terça-feira, 10 de março de 2015

A Memorável Greve da Educação - 2015.

Comecei tendo dificuldades para dar um título a este post, devido a sua abrangência. Se a greve se centrou na educação, envolvendo professores e funcionários, na verdade, ela envolveu todo o funcionalismo público. Por ter sido um governador irresponsável e perdulário, em dezembro, ainda no seu primeiro mandato, Carlos Alberto Richa enviou para a Assembleia Legislativa o seu pacote de maldades - para ser votado em regime de tratoraço - contra o povo paranaense em geral e contra o funcionalismo público em particular. Para todo mundo, aumento generalizado de impostos e para o funcionalismo, uma reforma na Previdência, assacando os velhinhos e impondo teto aos novos.
Muita violência e deputados no camburão. Teve de tudo nesse vitorioso e histórico movimento.

Não bastasse isso, para sanar os cofres do Estado, esvaziados pela irresponsabilidade de seu governo, um novo pacote de maldades, desta vez absolutamente inimagináveis e, de novo, sob o infame regime de tratoraço. Desta vez a mão pesada liquidaria o plano de carreira, eliminando a base, o chão deste plano, eliminaria quinquênios e anuênios, e a possibilidade de ascensões pela via do PDE e tentou, ainda, um assalto ao dinheiro de futuros aposentados, apropriando-se de seu fundo de Previdência. A sua sanha por gastos irresponsáveis fez com que quisesse se apropriar de um fundo de 8 bilhões de reais.
Na primeira ocupação da assembleia uma cena bem brasileira, de misticismo religioso.

Já na educação havia mais outras questões. Como secretário da Educação ele nomeou um gestor, com histórico do tempo das privatizações, munido de uma tesoura e com o receituário do Banco Mundial para a educação. Não importa que a qualidade da educação pública caia, desde que se faça economia, foi o bordão. Vamos instituir a racionalidade técnica nas escolas, cortando gastos, aglutinando turmas, eliminando atividades que levariam a escola para a educação em tempo integral e, eliminando pedagogos e funcionários. Havia ainda pendências da greve anterior, de promoções não efetuadas, do não pagamento do terço de férias e das rescisões contratuais dos funcionários PSS, demitidos. As aulas não começaram.

Em assembleia os educadores decidiram pela greve, que, na verdade, já tinha sido decretada no interior de cada escola. O governador Carlos Alberto conseguiu um feito inédito. No reinício das aulas, nenhuma escola funcionou. Houve a notícia de que uma única escola abrira os seus portões. (Soube-se depois que o seu diretor é filiado e militante do PSDB, o partido do perdulário governador). Montou-se um acampamento em frente ao Palácio e da Assembleia. Afinal de contas, o pacote teria que ser votado. E é nesse campo que estão as conquistas desta greve, que aliás, ocorreu, não para acrescentar dinheiro ou direitos, mas para não perdê-los. Esta história precisa ser bem contada.
Duas ocupações da Assembleia legislativa e deputados andando de camburão. Fim do tratoraço.

A primeira votação foi marcada para o dia dez de fevereiro. Uns trezentos professores estavam nas galerias e uma multidão em frente. Quando houve o anúncio de que o regime de votação conhecido como tratoraço fora aprovado, o povo ocupou (não se invade aquilo que nos pertence) todas as dependências da Assembleia e os das galerias ocuparam o Plenário. Os deputados ainda tentaram se reunir num refeitório improvisado como Plenário, mas percebendo não terem condições, encerraram a sessão. Foi a primeira grande vitória do movimento. Mas o pior ainda estava por vir, ou o melhor, dependendo do enfoque. A ocupação da Assembleia continuou. A votação do tratoraço dividiu os professores em amigos e inimigos da educação. Confira a relação:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/02/os-deputados-amigos-e-inigos-dos.html

O perdulário governador não se deu por vencido. Exigiu nova votação, que foi marcada para o dia 12, de novo no refeitório improvisado como Plenário. A multidão em frente se transformou num mar de gente e a Assembleia foi cercada. Todas as entradas foram tomadas pelos manifestantes. Pela tarde, um palco de guerra se arma. Uma multidão de policiais, tropa de choque e cães amestrados contra a multidão armada de espírito de luta e algumas flores para serem oferecidas aos policiais. Um ônibus camburão se aproxima em meio a uma escolta policial nunca vista. No ônibus camburão estavam - vergonha suprema - os deputados inimigos da educação. Serraram-se grades e os deputados entraram na Assembleia e preparam-se para o início da sessão.
O histórico dia 12 de fevereiro. Tropa de choque, cães amestrados e bombas. Quase uma tragédia.

Um enorme temporal toma conta com forte chuva e trovoadas. As trovoadas foram engrossadas com o espoucar de bombas de gás lacrimogêneo, de pimenta e de efeito moral. Nunca vi coisa parecida. Nunca vi destemor maior por parte dos manifestantes. A Assembleia foi novamente ocupada pelos professores e, em meio a tudo isso houve uma ordem da suspensão da votação. A vitória foi inimaginável. O dia 12 de fevereiro entrará para a história política do Paraná. O governo fora posto na defensiva.  Por algumas frações de tempo não ocorreu ali, uma tragédia de dimensões inimagináveis. Nos dias seguintes, a cada dia, se contavam novidades sobre o ocorrido e que precisam ser contadas. Fatos pitorescos, inclusive.

Deputados amigos da educação pública. Prenúncio de vitórias. Nada foi votado no dia 12.

Soube-se depois que o Carlos Alberto exigiu a votação e encarregou o homem que prendeu o Abadia de arquitetar o plano. Comédia e tragédia se misturaram. Nunca deputados passaram tanto constrangimento, de andarem de camburão. A piada pronta exigia a sua condução para Piraquara. O pânico tomou conta do cortejo e aumentou nas proximidades da Assembleia. O ônibus foi sacudido, o valentão que prendeu o Abadia correu de um desarmado professor, enquanto uma das excelências não continha seus humores intestinais e, literalmente, se borrou nas calças e o chorume malcheiroso vazou. O nome da excelência que se borrou virou um pacto de juramento de morte. Destaco duas crônicas da Gazeta do Povo sobre o tema: O pacto malcheiroso de Dante Mendonça e a Crônica da viagem do ônibus do choque, do Rogério Galindo. Obras primas do humor político.
Assembleia da Vila Capanema. Mais de quinze mil educadores presentes. A greve continua.


Mais dois importantes fatos precisam ser mencionados. A passeata dos cinquenta mil e a assembleia do dia 4 de março. A passeata, realizada no dia 25 de fevereiro, teve dois pontos de saída. O interior saiu da praça Santos Andrade, enquanto que o pessoal de Curitiba se concentrou na praça Rui Barbosa. O encontro se deu na praça Tiradentes, chegando até o Palácio Iguaçu. A assembleia precisou de um estádio de futebol, o do Paraná Clube, para abrigar quase vinte mil participantes, que votaram pela continuidade da greve. A APP-Sindicato propôs uma mediação do judiciário, como solução do impasse. A mediação aconteceu, compromissos foram firmados e nova assembleia foi convocada para o dia 9 de março, de novo na Vila Capanema.
Assembleia na Vila Capanema, 4 de março. Mais um momento da votação. A greve continua.


Esta foi a maior greve de educadores já realizada na história do Paraná. Teve forte apoio popular e até setores da mídia paranaense  passaram a apoiar. Não, evidentemente, a comandada pelo Ratinho Jr., que se postou ao lado do perdulário governador, de quem é secretário. Saiu muito chamuscado entre os manifestantes e certamente comprometeu pretensões futuras suas. Mostrou a sua identidade. Da mesma forma os deputados do bancada do camburão encontrarão dificuldades em eleições futuras e até de se locomoverem em suas bases. Como foi uma greve de resistência e não de reivindicações, o governo foi praticamente obrigado a retroceder em todas as medidas do pacotaço de maldades. Recuou nos dois pontos mais importantes que eram os de destroçar o plano de carreira e por mão grande nos 8 bilhões de reais do Fundo de Previdência e a abolição da votação pelo famoso tratoraço.  Seus índices de popularidade chegaram a níveis tão baixos, como nunca um governador do Paraná havia atingido.
A frase eternamente verdadeira. "O governador pode muito - mas não pode tudo", dizia o deputado Tadeu Veneri.


