. Mas havia também muitas advertências sobre os problemas de trânsito na cidade, especialmente na região do canal. Valdemar é corajoso e a Regina nos garantiu que com o Valdemar tudo dá certo. E lá fomos nós.

Na imigração nos alertaram para o problema. Teríamos que ter no mínimo seis horas à disposição, mas não impediram a nossa saída. Por cem dólares alugamos um táxi e já lhe colocamos o nosso problema, do horário da volta. Começamos a visita pela cidade moderna e pelo seu centro histórico, com uma parada na igreja que tem o seu altar todo revestido em ouro. O Panamá é um país relativamente novo e, em consequência, não tem tantas atrações históricas, embora a presença dos colonizadores, já no século XVI.
Marco Aurélio, eu Valdemar e Regina no Canal do Panamá, a parte do Atlântico.

O taxista nos contava um pouco da história de seu país, nos falava da nova e moderna cidade, que contemplávamos, até entrarmos no seu centro histórico. Foi a primeira vez que entrei em contato com uma cidade às margens do Oceano Pacífico. A maré estava bem baixa e, na volta, a paisagem já estava alterada, com a maré em alta. Também nos contava alguma coisa sobre o canal, agora totalmente administrado pelo governo panamenho.  Também houve uma ligeira abordagem do caso Panamá Papers. Não iríamos ali abrir uma empresa.

O Panamá se tornou independente em 1903, da Colômbia. A causa foi a abertura do canal, que já estava em construção, mas a obra fora abandonada. O canal começou a ser construído em 1880, com capital majoritariamente francês. A concepção do projeto foi de Ferdinand Lesseps, o mesmo do Canal de Suez. As obras foram interrompidas em 1889 e abandonadas em 1898 por falência da empresa de Lesseps e pelas inúmeras mortes causadas pela febre amarela e pela malária.
Uma vista que dá a entender o mecanismo do Canal do Panamá.

No início de 1903 os Estados Unidos entram no cenário. Assinam com o governo da Colômbia o Tratado de Hay Harran, mas o Senado colombiano não o ratifica. Já em novembro o processo da independência do Panamá estava concluído, com o reconhecimento imediato dos Estados Unidos. A Colômbia o fará apenas em 1921. Em 1904 recomeça a construção do canal e a inauguração ocorrerá em agosto de 1914. Pelas cláusulas o domínio dos Estados Unidos seria perpétuo. Para isso pagariam aos panamenhos dez milhões de dólares e uma contribuição anual de mais duzentos e cinquenta mil. Junto com o canal veio uma base militar. Por que será? Mais tarde, também a Colômbia recebeu uma pequena compensação.
Navios fazendo a travessia.


O sistema que permite a travessia, de algo em torno de 77 quilômetros, é feito através de três eclusas, pelas quais a água é elevada a abaixada em cerca de 26 metros, que é o desnível entre as águas do Atlântico e do Pacífico, sendo este o mais baixo. O maior custo da obra foi o de vítimas humanas, em torno de 25.000, mortas pelos acidentes de trabalho, por malária e por febre amarela. Em dezembro de 1999 o governo do Panamá tomou conta total da administração do canal. O taxista nos contava, com orgulho, este detalhe.

O canal movimenta algo em torno de 5% do tráfego mundial e, em média, de doze a quinze mil navios fazem o translado anualmente. O custo varia de acordo com o peso da carga, e oscila entre os  quinhentos mil a um milhão de reais. O canal figura entre as sete maiores maravilhas do mundo. A população do Panamá é de quase quatro milhões de habitantes espalhados por um território de 75.517 Km². A cidade do Panamá tem em torno de um milhão de habitantes. Os brasileiros frequentam muito a cidade, por ser um grande centro de compras. O país é uma espécie de imensa cidade paraguaia de Leste.
Por falta de tempo não conseguimos fotos pelo lado do Pacífico. Aí tem uma visita ao museu do canal por $15,00.


