sábado, 14 de agosto de 2021

O que aprendi com o silêncio. Monja Coen.

Pelo dia dos pais, recebi de um dos meus filhos, o Iuri, o livro da monja Coen, O que aprendi com o silêncio. De imediato fui acometido de uma enorme curiosidade. O meu maior contato com a cultura budista foi através do Livro de Hermann Hesse, Sidarta. Da monja Coen, além de algumas boas referências, ouvi falar dela, mais precisamente, quando ela visitou o ex-presidente Lula, injustamente preso no prédio da Polícia Federal em Curitiba. Não iria nem mencionar este fato em tempos de tanta intolerância, mas ela mesma se refere ao fato, de uma maneira muito bonita por sinal. Ao Iuri, pelo presente, os meus agradecimentos.

O que aprendi com o silêncio. Monja Coen. Academia. 2020.

Com certeza, um belo livro, de difícil resenha. Começo então pelo que não encontrei no livro e que foi o que mais me encantou e bem me fez. Nenhuma lição de moral, nenhuma admoestação do que deve ou precisa ser feito, nenhuma manifestação de arrependimento ou sensação de culpa. Apenas um convite ao silêncio para uma busca e um encontro consigo mesmo. Nietzsche se fez presente ao longo da agradável leitura, de seu livro, digamos de memórias, além de muitas reflexões. O "torna-te quem tu és" está onipresente. Mas mais presente ainda esteve o primeiro livro do filósofo alemão, O nascimento da tragédia ou o Helenismo e o Pessimismo. Um clamor pela unidade entre o dionisíaco e o apolínio e um clamor ainda mais forte contra a racionalidade, da bipartição do mundo em bem e mal. Isso não me impediu de ver também um Nietzsche oposto e distante.

Também o agora centenário Edgar Morin, se fez presente pelo seu livro Minha Paris - minha memória, no seu primeiro encontro com a complexidade e da ruptura com o binário: "Embora o conceito de complexidade ainda não estivesse no meu horizonte, era um trabalho complexo que eu realizava ali: conexão entre conhecimentos distintos, em geral compartimentados, identificação de contradições que meu espírito hegeliano-marxista me levava a detectar em lugares onde são ignorados pelo pensamento binário". No rumo da superação, do complexo, do unitário.

Já na apresentação do livro, a monja nos ensina: "Pausas e notas musicais. Como poderia uma existir sem a outra? Somos o pluriverso em movimento. Tudo que existe é o consurgir interdependente e simultâneo. Nada tem uma autoexistência individual, substancial e independente. Cada ser é o todo manifesto e não parte do todo. Surge a responsabilidade, a ternura, o cuidado, a compaixão e, assim espero, a sabedoria perfeita". Vejam bem, não a moral, normalmente uma prescrição para os outros.

O livro é de memórias. Adoro livros de memórias. Anos de formação, raízes históricas e familiares, anos do brotar da vida, tempos de insubordinação, tempos de busca, tempos de interrogações existenciais, tempos de angústias profundas. nada parece ter sentido. Tudo é experimentado. Nada parece satisfazer. Muitos buscam a acomodação, as pessoas mais irrequietas buscam saídas. Coen se tornou a monja Coen. Ela se encontrou no silêncio da reflexão, nos exercícios de domínio do corpo e da mente. Isso foi em Los Angeles, depois de já ter percorrido mundo e mundos.

Este é o relato de seu livro. Cinco capítulos, num vai e vem incessante. Memórias da intensidade de sua vida. De uma infância relativamente tranquila, de um primeiro casamento, já aos 14 anos, da experiência da maternidade, de presenças e ausências, de perdas e de danos, de buscas mundo afora. O Zen Center de Los Angeles modificou a sua vida. Aprendeu a meditar, aprendeu o significado de gestos e rituais e, sobretudo, aprendeu a encontrar-se no silêncio. Leu os mestres históricos do budismo e buscou seus mestres atuais. Foi ao Japão e para a Índia, em busca de aperfeiçoamento. Voltou para São Paulo. Teve dissabores e incompreensões em seu trabalho. É hoje uma grande influenciadora, com canal no You Tube, programa de rádio, palestras e ensinamentos.

O livro tem prefácio de Clóvis de Barros Filho, apresentação da autora, que representa o primeiro encontro com o O que aprendi com o silêncio e cinco capítulos. No primeiro, O instante Zen, ela mostra o seu encontro com o Zen, quando morava em Los Angeles e trabalhava no Banco do Brasil. No segundo, Aprendizados, ela mesma o apresenta - "Saí decidida a abandonar marido, apartamento, cachorro, emprego e me alistar como trainee - aprendiz". É o grande encontro com os mestres do budismo e as suas lições. Buda, Sidarta e os seus continuadores. Tornou-se vegana e a ver a grandeza da natureza e a importância da água. Em duas frases, uma síntese: "Tendemos a separar o misticismo da realidade, como se houvesse uma ruptura entre sagrado e profano. Essa dicotomia no pensar e no viver nos leva a incontáveis conflitos e sofrimentos". 

No terceiro, Novas comunidades, ela apresenta a continuidade de suas experiências de vida, tanto no Japão, quanto no Brasil. um novo casamento e uma nova separação. Novos instantes Zen. No quarto, Memórias inacabadas ela memoriza fatos de sua vida, antes de ser monja. São Paulo, a ditadura militar, sua vida de jornalista, a ida a Londres, memórias de sua infância, sexualidade, puberdade, os avós, a irmã. Neste capítulo ela se desnuda. Mostra a sua vida como de fato ela fora. Deixo uma passagem de sua vida anterior a ser monja, quando vivia em Los Angeles, com marido americano. Uma percepção da cultura, da contabilidade do modo americano de viver:

"Quando fui morar em Los Angeles não sabia exatamente o que iria acontecer. Enquanto meu marido norte-americano procurava trabalho na indústria musical eu o esperava no apartamento de uma jovem atriz. Essa jovem, cujo nome e rosto já não sei, tinha uma filha pequena. Algumas vezes ela saía e me pedia para ficar com a menina. Eu adorava brincar com ela. Mas meu marido ficava furioso.

Se era para ser babysitter ela deveria me pagar ou descontar do aluguel. Ainda mais quando eu divida minha refeição congelada com a criança. Foi a primeira vez que me dei conta da maneira que norte-americanos se tratam mutuamente, como tudo pode ser negócio e precisa ser pago". Neste capítulo ela também apresenta reflexões suas, em forma de poemas.

 No quinto, Da adolescência à vida monástica, ela reconta a sua vida, apresentando novos fatos e situações. Ela assim sintetiza o capítulo: "Mas se tudo é este eu, se tudo está incluído e faz parte, mesmo a procura, mesmo a dúvida, mesmo a ignorância. É possível acessar esse estado mental, chamado de Samadhi. Um estado de tranquilidade serena, que nos permite ver a realidade assim como é e atuar de forma decisiva e clara, com dignidade e compostura. É também neste capítulo que ela relata a visita que fez ao ex-presidente Lula: "Fui visitar o ex-presidente Lula. Adorei conhecê-lo, ouvir e ver seus olhos. Meditamos juntos. Foi antes de seu netinho morrer. Continuaria ele meditando? Nunca mais nos falamos. Pessoas me insultaram por tê-lo visitado. Outras me agradeceram. Não agradamos a todos o tempo todo, já disse Lincoln. Acredito firmemente que a meditação será um dos elementos de transformação social e política de toda a humanidade".

Termino este pequeno interregno do mundo da racionalidade, e pior, da racionalidade, instrumental, que é, infelizmente o nosso mundo real, com uma frase da monja, aposta na contracapa do livro: "Aprendi muito com o silêncio, ensinou-me a ouvir dentro e fora de mim mesma. Ensinou-me a quietude viva e excitante de jamais repetir um instante".

Li hoje (12.08.2021) na página do UOL. Monja Coen, um dos principais nomes ligados à filosofia budista no país será "embaixadora da moderação" da Ambev. A monja com mais de 2,7 milhões de seguidores no Instagram e mais de 500 mil livros vendidos, ajudará à cervejaria a falar sobre "limites e autoconhecimento".  As mensagens falarão de saúde e limites do corpo - e, segundo a empresa, não abordarão produtos e marcas. Seria a necessidade da materialidade do espírito?


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O Quilombo dos Palmares nos tempos do Brasil holandês.

Gostei muito do livro do historiador Evaldo Cabral de Mello, O Brasil holandês. Cabral de Mello reúne e comenta  os principais documentos da época, dando aos historiadores e aos interessados de maneira geral uma obra quase definitiva sobre este período (1630-1654). Mas o objetivo deste post é outro. É o de dar uma visão do que foi o Quilombo de Palmares, sob o domínio e da ótica dos holandeses. Antes do relato deixo o link da resenha. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/08/o-brasil-holandes-evaldo-cabral-de-mello.html

A descrição do Quilombo está na parte II, do livro, O interregno nassoviano (Maurício de Nassau), no capítulo 12, As populações do Brasil holandês. A visão, por óbvio, que os holandeses tinham dos quilombos, era o de sua destruição. Mas vamos à descrição, antecipada de um pequeno comentário do organizador: "A formação de um quilombo nos Palmares precedeu a ocupação holandesa, mas os anos da guerra de resistência permitiu-lhe crescer perigosamente para a segurança das populações da área canavieira. Barleus reportou as providências tomadas ao tempo do governo de Nassau. (Gaspar Barleus é historiador holandês. O texto é retirado do livro História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. O livro está disponível para compra na Amazon).

O Brasil holandês de Evaldo Cabral de Mello. Penguin & Companhia das Letras. 2016.

"Resolveu-se também destruir os quilombos dos Palmares, para onde se dirigia uma aluvião de salteadores e escravos fugidos, ligados numa sociedade de latrocínios e rapinas, os quais eram dali mandados às Alagoas para infestarem as lavouras.

Os palmares são povoações e comunidades de negros. Há dois desses quilombos, os Palmares grandes e os Palmares pequenos. Estes são escondidos no meio das matas, às margens do rio Gungouí, afluente do célebre Paraíba. Distam de Alagoas vinte léguas e da Paraíba, para o norte, seis. Conforme se diz, contam seis mil habitantes, vivendo em choças numerosas mas de construção ligeira, feitas de ramos de capins. Por trás dessas habitações, há hortas e palmares. Imitam a religião dos portugueses, assim como o seu modo de governar: àquela presidem os seus sacerdotes e ao governo, os seus juízes. Qualquer escravo que leva de outro lugar um negro cativo fica alforriado, mas consideram-se emancipados todos quanto espontaneamente querem ser recebidos na sociedade.

As produções da terra são os frutos das palmeiras, feijões, batatas-doces, mandioca, milho, cana de açúcar. Por outro lado, o rio setentrional das Alagoas fornece peixes com fartura. Deleitam-se aqueles negros com a carne de animais silvestres, por não terem a dos domésticos. Duas vezes por ano, faz-se o plantio e a colheita do milho. Colhido este, descansam catorze dias, entregando-se soltamente ao prazer. A esses Palmares se vai margeando a Alagoa do Norte. Certo Bartolomeu Lins vivera entre eles para que, depois de ficar-lhes conhecendo os lugares e o modo de vida, atraiçoasse os antigos companheiros e servisse de chefe da presente expedição.