Tudo foi muito bonito de se ver e todos os que efetivamente participaram deste fato histórico saem com a autoestima extremamente elevada. "Foi bonita festa pá! Fiquei contente. Ainda guardo renitente - um velho cravo para mim". A minha individualidade se transformou num coletivo, do tamanho do Paraná inteiro.
A documentação do fato. Eu estava lá. O meu cartão, entre milhares. A greve continua.

A assembleia do dia 9 de março marcou o fim deste histórico movimento. Compareceram em torno de sete mil grevistas. O alerta ficou ligado. O estado de greve continua. O governador está sob suspeita e carece de total falta de credibilidade. Aqui a austeridade, como nova forma de acumulação de capital, ao menos desta vez, não funcionou.


sábado, 7 de março de 2015

Chiquinha Gonzaga. A Pioneira na Luta pela Emancipação Feminina.

Estou lendo um interessantíssimo livro sobre sete personagens de nossa história do Brasil. Entre estes está Chiquinha Gonzaga (1847 - 1935). Chiquinha não costuma frequentar os livros oficiais de história do Brasil, embora isso devesse ser uma exigência e, assim muitos conheceriam a história de sua vida. Ela simplesmente foi a pioneira na luta pela emancipação feminina, em tempos em que isso era praticamente impossível, mas não para ela. Como gostei da sua história e como nós estamos nos aproximando do dia internacional da mulher, resolvi lhe dedicar este post.
Antes e Depois. Um dos personagens trabalhados neste livro é Chiquinha Gonzaga.


O livro em que a sua história está inserida é Antes e Depois - Um dia decisivo na vida de grandes brasileiros, quando pequenos. O livro é um lançamento da Companhia das Letrinhas. Literatura infantojuvenil, portanto. Mas que literatura! Tem muita qualidade. A autoria é de Flávio de Souza e tem ilustrações de Daniel Almeida. A história da compositora é escrita sob a forma de uma peça teatral, uma peça biográfica teatral.

Há pouco eu terminara de ler o livro da historiadora Mary del Priore, Histórias Íntimas - sexualidade e erotismo na história do Brasil. O livro não cita Chiquinha Gonzaga mas registra todas as dificuldades que as mulheres enfrentaram na luta pela causa da emancipação feminina. Vivia-se, aliás ainda se vive, uma cultura machista, absolutamente dominadora. A mulher teria que ser submissa ao homem e as mulheres que se separavam no casamento, teriam que viver praticamente confinadas, tal a rejeição social. Com Chiquinha Gonzaga tudo foi muito diferente.
A relação de Chiquinha Gonzaga com a música começou com um piano, que ganhou quando tinha 9 anos. Aos 11 já compunha. A ilustração do livro referente a Chiquinha Gonzaga.


A narrativa da peça teatral começa em 1935, o ano de sua morte, às vésperas do carnaval. Um mestre de cerimônia nos conta os primeiros anos de sua vida. É filha de pais não casados, o pai branco (militar) e mãe mulata. Aos 9 anos ganhou o seu primeiro piano e aos 11 fez a sua primeira composição. O seu personagem aparece em cena pouco antes de sua morte, aos 87 anos e anuncia: " Realizei quase todos os meus sonhos, desejos e anseios" e continua: "Sofri e chorei, porém também fui feliz e sorri. Dei passos gigantescos, abri algumas portas para nós, mulheres, e outras ainda deverão ser abertas por novas brasileiras que virão. Conheci meio mundo, criei quatro filhos, me sustentei com meia dúzia de profissões". Aí o mestre anuncia os seus principais feitos:

Primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil; primeira mulher compositora de música popular no Brasil; autora da primeira composição musical feita especialmente para o carnaval; uma das primeiras mulheres a se separar de um marido que a traía - no caso dela - de dois maridos, para viver em liberdade, desdobrando-se para se sustentar. Foi mãe de quatro filhos e professora de piano, canto, português, francês, geografia e história e compositora de trilhas sonoras para peças de teatro musicais; foi pianista em cinemas e lojas e maestrina. Foi abolicionista na teoria e na prática, também vendia partituras próprias para arrecadar fundos para a campanha e comprar a liberdade de escravos. Foi ainda pioneira na luta pela arrecadação de direitos autorais.
A cantora e compositora Chiquinha Gonzaga e uma referência ao seu maxixe no Catete. Corta-jaca.


O Palácio do Catete também entrou em sua vida. Nair de Tefé, a primeira dama da República a convidou para se apresentar na festa de despedida do presidente Hermes da Fonseca. Na solenidade,  como não bastasse a sua figura profana, houve música popular, com instrumentos populares e um maxixe, o corta-jaca, para a indignação geral e em especial a de Rui Barbosa, em discurso no Senado: "A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de Wagner". Como podem ver, a nossa cultura tinha muito pouco de brasilidade.
A ilustração mostra a soma que se deu em Chiquinha Gonzaga. A mulher, o trabalho e a música.


Um de seus maiores sucessos foi a peça teatral Forrobodó, que a princípio ninguém queria patrocinar, mas que, após muita insistência, foi contratada para uma semana de apresentações e que, na verdade, terminou sendo apresentada mais de 1.500 vezes. Ela assistiu a peça, depois de uma tourné pela Europa, com o seu novo amor, o Joãozinho. O encontro com ele se deu, quando ela tinha 52 anos e ele 16. Isso se somou aos escândalos anteriores, como ter nascido numa família que só se casou após o seu nascimento e depois de ter despachado dois maridos que lhe foram infiéis. Com o Joãozinho ela viveu bem e feliz. A energia para as suas composições lhe vinha da pilha de contas a pagar todo mês.
Uma grande pioneira. Na luta pela emancipação da mulher, pela afirmação da música popular brasileira e pelo uso de instrumentos populares .


Chiquinha Gonzaga era uma personagem viva do seu tempo. Nunca se omitiu em nada. Ainda  lutou em favor da abolição e contra a monarquia, pela causa republicana. Foram 87 anos de vida, de desafios bem enfrentados. Se tivesse sido uma mulher comum, sequer saberíamos de sua existência. Ela foi uma mulher abre-alas, mas muitas alas ainda precisam ser abertas para que se dê passagem a um mundo de igualdade e sem preconceitos. Imaginem como seria o mundo se todos tivessem tido a coragem da grande pessoa humana que foi Chiquinha Gonzaga, uma personagem símbolo na luta pela emancipação feminina e pela igualdade e dignidade do ser humano.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Antes e Depois. Flávio de Souza.

Antes e Depois - Um dia decisivo na vida de grandes brasileiros, quando pequenos é um livro de Flávio de Souza, com ilustrações de Daniel Almeida. É um lançamento do mês de janeiro, da Companhia das Letrinhas.  Os grandes brasileiros focados no livro são D. Pedro de Alcântara, Luís Gama, Chiquinha Gonzaga, Lima Barreto, Mário de Andrade e Maria Lenk. Na forma de contar a história destes personagens é que está o grande mérito da obra. Como devem ter percebido, sendo uma publicação da Companhia das Letrinhas, o livro é destinado a um público infantojuvenil, sem causar danos, no entanto, para os adultos que o lerem.
Fantástica maneira de contar sobre sete importantes personagens de nossa história.