É, como podem ver, o overbooking não foi tão ruim assim. E como nos disse a Regina, com o Valdemar sempre tudo dá certo. Não enfrentamos filas na imigração e tivemos poucos problemas de trânsito. Não tivemos nenhum problema por causa da escassez do tempo e o conhecimento da cidade e do canal valeu muito a pena. E... compartilho esta experiência com vocês.

 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Crônicas da Resistência. Narrativas de uma democracia ameaçada.

No dia 28 de julho de 2016, no teatro da reitoria da Universidade Federal do Paraná, foi lançado o livro Crônicas da Resistência - Narrativas de uma democracia ameaçada. O livro é uma coletânea de textos organizada pela jornalista Cleusa Slaviero e se constitui de reflexões e vivências de autores que fazem parte de um grupo de resistentes. É o que pode ser visto e lido na capa do livro, da Editora Compactos.
Acima de tudo o livro é um manifesto de indignação contra a democracia ameaçada.

Todo o mérito do livro é da jornalista, que incansavelmente trabalhou para que ele se tornasse realidade. Ele é, no entanto, uma construção coletiva graças a obstinação de Cleusa, que via facebook, in box, Whatsapp, e-mails e alguns telefonemas conseguiu juntar em torno de 80 pessoas que puseram no papel os sentimentos que os envolveram nos episódios do atentado que está sendo perpetrado contra a jovem democracia brasileira. Ação de estupradores profissionais e contumazes. O primeiro momento deste atentado foi o impedimento da presidente, ocorrido naquele fatídico e nojento dia 17 de abril, quando ocorreu a votação na Câmara dos Deputados.

O livro deu voz, uma voz profundamente indignada, a muitos anônimos batalhadores da causa da democracia e das políticas públicas em favor da construção da cidadania do povo brasileiro. O livro lhes deu oportunidade para registrarem, junto ao mundo que lhes é próximo e perante a história, o seu apreço pela democracia. Nem mesmo os autores se conheciam entre si. A edição do livro se deu através de auto financiamento, isto é, cada autor contribuiu para que o livro se tornasse realidade. O retorno veio sob a forma de livro.
A comandante Cleusa Slaviero, organizadora do livro. Feliz às vésperas do lançamento.

Não obstante o caráter praticamente anônimo de seus autores, alguns dos nomes são de pessoas muito conhecidas e respeitadas por suas histórias de vida. Assim Adolfo Pérez Esquivel, militante dos direitos políticos fundamentais na Argentina e na América Latina, o Nobel da Paz do ano de 1980 prefaciou o livro e o conhecido escritor e teólogo da libertação Leonardo Boff escreveu o seu posfácio. Ainda, João Alexandre Goulart, neto do querido ex presidente João Goulart contribuiu com uma das crônicas, Transição democrática ou Transação democrática? Que democracia é esta? É um relato em que estabelece uma relação entre o golpe de 1964, que derrubou o seu avô e o de 2016, que está derrubando a presidente Dilma. Existe alguma dúvida de que não tenha sido uma transação?

Por dificuldades de contatos, apenas a região do norte brasileiro ficou ausente no livro. Das outras regiões, todas estão presente e, praticamente, todos os estados estão representados. Os relatos são percepções do momento vivido, mas são também textos de valor pelo seu conteúdo e capacidade de análise do presente momento histórico. O que aproxima todos os textos é o seu caráter de indignação e de denúncia contra um Golpe de Estado que está se perpetrando, mesmo que ele venha travestido com o nome de impeachment. É golpe mesmo!
Um prefácio de um Nobel da Paz, em muito enriquece o livro. Um golpe sem armas, blando.