Os chamados Palmares grandes, à raiz da serra Behé, distam trinta léguas de Santo Amaro. São habitados por cerca de 5 mil negros, que se estabeleceram nos vales. Moram em casas esparsas por eles construídas nas próprias entradas das matas, onde há portas escusas que, em casos duvidosos, lhes dão caminho, cortado através das brenhas, para fugirem e se esconderem. Cautos e suspicazes, examinam por espias se o inimigo se aproxima. Passam o dia na caça e, ao entardecer, voltam para casa e se inquietam com os ausentes. Espalhando primeiro vigias, prolongam uma dança até a meia-noite, e com tanto estrépito batem com os pés no chão que se pode ouvir de longe. Dão ao sono o resto da noite e dormem até as nove ou dez hora da manhã.

O caminho destes Palmares é do lado das Alagoas. Encarregara-se um tal Magalhães, morador nas Alagoas, de comandar uma expedição contra estes Palmares, mas deveria ser tentada só em setembro, porque, adiantando-se o estio, há falta d'água. Assim calcularam os holandeses que poderiam subjugar aquelas populações com uma força de trezentos soldados, armados de mosquetes e espingardas, cem mulatos e setecentos índios guerreando com as suas próprias armas. Os petrechos bélicos eram machados, enxadas, bipenes (machadinha de dois gumes), facões, que serviriam para abrir e aplainar os caminhos, fora os instrumentos empregados nas nossas guerras. Prometiam-se recompensas aos índios, único meio de animá-los para o perigo. Entretanto, a rebelião de São Tomé e os aprestos de Brouwer, que ia partir para o Chile, fez fracassar esta expedição traçada pelo conde e pelo Conselho". Páginas 273-275.

E o quilombo ganhou sobrevida, até o ano de 1694. Uma resistência de mais de cem anos. As primeiras povoações surgiram a partir de 1580. Durante o domínio holandês, outros focos de interesse trouxeram o afrouxamento da vigilância e a consequente expansão do quilombo.

Um adendo. 22.09.2021. "E se aqueles intentos haviam sido efêmeros, sessenta e cinco anos haveria de durar o forte Quilombo dos Palmares, fundado em plena selva brasileira pelo grande chefe Ganga-Zumba, em cujas brandas fortificações de madeira e fibra se arrebentaram mais de vinte expedições militares, holandesas e portuguesas, dotadas de uma artilharia inoperante contra estratégias que renovavam velhos ardis de guerra númidas, usando-se animais, às vezes, para por em pânico o ânimo dos brancos. Invulnerável às balas era Zumbi, sobrinho do rei Zumba, marechal de Exércitos, cujos homens podiam andar pelos tetos das matas, caindo sobre as colunas inimigas como frutos maduros...". Extraído de: CAPENTIER, Alejo. O século das luzes. São Paulo. Global. 1985 (Páginas 242-3).




terça-feira, 10 de agosto de 2021

O Brasil holandês. Evaldo Cabral de Mello.

Por duas vezes já estive nas cidades de Recife e Olinda. A curiosidade sempre fora muito grande. Em Recife andei muito pelo Marco Zero e arredores, pela rua dos judeus, sinagoga, observatório astronômico e por todo o centro histórico. Por óbvio, passei também pelas pontes e fiz passeio fluvial pela cidade. Por Olinda, andei em todas as igrejas, mosteiros e ruas centrais. Fiz uma visita toda especial a Dom Hélder Câmara, por quem nutro uma devoção toda especial, que descansa na catedral.

O Brasil holandês. Evaldo Cabral de Mello (organizador). Penguin & Companhia das Letras. 2016.

Há poucos dias terminei de ler o o mais recente livro do Lira Neto, Arrancados da terra. Perseguidos pela Inquisição na Península Ibérica, refugiaram-se na Holanda, ocuparam o Brasil e fizeram Nova York. A leitura deste maravilhoso livro me aguçou por demais a curiosidade e comprei, de Evaldo Cabral de Mello o livro O Brasil holandês. Devo dizer que Evaldo é o organizador e comentador do livro. O seu trabalho é de primeira grandeza. Ele recolheu e comenta as crônicas e textos que formam a historiografia desse período de 24 anos, de 1630 a 1654, que foi o tempo de O Brasil Holandês. O livro teve a sua publicação no ano de 2010, pela Penguin & Companhia das Letras.

O livro tem ao todo 527 páginas e é dividido em três grandes partes, precedidas de uma apresentação e, após o corpo do trabalho, as notas em que são indicadas as fontes originais dos documentos citados, um glossário, uma rica cronologia e as referências bibliográficas. As três partes levam os seguintes títulos: Parte I. A guerra de resistência; Parte II. O interregno nassoviano (Maurício de Nassau) e a parte III. A guerra de restauração.

Ao todo são apresentados 19 capítulos. Vou apresentá-los junto às respectivas partes do livro. Na parte I temos seis capítulos, a saber: 1. Por que o Brasil? Por que o Nordeste?; 2. A conquista de Olinda e do Recife; 3.  O impasse militar, 1630-2; 4. A ruptura do impasse, 1632-4; 5. A ofensiva final, 1635-6 e 6. Entradas e excursões. Essa parte nos dá uma visão da geografia da ocupação e das formas de resistência espanhola, já que Portugal era dominado nesse período pela Espanha (1580-1640). Adotavam as terríveis táticas de guerrilha, sem enfrentamentos decisivos. Um horror! Impedia-se a produção.

A segunda parte é ocupada por oito capítulos. Vamos a eles. 7. Nassau assume o governo do Brasil holandês; 8.  Do sítio da Bahia (1638) à restauração de Portugal (1640). 9. Governar o Brasil  holandês; 10. Os amigos portugueses de Nassau; 11.  Nassau urbanista e arquiteto; 12. As populações do Brasil holandês; 13. A economia do Brasil holandês e 14. Os últimos tempos de Nassau no Brasil. Em sete anos de governo viveu-se o período de ouro do Brasil holandês. Mas, mesmo um bom governo enfrenta grandes desgastes e dificuldades. É o grande período da Companhia das Índias Ocidentais, uma gigantesca empresa da época. A Holanda é considerada como a primeira grande economia moderna do mundo. 

O local da famosa ponte e o seu pedágio.

Na terceira parte temos mais cinco capítulos: 15. A conjura luso-brasileira; 16. A insurreição; 17. A rotina do cerco do Recife; 18. Rumo aos Guararapes e 19. A capitulação do Recife. Mostra a restauração portuguesa e o problema de lidar com a ocupação holandesa e as dificuldades que isso representou. As hostilidades em muito se deram por conta dos conflitos religiosos entre os portugueses católicos e os holandeses calvinistas e os judeus, temendo a restauração portuguesa e a volta dos Tribunais da Inquisição. Também foi um tempo de surgimento de muitos quilombolas, que se aproveitaram da situação dos conflitos entre lusos e holandeses. Faço um post em separado sobre o Quilombo dos Palmares, o maior de todos, que surgiu nesse período.

Na contracapa do livro temos três parágrafos que dão uma ideia mais precisa do livro. Vamos a eles: "Este volume dá voz aos trechos mais importantes dos livros, crônicas, documentos e cartas do domínio holandês no Brasil (1630-1654), desde as primeiras invasões até a derrota e expulsão dos batavos. Fontes primárias para o entendimento de um dos mais ricos períodos da história brasileira, os textos foram selecionados e comentados pelo historiador Evaldo Cabral de Mello, uma autoridade no período.

Como se estivesse fazendo um documentário, Evaldo Cabral de Mello optou por uma narrativa clara e bem escrita, que conduz o leitor pelos mais importantes escritos da época - com os quais goza de uma rara familiaridade. Com este procedimento, além de produzir uma obra fundamental para historiadores e pesquisadores, Cabral de Mello criou um livro de fácil leitura e de grande interesse geral.

E como pano de fundo, acompanhamos a radical modernização do Recife - que se torna a cidade mais desenvolvida do Brasil -, com a sua nova arquitetura, seus novos costumes e sua nova diversidade populacional, que incluía os calvinistas e os judeus de origem portuguesa vindos para os Países Baixos". Este desenvolvimento custou à cidade de Olinda ser totalmente preterida.


 Uma paisagem revitalizada do Brasil holandês.

Como uma espécie de frase em epígrafe, o autor traz a apresentação do Recife, feita por Gilberto Freyre: "Com o domínio holandês e a presença, no Brasil, do conde Maurício de Nassau [...] o Recife, simples povoado de pescadores em volta de uma igrejinha, e com toda a sombra feudal e eclesiástica de Olinda para abafá-lo, se desenvolvera na melhor cidade da colônia e talvez do continente. Sobrados de quatro andares. Palácios de rei. Pontes. Canais. Jardim botânico. Jardim Zoológico. Observatório. Igrejas da religião de Calvino, Sinagoga. Muito judeu. Estrangeiros das procedências mais diversas. Prostitutas. Lojas, armazéns, oficinas. Indústrias urbanas. Todas as condições para uma urbanização intensamente vertical. Fora esta a primeira grande aventura de liberdade, o primeiro grande contato com o mundo, com a Europa nova - burguesa e industrial - que tivera a colônia portuguesa da América, até então conservada em virgindade quase absoluta. Uma virgindade agreste, apenas arranhada pelos ataques de piratas franceses e ingleses e pelos atritos de vizinhança e de parentesco, nem sempre cordial, com os espanhóis". 

Deixo ainda o link da resenha do livro do Lira Neto, Arrancados da terra.

 http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/06/arrancados-da-terra-lira-neto.html

sábado, 31 de julho de 2021

Um novo lar na imensidão da mata. Memórias de Paul Ramminger. Imigrante de Mondaí - SC. Década de 1920.

Recebi do meu irmão, Hédio José, o mais velho entre nós, que acaba de completar 87 anos de vida, um presente valioso. Trata-se do livro Um novo lar na imensidão da mata - Reminiscências de Paul F. Ramminger, um imigrante alemão no oeste catarinense na década de 1920. O meu irmão mora na cidade de Mondaí, a antiga Porto Feliz, cidade retratada pelo livro. Porto Feliz foi colonizada essencialmente por protestantes e rivalizava com Porto Novo (Hoje Itapiranga), colonizada por católicos, com forte apoio dos padres jesuítas. Em Itapiranga se estabeleceram alemães oriundos das antigas colônias ou das primeiras colônias, das imigrações a partir de 1824, dos vales dos rios dos Sinos e Caí. A nossa família teve por berço a cidade de Harmonia, no vale do rio Caí.

Um novo lar na imensidão da mata. Oikos, 2020. Leandro Mayer, organizador.