D. Pedro de Alcântara recebe a forma mais tradicional de narrativa. É apresentado como o pequeno herdeiro da nação. A história é contada por um morcego, empregado na corte portuguesa. Como morcego, conta todos os bastidores do rei nascido em terra brasileira, mas a narrativa retrocede até os tempos de Napoleão, que põe a corte portuguesa em fuga. Conta peripécias de D. Maria, a louca, de Dona Carlota Joaquina, de D. João VI, de D. Pedro I, até chegar no Pedrinho, passando pelos principais fatos do segundo reinado, como as revoluções regionais, a guerra do Paraguai e a abolição da escravatura.O autor recorre muito ao teatro para ilustrar as situações. As obras de Shakespeare e de Molière estão sempre presentes.
A ilustração correspondente ao personagem Pedro de Alcântara, o herdeiro de uma nação.


Luís Gama não é um heroi tão conhecido em nossa história e é apresentado como o amigo de todos. O dia decisivo em sua vida foi aquele em que o seu pai, endividado por causa de seu vício no jogo, o vendeu como escravo. Os fatos narrados pelo autor são retirados de uma carta que Luís Gama escreveu para um amigo seu. É considerado o precursor do abolicionismo. Se alfabetizou e se tornou advogado, rábula. Libertou a si próprio e passou a dedicar o seu tempo "ao foro e a tribuna, onde ganho o pão para mim e para os meus, que são todos os pobres, todos os infelizes; e para os míseros escravos, que, em número superior a 500, tenho arrancado às garras do crime". Nasceu em Salvador, em 1842 e morreu em São Paulo em 1882, seis anos anos de ver triunfar a sua principal causa. 
Luís Gama, vendido pelo pai como escravo, aos dez anos. Um pioneiro na luta pela abolição.


A história de Chiquinha Gonzaga é contada sob a forma de uma peça de teatro, que conta com a ajuda de um narrador. Ela é apresenta como a abre-alas. Ela realmente abriu alas contra o preconceito contra a mulher e é a grande pioneira na luta pela emancipação feminina. Ela nasceu em 1847 e morreu em 1935, com 87 anos. Nasceu de pai branco e mãe mulata, que só se casaram depois do seu nascimento, um escândalo. Despachou dois maridos infiéis e arrumou um terceiro, um aprendiz de músico. Ela tinha 52 e ele 16. Mais escândalo. Para sustentar quatro filhos foi professora de piano, canto, português, francês, geografia e história. Pioneira na música, também lutou pela abolição, se apresentou no Catete, para novos escândalos e se tornou famosa internacionalmente. Grande personagem. 
Chiquinha Gonzaga. O meu personagem preferido deste livro. Pioneira em quase tudo. A abre-alas.

Lima Barreto tem uma forma muito original de ser apresentado como o mortal imortal. Isso porque nunca chegou a ser imortal, embora, por três vezes candidato à Academia. Ele é apresentado sob a forma de um diálogo que mantém com o arcanjo, quando de sua chegada ao Paraíso, em 1922, o ano de sua morte. Ele e o arcanjo passam a sua vida e a sua obra em revista, os seus infortúnios, a sua obra e a sua passagem pela cachaça. Morreu sem ter sabido "arrancar da minha natureza o grande homem que desejava ser". Grande crítico dos caminhos iniciais da República.
Lima Barreto saindo do mundo de seus livros, para um diálogo com o arcanjo.

Monteiro Lobato é apresentado como o pai da Emília, ou o precursor da literatura infantil. A forma para narrar a sua vida é uma entrevista com Lúcia, uma velha conhecida e amiga de Monteiro Lobato, o Juca da sua intimidade. Monteiro Lobato fora um leitor voraz de Júlio Verne, de Robinson Crusoé e de Figueiredo Pimentel, com quem divide o feito de ser o precursor. Monteiro também foi pioneiro na edição de livros. Lúcia termina contando que ele escreveu "como a aranha costureira de mil anos costurava: usando a tesoura da imaginação, a linha do sonho e a agulha da fantasia".
Monteiro Lobato, pioneiro na literatura infantil e na edição de livros.

Mário de Andrade um antigo moderno é apresentado num programa de televisão em que o seu personagem responde perguntas sobre a sua infância, adolescência e a sua vida adulta. O fato que mais marcou a sua vida foi o de deixar de ser pianista, para ser poeta e escritor. Escrevia brincando, como fez com Macunaíma, mas essa brincadeira lhe custara anos e anos de pesquisa. A sua vida e a sua obra contribuíram para que o Brasil deixasse de ser um pouco menos europeu para ser um pouco mais brasileiro.
 Mário de Andrade, do piano para a literatura. Macunaíma, um clássico escrito em uma semana.

A última personagem apresentada é Maria Lenk, um peixe dentro d'água. A forma de apresentá-la também é a entrevista, recolhendo respostas de entrevistas que ela deu ao longo de sua vida. Esta filha de alemães foi a primeira atleta latino americana a competir em uma olimpíada, a de Los Angeles, em 1932. Mais uma pioneira, portanto. Ela tem em seu currículo duas quebras de recorde, no nado peito, 200 metros, quando se preparava, em 1939, para a olimpíada do ano seguinte, no Japão, que no entanto, não ocorreu. Era o tempo da segunda guerra. Conta coisas interessantíssimas como os seus treinos no rio Tietê. Ela morreu em 2007, aos 92 anos, depois de nadar por 1.500 metros. Começou a nadar para fortalecer os pulmões, depois de uma pneumonia em sua infância. Ela dá o seu nome ao Parque Aquático em que foram realizados os Jogos Pan-Americanos em 2007, no Rio de Janeiro.
Maria Lenk, pioneira na natação. Primeira atleta latino americana a participar de uma olimpíada.


Fiz a resenha deste livro, na parceria do blog com a Companhia das Letras. O grande mérito do livro é a forma criativa de contar as histórias, como a entrevista, a peça de teatro ou um programa de televisão. O livro conta também com belas ilustrações feitas por Daniel Almeida. Um livro que desperta os jovens para a leitura e é também um belo livro paradidático. Também a escolha dos personagens foi fantástica, especialmente a das duas mulheres, pioneiras em suas atividades e merecedoras da maior admiração de todos.





quinta-feira, 5 de março de 2015

Histórias Íntimas. Mary del Priore.

Eu gosto muito dos trabalhos desta historiadora, Mary del Priore. Ela encontrou uma forma muito atraente para apresentar as suas histórias. Ela tem uma grande preferência em apresentar os personagens da nossa realeza. Isso não é diferente com esse livro Histórias Íntimas - sexualidade e erotismo na história do Brasil. Um dos capítulos, quase por inteiro, é dedicado a nossa família imperial. Afinal de contas, Dona Carlota Joaquina e D. Pedro I não poderiam ficar de fora desta história. O livro é 2011.
O tema da sexualidade sempre esteve ligado a preconceitos. Este livro é um libelo contra os mesmos.

O livro tem prefácio escrito por Moacir Scliar, que apresenta as qualidades do livro e na introdução a autora descreve a primeira década do século XXI com relação ao erotismo e a sexualidade e como se chegou até aí. Aí seguem cinco capítulos, em linearidade histórica, assim intitulados: 1. Da colônia ao império; 2. Um século hipócrita; 3. Primeiras rachaduras no muro da repressão; 4. Olhares indiscretos; 5. As transformações da intimidade. Segue uma extensa relação bibliográfica e o livro também é entremeado por um bloco de belas fotografias sobre o tema.
Padres moralistas e médicos higienistas - sempre aliados na repressão sexual.