O jornalista Josias de Souza, da Folha de S.Paulo, recentemente escreveu que falta pouco para que o interino perca a pecha de ser considerado como presidente interino do Brasil. Pode ser verdade. Ainda no mês de agosto ficaremos sabendo disso. Mas Michel Temer jamais se livrará da pecha de traidor, usurpador e de golpista e, certamente, os seus dias de ilegitimidade na presidência serão dias muito amargos. Terá meia dúzia de lacaios ao seu lado, uma malta de réus e denunciados que encontraram no golpe a forma de se manterem na política e no poder, mas que será profundamente odiado e repudiado por todo o cidadão brasileiro, minimamente consciente e sabedor de que a construção da igualdade e da cidadania passa necessariamente pela existência de políticas públicas que promovam a inclusão social.
Por isso mesmo o projeto do livro não para no seu primeiro volume. Já estão anunciados os números 2 e 3, que darão continuidade, ocupando-se da consumação (ou não) do golpe e do que acontecerá no período pós golpe. O livro pode ser encomendado junto à Editora que disponibiliza os seguintes endereços que aqui estão anexos. A presidente Dilma mandou mensagem por ocasião do lançamento.
Para quem tiver interesse, eis o contato.


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Visita a Cuba. 10. Considerações Gerais e dados finais.

Muito li sobre Cuba, planejando a viagem. Mas mantive os ouvidos e os olhares atentos, em estado de observação permanente. As primeiras observações indicaram que o aeroporto tem um esquema de trabalho muito bom. Os serviços de imigração são rápidos e as pessoas muito atenciosas. Adelante, ouvi imediatamente. Muita simpatia para com os brasileiros.
O mais charmoso dos táxis que pegamos, Um Ford 1928, com motor Volkswagen.

Realmente existem muitos carros velhos. Muitos Lada, importados da antiga União Soviética. Mas existem os carros antigos que são um charme só. Chegamos a andar num FORD, ano 1928, mas os mais comuns são os carros americanos da década de 1950. Ah se Cuba deixasse exportá-los! Valeriam uma fortuna para os colecionadores e prestadores de serviços especiais como levar noivas para o casamento. Seriam, como o são em Cuba, táxis de luxo. O trânsito flui, a cidade é muito limpa e se observa a existência de outdoors com temas revolucionários por toda parte.
A defesa da Revolução está onipresente. Existe uma estrutura para a sua defesa.

Ninguém fala em questões de segurança, de assaltos, de trombadinhas nas ruas. De dia e de noite você anda sem um mínimo de preocupação. A questão está resolvida. Você consegue imaginar o quanto vale isso? Também não existem moradores de rua. A segurança, assim como a educação e a saúde são as grandes vitrines do regime e que refletem em todos os indicadores sociais do país. O país cresce em torno de 5% ao ano, sendo também este o número para a inflação. O desemprego é inferior a 3%. A expectativa de vida atinge 78,5 anos e o nosso ministro da saúde, o cacique da família Barros, lá não teria audiência. A assistência é universal e absolutamente gratuita. Lá nem se fala em planos privados populares.
Venda de produtos básicos, apenas para cubanos.

Uma primeira conversa mais séria foi com Conchita, a dona da primeira casa em que nos alojamos. Ela é assessora parlamentar. Mora num antigo casarão e dispõe de dois quartos para turistas. Quando eu perguntei sobre as rendas auferidas pelas profissões ligadas ao turismo, se elas não corroíam a lógica salarial praticada no país, que possibilitaria ao taxista ter renda superior ao do médico, ela desqualificou a minha pergunta. A visão é menos monetária, voltando-se mais para a natureza da função e da satisfação pessoal com o exercício profissional. A questão que eu levantei é que, os que trabalham com o turismo ganham em CUC e os salários são pagos em CUP, a moeda local. Não penetramos neste mundo da relação do poder aquisitivo da moeda local. Os salários são relativamente baixos nos falava Conchita. Médicos, professores e profissionais ligados a informatização recebem as melhores remunerações.
Nas ruas de Havana, um símbolo de paz. A boca do canhão está enterrada.