O livro retrata a saga da família Ramminger, originária da Alemanha, da cidadezinha de Aldinger, que, conforme vislumbrei no mapa, se situa nas proximidades de Freiburg (Alemanha) e de Basileia, na Suíça. Faço a citação de Basileia porque ali se situava a Missão de confissão luterana, à qual pertencia Karl, o pai de Paul, o protagonista do livro. Karl se tornara pastor e trabalhou em missões de sua igreja na China. Por questões familiares, manutenção de sua unidade, veio trabalhar no Brasil, na localidade de Neu-Württenberg, hoje Panambi. Dono de uma personalidade forte, se desentende com a comunidade e decide se embrenhar em meio à floresta, às margens do rio Uruguai, na nascente localidade de Porto Feliz, a atual Mondaí (SC). Isso era no ano de 1921. Com uma coleção de selos e outra de moedas chinesas comprou duas colônias de terras, o equivalente a 48 hectares.

O livro é organizado pelo historiador Leandro Mayer, a partir das memórias escritas de Paul, que chega ao local, com apenas 11 anos de idade. Muitos e muitos sacrifícios! Saber grego, hebraico, aramaico e o Antigo Testamento quase de cor, além de seguir de ser adepto do pietismo, de pouco valeram para a derrubada da floresta, o corte da madeira e a sua transformação em tábuas e telhas para a construção de suas primitivas residências. Quando estas primeiras dificuldades, oriundas da natureza, foram sendo domadas, problemas de outra natureza aparecem, como a Coluna Prestes (1924) e a febre tifoide que assolou a colônia em sequência e consequência. Chegaram, inclusive, a participar da Revolução Constitucionalista de 1932 e, mais estranho ainda, ao lado de São Paulo. 

Mas nada se comparou com os sofrimentos passados ao longo dos anos de 1942 e 1943, período da Segunda Guerra Mundial, quando foram presos e torturados, unicamente por serem alemães. O alinhamento, por parte do governo Vargas, de alemão com nazista era praticamente automático. Não havia oportunidade para esclarecimentos. Conheceram as prisões da região e até de Porto Alegre. Um dos mais bonitos relatos é escrito por Erich, um dos filhos de Paul. Com a melhora da situação financeira da família, ele irá estudar em Panambi e depois em Porto Alegre. Lá cursou Ciências Econômicas na UFRGS. Revoltado com as injustiças do sistema capitalista, ingressou em movimentos clandestinos contra a ditadura militar, movimentos que abandona, após muitas advertências do pai, para se tornar executivo de uma das maiores empresas do capitalismo global. Chegou a ser o diretor presidente brasileiro do Thyssen-Grupp, trabalhando em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. O livro termina com o legado histórico da família para a cidade de Mondaí e para toda a região do oeste catarinense, com a montagem de um museu.

O livro se estrutura, sempre tendo como base as memórias escritas por Karl, de Paul, na maior parte das vezes, e por seu filho Erich, em oito capítulos, recheados de notas dadas por Leandro Mayer, o organizador do livro, num memorável trabalho de contextualização. Eis os capítulos, não numerados no livro: I. Um novo lar na imensidão da mata!- Reminiscências de minha vida, escrito por Paul em alemão e traduzido  pelo filho Erich; II. 1876-1976: o centenário do pastor karl e Hedwig Ramminger, com base no texto de Paul e mais uma vez traduzido pelo filho Erich Centenário de Karl e Hedwig Ramminger; III. Um voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932, com base no texto de Paul O diário do voluntário Paul F. Ramminger, com tradução de Gisela Dreger; IV. "Vítimas da nacionalização": repressão, prisões e torturas contra alemães, com base num depoimento de Paul para o Livro Colonização e desenvolvimento do Oeste de Santa Catarina, de 1997, de autoria do padre Luiz Heinen;

V. "Balsas no rio Uruguai": um testemunho, um texto escrito por Paul, que relata as atividades de extração, transporte e comercialização da madeira com a Argentina; VI. Um ponto fora da curva: o conflito entre gerações. Trata-se do brilhante texto escrito pelo filho Erich, de suas aventuras estudantis em Porto Alegre e de seu envolvimento no combate à Ditadura Militar; VII. O legado histórico de Paul F. Ramminger. Trata da criação do museu e do acervo fotográfico deixado em Mondaí, fruto do zeloso trabalho na preservação da memória familiar, bem como da cidade, que ajudara a desbravar; VIII. O centenário da imigração da família Ramminger no Brasil. O adeus. Tem até uma narrativa de participação do casal Paul e Erika no programa Em nome do amor, no SBT, comemorativo às bodas de diamante do casal.

O livro tem ao todo 127 páginas, recheadas de memórias escritas, acompanhadas de um rico acervo fotográfico e de esclarecedoras notas de contextualização. Confesso que foi uma leitura extremamente agradável e de aquisição de novos conhecimentos e de contextualização e inserção dessa história local, com a história do Brasil e Universal. Todos os envolvidos na produção desse livro de memórias são merecedores dos melhores elogios por este brilhante trabalho de preservação de memória. E que vida! Que saga! São narrados os destinos de pessoas indomáveis e intrépidas. O livro é editado pela Oikos, de São Leopoldo. Essa editora se ocupa muito com o tema da imigração alemã. E para o meu irmão, os meus melhores agradecimentos pelo presente. Se não fosse por ele, provavelmente jamais teria tido acesso a este belo livro.

terça-feira, 27 de julho de 2021

A história dos Cavaleiros Templários e do Templo. Charles G. Addison.

Há muito eu queria enveredar no campo da leitura sobre os Cavaleiros Templários. As minhas referências eram poucas, retiradas apenas de livros didáticos. Recentemente li o memorável romance histórico Ivanhoé, de Walter Scott. Nele aparecem os reis Ricardo Coração de Leão e João sem Terra, reis muito vinculados os Cavaleiros e às Cruzadas. Isso me motivou a buscar literatura e atender às minhas curiosidades. O livro que comprei foi A história dos Cavaleiros Templários e do Templo, escrito por um dos membros do Templo Interno de Londres, no ano de 1842. Livro, portanto, escrito por um membro pertencente à ordem, que subsistiu e ainda subsiste, mesmo após a condenação papal da entidade.

A edição da Contraponto de A história dos Cavaleiros Templários e do Templo. 2012. Tradução Vera Ribeiro.

Mesmo com o posicionamento favorável aos Templários, as minhas curiosidades foram inteiramente satisfeitas. O livro é fiel aos fatos históricos e chamo a atenção para os dois temas tratados pelo livro: a história dos templários e a história do Templo. O Templo é uma enorme igreja que pertencia à ordem e que sobreviveu à sua extinção. Charles G. Addison (1812 - 1866), advogado e historiador inglês, escreveu o livro e a sua edição data do ano de 1842. O livro que eu li é da Contraponto e publicado no ano de 2012. Mostro este dado para ilustrar a importância do livro e a curiosidade que o tema desperta. Um livro de 1842 ganhando nova edição.

Recorro inicialmente a uma pequena síntese, de autoria de César Benjamin, retirada das orelhas do livro: "Em 1118, doze anos depois da Primeira Cruzada, um grupo de nove cavaleiros obteve permissão do rei cristão Balduíno II para se estabelecer no antigo Templo de Salomão, em Jerusalém, no lugar onde hoje existe a mesquita de Al-Aqsa. Pretendiam criar um contingente militar permanente para proteger os peregrinos que se dirigiam à Terra Santa. Dez anos depois o papa Honório II formalizou a existência da Ordem dos pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, formada por monges combatentes que faziam voto de pobreza e castidade (Acrescento também o voto de obediência, seguramente o mais cobrado). Subordinados diretamente aos papas, independentes de qualquer poder secular ou eclesiástico, eles logo adquiriram grande reputação como principal força militar cristã na linha de frente contra os muçulmanos. O manto branco que usavam, com uma cruz vermelha no lado esquerdo do peito, tornou-se famoso em toda a cristandade e respeitado nos campos de batalha. "Um Cavaleiro Templário", dizia São Bernardo de Claraval (o padroeiro da ordem), "é destemido e está seguro por todos os lados. Sua alma é protegida pela armadura da fé, assim como seu corpo está protegido pela armadura de aço. Está, pois, duplamente armado. Não precisa temer nem demônios nem homens".

Durante 180 anos (1095 ou 1099 - 1291) que duraram as Cruzadas, os Templários acumularam enorme poder e fortuna em castelos, terras, imóveis, navios e tesouros com os quais criaram o primeiro grande sistema bancário europeu, tornando-se credores de nobres e reis. Porém, depois que a Terra Santa foi conquistada pelos muçulmanos, em 1291, o apoio à Ordem diminuiu, até que Filipe IV, rei da França, obteve autorização do papa Clemente V para lançar uma implacável perseguição contra ela, sob a implausível acusação de praticar cultos demoníacos. Prisões, torturas e execuções públicas se sucederam. Em 18 de março de 1314, Jacques de Molay, o último grão-mestre, foi queimado vivo em Paris, lançando desafios e imprecações contra o rei e o papa.

Os documentos originais dos julgamentos nunca foram divulgados. A grande frota templária desapareceu sem ser capturada. E o arquivo central da Ordem foi destruído em 1571 pelos otomanos. O fascínio em torno dos Templários subsistiu na forma de lendas e especulações, com poucas fontes confiáveis. Em 1842, o advogado e historiador inglês Charles G. Addison publicou, finalmente, o resultado de suas extensas pesquisas, que usaram fontes hoje indisponíveis. É o livro que o leitor tem em mãos. É uma completa história da Ordem, desde sua criação até a recuperação do Templo de Londres, que ainda hoje está em pé. Uma história real, feita de fé, proezas militares, conspirações, traições e grande emoção".

O livro está assim estruturado: Os nomes dos grão-mestres da ordem, de 1118/19 a 1314; várias ilustrações; sumário e apresentação de César Benjamin e o prefácio do autor. Aí começa o corpo do livro que tem 14 capítulos. Tudo isso ocupa 365 páginas. Os dez primeiros contam a história da ordem e os quatro últimos são sobre a restauração e a organização em torno do Templo de Londres. Tenho algumas observações a fazer. Tratava-se de uma organização religiosa militar, uma espécie de um exército papal europeu, muito poderoso. Havia a Ordem dos Templários, organizada em torno da proteção aos peregrinos em romaria à Terra Santa, peregrinação que rendia polpudas indulgências, e a Ordem dos Hospitalários que atendiam os doentes e feridos em viagem. Os Hospitalários não sofreram a extinção papal. Eram admirados e muito queridos pela população. Acumularam grande fortuna, oriunda de doações. Todo o capítulo V se ocupa em traçar um mapa de seus bens. Estavam ativos em toda a Europa, com destaque para Inglaterra e França. 

O Convento de Cristo. Tomar. Portugal. Do meu arquivo de fotos. Em Portugal os Templários apenas trocaram de nome: Cavaleiros de Cristo.