Sintomaticamente o primeiro subtítulo do primeiro capítulo é "o corpo, a igreja e o pecado". Uma visão que predomina ao longo de todo o livro. O corpo, no início absolutamente descuidado, até se chegar ao seu verdadeiro culto, em nossos dias, e a igreja e o pecado mostram o componente repressor em torno da matéria. Afinal a igreja e a sua sanha moral repressora perpassa toda a história e que, inclusive, chegou a atingir a nossa geração em profundidade. Logo no início é apresentado o fato de Isabel de Castela ter morrido, sem a apresentação ao confessor de certa ferida que ela carregava no corpo. O capítulo é bem interessante, ao mostrar um continente nu e a chegada de uma bateria de moralistas e o confronto que isso provocou. Aos padres, geralmente, se somavam os médicos na fúria repressiva. Outra revelação interessante está no fato de que, na ressurreição após o juízo final, todos renasceriam no "santo estado masculino" e ninguém seria tentado pela "carne funesta", proclamava santo Agostinho.

O século hipócrita é o século XIX e, os maus exemplos vem do andar de cima, da nobreza brasileira. Dona Carlota Joaquina e D. Pedro I são personagens nada exemplares. D. Pedro I já usava do poder do império para prestar favores aos parentes da Condessa de Santos. A lista de suas amantes ocupa mais de página inteira no livro. As suas orgias só encontravam paralelo nos tempos do Império Romano. São impressionantes as narrativas dos viajantes que aqui aportavam sobre a promiscuidade nos tempos do império. Tudo isso em meio a moral repressiva dos padres e do higienismo dos médicos.
Por mais reprimida que fosse, a sexualidade e a sua erotização nunca deixaram de se manifestar.

As primeiras rachaduras ocorrem já no começo do século XX. Ele é apresentado como o século do corpo, que começa a ser modelado e exposto. É também o século da psicanálise, dos estudos de Freud e, sobretudo, de Reich. Quanto ao Brasil são examinadas as primeiras revistas "masculinas", o Rio Nu, que circulou entre 1900 e 1916. Também é o tempo em que começaram a circular os famosos catecismos, apesar de todas as vigilâncias e proibições. O capítulo se volta mais para a primeira metade deste século.

Já os olhares indiscretos são os olhares que recebem as mulheres despidas no teatro de revista e no cinema de chanchada e as influências deste, no comportamento moral que começa a ser um pouco menos repressivo. Neste capítulo a autora fala muito sobre o casamento, sobre as separações e também sobre a homossexualidade, sempre vista como uma deformação da natureza, uma doença a ser curada. Também não escapa o olhar feminino sobre o papel de subordinação da mulher nas relações do casamento.
O tema do marido traído também sempre esteve presente ao longo da história da sexualidade.

Já o último capítulo, as transformações da intimidade, chega aos nossos dias, com a abordagem dos temas com os quais convivemos no nosso dia a dia. A revolução sexual, os famosos anos 1960, o direito ao prazer, da pílula contraceptiva, do domínio da medicina sobre a sífilis e de toda uma onda de insubordinação. Mas também é o tempo da AIDS e de um novo moralismo em torno do tema. São mostrados ainda, a emancipação feminina pelo trabalho e as suas influências sobre a instituição do casamento. E... só poderia terminar com o advento do Viagra. Em suma, um livro que chama para a curiosidade do leitor, sobre estes temas, que apesar de tudo, ainda não se livraram inteiramente da visão de tabu sobre eles.Um de seus maiores méritos é o seu combate a todo tipo de preconceitos. Afinal o tema sempre foi muito propenso a isso.

terça-feira, 3 de março de 2015

Boyhood. Da Infância à Juventude.

De todas as indicações ao Oscar - 2015 - de melhor filme, certamente Boyhood - da Infância à Juventude foi o mais pretensioso. Atrás dele havia um grande projeto e uma verdadeira obsessão. Atentem para o fato de ele ter, na pessoa de Richard Linkleter, o seu diretor, o seu roteirista e o seu produtor. Linkleter cuidou de tudo e, mais outro detalhe, o seu projeto levou doze anos para ser concretizado. As filmagens acompanharam os personagens ao longo de doze anos, centradas no menino Mason, dos seis aos dezoito anos. Uma vida em perspectiva para as crianças, ou uma vida em retrospectiva para os pais.

O tema do filme são as relações familiares em tempos cada vez mais pós-modernos, em tempos de relações humanas cada vez mais líquidas, usando essa expressão tão própria de Zigmunt Bauman. Nada mais tem consistência e durabilidade. Mas vamos ao roteiro. Um casal, Mason Sr. e Olívia são um casal que tem dois filhos, Mason e Samantha. O casal passa por dificuldades de toda ordem, especialmente as de relacionamento. Se separam e rearranjam as suas vidas. Os filhos crescem e passam a ter a sua visão de mundo, os seus relacionamentos e os seus questionamentos.

Nenhum grande fato, fora do normal ocorre. Os filhos ora ficam com o pai, ora com a mãe. A relação é mais complicada com a mãe, extremamente infeliz com os seus parceiros, que aos poucos se revelam e mostram a sua fragilidade com o mundo da bebida. A relação é melhor com o pai, com quem não vivem no cotidiano, apenas em fins de semana e tempos de férias. Vivem situações mais amenas. Mas o pai é mostrado como um bom parceiro das crianças.


A mãe é extremamente dedicada e vence profissionalmente, podendo assim oferecer a estabilidade financeiro para o Mason e para a Samantha. Estes crescem e se tornam adolescentes, com as marcas características desta fase da vida. O foco do filme está centrado em Mason. Samantha fica quase esquecida. As relações na escola são pouco abordadas. Mason faz muitos questionamentos sobre o sentido da disciplina e de um mundo de exigências e imposições. O tema é onipresente. Também a política tem breves referências, numa expressão de ódio ao que Bush representa.


A maior parte do filme se passa no Texas e os temas texanos também estão presentes. Vejam os presentes que Mason ganha. Uma bíblia e um rifle, mas isso já é mostrado de uma forma bem irônica. O filme termina quando Mason conclui o ensino médio e ingressa na universidade.  Mas antes ainda é feita toda uma retrospectiva de sua vida junto com o pai e junto com mãe. O filme é um tanto longo, tem 166 minutos de duração, o que foi bastante criticado por muitos.

O filme teve seis indicações ao Oscar: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro original, melhor ator coadjuvante, melhor atriz coadjuvante  e melhor edição. Ganhou apenas um prêmio, que foi para Patrícia Arquette, a Olívia, a mãe de Mason. O pai, Mason Sr. foi representado por Ethan Hawke, a mãe, Olívia, por Patrícia Arquette, Mason por Ellar Coltrane e Samantha por Loreley Linklater.


Quanto ao significado da palavra inglesa Boyhood, encontrada no título do filme, ela designa exatamente a história narrada no filme. Na tradução, seria - meninice, juventude, grupo de meninos, garotada.  Digo isso porque ao longo do filme isso não aparece e, obviamente, isso não era necessário dizer. Apenas para os que, como eu, não tem o domínio da língua inglesa.

O grande mérito do filme é sem dúvida, a abordagem de tão complicado tema. Como educar filhos em tempos de dissolução de casamentos, de relações superficiais e, especialmente, em tempos em que as finalidades da própria vida são profundamente questionados. As tradicionais respostas, os seus valores e os seus agentes perderam muito de sua credibilidade e confiabilidade.

segunda-feira, 2 de março de 2015

O Grande Hotel Budapeste.

Aproveitei o novo lançamento, em função do Oscar, do filme O Grande Hotel Budapeste, para vê-lo. É o contar de uma história, no cinema. É narrativa do começo ao fim. E que narrativa! E como foram bem empregados os recursos do cinema, cenários, figurinos, som e fotografia. O filme mistura drama e comédia mas prevalece a comédia. Isso se a disputa por herança não fosse sempre uma verdadeira tragédia.
O Grande Hotel Budapeste se situava na fictícia República Zubrowka.