Conchita também nos falou da questão imobiliária. Com a Revolução todas as propriedades foram desapropriadas. As casas foram distribuídas para que cada um tivesse a sua casa para morar. Já falei dos casarões do bairro do Vedado. A compra e a venda pode ser feita livremente, desde que obedecido o princípio da moradia. Posso comprar casa maior ou trocar por uma de menor valor. Para comprar casa tem que ser residente em Cuba. Conchita, apesar de um olhar um tanto triste, dizia se sentir muito segura, por não ter preocupação com a assistência à saúde. Alegou que aluga os quartos por causa de duas netas pequenas.

Os salários atendem as necessidades básicas das pessoas. Existe uma circulação de mercadorias e serviços que são adquiridos através de tarjetas. Quando a Regina, uma componente do nosso grupo, quis comprar bananas num posto de venda de produtos agropecuários, estas não lhe foram vendidas. Estes locais vendem exclusivamente para os cubanos.
Um palacete restaurado no Vedado.


Pouco conversamos com Mercedes, a dona da segunda casa em que nos hospedamos. Ela tem três quartos para aluguel e está promovendo reformas significativas em sua casa. Ela parece estar muito bem de situação. Ela é médica e tem filha estudando medicina em Miami. Ela não foi de muita conversa, mas ela já trabalhou em Vigo e tem cidadania espanhola. Prefere morar em Cuba.

Outro casal com que tivemos grande afinidade foi o Pedro e a Marta. Muita empatia. Eles são donos do restaurante Brasileiríssimo, no Vedado, onde jantamos duas vezes. Eles já trabalharam no Brasil, ele como fisioterapeuta da Desportiva de Vitória e ela como vendedora em loja de departamentos. Se dividem entre o Brasil e Cuba. Estão muito satisfeitos e também já dispõe de um quarto para alugar. Com toda a satisfação Marta nos mostrou este seu alojamento. Iriam passar o final de semana em Varadero, um sinal de prosperidade, certamente.
Varadero. O turismo é a segunda fonte de divisas do país, superado pela prestação de serviços de biomedicina.


No Museo de la Revolución comprei o livrinho Breve História de Cuba. Ali pude ver que as maiores dificuldades econômicas foram decorrentes do bloqueio econômico decretado pelos Estados Unidos e seus países aliados, ainda em 1962 e que estas, chegaram ao máximo nos anos 1990, com a implosão do socialismo real, quando então a Rússia, gradativamente, foi retirando as suas ajudas financeiras sob forma de subsídios. Tudo isso foi também agravado por um violento furacão que causou um prejuízo de mais de 9 bilhões de dólares, com mais de 500 mil casas danificadas.

Hoje a situação está aparentemente boa. Economia sob controle. O crescimento econômico está em constante expansão. O crescimento industrial é promissor e a agricultura tem enorme potencial de crescimento. Suas terras são extremamente férteis.  A sua maior renda provem dos serviços, especialmente os ligados a biomedicina. Nesta área detém mais de 1.200 patentes. A segunda maior fonte de renda, ainda ligada aos servições, é o turismo. Também esta atividade está em grande expansão. O país inteiro é um convite para os turistas, tantas as atrações. Recebe quase quatro milhões de turistas por ano.
Comparado no interior do Museo de la Revolución. Lido em Cuba mesmo.


Seus principais produtos agrícolas são a cana de açúcar e o tabaco, além do café, do arroz e das frutas cítricas. Na pecuária o destaque é para animais de menor tamanho, como aves, porcos e carneiros. Ao menos em nossas refeições sentimos muito a presença dos frutos do mar. Na indústria o destaque vai para os alimentos, o petróleo e para as máquinas. Os seus grandes parceiros compradores são a China, o Canadá, a Espanha e a Holanda e os fornecedores são a Venezuela, a China e a Espanha. Recentemente Cuba e Estados Unidos se aproximaram, reatando relações diplomáticas. Obama visitou o país, mas não teve forças para levantar o embargo econômico, travado pelo Congresso. O fim deste embargo certamente será um novo marco no progresso material e social deste maravilhoso país.
No Museo de la Revolución a grande homenagem.