Os muçulmanos forram os seus grandes adversários, primeiramente sob o comando de Saladino. Mas a derrota final foi para as forças egípcias. Suas regras, minimamente detalhadas, eram muitas e a obediência era cega. As desavenças ocorreram por causa dos choques com os reis, com o papa e com as ordens religiosas. O extermínio foi feito com extrema violência. Por meio de torturas arrancavam qualquer confissão que fosse desejada pelos inquisidores. Como ilustração, para conhecer um pouco da ordem, apresento um item de seus princípios, revelador de todo o fanatismo de que eram impregnados. "Mas os soldados de Cristo travam com segurança as batalhas do Senhor, sem temor algum do pecado por liquidarem o inimigo ou do perigo de sua própria morte. Pois que dar ou receber a morte por Cristo nada tem de crime, e sim de muita glória (página 54)".

O Templo de Londres foi reconstruído e os "novos" Templários se dedicaram ao Direito e ao seu ensino. A defesa de seus princípios agora se daria através das instituições jurídicas e não mais pelas armas. Muitos de seus hábitos, costumes e tratamentos mútuos são hoje incorporados pela maçonaria. O último grão-mestre, observem a designação, foi Jacques de Molay, que até hoje tem seguidores entre católicos extremamente conservadores. Em suma, repito, foi uma leitura muito valiosa. Confesso que fiz uma certa leitura "dinâmica" quando ela se tornava repetitiva e martelava em cima de descrições muito detalhadas. Com certeza, recomendo.  Sim, também os reis Ricardo Coração de Leão e João sem Terra apareceram. Inclusive existe uma alusão à Magna Carta, que o rei João foi obrigado a assinar na chamada rebelião dos barões. Deixo também o link do livro Ivanhoé. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/06/ivanhoe-walter-scott-as-origens-do.html



sábado, 24 de julho de 2021

Discurso sobre a origem da desigualdade. Jean Jacques Rousseau.

Em 2004 comprei um livro raro. O comprei na Feira dos Livros Usados, um sebo aqui de Curitiba. A edição do livro não tem data, mas o seu antigo proprietário anotou o mês e o ano da compra. Novembro de 1949. O livro é  Discursos sobe as ciências e as arte e sobre a origem da desigualdade de Jean Jacques Rousseau (1712- 1778). O patrono da Revolução Francesa escreveu esse discurso no ano de 1775. O título completo é Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Desde já aponto para a propriedade como sendo esta origem e fundamento. O primeiro ensaio eu li no ato da compra e o segundo, o li agora, lendo sobre o grande democrata. O li com muito cuidado, pois o livro se esfarelava diante de qualquer falta de cuidado.

É esta edição que eu tenho. Tradução de Maria Lacerda de Moura. Atena Editora. 

A tese do discurso é exatamente a de que o ser humano, bom em seu estado de natureza, passa a ser portador de todas as maldades possíveis a partir da instituição da propriedade privada e da legislação que se seguiu e que se constituiu nos fundamentos que arruinaram o mundo. O autor com quem ele estabelece o contraponto é Thomas Hobbes, o da teoria de que o homem em seu estado de natureza é o Homo homini lupus, o da guerra de todos contra todos.

O discurso, depois de uma breve apresentação, tem dois capítulos. No primeiro ele apresenta o homem em seu estado de natureza e afirma que ele não é nem bom, nem mau, uma vez que os padrões morais de julgamento já são uma invenção da sociedade. Considera que o homem em seu estado de natureza é feroz em sua defesa e busca por alimentos, mas é incapaz de ser efetivamente mau. Examina a fragilidade do ser humano e a sua lenta evolução. Um destaque todo especial é dado para os avanços da linguagem que evoluiu na formação dos conceitos a partir da realidade concreta até atingir a abstração, com o metafísico e o moral. Mostra grande simpatia para com os índios caraíbas, donde deve derivar a sua imagem do bom selvagem.

Contra Hobbes aponta para o erro de origem de sua pesquisa. O seu homem em estado de natureza, já não vivia nesse estágio primitivo. Já estava contaminado pela vida civilmente constituída. Não chega nem a comentar o Estado Leviatã, preconizado pelo autor. Faz uma pergunta interessante, já puxando para o mundo das instituições. A quem recorreria o homem em estado de natureza quando ele se sentia injustiçado? Tomo um parágrafo já do final desse capítulo como ilustração: "Sem prolongar inutilmente esses detalhes, cada qual deve ver, sendo os laços da servidão formados exclusivamente da dependência mútua dos homens e das necessidades recíprocas que os une, é impossível sujeitar um homem sem o por antes na situação de não poder passar sem outro homem; situação que, não existindo no estado de natureza, deixa cada um livre do jugo e torna vã a lei do mais forte".

O segundo capítulo começa de forma bombástica, com uma frase que se tornou famosa: "O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: 'Livrai-nos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esqueceres que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!'.

Eu continuo mais um pouco: Parece, porém, que as coisas já tinham chegado ao ponto de não mais poder ficar como estavam: porque essa ideia de propriedade, dependendo muito de ideias anteriores que só puderam nascer sucessivamente, não se formou de repente no espírito humano: foi preciso fazer muitos progressos, adquirir muita indústria e luzes, transmiti-las e aumentá-las de idade em idade, antes de chegar a esse último termo de estado de natureza". Passa a fazer então uma retrospectiva dessa evolução. De John Locke toma uma frase que é lapidar; "Não pode haver injúria onde não há propriedade". Em sua análise mostra que quando a propriedade se instaurou, desaparece a bondade original, Instaura-se a desigualdade, afirma-se o amor próprio e institui-se o trabalho e a escravidão. Tudo garantido por leis. Segue-se ainda dominação, violência, rapina, traições e o permanente estado de guerra.

Me permito ainda apresentar o parágrafo final, como uma espécie de síntese do capítulo: "Tratei de expor a origem e o progresso da desigualdade, o estabelecimento e o abuso das sociedades políticas, tanto quanto essas coisas se podem deduzir da natureza do homem, pelas luzes exclusivas da razão, e independentemente dos dogmas sagrados que dão à autoridade soberana a sanção do direito divino. Resulta do exposto que a desigualdade, sendo quase nula no estado de natureza, tira a sua força e o seu crescimento do desenvolvimento das nossas faculdades e dos progressos do espírito humano, tornando-se enfim estável e legítima pelo estabelecimento da propriedade e das leis. Resulta ainda que a desigualdade moral, autorizada unicamente pelo direito positivo, é contrária ao direito natural todas as vezes que não concorre na mesma proporção com a desigualdade física. Essa distinção determina suficientemente o que se deve pensar, nesse sentido, da espécie de desigualdade que reina entre todos os povos policiados, pois é manifestamente contra a lei da natureza, de qualquer maneira que a definamos, que uma criança mande num velho, que um imbecil conduza um homem sábio, ou que um punhado de pessoas nade no supérfluo, enquanto à multidão esfomeada falte o necessário".

Vou continuar trabalhando com Rousseau. Possivelmente seja ele o autor que melhor fundamenta a democracia. Lê-lo serve de alento num momento em que a democracia sofre tantas ameaças. Já comprei, de Ernst Cassirer A questão Jean-Jacques Rousseau, com prefácio e posfácio de Peter Gay. o  grande interprete da modernidade.  É. Pelo jeito, a razão foi sempre instrumental. Também recomendo a litura do primeiro discurso, que mereceu o Prêmio da Academia de Dijon. O recomendo especialmente para os avaliadores de dissertações e de teses. Creio que se tornariam bem mais rigorosos. Muita cópia e pouca criação é a principal constatação de Rousseau.

Um adendo. 21.08.2021. Na introdução do pequeno livro de Ernst Cassirer, A questão Jean-Jacques Rousseau, Peter Gay, cita Emile Faguet falando do Discurso sobre a origem da desigualdade. Vejamos a citação: "E este 'romance da humanidade', como Faguet o chama, tem um tema central: o homem é bom e a sociedade o corrompe" (Página 11). O romance da humanidade! Que bonito.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Contra a miséria neoliberal. Rubens Casara.

Costumo acompanhar os livros do Rubens Casara. Dele, já li, Estado pós-democrático (2017), Sociedade sem Lei, (2018) e Bolsonaro: o mito e o sintoma (2020). Agora foi a vez de Contra a miséria neoliberal (2021). Um crescendo extraordinário. Creio que, sem favor nenhum, Rubens Casara é hoje um dos mais densos intelectuais brasileiros. Ele tem o domínio dos campos da política, da história e da filosofia do direito, da linguagem e da psicanálise. Este seu último livro, certamente é o mais denso entre eles.

Contra a miséria neoliberal. Rubens Casara. Autonomia Literária. 2021.

Contra a miséria neoliberal é ao mesmo tempo uma densa análise do imaginário neoliberal e um forte apelo para a insurgência contra esta "nova razão do mundo" que tanto desfaz o ser humano, reduzindo-o à lógica mercantil da mercadoria, da concorrência e de seu auto-empobrecimento. O neoliberalismo como a "nova razão do mundo" impregna todas as atividades humanas e subordina-as ao lucro e à acumulação, agindo como um poder soberano ilimitado para a obtenção de seus objetivos. A democracia e os ideais humanitários são a sua grande vítima.

Na contracapa do livro encontramos uma apresentação, escrita por nada mais, nada menos, do que Christian Laval, um dos maiores estudiosos e referência mundial sobre o tema. Laval escreve: "Fala-se constantemente do neoliberalismo, atribuindo-lhe significados muito diferentes uns dos outros, numa espécie de inflação verbal descontrolada. Rubens Casara tem razão em escrever que o 'significante 'neoliberalismo' é usado de tantas maneiras que acaba por se tornar uma espécie de conceito 'guarda chuva', um nome vago e impreciso". Tal imprecisão é uma fonte de erro no diagnóstico e também na resposta política ao fenômeno. Por conseguinte, qualquer trabalho acadêmico que vise definir rigorosamente o neoliberalismo e colocá-lo de novo no centro da discussão é uma salvação pública. Esse é o caso do livro de Rubens Casara que estás prestes a ler.

O autor oferece ao leitor brasileiro uma entrada extremamente clara em toda uma série de análises e pesquisas que compõem o que poderia ser chamado, para usar uma expressão inglesa, neoliberalism studies, que têm se desenvolvido há cerca de vinte anos em nível internacional. Esses estudos permitiram corrigir uma sequência de erros, como o que consiste em identificar o neoliberalismo como uma completa abstenção do Estado na vida econômica e social. O neoliberalismo não é, e nem pode ser, no plano da prática algo 'antiestado', como proclamado por doutrinas que são mais ligadas ao libertarismo do que propriamente  neoliberais. É preciso dar ao termo o sentido mais exato que está presente nos trabalhos de pesquisa inspirados pelas intuições de Michel Foucault: de um certo tipo de governo de indivíduos, que, por sua vez, exige um certo exercício de poder por meio de um Estado forte, autoritário, por vezes violento, que visa uma articulação entre as esferas pública e privada".

O livro, de 380 páginas, tem prefácio de Christian Laval, apresentação de Márcio Sotelo Fellippe, a apresentação do autor, quatro capítulos e as preciosas referências bibliográficas. O prefácio tem por título, levar o neoliberalismo a sério, a apresentação, sem título é simplesmente notável. A apresentação do autor leva o título de um novo mal-estar. Os capítulos tem os seguintes títulos: I. Racionalidade neoliberal; II. A normatividade neoliberal; III. O imaginário neoliberal e o IV, Vamos falar de alternativas.