A narrativa inicia num jantar entre um velho escritor e Zero Mustafa, o proprietário do agora decadente hotel Budapeste. Mustafa promete ao escritor contar a história, que remete aos anos 1930 e avança até o final de década de 1960.  O essencial gira em torno de um concierge, que pelo zelo extremo no exercício de sua função, chega a ser o proprietário do hotel. Como toda a história gira em torno deste personagem, vou dar o significado deste termo, que está ausente no Aurélio, mas não na Wikipédia. O seu significado mais amplo é o de porteiro, mas na hotelaria recebe um significado mais específico e ampliado. Vejamos:

"Em hotéis o concierge é um profissional que tem um balcão na entrada do hotel responsável por assistir os hóspedes em qualquer pedido que estes tenham, dos mais extravagantes aos mais simples como chamar um táxi, dar informações sobre o próprio hotel e seus serviços ou sobre a cidade e seus pontos turísticos, venda de passeios na região, locação de carros, reservas e indicações de restaurantes, ligar para farmácia, floricultura ou tabacaria...". O concierge da história atendia pelo nome de Gustave H.
O concierge Gustave e o mensageiro Zero. Esta dupla concerne o caráter de comédia ao filme.


Gustave era um concierge extremamente solícito. Se orgulhava de sua função e a ensinava ao seu ajudante, o mensageiro Zero Mustafa. Pronto, encontramos os dois personagens centrais do filme. Mustafa é um refugiado que encontrou emprego no hotel. Gustave, moralmente falando, extrapola em sua função. Atendia também aos desejos sexuais, especialmente, de senhoras idosas, de preferência bem idosas. O hotel era extremamente luxuoso e, portanto, atendia a hóspedes altamente endinheirados. Uma dessas senhoras veio a falecer, deixando em testamento parte de sua fortuna e um quadro de valor inestimável, para Gustave.

Aí começa a história policial. Os herdeiros não se conformam e o incriminam. Ele teria assassinado a rica senhora. Perseguições e fugas mirabolantes começam a acontecer. É a parte mais comédia do filme. Gustave conta em suas fugas com o auxílio do jovem Zero. Comédias precisam de trapalhadas. Em meio a essas trapalhadas existem também cenas de terror policial. Eram os anos 1930 e a ascensão dos regimes fascistas. Mas, enfim, foi dessa forma, pela via de herança testamentária que Gustave se tornou o proprietário do Grande Hotel Budapeste.
A rica senhora a quem o concierge prestava seus serviços. A origem da propriedade do hotel.


Em meio a esta narrativa também existe uma história de amor. Zero se apaixona por Agatha, que irá auxiliar também a dupla nos seus intentos. Será este vínculo sentimental que manterá o velho Zero Mustafa como hóspede de um dos quartos mais simples do hotel, fato que também promoveu o seu encontro com o escritor para que esta história fosse contada. O contar dessa história demorou apenas 99 minutos.
Cartaz promocional do premiado filme.

O filme era um dos favoritos ao Oscar principal. Junto com Birdman (http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/01/birdman-ou-inesperada-virtude-da.html), foi o campeão em indicações. Nove ao todo. Birdman levou o prêmio maior, de melhor filme. Também junto com Birdman, foi ganhador de quatro estatuetas, a saber: melhor figurino; melhor design de produção; melhor maquiagem e cabelo e a melhor trilha sonora. As outras cinco indicações eram para: melhor filme; melhor diretor; melhor roteiro original, melhor direção de fotografia e melhor edição.

A direção é de Wes Anderson. A segura e mágica interpretação de Gustave é de Ralph Fiennes e o jovem Zero Mustafa é de Tony Revolori e do velho, de F. Murray Abraham. O roteiro adaptado é do próprio Wes Anderson, retirado do original de um velho conhecido dos brasileiros, Stefan Zweig, do livro Coração Impaciente. Acima de tudo, é um filme muito agradável de se assistir. Mas concordo com a indicação de Birdman como o vencedor de o melhor filme.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Despedida. Rubem Alves.

Não costumo transcrever crônicas ou textos de outros neste blog. Procuro compartilhar as minhas leituras, os meus filmes, as minhas viagens e, acima de tudo, as minhas visões de mundo. Mas tenho sob a minha mesa de trabalho a crônica do Rubem Alves, com a qual ele se despediu de seus leitores da Folha de S.Paulo, no dia primeiro de novembro de 2011. Ele veio a falecer em 19 de julho de 2014. A transcrevo por dois motivos. Primeiro porque ela tem muito a ver comigo, especialmente, naquilo que se refere à obrigação. Hoje eu sou um administrador de tempo livre, eu não tenho mais obrigações e em segundo lugar, eu quero prestar uma homenagem à verdadeira legião de seus admiradores. Vamos à crônica:
Rubem Alves, o grande mestre. 1933 - 2014. Continua presente por sua obra.

"Essa crônica é uma despedida. Resolvi, por decisão própria, parar de escrever em Cotidiano.

Devo ter perdido o juízo. Minha decisão contraria um dos maiores sonhos de cada escritor. Primeiro, o sonho de ser um best-seller. Encontrar algum livro seu nas prateleiras da livraria La Selva, nos aeroportos. Confesso: sou vítima dessa vaidade. Mas não aprendo a lição. Nos aeroportos, vou sempre visitar a La Selva na esperança de lá encontrar um dos meus livros. Saio sempre desapontado.

O outro sonho dos escritores é ter seus textos publicados num jornal importante: ser lido por milhares de leitores. O que significa reconhecimento duplo: do jornal que os publica e dos leitores. Isso faz muito bem para o ego. Todo escritor tem uma pitada de narcisismo.
Por este livro tive o primeiro contato com o grande mestre.

Fernando Pessoa tem um poema que diz assim: "Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas..." E ele se pergunta se "não haverá um cansaço, das coisas, de todas as coisas..." Respondo: Sim. Há um cansaço. A velhice é o cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. Mas agora, meus 78 anos estão pesando. E como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar.

A obrigação: é isso o que pesa. Quereria de ser capaz de viver um poeminha do Fernando Pessoa: "Ah!, a frescura na face de não cumprir um dever... Que refúgio o não se poder ter confiança em nós..." Perco o sono atormentado por deveres, pensando no que tenho de escrever. Sinto - pode ser que não seja assim, mas é assim que eu sinto - que já disse tudo. Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.
Porque, afinal de contas, todo o ato de educar é um ato político.

Não é qualquer coisa que se pode publicar num jornal. O próprio nome  está dizendo: "jornal", do latim "diurnalis"; de "dies", dia, diurno; o que acontece no dia; diário.

O tempo dos jornais é o hoje, as presenças. Mas minha alma é movida pelas ausências; nos jornais não há lugar para ressurreições.

Acho que aconteceu comigo coisa parecida com o que aconteceu com a Cecília Meireles. Escrevendo sobre ela, Drummond  falou o seguinte: "Não me parecia uma criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me sempre a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Por onde erraria a verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um curioso, admitiu ser seu principal defeito "uma certa ausência do mundo"?
Uma ausência do mundo preenchida com a sua obra. Lições que permanecem.

Deve ser alguma doença que ataca preferencialmente os velhos e aos poetas. A Cecília descrevia o tempo da sua avó com "uma ausência que se demorava". Rilke se perguntava: "Quem assim nos fascinou para que tivéssemos um olhar de despedida em tudo o que fazemos?" O sintoma dessa doença é aquilo que a Cecília disse: uma certa ausência do mundo.

O músico Ângelus Silesius já havia notado que temos dois olhos, cada um deles vendo mundo diferentes: "Temos dois olhos. Com um, vemos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro, vemos as coisas da alma, eternas, que permanecem". Jornais são seres do tempo. Notícias: coisas do dia, que amanhã estarão mortas.

E é por isso que vou parar de escrever: porque estou velho, porque estou cansado, porque minha alma anda pelos caminhos do Robert Frost, porque quero me livrar dos malditos deveres que me dão ordens desde que me conheço por gente..."
É bem isso mesmo. Um caso de amor com a vida.