O que isso pode significar em termos  de desestruturação do sistema é uma questão complicada. Sinais de desigualdade já são bem visíveis. Vimos a festa de uma menina de 15 anos no hotel Meliã Cohiba de raro fausto. Lembro de uma fala de frei  Betto, ainda nos anos 1990. Entre ter as necessidades básicas atendidas e o não sonhar e entre não ter estas necessidades atendidas e poder sonhar, o povo prefere os sonhos. Para isso existem, no sistema capitalista, em grande profusão as farmácias, as lotéricas e as igrejas da teologia da prosperidade. Em Cuba as farmácias são basicamente de manipulação, as igrejas da teologia da prosperidade são invisíveis e as lotéricas, simplesmente não vimos nenhuma.

E segundo o Che: Hasta la vitória siempre. Patria o muerte.

domingo, 7 de agosto de 2016

Viagem a Cuba. 9. Também há coxinhas em Cuba.

Em Cuba procuramos conversar com muita gente. Perguntamos muito. A pergunta sempre é o grande método para aprender. Conversamos com as pessoas da hospedagem, com os taxistas, com estudantes, enfim com quem cruzou conosco em nossa viagem. Encontramos as mais diferentes opiniões com relação ao sistema político, econômico e social de Cuba. A maioria se mostra favorável ao sistema, outros são bem moderados em suas falas e, um taxista, de modo todo particular, nos chamou muito a atenção. Era absolutamente um coxinha.
Conversamos com muitos taxistas. Não fotografei o coxinha. Os táxis são um espetáculo muito particular em Cuba.


Foi logo falando que ele odeia o governo cubano e que ama os Estados Unidos e que, na primeira oportunidade que tiver, se manda para Miami, onde já moram muitos de seus familiares. Ele é engenheiro mecânico por formação, formado pelo gratuito sistema de educação cubano. Quais eram os seus argumentos? Fiquei estarrecido. Parecia um coxinha brasileiro falando. Existe uma total uniformidade nos argumentos e nas acusações. Cito os principais.

Em primeiro lugar vem a acusação de que o governo é corrupto, que a placa na entrada de Varadero, que diz que todo o dinheiro ali arrecadado é investido em favor do povo cubano, é mentirosa. Que os Castro são os donos de todas as grandes indústrias do país, como a fábrica de charutos da Cohiba e a do Ron Havana Club. Só faltava dizer que também era da Friboi, da Havan e outras mais, como ocorre com o Lula aqui no Brasil.
Não é este o taxista coxinha. Este é o companheiro Marco Aurélio de São João do Triunfo. Um Ford 1928, com motor Volkswagen.
Outra acusação, feita com muita expressão de ódio, foi contra a situação da moral sexual no país. Afirmou que o governo cubano emporcalhou a moral do país ao permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo e que por isso sente profunda vergonha em ser cubano. Por fim, levantou a sua camiseta mostrando o corpo tatuado com a bandeira dos Estados Unidos e reafirmando que ama os Estados Unidos. O que mais impressionou, volto a frisar, é uniformidade do discurso. Ele é universal.

Fiquei pensando. Será que existe um intelectual orgânico que padroniza este discurso ou seria o reflexo da personalidade autoritária embutido na cultura ocidental, cristã e capitalista, estudada por Adorno? Eu particularmente acredito mais nesta segunda versão. Tenho esta convicção em função de tantos acontecimentos recentes, mundo afora, que apontam todos nesta mesma direção. Estão por acontecer coisas no mundo, em que talvez chamarão o ocorrido em Auschwitz de um nazismo brando, pegando carona da ditabranda, referência que a Folha de S.Paulo fez com relação a ditadura civil militar brasileira. A serpente está bem delineada dentro do ovo.
O táxi mais bonito que pegamos.