Márcio Sotelo Fellippe usa uma imagem de Isaiah Berlin, que divide os pensadores e escritores entre raposas e ouriços. As raposas são dispersas e se ocupam com muitas coisas, já os ouriços se fecham em torno de uma ideia, de um pensamento central. Casara é então comparado ao ouriço. Ele "sabe uma coisa grande grande: sem solidariedade não há sentido para a existência humana". A apresentação é maravilhosa.

O livro do Casara tem uma apresentação extremamente didática, com títulos e subtítulos, numa sequência lógica fantástica. Vou apresentar estes títulos e os subtítulos: I. Racionalidade neoliberal. I. 1. Racionalidade e poder: o que pode?; I. 2. Governo, projetos e racionalidade: sobre revoluções culturais; I. 3. A razão de Estado: poder de polícia e vale-tudo; I. 4. A racionalidade liberal: promessas de liberdade; I. 5. A crise do liberalismo: a fraude desvelada; I. 6. A hegemonia da racionalidade neoliberal: um mundo para os detentores do poder econômico; I. 7. O nascimento do neoliberalismo; I. 8. O meio, o sujeito e a governabilidade: como se constrói uma servidão voluntária; I. 9. Neoliberalismo, geopolítica, guerras híbridas e novos golpes: os velhos 'donos do mundo' mostram suas armas; I. 10. As resistências neoliberais: mudar para dominar; I. 11. Os 'novos' neoliberalismos: ultra-autoritarismo como resposta; I. 12. A 'democracia' neoliberal como mercado de ideias; I. 13. Ainda sobre a colonização neoliberal: o buraco negro neoliberal; I.14. O neoliberalismo como razão de mundo; I. 15. O sistema neoliberal. Um capítulo de muitos conceitos, de pensamentos fundadores e de história, até formar, me permito o termo, a Weltanschaung, ou a razão neoliberal que tudo ordena.

II. A normatividade neoliberal. II. 1. Uma lógica normativa global; II. 2. Poder, norma e neoliberalismo; II. 3. Normatividade e poder numérico; II. 4. As normas neoliberais; II. 5. Normatividade neoliberal: o conceito de interesse; II. 6. Mais cinco normas neoliberais; II. 6. 1. As decisões devem ser tomadas a partir do critério da exclusiva satisfação pessoal; II. 6. 2. Os direitos e as garantias fundamentais devem ser afastados sempre que necessário à eficiência do mercado; II. 6. 3. Os concorrentes-inimigos devem ser vencidos ou destruídos; II. 6. 4. Tudo e todos devem ser tratados como coisas; II. 6. 5. Tudo deve ser simples (e transparente). Este simples é o pensamento binário, que se opõe ao pensamento complexo, fruto de reflexão. Este item foi para mim um dos pontos altos do livro. Do capítulo eu concluo: pronto, - o direito também está subjugado à racionalidade neoliberal.

III. O imaginário neoliberal. III. 1. Breves considerações sobre a imaginação, as imagens, as ideias e o imaginário; III. 2. Um conceito de imaginário neoliberal. III. 3. É preciso levar a sério o imaginário neoliberal; III. 4. A naturalização dos absurdos. III. 5. Tudo é impossível de mudar (O TINA - There Is Not Alternative - da senhora Tatcher); III. 6. A descivilização (a modernização regressiva - gostei do termo. Eu sempre usei - a modernização conservadora); III. 7. As mutações do imaginário em direção ao neoliberalismo. III. 8. Imaginário neoliberal e as massas. Um fantástico capítulo com conceitos de linguagem, de psicanálise, de conceitos e também de história.

IV. Vamos falar de alternativas. Desse capítulo apresento o parágrafo final: "Em suma, para superar o neoliberalismo é preciso construir uma racionalidade, uma normatividade e imaginário do comum, daquilo que vale por ser construído por e para todos. Daquilo que, por ser comum, é inegociável. Por isso é preciso insistir na força do comum, desdemonizar a palavra e refundar o conceito de comum como objeto da política. Não é impossível". Com certeza, o melhor livro lido neste ano de 2021. 


quarta-feira, 14 de julho de 2021

1984. George Orwell.

Como conhecia 1984 apenas pela sua versão levada ao cinema e como ainda tenho um projeto de leitura de grandes clássicos, adiantei o livro na fila de leitura, colocando-o em primeiro lugar. É uma leitura fascinante e que provoca, segundo palavras de Erich Fromm, uma "esperança desesperada". 1984 é o último romance de George Orwell. Ele é datado de 1949, um ano antes da morte do escritor. Este é um dado fundamental para a compreensão do livro. Orwell tinha em mente, vivos, os horrores do progresso da civilização ocidental: Primeira Guerra, crise econômica de 1929, nazi-fascismo, stalinismo, Segunda Guerra Auschwitz, e, acima de tudo, a bomba atômica e a perspectiva da corrida armamentista. Havia possibilidade para a esperança? Está abeto o caminho para a sua distopia.

1984. George Orwell. Companhia das Letras. Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn.

O livro é relativamente longo e é dividido em três partes. Na primeira, em oito capítulos, é feita uma descrição e uma contextualização geral do Sistema que estará implementado no mundo a partir de 1984 (ele escreve em 1949, como já vimos). Nela também emergem os protagonistas da obra, com destaque para o ainda esperançoso Winston Smith. Aparecem as três potências da época: Oceânia, Eurásia e Lestásia. Winston vive na Oceânia. Ela é governada pelo Partido e seus ministérios, sob a inspiração do Grande Irmão. Todos são controlados pela onipresença das teletelas (pan-ópticos), que, tanto captam, quanto transmitem o que interessa ao Sistema. As potências vivem em guerras permanentes.

Na segunda parte, Winston se apaixona por Júlia. Como os sentimentos humanos haviam sido abolidos pelo Sistema, vivem em erro e sofrem as penas de sua rebeldia. Há esperanças! O'Brien (observem bem este personagem da alta hierarquia do Partido) coloca Winston em contato com a Confraria. Ela representava a Revolução. Esta era pregada por Goldstein, o difamado e temido líder do Partido. Para sobreviver, o Sistema precisa de inimigos. Goldstein era o inimigo. Winston e Júlia são flagrados pela Polícia das Ideias. Essa narrativa consta de dez capítulos.

Na terceira parte, narrada em seis capítulos, Winston inicia o seu processo de adaptação ao mundo do Grande Irmão. Ele consta de torturas e de lavagem cerebral. Constava de três partes: aprendizado, compreensão e aceitação. O'Brien é um dos chefes supremos do Partido e comanda o processo. As dores são inimagináveis e terminam no quarto 101, onde o processo é finalizado. "Duas lágrimas recendendo a gim correram-lhe pelas laterais do nariz. Mas estava tudo bem, estava tudo certo, a batalha chegara ao fim. Ele conquistara a vitória sobre si mesmo. Winston amava o Grande Irmão" (página 346). Winston finalmente estava adaptado.

O livro tem um apêndice extraordinário, Os princípios da Novafala, do próprio autor. No mundo do Grande Irmão uma nova linguagem seria necessária. O número de palavras deveria ser mínimo. O passado deveria ser abolido e, junto com ele, tudo o que ele havia produzido, especialmente o mundo político das utopias, da democracia, da liberdade e da igualdade. Foi, creio eu, a parte que mais exigiu da criatividade do escritor. É o que assistimos no mundo neoliberal de hoje. O empobrecimento da linguagem e a redução do imaginário. 

Apresento agora a síntese da contracapa, para depois, dar espaço aos posfácios acrescidos ao livro. "1984 é uma das obras mais influentes do século XX, um inquestionável clássico moderno. Publicado em 1949, quando o ano de 1984 pertencia a um futuro relativamente distante, tem como herói o angustiado Winston Smith, refém de um mundo feito de opressão absoluta. Em Oceânia, ter uma mente livre é considerado crime gravíssimo, pois o Grande irmão (Big Brother), líder simbólico do partido que controla a tudo e todos, 'está de olho em você'.

No íntimo, porém, Winston se rebela contra a sociedade totalitária na qual vive: em seu anseio por verdade e liberdade, ele arrisca a vida ao se envolver amorosamente com uma colega de trabalho, Julia, e com uma organização revolucionária secreta".

Então vamos aos posfácios. O primeiro é de Erich Fromm, datado de 1961. Vou me ater mais a ele. Em primeiro lugar ele nos lança uma advertência e nos provoca uma espécie de desespero. "O sentimento que expressa é de quase desespero acerca do futuro do homem, e a advertência é que, a menos que o curso da história se altere, os homens do mundo inteiro perderão suas qualidades mais humanas, tornar-se-ão autômatos sem alma, e nem sequer terão consciência disso".

Apresenta depois as três obras que representam as utopias com relação ao futuro da humanidade, proporcionadas pelo entendimento, da razão esclarecedora: Utopia de Thomas More; A cidade do sol, de Campanella e Cristianópolis, de Johanes Valentinus Andreae. A elas contrapõem as três grandes distopias, ou utopias negativas: Nós, de Zamyatin; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e a do próprio George Orwell, 1984.

Do posfácio de Erich Fromm anotei duas observações que considerei mais significativas: A primeira é a de que a paz é impossível em meio à corrida armamentista travada entre as grandes potências e, a segunda, a da natureza da verdade dentro do regime do Grande Irmão. A verdade é aquela que é ditada pelo Partido. Ela se dá sob o duplipensamento. Dois e dois são quatro, ou são cinco, conforme a conveniência.

Fromm afirma que 1984 nos coloca diante de duas possibilidades: ele, ou nos torna totalmente desesperançados e resignados, ou nos proporciona a clareza para ações ainda mais corajosas para o enfrentamento e a resistência. Assim Fromm termina a sua análise; "A esperança só pode concretizar-se, nos ensina 1984,  se percebermos o perigo que confronta os homens de hoje, o perigo de uma sociedade de autômatos que terão perdido todos os traços de individualidade, amor e pensamento crítico, e que não serão capazes de percebê-lo em decorrência do 'duplipensamento'. Livros como o de Orwell são advertências poderosas, e seria lamentável se o leitor, de modo autocomplacente, interpretasse 1984 como mais uma descrição da barbárie stalinista, sem perceber que o livro se refere também a nós" (Página 378-9).

O segundo posfácio é de Ben Pimlott, datado de 1989. O historiador britânico faz uma pequena mas memorável síntese do livro e destaca o "duplipensar", presente no personagem de O'Brien. Destaquei uma pequena frase: "É um livro sobre o presente contínuo: uma atualização da condição humana. O que mais importa é que ele nos lembra de muitas coisas nas quais normalmente evitamos pensar" (Página 386).

O terceiro e último posfácio é do escritor norte americano Thomas Pinchon (2003). Ele nos apresenta uma contextualização da obra e nos põem em contato com a sua gênese. Pinchon deve ser um estudioso de Orwell. Também destaca o "duplipensamento" e mostra algumas ausências nas previsões do livro, como os fanatismos religiosos e o ódio entre raças, que facilmente ele poderia ter previsto. Os posfácios, devo dizer, são profundamente esclarecedores. Os autores, seguramente foram escolhidos meticulosamente, a dedo.