Quanto a mim, ainda não escrevi nada, mas também, ainda não sinto o tempo se esvaindo. Ainda prefiro ver as coisas com o olho do tempo e não com o das coisas da alma. E mais, estou começando, apenas agora, a conseguir ler poesia. Enquanto isso, continuo aqui a escrever, mas não como um maldito dever, mas sim, como um grande prazer. E... sempre tendo a coragem de ser um eterno aprendiz, inclusive com o grande mestre que foi Rubem Alves.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Os deputados amigos e inimigos dos professores.

No dia 10 de fevereiro de 2015 foi votado na Assembleia Legislativa do Paraná o requerimento que transformava  o plenário da Assembleia em Comissão Geral, para votar os dois projetos do pacote de maldades do governador Carlos Alberto Richa (Beto apenas para os íntimos) contra os professores e contra todos os funcionários públicos do Paraná. Nesta votação os deputados se posicionaram, mesmo sendo impedidos de votar os dois projetos. O impedimento ocorreu pela brava resistência dos servidores públicos. Dois dias depois, num palco de guerra, com cães adestrados, tropa de choque, cassetetes e bombas de todos tipos, Davi venceu Golias, ao menos momentaneamente. Mas vamos ver como se posicionaram os deputados. Vou usar a expressão cunhada na manifestação. Os inimigos e os amigos dos professores.
Os nomes dos deputados estão aí cravados para sempre. Ou amigos ou inimigos.


Eis os 35 inimigos dos professores e em consequência da educação pública, onde estudam os filhos dos trabalhadores e das gentes menos favorecidas economicamente. Eis a relação dos genuflexos e dobradiços deputados e os seus respectivos partidos. A minha fonte é o Caixa Zero, do Rogério Galindo, da Gazeta do Povo: As "... " são meus.
Charge espetacular da Gazeta do Povo de 13.02.2015. Os deputados inimigos dos professores usaram este meio de transporte. Tire as suas conclusões.


Alexandre Cury - PMDB;
Alexandre Guimarães - PSC;
André Bueno - PDT;
Artagão Júnior - PMDB;
Bernardo Ribas Carli - PSDB;
"Cantora" Mara Lima - PSDB;
Cláudia Pereira - PSC;
Cobra Repórter - PSC;
Cristina Silvestri - PSC, conforme a Gazeta do Povo, mas na realidade é do PPS;
Dr. Batista - PMN;
Élio Rush - DEM;
Evandro Júnior - PSDB;
Felipe Franceschini - SD;
Fernando Scanavaca - PDT;
Francisco Bührer - PSDB;
Gilson de Souza - PSC;
Guto Silva - PSC;
Hussein Bakri - PSC;
Jonas Guimarães - PMDB;
Luiz Carlos Martins - PSD;
Luiz Cláudio Romanelli - PMDB;
Márcio Nunes - PSC;
Maria Victória - PP;
Mauro Moraes - PSDB;
"Missionário" Ricardo Arruda - PSC;
Nelson Justus - DEM;
Palozi - PSC;
Paulo Litro - PSDB;
Pedro Lupion - DEM;
Plauto Miró - DEM;
Schiavinato - PP;
Tiago Amaral - PSB;
Tião Medeiros - PTB;
Wilmar Reichenbach - PSC;
Ademar Traiano - PSDB. Este não votou mas foi o comandante em chefe da tropa.

Uma observação: Todos os deputados do PSDB e do DEM, votaram contra o funcionalismo público. São os partidos que comandam a sanha neoliberal. Os deputados do PDT, André Bueno e Scanavaca são duplamente traidores, pois se elegeram pela oposição, na coligação com o PT (Pobre Umuarama). Nelson Justus é um deputado muito afamado. A Gazeta do Povo que o diga. Destaque também para os dois inimigos que capitanearam o processo. Ademar Traiano e Luiz Cláudio Romaneli. Cada vez que eu vejo o Romaneli eu me pergunto: "É isso um homem"? Foi o único a defender a proposta. Os outros todos ficaram mudos, mudos. Da maior bancada, a do PSC, comandada pelo Ratinho Júnior, apenas dois não se dobraram ao capitão do time. O resto abraçou o secretário do governador. O Ratinho começou bem a sua campanha para prefeito ou governador. Arrumou inimigos... mas ser secretário deve ser bom demais... Ele disse que eles estavam liberados para votar como quisessem.

Mas vamos à lista dos que votaram a favor dos professores, da escola pública e dos servidores públicos do estado do Paraná. Pena que foram minoria. Somaram 19 votos. Os únicos a se manifestarem e com muito brio e fibra:

Adelino Ribeiro - PSL;
Ademir Bier - PMDB;
Anibelli Netto - PMDB;
Chico Brasileiro - PSD;
Evandro Araújo - PSC;
Gilberto Ribeiro - PSB;
Márcio Pacheco - PPL;
Márcio Pauliki - PDT;
Nelson Luersen - PDT;
Nereu Moura - PMDB;
Ney Leprevost - PSD;
Paranhos - PSC;
Pastor Edson Praczyk - PRB;
Péricles Mello - PT;
Professor Lemos - PT;
Rasca Rodrigues - PV;
Requião Filho - PMDB;
Tadeu Veneri - PT;
Tercílio Turini - PPS.

Guardem bem estes nomes. Cada casa de professor deve ser transformada num comitê eleitoral contra ou a favor destes deputados. Mais análises eu farei separadamente. Além de tradicionais aliados, tivemos algumas surpresas muito agradáveis. E um cuidado. No painel em frente da Assembleia havia alguns erros.
Pelo fato dos deputados governistas, inimigos dos professores, terem chegado neste ônibus camburão para a votação do pacotaço de maldades, ela ganhou um nome muito apropriado: a bancada do camburão.





quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

SELMA. Uma luta pela igualdade.

Mais um filme extraordinário. Selma - uma luta pela igualdade, É um filme político e altamente politizador. Mostra um belo retrato das lutas do povo negro dos Estados Unidos, nos anos 1960 e, sem as quais, seria absolutamente impossível que esse país tivesse hoje um presidente negro. O filme tem foco num determinado momento da luta de Martin Luther King, o do direito ao voto, a partir da organização do povo de uma pequena cidade do Alabama, a cidade de Selma, com uma população em torno de 20.000 habitantes, no ano de 1965.
SELMA, um memorável filme político e altamente politizador. E a cidade de Selma!


Martin Luther King já era um homem famoso. Em agosto de 1963 organizara a marcha para Washington, onde pronunciara o seu famoso discurso do I have a dream, da qual resultou a Lei do fim da segregação racial e em 1964 fora agraciado com o laurel do Prêmio Nobel da Paz. O líder já era recebido em audiência pelo presidente da República, Lyndon Johnson.

O episódio sobre o qual o filme tem o seu foco é a luta pelo direito de voto, na cidade de Selma. Nesta cidade foram organizadas, no mês de março de 1965, três marchas, num curto intervalo de tempo. O Estado de Alabama era governado por um racista famoso, George Wallace. As marchas seguiriam de Selma para Montgomery, a capital do estado.
A famosa ponte Edmund Pettus, sobre o rio Alabama. A sua travessia - um profundo significado!

A primeira marcha reuniu em torno de 600 pessoas, no dia 7 de março. A sua marcha foi detida, já na ponte da cidade, sobre o rio Alabama, com extrema violência. Foi usado gás lacrimogênio, cassetetes e tiros. O manifestantes em pânico fugiram desesperados. Luther King chega à cidade e faz uma convocação para todo o povo americano, especialmente para as autoridades e lideranças religiosas. Em dois dias, muita gente chega à cidade. No dia 9, portanto, dois dias após a primeira marcha, se inicia a segunda. A polícia permite a passagem, mas misteriosamente, ou misticamente, o ativista recolhe os manifestantes ao interior de uma igreja.
A cena do filme, da travessia da ponte Edmund Pettus. O caminho para Montgomery estava aberto, e..., para muito mais.