Devo dizer que este episódio foi isolado, mas não deixa de ser uma constatação. O taxista também evidencia que ele pode falar. Certamente não fomos nós os únicos a quem ele falou. O esquema de fuga para Miami continua a existir. Se a pessoa consegue por os pés na terra dos Estados Unidos, ele é acolhido. Deixo ainda com vocês uma definição de coxinha, que eu recebi de um ex aluno meu. Ela é bem humorada e profundamente irônica. Fiz um Ctrl C e um Ctrl V, para mostrar aqui. Não interferi na definição.
E... para os coxinhas, uma homenagem.

"Me perguntaram o que é um Coxinha. Fui no dicionário e lá estava:
Coxinha : Pessoa nascida no Brasil,altamente influenciável, anti-PT, anti-tudo,odeia tudo que se faz no seu país,apartidário,odeia Cuba ou qualquer outro país latino-americano, ama os EUA (principalmente Miami), leitor de Veja(?),acredita na Globo(?),odeia a Rússia (ou qualquer outro país que conteste os EUA),odeia muçulmanos, acredita em um golpe comunista iminente. Acha que todas as ditaduras assassinas do mundo foram comunistas, desconhece a existência de ditaduras capitalistas (inclusive é simpático à ditadura brasileira, de 1964 a 1985). Defende o Estado mínimo na hora de cobrar impostos e Estado máximo na hora que precisa de seus serviços, é fã de Jair Messias Bolsonaro, odeia Lula, acredita em super-heróis (Joaquim Barbosa de capa) e não em partidos, simpatiza com o PSDB(?) e no DEM(?). Agora vai votar na Marina Silva porque a revista Veja está fazendo propaganda para ela. Não tem ideologia , não confia em nenhum político(principalmente no Lula) , não gosta de direitos iguais,gosta do Status Quo, acredita somente no dinheiro e na meritocracia(?), odeia o comunismo,socialismo ou qualquer coisa parecida, desconhece que os países com maior IDH no mundo tem a carga tributária próxima a 50% do PIB (Suécia, Suíça, Dinamarca), o que é muito superior à brasileira (36% do PIB). Apesar disso, sempre fala que "o Brasil tem a maior carga tributária do mundo". Também desconhece o fato de que os países com menor IDH no mundo tem a cargas tributárias baixas, por volta de 10% do PIB (Somália, Uganda, Índia). Acredita cegamente que o capitalismo é o sistema mais justo do mundo, ignora a Crise de 2008 (em que o Estado socorreu o "livre mercado" com dinheiro público e evitou uma tragédia), idolatra as grandes empresas que aparece na Exame, seus ídolos são George Soros e Warren Buffet, odeia o Bolsa Família,as Cotas em universidades,o Minha Casa,Minha Vida,o Pronatec,o Enem,o Mais Médicos ou qualquer outra coisa petista.
Se você se identificou com algumas características do Coxinha,não se preocupe......tem cura!"

O fato em comum é que detestam políticas públicas de inclusão social e defendem abertamente as políticas que promovem a exclusão social. Como pode? E atualizando no tempo. Sérgio Moro substitui Joaquim Barbosa como o novo ídolo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Viagem a Cuba. 8. Na paradisíaca Varadero.

Não tínhamos uma grande obsessão para ir a Varadero, a mais famosa praia de Cuba e uma das mais bonitas do mundo. É uma praia. Ela ocupa uma estreita faixa de terras de 19 km de extensão na baía de Cárdenas, na chamada península de Hicacos. Esta estreita faixa de terras está ligada ao continente por uma ponte levadiça, o que lhe conferia privacidade. Antes da Revolução era um lugar exclusivo de ricos, sendo frequentada até por Al Capone que tinha também grandes investimentos em Havana. Após a Revolução ela foi franqueada para o povo.
Uma ideia da estreita e longa faixa de terras que forma Varadero.

A opção turística mais comum para chegar a Varadero é pelos hotéis. Eles funcionam pelo sistema all inclusive. Chegamos a ver pacote de um dia, sem pernoite, apenas café, almoço e transporte, a um custo de algo em torno de 70 CUC, ou euros. Como estávamos em quatro fomos de táxi com o custo de 200 CUC, com o táxi nos trazendo de volta e esperando pelo tempo que quiséssemos. Foi uma escolha. Os ônibus da VíaAzul também fazem o percurso. Estes ônibus, que correspondem aos nossos interestaduais ou estaduais, ligam todas as cidades maiores do interior com a cidade de Havana. Todos são novos, modernos e confortáveis.