No momento estou lendo Contra a miséria neoliberal, de Rubens Casara (Autonomia literária, 2021). O tempo inteiro ele me remete ao 1984. Especialmente ao apêndice Os princípios da Novafala. O empobrecimento da linguagem é um dos pressuposto dos regimes totalitários. Ela produzirá a redução do imaginário, necessária à adaptação a um nível menor de exigências. Por isso o neoliberalismo promove tantas agressões aos sistemas educacionais, aos incentivos culturais e tanto estimula o negacionismo, nos remetendo aos tempos medievais.

Contra a miséria neoliberal. Rubens Casara. Autonomia  Literária. 2021.

PS. Do livro Laranja mecânica, de Antony Burgess. Do prefácio de Fábio Fernandes. A trindade distópica: "Laranja mecânica faz parte de uma trindade distópica que coroa a ficção científica do século XX. O livro de Burgess divide com 1984, de George Orwell, e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (ambos britânicos e pouco mais velhos que ele) a honra de criar um dos cenários mais apocalípticos da literatura de todos os tempos.

Entretanto Laranja mecânica tem duas características que tornam sua narrativa mais rica e complexa: a primeira é que, embora ambientada numa Inglaterra futurista inexistente, seus elementos de extrapolação são mais próximos do mundo real do que as visões de Orwell (um mundo inteiramente dominado pelo comunismo totalitário de linha stalinista) e Huxley (uma sociedade perfeitamente rica e feliz mantida à base de manipulação genética e drogas, mas que exclui e condena à miséria quem não se adapta ao sistema). Ao extrapolar elementos específicos da sociedade penitenciária como gangues e o sistema penitenciário em vez de propor uma alteração completa na sociedade, Burgess torna o universo de Laranja mecânica mais reconhecível para o leitor - e mais próximo da realidade. Afinal, a violência está cada vez mais próxima de nós no cotidiano" (Pagina X). Em. 26. 12.2024.


terça-feira, 6 de julho de 2021

O Novo Conservadorismo Brasileiro. Marina Basso Lacerda.

Cheguei a este livro por força de outras leituras, por indicações bibliográficas de leituras em que procurava entender o atual e triste momento da política brasileira. Falo de O Novo Conservadorismo Brasileiro, o livro de doutoramento pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, de Marina Basso Lacerda. A relevância do tema e o aprofundamento da pesquisa transformaram a tese no presente livro, que ilumina o atual cenário brasileiro. Marina é advogada e analista legislativa da Câmara dos Deputados. Tomo a liberdade de indicar esta leitura para todos os que buscam uma alternativa de democracia efetiva para o complicado quadro da atual realidade brasileira.

O novo conservadorismo brasileiro. Marina Basso Lacerda. 2019.

O livro tem um prefácio, escrito por Flávia Birolli, uma das integrantes da banca examinadora, uma apresentação com uma visão dos temas pesquisados e o corpo do trabalho dividido em seis capítulos, não numerados e um grande número de subtítulos. O pressuposto básico é que existe uma relação entre o neoconservadorismo surgido nos EUA e os movimentos neoconservadores no Brasil, que culminaram com a ascensão de Jair Bolsonaro como presidente da República. A base de observação da política brasileira é a ascensão e atuação das bancadas evangélica e da segurança pública na Câmara dos Deputados, em sua 55ª Legislatura, que corresponde aos anos de 2015-2018.

O primeiro capítulo, tem por título Neoconservadorismo nos Estados Unidos: histórico e conceito. É um capítulo de fundamentação teórica. O tempo delimitado é o do final dos anos 1970, com a ascensão de Reagan ao poder, até o governo Trump. Lembrando que ao final da Segunda Guerra Mundial imperou o espírito da Guerra Fria. Quem exerceu primordial influência nesse cenário foi a ascensão da "direita cristã", evangélica e católica, na contenção dos avanços das pautas feministas e LGBT. A "direita cristã" era pautada pela defesa intransigente da família patriarcal, do sionismo, do militarismo, do espírito punitivista criminal e da pauta econômica neoliberal.

O segundo capítulo, Defesa da família patriarcal: atuação parlamentar em combate ao feminismo e às demandas do movimento LGBT, traça um paralelo da atuação dos parlamentares nos Estados Unidos e no Brasil. As questões mais sensíveis foram as de conter os avanços em favor da descriminalização do aborto, da diversidade e de barrar os debates nas escolas sobre a homofobia, tidos pelos conservadores como "ideologia de gênero", que, segundo uma afirmação de João Paulo II, pretendia uma alteração da natureza humana. Creio que os leitores brasileiros lembram dos debates em torno do "Kit Gay". Neste capítulo também é traçado um perfil da bancada evangélica, que atua em consonância com os deputados católicos conservadores, contrários à Teologia da Libertação. 

O terceiro capítulo, Idealismo punitivo: atuação parlamentar pelo rigor criminal, mostra o entrelaçamento entre as bancadas evangélica e a de segurança pública, bem como os fundamentos dessa aliança. A defesa da família patriarcal e de seus valores no estabelecimento da ordem e da hierarquia é o principal alvo. Lei e Ordem. Este seria o principal antídoto para o controle da pobreza. Pessoas de bem, pessoas respeitadoras da ordem estabelecida terão mais facilidades no mercado de trabalho. Os itens principais da pauta punitivista são os da redução da maioridade penal, da exposição pública de fotos de menores infratores, da defesa de policiais em casos de abusos ou excessos cometidos, da obstrução à Comissão Nacional da Verdade, da defesa da aprovação das leis anticorrupção e antiterror e a defesa da intervenção militar no Rio de Janeiro. Lembram do bordão "Bandido bom é bandido morto"?

O quarto capítulo, Bolivarianismo e sionismo: Inserção internacional religiosa e anticomunista, trata da pauta da política externa do movimento. A atuação se dá mais pelo discurso do que pelas tentativas de legislação. O bolivarianismo é o substituto do comunismo da antiga União Soviética dos tempos da Guerra Fria. É o comunismo do século XXI. Já o sionismo é definido pela questão religiosa, dos fundamentos do Antigo Testamento, dos valores ali apregoados, comuns a judeus e cristãos. A aproximação com Israel também se dá para afagar a política externa dos Estados Unidos. As divergências históricas entre cristãos e judeus são esquecidas. Lembram do "Vá para a Venezuela"?

O quinto capítulo, Neoliberalismo: atuação parlamentar por desnacionalização, desregulamentação, privatização e  valores de mercado, aborda as questões econômicas do movimento. Os temas trabalhados são os da agenda neoliberal, contida no título do capítulo. Os temas discutidos na Câmara dos Deputados são os referentes a Petrobras e ao Pré-Sal, ainda no Governo Temer, bem como a reforma da legislação trabalhista e da votação da PEC-95, a que limita os gastos públicos. Em vez de políticas públicas, é aplicado o espírito punitivista de caráter penal do Estado neoliberal. Há uma perfeita harmonia entre a direita cristã e o discurso do livre mercado, do empreendedorismo e da meritocracia.

O sexto capítulo, Jair Bolsonaro e o neoconservadorismo quarenta anos depois, mostra a atuação parlamentar do deputado, pautado no discurso conservador, até o seu alinhamento perfeito e total para ser o candidato do entrelaçamento entre a direita cristã, do seu moralismo punitivista e pró-família patriarcal e a pauta econômica do neoliberalismo com os seus apregoados valores do livre mercado.

Deste sexto capítulo eu destaco o seu discurso após a eleição em primeiro turno. Foi um discurso para a sua base, com um ligeiro olhar também para o segundo turno: "Boa noite brasileiros. Primeiro, meu muito obrigado aos quase cinquenta milhões de pessoas que acreditaram em mim no último domingo. O nosso compromisso, a nossa plataforma, a nossa bandeira, baseia-se em João 8:30: 'Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará'. Meu muito obrigado às lideranças evangélicas; aos homens do campo, quer seja do agronegócio, quer da agricultura familiar. Obrigado, caminhoneiros. Obrigado, policiais civis e militares, integrantes das forças armadas. Obrigado, família brasileira, que tanto clama para que seus valores sejam respeitados. E mais ainda, que a inocência da criança em sala de aula esteja acima de tudo. Muito obrigado em especial à região Nordeste, que, apesar de eu ter perdido lá, nunca alguém que fez oposição ao PT teve uma votação tão expressiva como eu tive" (página 193).

Ainda, deste sexto capítulo, quero destacar cinco razões apontadas pela pesquisadora como responsáveis pela eleição de Bolsonaro e a consequente ascensão da direita neoconservadora ao mais elevado cargo da representação política brasileira. Vou apresentar em tópicos: 1. a ascensão e mobilização da "direita cristã"; 2. o combate à ideologia de gênero e a defesa à família patriarcal; 3. Olavo de Carvalho, o auto proclamado "parteiro" da nova direita brasileira; 4. o antipetismo; 5. o argumento neoconservador dos valores cristãos, sólidos e estáveis. Pulso firme e hierarquia.

Ainda dá tempo para apresentar a orelha do livro: "Este livro trata do paralelo entre a ascensão do neoconservadorismo nos Estados Unidos no fim da década de 1970 e o surgimento do novo conservadorismo no Brasil a partir de meados de 2015 - que culmina com a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Neoconservadorismo ou nova direita se refere originalmente à coalisão contrária às políticas de bem-estar social e ao avanço de feministas e LGBTs, que reuniu parcela majoritária do evangelismo, elementos da direita secular do Partido Republicano e intelectuais para a eleição de Ronald Reagan em 1980.

O neoconservadorismo - fundado na tríade militarismo, absolutismo do livre mercado e família tradicional - forneceu o berço ideológico que viabilizou o neoliberalismo no mundo, no laboratório chileno de Pinochet, com os Chicago boys. A retórica da ortodoxia econômica entre nós é possibilitada com o resgate do mesmo ideário, expresso no combate à "ideologia de gênero", na Escola sem Partido, no Estatuto da Família, no fim do Estatuto do Desarmamento, no estabelecimento do teto de gastos públicos com a preservação de juros, na proposta de mudança da embaixada para Jerusalém e na crítica ao "marxismo cultural globalista". Simplesmente - um livro necessário.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Arrancados da terra. Lira Neto.

Comprei este livro, tanto pelo autor, quanto pelo tema. Um livro do Lira Neto sempre é garantia de um bom livro. Quanto ao tema, a discussão sobre a presença holandesa em Pernambuco, sempre foi uma questão posta, ao longo da história brasileira. Quanto a presença dos judeus nesta ocupação, o tema passou a me interessar mais, quando fiz uma viagem para a cidade do Recife e me enveredar pela rua dos judeus e me defrontar com a sinagoga ali existente. A leitura não me decepcionou. Estou falando de Arrancados da terra - Perseguidos pela Inquisição na Península Ibérica, refugiaram-se na Holanda, ocuparam o Brasil e fizeram Nova York. O livro é um lançamento da Companhia das Letras, deste ano de 2021.