A terceira marcha, que será a triunfante, sai de Selma no dia 16 de março e chega a Montgomery e ao seu centro de poder nos dias 25 e 26 do mesmo mês de março. King havia travado duras negociações com o presidente Johnson que, finalmente, assume o problema e, por legislação nacional, estabelece o direito de voto ao povo negro dos Estados Unidos. Esses fatos históricos são considerados como os fatos que prepararam os caminhos e possibilitaram a travessia da ponte para a chegada ao poder de um presidente negro, já no início do próximo século.

O filme passa por muitos fatos históricos de extrema complexidade dos anos 1960. Lyndon Johnson e o poder. A guerra do Vietnã. J. Edgard e o FBI e  todo o movimento negro em busca da afirmação de seus direitos. Mostra as lutas internas dentro destes movimentos e a liderança radical exercida por Malcolm X, morto em fevereiro deste mesmo ano de 1965 e que provocou a existência dos panteras negras e a sua atuação violenta nos anos seguintes. Mostra também os dramas interiores de Martin Luther King, tanto em relação com o movimento, quanto em suas relações com a esposa, Coretta Scott King.
Em alemão, o cartaz anuncia, o melhor filme do ano.

Merece destaque especial a abordagem religiosa do filme. Ele apresenta um cristianismo revolucionário, comprometido com as lutas populares e não um cristianismo, para usar uma expressão brasileira, mancomunado com a casa grande, ou a velha e sempre notável referência marxista ao ópio do povo. King convoca todas as lideranças religiosas e é atendido por muitas delas. Outro ponto importante. Ele usa os meios de comunicação para fazer esta convocação. Está certo que King já era uma voz ouvida e o movimento que liderava já tinha grande visibilidade. Mas também este fato dá ensejo de pensar sobre o comportamento da mídia, um tema de muita atualidade.

O maior instrumento que o filme utiliza para transmitir a sua mensagem é a força dos diálogos, sempre mediados pelo contraditório. Mostra também a enorme responsabilidade e as dificuldades enfrentadas por um líder. Os líderes populares não tem vida fácil. Martin Luther King seria assassinado em Memphis, no Tenessi, no dia 4 de abril de 1968, aos 39 anos de idade.
Um líder nunca tem vida fácil, nem na vida familiar, mesmo se preparando para o Nobel da Paz.


Martin Luther King é interpretado por David Oyelowo, o presidente Johnson por Tom Wilkinson e Coretta Scott King por Carmen Ejogo. A direção é de Ava DuVernay. A famosa Oprah Winfrey, além de uma participação nas cenas iniciais, é uma das produtoras do filme. Um nome de peso. Mas o filme é uma espécie de primo pobre em indicações para o Oscar. Tem apenas duas: a de melhor filme e a de melhor canção (Glory). O tema da luta dos negros foi premiado no ano passado com doze anos de escravidão e por isso, entre outros motivos, não deverá receber o prêmio maior neste ano. O filme é ótimo para ser debatido nas escolas, mesmo se não melhorar a avaliação técnica do IDEB. Forma para a consciência e para a cidadania.





terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O Jogo da Imitação.

Duas cinebiografias concorrem ao Oscar de melhor filme em sua edição de 2015. Teoria de Tudo mostra a vida do físico inglês Stephen Hawking e O Jogo da Imitação retrata a turbulenta vida do matemático, também inglês, Alan Turing, considerado o pai dos computadores e do desenvolvimento dos processos para chegar à inteligência artificial. São dois filmes muito bons e ambos concorrem a vários Oscars, entre eles, o de melhor filme.
Um filme memorável. Um gênio. Decifrou os códigos dos alemães tidos como indecifráveis.

O enredo de O Jogo da Imitação é relativamente simples. Retrata a vida do matemático inglês Alan Turing, mostrando o seu empenho em desvendar os códigos usados pelos alemães, ao longo da segunda guerra. Complicadas são as relações que envolviam o cientista, as próprias, com ele mesmo e com as de seu seleto grupo de gênios, do Bletchley Park, o ultra secreto grupo de enxadristas e matemáticos, reunido com a finalidade de ganhar a guerra com a arma da inteligência.

O sucesso dos alemães nesta guerra, em grande parte era atribuída a uma máquina, chamada Enigma, que criava códigos, tidos como absolutamente indecifráveis e que serviam como instrumentos de comunicação entre os comandos e as frentes de guerra. Para decifrar esses códigos, com essa missão impossível, é que foi criado o grupo do Bletchley Park.
Alan Turing e o grupo de Bletchley Park. A humanidade deve muito a esses meninos.

Se as relações humanas já costumam ser complicadas, imagina então, as que se dão entre vários gênios, reunidos em torno de um mesmo objetivo e compartilhando o mesmo espaço. Alan Turing tinha dificuldade especial em se relacionar. Era homossexual em tempos em que isso era considerado como um ato contra o pudor e, como tal, um crime. Quem melhor o compreendia era a sua amiga Joan Clarke, que também tinha os seus problemas. Como não era casada, os seus pais exigiram a sua volta para casa. O problema foi resolvido pelo casamento entre Alan e Joan, um casamento de fachada. Eles se davam muito bem na realização de seus trabalhos.
Alan Turing decifra o indecifrável. É considerado o pai dos computadores. O caminho estava aberto.

O drama cresce quando Alan Turing decifra os códigos alemães. Os companheiros de grupo querem o uso da invenção, aplicada imediatamente. Decifraram o momento em que haveria um bombardeio em que o irmão de um dos membros do grupo seria atingido, mas Alan não permitiu que os comandos ingleses fossem avisados. O decifrar dos códigos da Enigma tinha como finalidade ganhar a guerra e não uma mera batalha. Se usassem imediatamente, os alemães saberiam que seus códigos haviam sido decifrados. Isso foi feito mais ao final da guerra, nas batalhas consideradas decisivas. Ao final do filme, uma legenda informa, que a guerra fora abreviada em dois anos e que muitas vidas foram poupadas com o esforço do matemático.

Por mais de cinquenta anos estes dados não foram revelados e é isso que efetivamente dá importância ao filme e consagram o gênio. Alan Turner não teve vida fácil. Em 1952, em função de sua homossexualidade, foi levado aos tribunais, pelo crime de atentado ao pudor, em que eram enquadrados todos os homossexuais. Foi dada a ele a condição de escolha entre a prisão ou a castração química. Ele optou pela segunda. Dois anos depois foi encontrado morto em sua casa, vítima de suicídio. Teria comido uma maçã envenenada. A maçã da Apple seria uma homenagem? Afinal a sua grande façanha abriu os caminhos para o moderno computador dos nossos tempos.
Por causa de suas relações homoafetivas pode escolher entre a prisão ou a castração química.


Um dos maiores méritos do filme biografia é a abordagem da questão das relações homoafetivas. O tema merece um debate ainda nos dias de hoje. O mundo preferiu perder um de seus maiores gênios, um de seus maiores benfeitores por causa da pequena moral, comandada pelas religiões. A sociedade hipócrita quer vigiar relações entre as pessoas, que ocorrem entre quatro paredes, em nome da moral e dos bons costumes. Questões da pequena moral. Enquanto fiscalizavam estas relações, a guerra campeava solta.

O filme foi adaptado a partir do livro Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges. Mereceu oito indicações ao Oscar:
Melhor filme;
Melhor diretor: Morten Tyldum;
Melhor ator: Benedict Cumberbatch, como Alan Turing;
Melhor atriz coadjuvante: Keira Knightley, com Joan Clarke;
Melhor roteiro adaptado: Graham More;
Melhor desenho de produção;
Melhor trilha sonora;
Melhor montagem.




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro.