O táxi nos deixou num determinado ponto da praia e, em meio a uma margem com árvores, tivemos a primeira visão deste verdadeiro paraíso. Já devem ter estranhado eu falar de árvores. Sim, elas estão bem junto à água e oferecem uma sombra extremamente generosa. Aí é o espaço dos cubanos e dos turistas que, como nós, não utilizam os serviços dos hotéis. Bem em frente já se toma contato com a água. Aí as surpresas. A água é calma como um lago, sem ondas e a areia é muito branca. A cor da água, entre um tom verde e azul, é cada vez mais azul, à medida que adentra mais para o mar. Está nisso toda a sua fama. A sua beleza não é pouca coisa.
Vista da vegetação bem em frente à praia. Bem diferente das praias brasileiras.

Fizemos uma primeira caminhada nas areias, com direito a molhar os pés. A paisagem só é alterada pela presença dos resorts. A maioria de seus restaurantes atendem apenas aos seus hóspedes. Os grandes frequentadores são os turistas europeus e canadenses. Não conheço praias canadenses, mas conheci algumas da Europa, entre elas a famosa praia de Taormina, na Sicília, onde nem sequer areia tem. Tem é pedregulho. Os europeus tem toda a razão de adorarem este balneário.

O que existe de diferente com relação as praias brasileiras? Não existem as chamadas barracas de praia como no nordeste brasileiro nem os calçadões de nossas praias no sul. É vegetação, areia e água. Como são 19 quilômetros de extensão os hotéis tem à sua frente, quase que praias exclusivas. Mas o que eu já disse, existem espaços livres com muita sombra que o povo ocupa e como pudemos constatar, ocupa mesmo. Varadero é muito frequentada pelo povo cubano, fato que não ocorria antes da Revolução.
Mais uma vista focando a água. Bela combinação com o azul do céu.

O guia da Folha assim se refere à famosa praia: "A península - que pode ser percorrida alugando uma lambreta, um carro de passeio ou uma charrete de um cavalo - é uma sucessão de hotéis, restaurantes, colônias de férias, bares, discotecas, lojas e centros esportivos, todos instalados em meio a vegetação exuberante, que inclui primaveras, flamboyants, coqueiros e uvas de praia". Também há muitos campos de golfe. Também fizemos uma pequena incursão pelo seu centro histórico.
Sem ondas e a beleza da cor da água, bem como a sua temperatura formam o charme de Varadero.


Quando fomos ao estacionamento onde o táxi nos esperava tivemos oportunidade de conversar com um funcionário, que fora revolucionário de 1959 e que inclusive lutou ao lado do MPLA na guerra da independência de Angola. Foi um dos mais convictos revolucionários que encontramos. Bem informado do que vinha acontecendo no Brasil e em toda a América Latina nos dizia com todo o fervor: "Os Estados Unidos podem tomar conta de toda a América, mas jamais tomarão conta de Cuba novamente".
Mais uma imagem que nos confere uma ideia sobre esta praia.


Não tivemos muita interação com o taxista. Punha música numa altura intolerável e quando pedimos para abaixar, ele abaixava e, devagarinho a subia novamente, até pedirmos para desligar. Aí ele pôs fone de ouvido e cantarolava e assobiava a música. Como puderam perceber tratava-se de um cara muito chato. Um fato que nos chamou muito a atenção foi o extremo cuidado que os motoristas tem no trânsito. Tomam precauções que nós consideraríamos absolutamente desnecessárias. Varadero está distante de Havana 150 quilômetros. Hoje já disputa com alguns Cayos (pequenas ilhas rasas arenosas, formadas na superfície de um arrecife de coral), a condição de praia mais famosa e concorrida.