Arrancados da Terra. Lira Neto. Companhia das Letras. 2021.

Ao final do livro, nos agradecimentos, Lira Neto fala da gênese do livro: "Escrever este livro foi um projeto acalentado ao longo de quase uma década. A ideia original, contudo, era realizar uma biografia de Maurício de Nassau. Ao mergulhar na documentação relativa ao domínio neerlandês em Pernambuco, um tema paralelo foi me chamando a atenção, pouco a pouco, até me desviar por completo do propósito inicial.

A cada nova consulta aos arquivos e à vasta bibliografia sobre o chamado 'Brasil holandês', a saga dos sefarditas que chegaram ao Recife via Amsterdam parecia-me uma história cada vez mais fascinante. Ao vasculhar os rastros daqueles personagens em sua grande maioria anônimos, descobri-me eu próprio um descendente dos cristãos-novos que, perseguidos pela Inquisição ibérica, se refugiaram em terras pernambucanas e, posteriormente, nos sertões do Ceará. 


Na casa do amigo Rodolfo Prates, um brinde com o Lira, em um momento raro e privilegiado.

Tal constatação foi responsável pela mudança de planos. Abandonei a ideia de biografar Nassau e deixei-me enredar pela trama  desses indivíduos em permanente deriva" (Página 319). Um pouco antes, no epílogo, onde são apontados os destinos dos principais personagens, lemos: "Após a reconquista portuguesa do Recife, muitos judeus e cristãos-novos convertidos ao judaísmo no Nordeste brasileiro não puderam ou não quiseram partir do país. Embrenharam-se sertões adentro. Retornaram ao catolicismo ou desenvolveram alguma espécie de cripto-judaísmo, longe do litoral e dos olhos dos espiões do Santo Ofício" (Página 304). Eis as origens do Lira Neto. Ele nasceu na cidade de Fortaleza.

O subtítulo do livro fornece também o seu roteiro. Vejamos atentamente. Perseguidos pela Inquisição na Península Ibérica, refugiaram-se na Holanda, ocuparam o Brasil e fizeram Nova York. Lembrando, para situar o fato na história, que a ocupação holandesa em Pernambuco e seus arredores, se deu entre os anos de 1630 e 1654. Outro fato importante desse período é que Portugal perdera a sua autonomia política por sessenta anos (1580-1640), sendo governado pelos soberanos espanhóis. Era o tempo da chamada União Ibérica. Esse período correspondeu a um dos mais violentos tempos da Inquisição, da qual os judeus foram o alvo principal. Este é o período que corresponde aos Arrancados da Terra. Arrancados de Portugal, eles se estabeleceram na Holanda, país que os recebeu relativamente bem.

A Holanda era nesta época o país mais liberal e tolerante e também o que mais se desenvolvia. Era um período de grande prosperidade comercial. Os judeus a financiavam. Holanda e Espanha viviam em conflito. Outro dado importante desse período foi a existência da Companhia das Índias Ocidentais, empresa que era um misto de empreendimento comercial e militar e a grande responsável pela ocupação, entre outros lugares estratégicos, do nordeste brasileiro. O interesse econômico era o domínio da produção e das rotas comerciais do açúcar e de escravos. Maurício de Nassau foi o governador holandês em Pernambuco entre os anos de 1637 e 1643, o tempo de maior esplendor. 



Fotos minhas, em viagem ao Recife.

Esse foi o momento propício que os judeus sefarditas, isto é, os judeus ibéricos estabelecidos na Holanda, viram para empreender negócios e se estabelecer em novas terras. Muitos deles vieram ao Recife, onde livremente, puderam empreender e professar sua fé. Se organizaram em vida comunitária, fundaram seu cemitério, sua sinagoga e trouxeram, inclusive, um rabino para manter acesa a sua fé. Isso não significa que não sofriam importunações dos calvinistas holandeses com os quais frequentemente se desentendiam, mais por questões econômicas do que religiosas.

Por uma série de razões, os negócios da Companhia das Índias Ocidentais começam a naufragar em Pernambuco, o que permite a ofensiva portuguesa para a retomada desses domínios e a consequente retirada dos holandeses, entre eles os judeus, que se viram novamente diante das ameaças da sempre vigilante Inquisição. Tiveram prazo curto para a retirada. A grande maioria voltou para a Holanda. Um navio porém, toma um destino diferente. Fica praticamente à deriva, aportando nas costas da Venezuela e da Jamaica. Aí 23 judeus contratam um navegador francês que os levaria a Nova Amsterdam, para ali se estabelecerem, junto a outros judeus que ali já habitavam. A Nova Amsterdam, com o posterior domínio inglês sobre a região, passou a se denominar Nova York.

Essa história é contada ao longo de dezoito capítulos, mais epílogo, pós-escrito, agradecimentos, notas e referências bibliográficas, que ocupa as 399 páginas do livro. Aproveito ainda para dar destaque a um outro personagem presente no livro, tanto no Recife, quanto em Lisboa e Amsterdam. Trata-se do famoso padre Antônio Vieira. O foco não são os seus famosos sermões, mas a sua missão diplomática junto a D. João IV, o soberano português, após a Restauração.

Para deixar uma ideia mais precisa do livro, apresento o teor que consta na orelha do livro: "Entre os séculos XVI e XVIII, ser judeu em Portugal e suas colônias significava viver sob um regime de terror permanente. A Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício - órgão policial-judiciário da Igreja católica encarregado do combate à heresia - constituía um autêntico Estado dentro do Estado, com poderes absolutos na repressão a crimes religiosos, dos quais professar o judaísmo era um dos mais graves.

Delatados por inimigos, ou mesmo por parentes sob a coação dos inquisidores, os judeus que recusavam a conversão sumária eram submetidos a prolongadas prisões e torturas. Insistir no 'danado erro' da apostasia levava à fogueira. Restava se esconder ou fugir.

Milhares de sefarditas (judeus ibéricos) deixaram Portugal e se fixaram sobretudo na França e na Holanda. Uma próspera colônia Israelita de origem lusitana se desenvolveu em Amsterdam nas primeiras décadas do século XVII. No enfrentamento da intolerância e a salvo da censura e da repressão, entre os canais da 'Jerusalém do Norte' floresceu uma brilhante geração de rabinos e intelectuais, encabeçada por Menasseh ben Israel (nascido Manuel Dias Soeiro), Saul Mortera e Isaac Aboab da Fonseca - além de pensadores revolucionários como Uriel da Costa e Baruch Spinoza.

Depois da invasão batava no Nordeste brasileiro, na década de 1630, muitos judeus cruzaram o oceano para tentar a vida nos domínios de Maurício de Nassau. Até a expulsão dos holandeses em 1654, os sefarditas de Pernambuco, liderados por Aboab da Fonseca, puderam fundar sinagogas e exercer sua fé livremente, além de prosperar na lavoura e no comércio sob a égide da Companhia das Índias Ocidentais. Com o retorno do jugo português e da Inquisição, eles foram obrigados a recomeçar sua jornada incessante em busca da Nova Canaã.

Dos cárceres do Santo Ofício à esperança do Novo Mundo, este livro mapeia as vidas errantes dos pioneiros que formaram a primeira comunidade judaica das Américas, no Recife, e ajudara a construir Nova York".

Sobre o tema dos judeus na Holanda, apresento também o belo livro Hereges, do Leonardo Padura. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/10/hereges-leonardo-padura.htmlhttp://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/10/hereges-leonardo-padura.html



quinta-feira, 24 de junho de 2021

Necropolítica. Achile Mbembe.

Há muito eu queria ler Achille Mbembe. O conhecia apenas através de comentários, especialmente, os retirados de seu livro Crítica da razão negra. A minha iniciação começou, no entanto, com Necropolítica, um fulminante pequeno ensaio sobre o exercício de um poder soberano sobre a vida ou a morte das pessoas, ao longo da afirmação histórica da modernidade. Como sabemos, a modernidade é a construção histórica que substituiu o mundo medieval, fundado em crenças, pelo mundo da razão, da ciência e do progresso. O mundo da "deusa razão". Autodeterminação, liberdade e igualdade eram as suas prerrogativas máximas. Estas, afirmadas pelas revoluções burguesas, sofreram violenta contestação com a proclamação da independência do Haiti, no ano de 1804, com a expulsão do governo francês. As bandeiras do iluminismo, definitivamente, não eram para todos.


O ensaio de Mbembe, Necropolítica, vem acompanhado de um subtítulo, biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. O corpo do ensaio, basicamente, é a elucidação desses conceitos. Esses,  vem acompanhados de ilustrações históricas. O ensaio não é dividido em capítulos, mas ao longo dele encontramos alguns subtítulos, que apresento: Política, o trabalho da morte e o "devir sujeito"; o biopoder e a relação de inimizade; necropoder e ocupação colonial na modernidade tardia; máquinas de guerra e heteronomia; do gesto e do metal e, uma conclusão. Creio que o subtítulo mais esclarecedor seja o do necropoder e ocupação colonial na modernidade tardia. Isso me permite apresentar toda a parte anterior, como a política colonial e imperialista, ocorrida após os descobrimentos marítimos e o estabelecimento de colônias pelos países europeus. Creio que facilita e, creio também, que já devem ter percebido a minha intenção.

Os conceitos filosóficos apresentados são inspirados em Foucault, Hannah Arendt, Georges Bataille, entre outros. Logo no início, em uma espécie de introdução, lemos alguns conceitos presentes ao longo de todo o texto. Assim lemos: "Este ensaio pressupõe que a expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Por isso, matar  ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais. Ser soberano é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação de poder". Segue depois a definição de biopoder, tomado de Michel Foucault: "aquele domínio da vida sobre o qual o poder estabeleceu o controle". Seguem, ainda, uma série de questões, que ele busca, depois responder: "Mas sob quais condições práticas se exerce o poder de matar, deixar viver ou expor à morte? Quem é o sujeito dessa lei? O que a implementação de tal direito nos diz sobre a pessoa que é, portanto, condenada à morte e sobre a relação que opõe essa pessoa a seu assassino/a? [...] que lugar é dado à vida, à morte e ao corpo humano (em especial o corpo ferido ou massacrado)? Como eles estão inscritos na ordem do poder?

Um dos tópicos mais importantes é aquele que começa a ser elucidado a partir da página 16: o biopoder e a relação de inimizade. Em outras palavras, a quem é dado o exercício do biopoder, a quem é dado o poder de matar ou de deixar viver. É preciso fixar quem é o inimigo. A raça sempre foi o principal critério para essa fixação. O colonialismo em muito contribuiu com a fixação da raça como critério para o direito soberano de matar. 

A partir de Hannah Arendt, Mbembe desenvolve uma série de reflexões, que fixam no outro, o inimigo. O outro precisa morrer para que eu me sinta seguro, ou, matar a fim de viver. Se o colonialismo serviu para fixar os inimigos nas colônias, matar os selvagens que resistiam ao processo civilizatório, o estado soberano europeu, também encontrou inimigos em seu próprio território. Esta fixação culminou com a chamada "solução final", do extermínio racial promovido pelo nazismo. A razão, que deveria ser instrumento emancipador, cada vez mais foi adquirindo o seu caráter instrumental.