Como é gostoso não ter obrigações. Como é gostoso desfrutar de tempo livre. Como é gostoso fazer coisas sem nenhum caráter utilitário, apenas pelo prazer. Foi o que fiz com a leitura de Sócrates - A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. A autoria da biografia é do jornalista Tom Cardoso e tem apresentação de Fábio Altman e prefácio do companheiro de copo Mauro Beting. "Mas  é possível que nenhum brasileiro tenha jogado melhor pelo país que você em todos os campos", afirma o prefaciador Mauro Beting.  Sócrates jogava tão bem, senão melhor, fora dos campos, quanto dentro deles.
Pelo país, ninguém jogou melhor do que Sócrates. A democracia era uma obstinação.

A vida deste grande cidadão foi marcada, acima de tudo, pelo inconformismo e pela indignação, sentimentos que o levaram à ação. Sócrates nunca foi um cidadão passivo, pois senão, não seria um cidadão. Sempre foi linha de frente, sempre foi vanguarda. Sempre marcou muitos gols e que golaços! A sua vida é mostrada em 23 capítulos, começando pelo seu pai, um cearense pobre mas obstinado pela educação, sempre um autodidata, pois as portas da escola estavam fechadas para meninos pobres. Estudava para concursos públicos. Era metido a estudar filosofia. O seu dito filosófico preferido não era de Sócrates, mas sim, de Immanuel Kant: "O homem não é nada além daquilo que a educação  faz dele". Por sorte, Sócrates não foi batizado com o nome de Immanuel e muito menos pautou a sua vida pelas linhas retas do racionalismo.
Tom Cardoso escolheu bem. Biografar Sócrates deve ter sido um grande ato de prazer.


A primeira exigência de seu Raimundo para com os filhos era o estudo. Sócrates deveria se formar em medicina. Depois poderia ser jogador. Só admitia treinos após as aulas, na Faculdade de Medicina da USP, no campus de Ribeirão Preto, cidade em que moravam, já fazia um bom tempo. Sócrates nascera em Belém. Os concursos públicos foram melhorando a vida de seu Raimundo. Sempre foi um pai muito exigente.

A trajetória profissional de Sócrates começou em um dos times de sua cidade, o Botafogo. Depois veio o Corinthians, o time que o marcou. "Doutor, eu não me engano - meu coração é corintiano", cantava a torcida do timão. Sócrates era santista de coração, do Santos da era Pelé, de quem seria um grande desafeto, posteriormente. A vida de Sócrates se identifica com o Corinthians, onde, no entanto, não era nenhuma unanimidade. Era um jogador frio, avesso à preparação física, às concentrações e ao disciplinamento burocrático do futebol de resultados. O seu futebol era o futebol arte, que sempre aparecia, quando estava de bem com a vida. Quando ele efetivamente estava de bem com a vida, livre de obrigações e do enfadonho do cotidiano, os resultados apareciam. Sócrates, como atleta aplicado e disciplinado, nunca foi exemplo para ninguém. A sua insubmissão era o terror dos técnicos. Com o futebol arte de Telê Santana ele se dava bem.
A anti imagem do atleta. 1,91 metros de altura e pés tamanho 41. Teria que ser artista. E como foi!


Um dos capítulos mais bonitos de sua vida é a sua relação com a democracia, pela qual ele lutava em duas frentes, na democracia corintiana e pela democracia brasileira. Batia de frente com técnicos e diretorias e com os militares. O quarteto da democracia corintiana era formada pelo dirigente Adilson Monteiro Alves e pelos jogadores Sócrates, Wladimir e Casagrande. A relação com a torcida nunca foi das melhores. Queriam um jogador mais impulsivo, que comemorasse os gols com paixão, um jogador raçudo. Para isso o atleta não tinha preparo físico. A sua contribuição era o talento, o imprevisível, os desconcertantes toques de calcanhar. Gostava de jogar nas faixas do campo onde havia sombra.
Com Casagrande, parceiros da democracia corintiana. Depois Casagrande foi enquadrado pela Globo.


Uma passagem interessante foi a sua ida à Itália, para a cidade de Florença. Aí o seu embate foi com a nobreza italiana e com os colegas do time, que literalmente o boicotavam. Em meio a memoráveis festas e porres vivia o seu inferno de Dante, para desespero dos condes da família Pontello, diante do fiasco de sua contratação.

Um capítulo dos mais bonitos é o que narra os episódios da seleção Brasileira de 1982, a seleção de Telê Santana, do futebol arte. Foi a única vez em que Sócrates abriu mão de seus prazeres e se submeteu ao rigor dos treinamentos. Chegou a dar verdadeiros piques em campo. O autor da façanha foi Gilberto Tim, mas o inspirador fora Telê Santana, com quem tinha uma relação de profundo carinho e respeito. O atleta foi domado pela amizade, carinho, respeito e reciprocidade, jamais pela imposição disciplinadora. A rebeldia sempre fora a sua grande marca.
Cena rara. Sócrates gastando energias na comemoração de um gol.


Na sua volta da Itália peregrinou pelo futebol. Uma tentativa fracassada de retorno para a Ponte Preta, formar dupla com Zico no Flamengo e até uma passagem pelo time de seu coração, o time da vila. O livro passa também pelos seus desafetos. Os jogadores individualistas e personalistas como Leão e Paulo César Caju, especialmente. Muitas relações de bastidores do futebol também são relatadas. Sócrates inclusive chegou a se candidatar a presidente da CBF., ou a se anti candidatar. Enveredou também pelos caminhos do jornalismo, sempre batendo de frente com o enquadramento das emissoras e não se conformando com o longo tempo de Casagrande na Globo. Também enveredou pelos campos da medicina e da política.

Se seu Raimundo controlava de perto a vida do filho, ao menos em uma coisa não conseguiu controlá-lo. Na bebida. Sócrates bebia poucas bebidas, apenas cerveja e vinho, mas estas, ele bebia em doses industriais. Bebia sempre e em todas as ocasiões. Parecia não sentir a bebida. De todos os companheiros de copo era o mais resistente. Enquanto estes perdiam compromissos em função da ressaca, ele permanecia impassível, esperando pelo próximo porre. Parecia o Sócrates filósofo, saindo de O Banquete, de Platão. Nunca admitiu ser alcoólatra. Não parou de beber, nem mesmo quando já diagnosticado de cirrose hepática e de sofrer hemorragias, que o levaram a internamentos e à morte. Chegou a tentar tomar cerveja sem álcool, mas a considerava intragável.
Sócrates com o amigo Lula. Em seus delírios de morte ainda lhe fazia cobranças.


O cineasta Ugo Georgetti encontrou uma explicação para a relação entre Sócrates e a bebida: "Sócrates simplesmente deixara de lutar e iniciara um processo autodestrutivo sem volta, motivado pela constatação de que o mundo não tinha espaço mais para sujeitos como ele, idealistas e sonhadores". A bebida lhe serviu de mediação para suportar as dores do mundo, que ele tão vivamente percebia e contra as quais levou uma vida inteira de rebeldia. Sócrates morria num domingo, 4 de dezembro de 2011, enquanto o Corinthians entrava em campo para ser o campeão brasileiro daquele ano.

Na sede do Corinthians existe um busto em sua homenagem. Pouco antes de morrer, no Bar da Torre, em Ribeirão Preto, ele, em mais uma saideira brindou o seu epitáfio: Se tivesse me dedicado mais, não seria uma pessoa tão completa como sou agora. Definitivamente, a arte nunca anda por linhas retas.
Com seu Raimundo, um pai atento e vigilante.


Sócrates foi um homem de muitos chopes, de muitos vinhos, de muitas e belas mulheres e acima de tudo, de muitos gols. Foram 331, cujo histórico compõe o apêndice do livro. Também tem um álbum de fotografias. Me encantei com o livro. Bela sugestão para presentar amigos, especialmente se forem corintianos.