Outro aspecto interessante  é a evolução da técnica de matar. Ela acompanhou os progressos trazidos pela Revolução Industrial. Do rudimentar processo de enforcamento se evoluiu para a guilhotina, para as câmaras de gás e para os fornos de cremação. A técnica de matar se transformou num processo impessoal, silencioso e rápido. Antes destas formas serem aplicadas ao longo da Segunda Guerra, elas foram devidamente testadas nos territórios sem lei do colonialismo. 

A leitura do ensaio se torna mais fácil a partir de suas páginas finais, a partir da página 38: Necropoder e ocupação colonial na modernidade tardia. São ilustrações históricas, ocorridas após os terríveis fatos da Segunda Guerra Mundial. Novos conceitos de guerra são apresentados, como a ocupação de espaços que resultam nas cidades do colonizado e no exercício da soberania vertical, pelo controle dos espaços aéreos. O poder soberano sobre a vida ou a morte continua a evoluir com as novas tecnologias, que permitem maiores controles e confinamentos. Como exemplos são citados o apartheid na África do Sul e a ocupação israelense na Faixa de Gaza, Palestina e Cisjordânia. As guerras já não mais atingem os indivíduos ou as pessoas diretamente envolvidas com a guerra, mas populações inteiras. As guerras passam a ser infraestruturais, como foram as do Kosovo e do Golfo.

Termino por apresentar uma descrição do que é a "cidade do colonizado" e a "guerra infraestrutural". Começamos com a "cidade do colonizado": "É um lugar de má fama, povoado por homens de má reputação. Lá eles nascem, pouco importa onde ou como; morrem lá, não importa onde ou como. É um mundo sem espaço; os homens vivem uns sobre os outros. A cidade do colonizado é uma cidade com fome, fome de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma vila agachada, uma cidade ajoelhada". Página 41.

O exemplo para o que seria uma guerra infraestrutural é retirado da guerra do Kosovo: "Em Kosovo, a 'degradação' das capacidades sérvias tomou a forma de uma guerra infraestrutural que destruiu pontes, ferrovias, rodovias, redes de comunicação, armazéns e depósitos de petróleo, centrais termoelétricas, centrais elétricas e instalações de tratamento de água. Como se pode presumir, a execução de tal estratégia militar, especialmente quando combinada com a imposição de sanções, resulta na falência do sistema de sobrevivência do inimigo. Os danos persistentes à vida civil são particularmente eloquentes. Por exemplo, a destruição do complexo petroquímico Pancevo, nos arredores de Belgrado, durante a campanha de Kosovo 'deixou as proximidades tão contaminadas com cloreto de vinilo, amônia, mercúrio, nafta e dioxinas, que se recomendou o aborto às mulheres grávidas, da mesma forma que todas as mulheres locais foram aconselhadas a evitar a gravidez durante dois anos". Página 50-51.

Pela dificuldade em fazer esta resenha, apresento a conclusão do ensaio feita pelo próprio autor: "Neste ensaio, propus que as formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte (necropolítica) reconfiguram profundamente as relações entre resistência, sacrifício e terror. Tentei demonstrar que a noção de biopoder é insuficiente para dar conta das formas contemporâneas de submissão da vida ao poder da morte. Além disso, propus a noção de necropolítica e de necropoder para dar conta das várias maneiras pelas quais, em nosso mundo contemporâneo, as armas de fogo são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar 'mundos de morte', formas únicas e novas de existência social, nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o estatuto de 'mortos vivos'. Sublinhei igualmente algumas das topografias recalcadas de crueldade (plantation e colônia, em particular) e sugeri que o necropoder embaralha as fronteiras entre resistência e suicídio, sacrifício e redenção, mártir e liberdade". Página 71.

Achille Mbembe nasceu em Camarões. É professor de História e Ciências Políticas na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, e também na Duke University, nos estados Unidos. Três referências bibliográficas me chamaram especial atenção: O Atlântico negro, de Paul Gilroy; Hegel e o Haiti, de Susan Buck-Morss e O discurso filosófico da modernidade- doze lições, de Jürgen Habermas. Mbembe é um dos gritos mais agudos ouvidos no mundo atual.


quinta-feira, 17 de junho de 2021

Ivanhoé. Walter Scott. As origens do romance histórico.

Ao assistir um episódio de Mundo visto de cima, que mostrava cenários e castelos medievais do Reino Unido, tomei a decisão de ir um pouco além. Retirei, da minha estante, o volume de número 37 - da coleção Os imortais da literatura universal e o adiantei na fila de minhas leituras. Trata-se do romance que mistura romantismo e história e que, em muito, aprofunda o conhecimento sobre a formação histórica deste país. No romance estão entremeadas histórias de amor com fortíssimas doses de nacionalismo. Este, especialmente, por conta dos povos saxões. Há, inclusive, uma absurda cena de ressurreição. Estou falando de Ivanhoé, de Walter Scott.

Ivanhoé. Walter Scott. Abril. 1972. Tradução: Brenno Silveira.

Walter Scott nasceu na cidade de Edimburgo, Escócia, no ano de 1771, vindo a morrer na mesma Escócia, no ano de 1832. As biografias do autor dão o merecido destaque a esse fato. Um sentimento saxônio o acompanhou pela vida afora. As biografias também destacam que Walter, mais tarde Sir Walter, era mau aluno em latim e matemática, mas que nos intervalos das aulas ganhava a atenção de seu colegas, pelas histórias que ele contava. Histórias que ele ouvira de seu avô, ou que tinha lido, de livros retirados da pequena biblioteca do mesmo avô. São as raízes desse romancista, que entremeia fatos históricos, especialmente medievais, com apaixonadas e heroicas histórias de amor.

Ivanhoé é um belo exemplo dessas características do escritor. Ele tem a parte romântica, na dedicação e amor, ou verdadeira paixão, à tradição dos saxônios (Cedric), entremeadas de ardentes histórias de amor, em meio a batalhas e disputas entre os irmãos Ricardo I e João, reis da Inglaterra. Estes reis são Ricardo Coração de Leão (1189 - 1199), famoso pela sua participação nas Cruzadas e o seu sucessor João, o João sem Terra (1199 -1216), muito conhecido pela famosa promulgação da Magna Carta (1215). Estão aí os ingredientes do romance de 556 páginas, com letras miudinhas, divididas ao longo de 44 capítulos. A estrutura narrativa é feita com muita habilidade. A leitura não para.

Essas contextualizações são importantes para se ter uma compreensão melhor do romance e também para penetrar um pouco mais no interior da história medieval, uma história cheia de violências e de traições, sempre por causas ditas e tidas como nobres. As guerras eram "santas". As lutas eram travadas não por causas terrenas, mas sempre sim, por causas e interesses divinos. Quanta farsa! Vamos ver um pouco dos personagens e do roteiro, sem entregar a narrativa.

O espaço territorial do atual Reino Unido, nesse período, era formado por uma aliança normando-inglesa, sendo o poder exercido pelos irmãos Ricardo e João, com grandes disputas, quando Ricardo estava preso em poder dos austríacos. Essa disputa está presente em praticamente todos os capítulos do livro. O rei João tem ao seu lado os cavaleiros templários, com destaque para o mau Brian de Bois Guilbert. Ricardo, depois de pago o seu resgate, volta a Inglaterra para tomar o poder do irmão com a ajuda de Ivanhoé, o personagem central e título do romance. Também Robin Hood (Locksley) aparece ao lado de Ricardo e de Ivanhoé. Ricardo também recebe o apoio do saxônio Cedric, pertencente aos últimos herdeiros nobres desse povo. Ele é o tutor da bela jovem Rowena e o pai de Ivanhoé, filho que ele renegara, pela sua inclinação para o lado dos normandos. Também o judeu Isaac e a sua bela filha Rebecca aparecem na narrativa. As guerras precisam de financiamento para as batalhas, para armar os cavaleiros e pagar os resgates. (A atuação de Isaac se parece com o capitalismo financeiro dos dias atuais - sempre desdenhado mas sempre desejado). 

É desnecessário dizer que as duas belas jovens são disputadas com todo o ardor. São pontos altos do romance, a descrição dos templários, muito, mas muito cristãos e a descrição do judeu Isaac, avarento, e sempre disposto a intervir para ganhar algum dinheiro a mais. São mostrados todos os preconceitos contra a raça judaica. Por outro lado mostra também toda a lealdade deste povo ao seu Deus e a unidade de todos, nos sofrimentos constantes de que são permanentes vítimas. Quanto às histórias de amor, elas te darão belas horas de entretenimento. Mas você pode ter também toda a certeza de que aprenderá muitas lições de historia. É um mergulho na Idade Média, onde está a raiz da formação do atual Reino Unido.

Sobre o romance, lemos o que segue, no livro de biografias que acompanha a coleção: "O romance (datado de 1819 ou 1820) tem como cenário a Inglaterra do século XII, onde se enfrentam os reis normandos, originários do continente, e os saxões, instalados há séculos na ilha. O fundo é histórico e as descrições dos ambientes e costumes feudais extremamente fieis. Muitas personagens, como Ricardo Coração de Leão (1157-1199) e o Príncipe João sem Terra (1167-1216), existiram realmente, embora a trama em que estão envolvidas seja, em grande parte fictícia.

A arte de Walter Scott consiste em estabelecer as relações entre estes dois níveis: o real, historicamente verdadeiro, e o imaginário, mas verossímil dentro do espírito da época descrita. Assim, conquanto as aventuras de Ivanhoé sejam fictícias, não o são os castelos, os torneios, os templários, os preconceitos anti-semitas apresentados no decorrer do romance".

Destaquei ainda um parágrafo, já da parte final, que mostra bem o tema e o espírito do livro:  "Além dos membros das duas famílias, compareceram ao casamento (de Ivanhoé com........), tanto normandos como saxônios de alta linhagem. O povo recebeu o acontecimento com demonstrações gerais de regozijo, pois era uma garantia de paz e harmonia futuras entre as duas raças, as quais. desde essa época, se misturavam tanto que, hoje, já não é mais possível distingui-las. Cedric viveu o suficiente para ver essa fusão quase completa, pois, à medida que os dois povos se aproximavam e se uniam pelo casamento, os normandos iam-se tornando menos desdenhosos e os saxônios menos rústicos. Mas não foi senão durante o reinado de Eduardo III (1327-1337) que a língua mista, agora chamada inglesa, passou a ser falada na corte de Londres, e que o espírito de hostilidade entre normandos e saxônios também desapareceu completamente" (página 551). A formação da fusão dessas línguas, formando a língua inglesa, também aparece ao longo de todo o romance.

Mas a aproximação com os judeus e o fim da alimentação dos preconceitos contra esta raça, ainda estaria longe para acontecer. Livro maravilhoso. O livro também foi levado ao cinema e como existe link disponível, o deixo. É fantástico ver os cenários descritos. https://ok.ru/video/689944726047. O filme é estrelado por Robert e Elisabeth Taylor. Walter Scott inicia a longa tradição dos tão apreciados romances históricos.